A minha Lista de blogues

domingo, 6 de março de 2011

Parabéns GABO

Gabriel Garcia Marques é o autor de 2 livros simplesmente fabulosos: “Cem Anos de Solidão” e “Amor em tempos de cólera”, que eu, embora já tardiamente, li de supetão. Depois disso, li quase tudo da sua obra. Deixei, para o fim, VIVER PARA CONTÁ-LA, para eu ler se ele morrer antes de mim. Há cerca de 3 anos, recebi, pela primeira vez, o mail que corre na NET em que ele se despede dos amigos, após saber que se encontra gravemente doente. É um texto verdadeiramente comovente. Para felicidade de todos, ele continua entre nós.
Hoje, ele celebra o seu 84º Aniversário. Parabéns, GABO!
Nas sua obras, ele descreve-nos um mundo mítico e fantástico. Escreve no limite, no impossível.
Há algum tempo li, numa entrevista sua, em que confessa ter começado a escrever assim influenciado pela primeira frase com que Franz Kafka inicia o livro A Metamorfose:
«Certa manhã, ao acordar de sonhos inquietos, Gregor Samsa viu-se transformado num gigantesco insecto monstruoso».
Não era para menos!.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Pedro e Inês

Eugénio de Castro nasceu em Coimbra, em 4 de Março de 1969, e foi um poeta português, a quem não tem sido dado o devido valor.
Em 1900 foi publicada CONSTANÇA, «a sua obra mais profundamente portuguesa, aquela em que a sua alma mais conseguiu vibrar em uníssono com a alma do seu povo»,  no dizer de Miguel Unamumo.
Constança foi a esposa do infante D.Pedro, o da desafortunada Inês de Castro, cujos trágicos amores Camões imortalizou.
Esta é a tragédia íntima e silenciosa da pobre esposa que vê como a sua mais fraternal amiga lhe rouba o coração do seu Pedro.
Ainda nas palavras de Miguel Unamuno, a figura de Constança parece um símbolo do próprio Portugal, deste desgraçado Portugal que desde Alcácer-Quibir vive submergido em sonhos de grandezas passadas.
Sem ser de propósito, a Companhia de Teatro O Bando estreia, hoje, a peça Pedro e Inês, peça escrita por Miguel Jesus e encenada por Anatoly Proudin, na qual são são revisitados os amores de Pedro e Inês. Depois dos espectáculos de hoje e amanhã em Guimarães, o Bando fará um périplo por várias cidades do país até chegar ao palco do Centro Cultural de Belém, a 9 de Junho.
Mas parece que, inexplicavelmente, pelo menos para mim, a figura de Constança, a mulher do infante D.Pedro, não entra nesta história. Será possível?

quinta-feira, 3 de março de 2011

Um português na China

O jornal Correio da Manhã noticia, hoje, que a PJ do Porto deteve um cidadão chinês, indiciado por três crimes de tentativa de homicídio.
A comunidade chinesa em Portugal é considerada, em geral, discreta, trabalhadora e pacífica.
Aquele cidadão chinês deve ser, portanto, uma excepção. Se tivesse sido preso na China, iria passar, certamente, um mau bocado.
Aliás, o sistema judicial chinês é conhecido pela sua extrema severidade. E esta severidade não é só de hoje.
Já o nosso Fernão Mendes Pinto, quando chegou à cidade de Pequim, em Outubro de 1541, se espantou com a ordem em que aquele povo vivia:
«Assim que ninguém sai do limite e da ordem que lhe é posta pelos conchalis do governo, que são como almotacéis, sob pena de serem logo por isso gravemente punidos, porque é nesta terra o rei tão venerado e a justiça tão temida, que não há pessoa nenhuma, por grande que seja, que ouse a boquejar nem levantar os olhos para nenhum ministro da justiça, inda que seja upo de açoute, que são como algoses ou beleguins entre nós». (Peregrinação, pág.279, Edição Europa-América)

terça-feira, 1 de março de 2011

Camilo Pessanha

Interrogação

Não sei se isto é amor. Procuro o teu olhar,
Se alguma dor me fere, em busca de um abrigo;
E apesar disso, crê! nunca pensei num lar
Onde fosses feliz, e eu feliz contigo.

Por ti nunca chorei nenhum ideal desfeito.
E nunca te escrevi nenhuns versos românticos.
Nem depois de acordar te procurei no leito
Como a esposa sensual do Cântico dos Cânticos.

Se é amar-te não sei. Não sei se te idealizo
A tua cor sadia, o teu sorriso terno...
Mas sinto-me sorrir de ver esse sorriso
Que me penetra bem, como este sol de Inverno.

Passo contigo a tarde e sempre sem receio
Da luz crepuscular, que enerva, que provoca.
Eu não demoro o olhar na curva do teu seio
Nem me lembrei jamais de te beijar na boca.

Eu não sei se é amor. Será talvez começo...
Eu não sei que mudança a minha alma pressente...
Amor não sei se o é, mas sei que te estremeço,
Que adoecia talvez de te saber doente.

Camilo Pessanha

Já passaram 15 anos...

A vida é tão prodigiosa! Mas desse imenso prodígio como é ínfimo o que aproveitamos para ser o pleno de nós que entregaremos à morte.
(Vergílio Ferreira, in Escrever)

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Os "falsos" da NET

A NET está, desgraçadamente, infestada de “falsos” e, não obstante todos os cuidados, ainda caímos no engano. Foi o que me aconteceu, recentemente, ao encaminhar um vídeo com um poema com o título METADE, “da autoria do poeta Ferreira Gullar”, na voz de Oswaldo Montenegro.
Bem, vou ter que apresentar o meu pedido de desculpas a quem enviei tal vídeo, pois estamos perante mais um “falso”.
O poema METADE é da autoria de Oswaldo Montenegro, que o lançou em 1975, no libreto da peça teatral João Sem Nome.
Ferreira Gullar é o autor do poema TRADUZIR-SE, publicado no livro Vertigens do Dia, publicado em 1980.
As duas obras são completamente distintas, embora abordem, ambas, a dualidade humana.
Estes “falsos” são uma praga difícil de exorcizar, porque serão sempre mais os divulgadores do dolo dos que os combatem. Ao Fernando Pessoa são atribuídos poemas de arrepiar. Portanto, importa estar atento: se receberem o tal vídeo, que circula aí pela NET, não é verdade que o poema METADE seja, como lá se diz, da autoria de Ferreira Gullar.
Deixo aqui, para que conste, o poema TRADUZIR-SE do poeta brasileiro Ferreira Gullar, que foi contemplado com o prémio Camões, em 2010:

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
_ que é uma questão
de vida ou morte _
será arte?


Ferreira Gullar, in Vertigens do Dia, 1980

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Cesário Verde (2)

Cesário, uns meses antes de morrer, foi para Caneças, a dois passos de Lisboa, onde podia desfrutar de um clima seco. Cesário tem apenas 31 anos, mas já perdeu as ilusões:
- Curo-me? Sim, talvez. Mas como ficou eu? Um cangalho, um canastrão, um grande cesto roto, entra-me a chuva, entra-me o vento no corpo escangalhado...Mas o melhor será ouvir Mário Viegas ler a carta que Cesário escreveu ao Conde de Monsaraz:

Se queres ter um amigo...

Livro de Eclesiástico 6,5-17.

Palavras amáveis multiplicam os amigos, a linguagem afável atrai muitas respostas agradáveis. Procura estar de bem com muitos, mas escolhe para conselheiro um entre mil. Se queres ter um amigo, põe-no primeiro à prova, não confies nele muito depressa. Com efeito, há amigos de ocasião, que não são fiéis no dia da tribulação. Há amigo que se torna inimigo, que desvendará as tuas fraquezas, para tua vergonha. Há amigo que só o é para a mesa, e que deixará de o ser no dia da desgraça; na tua prosperidade mostra-se igual a ti, dirigindo-se com à vontade aos teus servos; mas, se te colhe o infortúnio, volta-se contra ti, e oculta-se da tua presença. Afasta-te daqueles que são teus inimigos, e está alerta com os teus amigos. Um amigo fiel é uma poderosa protecção; quem o encontrou, descobriu um tesouro. Nada se pode comparar a um amigo fiel, e nada se iguala ao seu valor. Um amigo fiel é um bálsamo de vida; os que temem o Senhor acharão tal amigo. O que teme o Senhor terá também boas amizades, porque o seu amigo será semelhante a ele.

Cesário Verde (1)




Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.





Assim começa O Sentimento dum Ocidental (Avé-Marias), poema de Cesário Verde, publicado no Jornal de Viagens do Porto, em 1880, nas comemorações do tricentenário da morte de Camões. Andavam, porém, todos muito distraídos, pois ninguém lhe deu o devido valor. Só anos mais tarde, muitos, Fernando Pessoa, primeira vez, através do seu heterónimo Álvaro de Campos, bradou bem forte:
- Ó Cesário Verde, ó Mestre!
E, depois, através de Alberto Caeiro:
“Leio até me arderem os olhos / O Livro de Cesário Verde”.
Faz hoje 156 que nasceu Cesário Verde, vindo a falecer, em 1886, quando contava 31 anos de idade, tuberculoso. Participou, em 1881, nas reunião do chamado Grupo do Leão (referência ao restaurante “Leão de Ouro”), com outros literatos: Abel Botelho, Fialho de Almeida, entre outros. Também participaram nessa tertúlia pintores da época, como José Malhoa, Alberto de Oliveira e os irmãos Columbano e Rafael Bordalo Pinheiro. O “Grupo do Leão” foi imortalizado em 1885 num conhecido quadro a óleo sobre tela da autoria do Columbano. Cesário Verde, tal como Fialho de Almeida, foram esquecidos pelo pintor. Esquecimento? Talvez não...
Não faz mal, porque, dessa tertúlia, será Cesário, um não pintor, que antecipará a chegada do impressionismo a Portugal. O seu poema De Tarde é como uma tela de Renoir ou, quiçá, a representação do “Almoço na Relva” de Manet:

Naquele pic-nic de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampamos, inda o Sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão-de-ló molhado em malvasia

Mas, todo púrpuro a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto
da merenda
O ramalhete rubro das papoulas!

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

O povo é quem mais ordena



Faz hoje 24 anos que morreu Zeca Afonso, quando contava 57 anos. Deixou-nos, entre outras coisas bonitas, esta porta para ABRIL.

Grândola, vila morena
Terra da fraternidade
O povo é quem mais ordena
Dentro de ti, ó cidade

Dentro de ti, ó cidade
O povo é quem mais ordena
Terra da fraternidade
Grândola, vila morena

Em cada esquina um amigo
Em cada rosto igualdade
Grândola, vila morena
Terra da fraternidade

Terra da fraternidade
Grândola, vila morena
Em cada rosto igualdade
O povo é quem mais ordena

À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade
Jurei ter por companheira
Grândola a tua vontade.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Jogo da Cabra Cega, de José Régio

José Régio escreveu o romance Jogo da Cabra Cega, em 1934, ainda no início da sua carreira literária. Ele próprio disse, mais tarde, em 1967, em carta dirigida a uma amiga: «É um livro de abandono e excesso, em que o escritor estava ainda muito adolescente. Não pense que o desestimo, gosto muito de o ter escrito com aquela coragem quase inconsciente...». Por isso, a crítica literária refere que estamos perante um Romance de Formação. Refere, ainda essa crítica literária, que se trata de um Romance Psicológico, por apresentar as seguintes características: (i) a acção não avança por efeitos externos; (ii) recorre abundantemente à memória; (iii) é patente a influência de Freud (embora Régio diga que, à data, ainda não conhecia Freud - estamos perante uma pré-experiência?). O resultado é, como o próprio Régio reconhece, «um romance com uma intensidade quase frenética e quase desarrumada». É ainda Régio que aceita como boa a influência que Dostoievski exerceu sobre a sua escrita, «À parte o ele ser um génio de primeira grandeza, com ele reconhecia profundas afinidades: sobretudo no seu turvo e fascinante misticismo, e no seu sublime debate entre o Bem e o Mal na alma do homem». Aliás, Régio reflectiu sempre, como sabemos, ao longo da sua obra, problemas relativos ao conflito entre o Bem e o Mal, o individuo e a sociedade, Deus e o Diabo.  «Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém./ Todos tiveram pai, todos tiveram mãe; / Mas eu, que nunca principio nem acabo,/ Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo». Escreveu Régio escreveu, de forma sublime, em Cântico Negro.
David Mourão Ferreira diz que «Régio recorre a Deus quando “incompreendido e escorraçado”. Recorre, portanto, por orgulho – e, sendo como é o orgulho uma característica eminentemente diabólica, Régio dialoga com Deus através de Lúcifer. Esta será, talvez, uma das maiores originalidades da sua poesia, a mais frequente e a mais fecunda.»
Sem dúvida, um livro importante que marca o início da 2ª fase do Modernismo (dando continuidade ao género literário iniciado com Pessoa e Mário de Sá-Carneiro), ousando, aliás, contrariar os tempos emergentes do neo-realismo.
Jogo da Cabra Cega é um livro autobiográfico?. Tratando-se de uma ficção, será que, mesmo assim, é um livro autobiográfico? Há quem defenda que sim, dizendo que a ficção nunca mente: revela o escritor na sua totalidade.
Em o Jogo da Cabra Cega encontramos um Eu que procura identificar-se com outro Eu. Aqui encontramos semelhanças óbvias com a Confissão de Lúcio, de Mário de Sá-Carneiro, de quem Régio era admirador confesso. Lá, como Ricardo e Lúcio eram o espelho um do outro, aqui, o autor conduz-nos, igualmente, para essa relação de amor/ódio (confusão/fragmentação) entre as duas personagens principais da narrativa: Pedro Serra e Jaime Franco.
Estamos assim perante uma perfeita fragmentação do sujeito, um sujeito, no fundo, estilhaçado. Esta ideia está bem expressa no poema A Jaula e as Feras, «-Meu corpo, ó meu hospício de alienados! / Abre-te aos meus desejos enjaulados, / Deixa-os despedaçar a minha vida!».
O jogo da cabra cega é, como se sabe, um jogo em que a gente procura agarrar alguém, e reconhecê-lo, com os braços estendidos e os olhos vendados. Pedro Serra, alter-ego de Régio, percorre, às palpadelas, o labirinto da sua mente imaginária, qual hospício de alienados!.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Namoro

Viriato da Cruz, poeta angolano, foi considerado um dos mais importantes impulsionadores de uma poesia regionalista angolana, nas décadas de 40 e 50, e um dos lideres da luta pela libertação de Angola.
Na década de 60 tornou-se Secretário-Geral do MPLA – Movimento Popular de Libertação de Angola, partido esse que ajudou a fundar, juntamente com Mário Pinto de Andrade. Mais tarde, dissabores com Agostinho Neto irão obrigá-lo a abandonar o partido; Neto defendia um comunismo soviético e, Viriato, um comunismo maoísta.
Vai para Pequim em 1966, isto é, no início da "revolução cultural". Mais tarde, cai em divergências com os dirigentes chineses, os quais, contrariando a sua vontade, não o deixaram sair do país. Morre em 1973, tendo sido humilhante a forma como foi sepultado no cemitério dos estrangeiros.
Viriato da Cruz deixou-nos um dos poemas mais bonitos acerca dos namorados. O poema chama-se NAMORO e conta uma linda história de amor. Fausto fez a música que todos conhecem, mas, hoje, o que conta é o poema:

Mandei-lhe uma carta em papel perfumado
e com letra bonita eu disse ela tinha
um sorrir luminoso tão quente e gaiato
como o sol de Novembro brincando
de artista nas acácias floridas
espalhando diamantes na fímbria do mar
e dando calor ao sumo das mangas

Sua pele macia - era sumaúma...
Sua pele macia, da cor do jambo, cheirando a rosas
sua pele macia guardava as doçuras do corpo rijo
tão rijo e tão doce - como o maboque...
Seus seios, laranjas - laranjas do Loje
seus dentes... - marfim...
Mandei-lhe essa carta
e ela disse que não.

Mandei-lhe um cartão
que o amigo Maninho tipografou:
"Por ti sofre o meu coração"
Num canto - SIM, noutro canto - NÃO
E ela o canto do NÃO dobrou

Mandei-lhe um recado pela Zefa do Sete
pedindo, rogando de joelhos no chão
pela Senhora do Cabo, pela Santa Ifigenia,
me desse a ventura do seu namoro...
E ela disse que não.

Levei á Avo Chica, quimbanda de fama
a areia da marca que o seu pé deixou
para que fizesse um feitiço forte e seguro
que nela nascesse um amor como o meu...
E o feitiço falhou.

Esperei-a de tarde, á porta da fabrica,
ofertei-lhe um colar e um anel e um broche,
paguei-lhe doces na calçada da Missão,
ficamos num banco do largo da Estátua,
afaguei-lhe as mãos...
falei-lhe de amor... e ela disse que não.

Andei barbudo, sujo e descalço,
como um mona-ngamba.
Procuraram por mim
"-Não viu...(ai, não viu...?) não viu Benjamim?"
E perdido me deram no morro da Samba.

Para me distrair
levaram-me ao baile do Sô Januario
mas ela lá estava num canto a rir
contando o meu caso
as moças mais lindas do Bairro Operário.

Tocaram uma rumba - dancei com ela
e num passo maluco voamos na sala
qual uma estrela riscando o céu!
E a malta gritou: "Aí Benjamim !"
Olhei-a nos olhos - sorriu para mim
pedi-lhe um beijo - e ela disse que sim


Viriato da Cruz

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Um momento histórico?

Ontem, à noite, assisti na SICNotícias a um Momento Histórico, para um dia recordar... Com muita pena, só assisti à parte final. Falava então o bloquista Daniel Oliveira e que dizia ele?. Pois que a Direcção do BE, ao anunciar ir apresentar no Parlamento uma moção de censura ao Governo, demonstrava encontrar-se num momento de grande perturbação! Momento Histórico! Gritou logo o seu antagonista de debate, Luís Delgado, perante a estupefacção da moderadora, Ana Lourenço. E eu concordo. Corri para o Arrastão, na procura de mais pormenores. Ainda não há nada. Temos de aguardar. Para já, pelo Eixo do Mal, logo à noite.
Era bom, para mim, ver o Daniel Oliveira, a quem reconheço inteligência, desmarcar-se dos bloquistas (o que não será fácil). Depois do que está a acontecer, o Bloco só merece desprezo.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Sebastião da Gama (quando eu morri...)

Passam, hoje, 59 anos sobre a morte de Sebastião da Gama, o poeta da Arrábida. Faleceu no Hospital de S. Luís, em Lisboa, no dia 7 de Fevereiro de 1952, pelas 8h30 da manhã.
A tuberculose, de que padecia desde a sua junventude, vencera-o, pondo fim a um percurso de 27 anos, cheio de escrita e de leitura.
Bem, por mim, gostaria só de corrigir a hora oficial da sua morte. O poeta morreu, não às 8h30, mas sim pelas 9h15. É ele que o diz no:

Poema da minha esperança

Que bom ter o relógio adiantado!...
A gente assim, por saber
que tem sempre tempo a mais,
não se rala nem se apressa.

O meu sorriso de troça,
Amigos!,
quando vejo o meu relógio
com três quartos de hora a mais!...

Tic-tac... Tic-tac...
(Lá pensa ele
que é já o fim dos meus dias.)

Tic-tac...
(Como eu rio, cá p'ra dentro,
de esta coisa divertida:
ele a julgar que é já o resto
e eu a saber que tenho sempre mais
três quartos de hora de vida.)
Sebastião da Gama, in Serra-Mãe

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Almeida Garrett

Comemora-se, hoje, mais um aniversário de Almeida Garrett. Nasceu no Porto, no dia 4 de Fevereiro de 1799. Porto, Cidade de Garrett, no dizer do poeta Eugénio de Andrade.
Garrett que ousou escreveu, para nosso espanto:
«E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico?» Almeida Garrett, in As Viagens na Minha Terra, pág. 51.
Por mim, não encontro melhor maneira de o felicitar senão destacar aqui o seu poema intitulado A UM AMIGO, no qual ele, justamente, felicita um seu amigo por ocasião de mais um aniversário.
A um Amigo
Fiel ao costume antigo,
Trago ao meu jovem amigo
Versos próprios deste dia.
E que de os ver tão singelos,
Tão simples como eu, não ria:
Qualquer os fará mais belos,
Ninguém tão d’alma os faria.

Que sobre a flor de seus anos
Soprem tarde os desenganos;
Que em torno os bafeje amor,
Amor da esposa querida,
Prolongando a doce vida
Fruto que suceda à flor.

Recebe este voto, amigo,
Que eu, fiel ao uso antigo,
Quis trazer-te neste dia
Em poucos versos singelos.
Qualquer os fará mais belos,
Ninguém tão d’alma os faria.

Almeida Garrett, in 'Folhas Caídas

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

O Quarto do Filho

Ontem, à noite, tive a oportunidade de rever “O Quarto do Filho”, um filme de Nanni Moretti. Impressionante. Retrato implacável. Olhei mais para a figura do pai (desempenhada pelo próprio realizador). Uma dedicação (se calhar excessiva) ao trabalho. O dia fatídico. O acidente. A dor. A revolta. A culpa. A desorganização da família. A discussão entre o casal. A mulher que acha que o marido não quer falar do assunto e quer, ao mesmo tempo, impedir que ela fale sobre o mesmo. O nervosismo que se instala em cada um (a cena da filha que, por nada, discute com o árbitro num jogo de basquetebol). A não aceitação de ajuda de terceiros, mesmo a do padre da missa do sétimo dia. “Mas que frase aquela, sem sentido!” - diz ele. “Não sabemos a que horas vem o ladrão, se soubéssemos, trancávamos todas as portas” - dissera o padre, citando o Evangelho: “Há que aceitar os desígnios de Deus, com fé" - dissera o padre ainda. Mas, o pai não aceita. É uma revolta muito grande. Por fim, uma carta redentora. Todos agarram aquela oportunidade com força. Para tanto, a família viaja de carro, toda da noite, para ajudar a ex-namorada do filho. No carro todos dormem, à excepção do casal. Diz ele: “Mantemo-nos acordados um ao outro”. E eu? E nós? Será que, um dia, vamos receber a tal carta redentora?.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

A Confissão de Lúcio, de Mário de Sá-Carneiro (2)

Volto aqui à Confissão de Lúcio, de Mário de Sá-Carneiro, após ter participado, no dia 19 deste mês, no Grupo de Leituras sobre Narrativa Portuguesa, que teve lugar na Fundação das Casas de Fronteira e Alorna. A palestrante foi a Profª. Maria Helena Santana e teve a presença da Profª. Maria Alzira Seixo, como convidada especial.
Do que li e do que ouvi, deixo aqui, por isso, mais uns tantos comentários.
A questão principal parece, pois, ser a seguinte: De quem é a confissão desta narrativa? De Lúcio? De Ricardo? Do próprio Mário de Sá-Carneiro?
O argumento da narrativa, recorrendo curiosamente ao formato de um romance policial, é muito simples: Após 10 anos de prisão, Lúcio decide dar uma confissão sincera que explica todas as circunstâncias do assassinato envolvido em mistério e demonstrar a sua inocência.
As personagens principais da narrativa são três. Lúcio, Ricardo e Marta. E o enredo é também incrivelmente (ou só aparentemente) simples:
1- Lúcio vai para Paris estudar Direito, ou melhor, não estudar...Aí conhece Ricardo Loureiro, por quem logo experimentou uma viva simpatia. Os dois participam numa espectáculo assombroso, oferecido pela amiga americana. A “Orgia do Fogo” foi assim um espectáculo de luzes, corpos, aromas, fogo e água!. Mas, para Lúcio, a lembrança deste fabuloso espectáculo ficou gravada na sua lembrança, não por a ter vivido, mas sim porque, dessa noite, nasceu a sua amizade por Ricardo!. Esse encontro marcou o princípio da sua vida!.
2-  Esse relacionamento intensifica-se e Ricardo revela-se: «Diga-me, Lúcio, você não é sujeito a certos medos inexplicáveis, destrambelhados?» Ricardo diz ainda: «a minha alma não se angustia apenas, a minha alma sangra»...«Sim, a minha pobre alma anda morta de sono, e não deixam dormir - tem frio e não a sei aquecer! Endurece-se-me toda, toda!»...«Até que um dia (oh! É fatal) ela se me partirá, voará em estilhaços... a minha pobre alma! A minha pobre alma!»
3- Ricardo encheu-se coragem para confessar: «É isto só: não posso ser amigo de ninguém...não proteste..eu não sou seu amigo. Nunca soube ter afectos (já lhe contei), apenas ternuras. A amizade máxima, para mim, traduzir-se-ia unicamente pela maior ternura. E uma ternura traz sempre consigo um desejo caricioso: um desejo de beijar...de estreitar...Enfim: de possuir!»
Atente-se como M.S.C. condensou toda a narrativa nesta quadra do poema:
"Não sou amigo de ninguém. Pra o ser
Forçoso me era antes possuir
Quem eu estimasse --- ou homem ou mulher,
E eu não logro nunca possuir!"
4- Entretanto, Ricardo regressou a Portugal, a Lisboa. Lúcio regressa também a Lisboa, decorrido um ano. No regresso, Ricardo apresenta a Lúcio a sua mulher-Marta - com quem havia casado. «Era uma linda mulher loira, muito loira, alta escultural – e a carne mordorada, dura, fugitiva». Mulher fatal e inatingível!».
5- A personagem misteriosa de Marta é um símbolo da ligação do corpo de Lúcio com a alma de Ricardo. Lúcio aproxima-se de Marta, fascinado pelo mistério que a envolve. Mas o que o impelia para aquela mulher, não era a sua alma, não era a sua beleza – era só o seu mistério. Derrubado o segredo, esvair-se-ia o encantamento e ele poderia caminhar bem seguro. «Por fim os nossos corpos embaralharam-se, oscilaram perdidos numa ânsia ruiva...»...«... e em verdade não fui eu que a possuí – ela, toda nua, ela sim, é que me possuiu...».
6- Entretanto, a ligação entre Lúcio e Marta foi prosseguindo, sem uma sombra. Marta, de resto, encarava o seu relacionamento com Lúcio sem qualquer prudência. Até que, um dia, Marta exigiu, na presença de Ricardo, que Lúcio a beijasse. O que Lúcio fez desajeitamente. Marta exigiu então a Ricardo que o ensinasse. Surpresa. «Rindo, o meu amigo ergueu-se, avançou para mim...tomou-me o rosto...beijou-me...»!... «O beijo de Ricardo fora igual, exactamente igual, tivera a mesma cor, a mesma perturbação que os beijos da minha amante. Eu sentira-o da mesma maneira!». Rematou assim Lúcio.
7- Porém, com o decorrer do tempo, Lúcio começa a observar uma certa mudança na atitude de Marta. Será que ela tem outro amante?. Decide espioná-la. E é verdade. Marta é também amante do russo Sérgio. E será que tem mais amantes? E Ricardo sabe dos amantes de Marta? Adensa-se o Mistério de Marta!
8- Desiludido, Lúcio parte para Paris. «De novo, ungindo-me de Europa, alastrando-me da sua vibração, se encapelava dentro de mim Paris – o meu Paris, o Paris dos meus vinte e três anos...».
9- Em Paris, Lúcio tem conhecimento da publicação do livro DIADEMA, de que é autor Ricardo, obra essa que veio revelar ao mundo uma literatura nova...
10- Cresce em Lúcio, entretanto, algo de muito bizarro: no asco, no ódio que sentia por Ricardo, «misturava-se como que um vago despeito, um ciúme, um verdadeiro ciúme dele próprio»...«num relâmpago me voou pelo cérebro a ideia rubra de o assassinar – para satisfazer a minha inveja, o meu ciúme: para me vingar dele!».
11- Desde que chegara a Paris, Lúcio não avançou uma linha do drama que vinha escrevendo, «já nem sequer me lembrava de que era um escritor...» Entretanto, Lúcio escreve o último acto d`A Chama e parte com ele, de volta, para Lisboa.
12- Por mero acaso, Lúcio encontra Ricardo, deixando-o, num primeiro momento, sem reacção. Ricardo confessa-se: «Esqueceste-o?...Eu não podia ser amigo de ninguém...não podia experimentar afectos...Tudo em mim ecoava em ternuras...» e continuou «Dedicavas-me um grande afecto; eu queria vibrar esse teu afecto – isto é: retribuir-to; e era-me impossível!... Só se te beijasse, se te enlaçasse, se te possuísse...Ah! mas como possuir uma criatura do nosso sexo?». Como fazer? «retribuir-to: mandei-A ser tua! Mas estreitando-te ela, era eu próprio quem te estreitava...Satisfiz a minha ternura». Atónito, Lúcio ouvia o poeta como que hipnotizado. Por fim, Ricardo agarrou, violentamente, Lúcio por um braço...e obrigou-o a correr com ele... até casa.
13- Aproxima-se o desenlace final. «Chegou a hora de dissipar fantasmas... Ela é só tua..hás-de-me acreditar». Gritou Ricardo em delírio, puxando Lúcio para os aposentos da esposa. Marta folheava um livro junto à janela. Mal teve tempo de se voltar. Ricardo puxou de um revólver e desfechou-o à queima-roupa...Marta tombou inanimada no solo...«E então foi o Mistério...o Mistério fantástico da minha vida...» Espanta-se Lúcio: «Ó assombro! Ó quebranto!. Quem jazia estiraçado junto da janela não era Marta – não!-, era o meu amigo, era Ricardo... E aos meus pés-sim, aos meus pés! – caíra o seu revólver ainda fumegante!...» ...«Marta, essa desaparecera, evolara-se em silêncio, como se extingue uma chama...»
14- Por fim, diz Lúcio, achou-se preso num calabouço do Governo Civil, guardado à vista por uma sentinela...
15- Cumpridos os 10 anos de prisão, não resta a Lúcio que não seja dar a sua versão dos factos e explicar (será que alguma vez ele será capaz de explicar o que é inexplicável?) todas as circunstâncias do assassinato envolvido em mistério.

Saído do cárcere, Lúcio retirou-se para uma vivenda rural, isolada, perdida, sem desejos, sem esperanças, sem preocupações quanto ao futuro. Antes da morte real, o autor apenas quis escrever a sua estranha aventura. Ela prova, diz ele, como factos que se nos afiguram bem claros são muitas vezes os mais emaranhados; ela prova como um inocente, muita vez, se não pode justificar, porque a sua justificação é inverosímil - embora verdadeira.
Como o próprio diz a final, sobre tudo pairou um vago ar de mistério. Marta foi procurada pela polícia, mas em vão ( será que poderia haver outro resultado?).
Comentários finais
Parece que M. Sá-Carneiro mistura muito do que era a sua história com muito do que seria o seu futuro. Sem o saber? Será assim?. Este livro foi considerado por José Régio uma obra-prima, onde estão presentes três das suas obsessões: o suicídio, o amor e o anormal avançando até à loucura.
Nesta obra desfilam temas como o suícidio, a modernidade, a ânsia de grandes cidades, o culto de Paris e da sua tradição face ao burgo português, ou, uma vez mais, a loucura (vide Loucura, de Mário de Sá-Carneiro). Não sem antes, no meio da receita, temperar tudo isto com uma descrição mordaz e deliciosa da falsidade poética, do exagero na criação de movimentos artísticos e do snobismo intelectual
Para além do mais, esta obra ganha um sabor especial por constituir uma espécie de versão portuguesa de O Retrato de Dorian Gray. Mas, ao contrário do livro do também brilhante Oscar Wilde, Sá-Carneiro troca as personagens, retira-lhes previsibilidade e aspira tudo o que está a mais no texto, deixando apenas génio, sem lacunas ou artefactos. Em comum com este tem a procura de uma nova estética e um surrealismo muito característico. Ganha Oscar Wilde em descrição da sociedade, ganha Sá-Carneiro em descrição da mente. Curioso nesta aproximação Wildesca, é o facto de, pioneiramente, Sá-Carneiro quase introduzir o tema da homossexualidade, tão presente na vida de Wilde.
Em Mário de Sá-Carneiro, as personagens das suas novelas são dispersas, enlouquecidas e quase sempre buscam uma solução para fugir aos seus problemas, ou seja, à realidade.
Tendo Fiódor Dostoiévsky como uma das suas referências, podemos ver, nesta narrativa, uma aproximação entre Lúcio e Raskólnikov, as duas personagens principais: monólogo interior a tentar explicar os motivos que levaram ao assassinato.
Podemos ainda falar, como marca de carácter do autor, do Complexo de Ícaro. «...a vida de todos os dias - é a única que eu amo. Simplesmente não a posso existir». No poema QUASE, M.S.C. recorre à história da antiga mitologia grega com os seus símbolos característicos: sol, asas e mar.

Conclusão
O desdobramento das personagens é um tema permanente das novelas e poemas de Mário de Sá-Carneiro. As marcas do desdobramento das personagens reflecte-se por exemplo no conto Eu-Próprio o Outro. O narrador transforma-se lentamente em alguém outro, por quem sentiu no inicio admiração. Ao fundirem-se as duas almas (do Eu e do Outro), o narrador deseja fugir do outro, porque assim perde a sua individualidade.
“Já não existo. Precipitei-me nele.
Confundi-me.
Deixámos de ser nós-dois. Somos um só.
Eu bem o pressentia, era fatal...
Ah! Como o odeio!
Foi-me sugando pouco a pouco.
O seu corpo era poroso. Absorveu-me. (...)”

Não é surpreendente que as novelas ilustram as próprias sensações do autor, a sua alma desdobrada, a ânsia de fugir de si mesmo e o desejo de ser o outro. Contudo, numa das cartas mandadas a Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro confessa que a duplicidade das almas não pode existir. Escreve que, no caso da compreensão total entre as duas almas, os corpos morrem e persiste só uma alma fundida.
Este pode ser o caso da Confissão de Lúcio. Os corpos de uma pessoa unida morreram (cada um do seu próprio modo: um corpo desaparece, um fica morto no chão e o terceiro e ainda vivo mas sem sensação da vida) mas a alma fundida sobreviveu.
A personagem desdobrada de uma alma não conseguiu viver no mundo real. Por causa da sua alma dispersa, as suas partes - Lúcio e Ricardo - não foram capazes de aceitar nas suas vidas a Marta, a personificação da arte. Não conseguiam viver na vida real e a convivência com Marta trouxe consigo martírios ainda mais pesados. Marta tornou-se um elemento que desdobrou ainda mais as duas partes (de Lúcio e de Ricardo) duma personagem. Por isso, a morte bizarra, com certeza significa um tipo da libertação dos martírios que já ultrapassaram as fronteiras aceitáveis.
Mas tal como a alma, também a arte não se pode matar. Assim podemos explicar o desaparecimento de Marta. Pois, Ricardo tentou matá-la, mas como a arte é imortal, Marta não morreu, somente desapareceu. Em vez de Marta, estendeu-se no chão o corpo de Ricardo e Marta, como um espírito artístico dissipa-se para encontrar outro espaço, ou seja, outro corpo em que podia dar impulsos para criatividade artística.
Também o próprio Mário de Sá-Carneiro não encontrou modo para viver a vida quotidiana, também a sua alma foi desdobrada, e ainda que quisesse, não conseguiu nem viver no mundo real nem no mundo de arte e decidiu suicidar-se da mesma forma como os protagonistas da Confissão de Lúcio. Se calhar, também a sua alma artística ficou a viver à procura doutra colocação.
A Confissão de Lúcio pode ser, portanto, percebida como a confissão do próprio autor.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Senhora Presidente ou Senhora Presidenta?

Senhora Presidente ou Senhora Presidenta? Boa questão. Pertinente como vulgo se diz.
Como é sabido, existe um permanente conflito entre a norma e o uso. A norma é a gramática, o uso é aquilo que a maioria das pessoas (provavelmente num número cada vez maior) diz no dia a dia. E o que acontece é que, ao fim de muitos anos, a norma adopta o uso. Sempre foi assim. Mas, enquanto tal não acontece, o uso viola a norma. Donde, quem não respeita a norma, comete um erro gramatical. Os Acordos Gramaticais e as Reformas da Língua, que sempre houve ao longo da nossa História, com mais de 800 anos, servem precisamente para isso.
No caso presente, o vocábulo presidenta já se encontra dicionarizado. Tenho aqui comigo o Dicionário da Língua Portuguesa 2010, da Porto Editora, e lá vem: «presidenta=mulher que preside». Tenho também aqui à mão o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, o qual, do mesmo modo, nos apresenta: «presidenta=mulher que se elege para a presidência de um país; mulher que preside...». Surpresa! Reparo agora que o "velho" Dicionário do Morais, em minha casa há mais de 30 anos, já nos apresenta: «presidenta=mulher que preside; mulher de um presidente».
Por último, fui ver o que o Prof. Lindley Cintra diz sobre esta matéria e nova surpresa. E o que diz ele?. Pois, a pág. 195 da sua Nova Gramática do Português Contemporâneo, diz assim:
«os substantivos terminados em e são geralmente uniformes. Essa igualdade formal para os dois géneros é quase absoluta nos finalizados em nte de regra originários de particípios presentes e de adjectivos uniformes latinos. Há, porém, um pequeno número que, à semelhança da substituição do o (masculino) para a (feminino), troca o e por a (ex: elefante/elefanta; governante/governanta; infante/infanta; mestre/mestra; monje/monja; parente/parenta».
Depois, diz ainda em observações: «os femininos giganta (de gigante), hóspeda (de hóspede) e presidenta (de presidente), têm ainda curso restrito no idioma». Isto disse o ilustre linguista em 1984, já há cerca de 28 anos.
Em conclusão, propendo a aceitar, como boa, a forma presidenta.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Os Bichos, de Miguel Torga

Há cerca de um mês, a RTP-2 apresentou, com toda a justiça, no programa GRANDES LIVROS, 2ª Série, o livro Bichos, de Miguel Torga, editado em 1940, reeditado, mais tarde, em traduções sucessivas para variadíssimas línguas. Animais com sentir humano ou seres humanos vestidos de animais. Homens que são bichos e bichos que são seres humanos. Nero conta-nos a última hora de um cão. Morgado é a história do burro que, após uma vida de trabalho, é abandonado pelo dono. Tenório é a história do galo que é confrontado com o seu declínio. Mago é a história do gato que se deixou domesticar pela dona. Miura é a história do touro que, já vencido, se entrega à espada. Madalena é a história de uma mulher de Trás-os-Montes que se isola para dar à luz. Estas são algumas das histórias do livro que nos fala da perda da essência humana.
O último conto do livro conta a história do Vicente. Vicente é um corvo que, inconformado, foge da Arca de Noé e que, em luta com o Criador, não se rende.
O conto baseia-se no episódio bíblico da Arca de Noé. Deus, zangado com a conduta dos homens, decide puni-los. Mas que tinham a ver os bichos com as fornicações dos homens? Vicente, incorformado, decorridos 40 dias após a entrada na Arca, resolve fugir. Abre as asas e vai «de encontro à imensidão terrível do mar».
Diz Torga que «o seu gesto foi, naquele momento, o símbolo da universal libertação».
O patriarca Noé, então com seiscentos anos de idade, é interpelado pelo Criador para prestar contas acerca da localização do seu servo Vicente. Não resta outro caminho ao patriarca senão ir procurá-lo. A Arca navega então pelos mares, «carregada de incertezas e terror. Iria Deus obrigar o corvo a regressar à barca? Iria sacrificá-lo, pura e simplesmente, para exemplo?».
À vista, as águas cobriam já toda a terra, à excepção de um pequeno penhasco. Mas, à medida que as águas cresciam, esse pequeno outeiro ia diminuindo. Restava dele apenas o topo, «sobre o qual, negro, sereno, impávido, permanecia Vicente. Escolhera a liberdade e aceitara desde esse momento todas as consequências da opção. Olhava a barca, sim, para encarar de frente a degradação».
No espírito de cada um, este dilema apenas: «ou se salva o pedestal que sustinha o Vicente, e o Senhor preservava a grandeza do instante genesíaco - a total autonomia da criatura em relação ao Criador-, ou, submerso o ponto de apoio, Vicente morria, e o seu aniquilamento invalidava essa hora suprema».
Suspense. «Três vezes uma onda alta, num arranco de fim, lambeu as garras do corvo, mas três vezes recuou. A morte temia a morte. Finalmente, o Senhor cedeu. Nada podia contra aquela vontade inabalável de ser livre!. Para salvar a sua própria obra, o Criador fechou, por fim, as comportas do céu».
É deste duelo entre Deus e um corvo, que queria alcançar a sua própria liberdade, se percebe a mensagem de os Bichos.

Miguel Torga, o subversivo


Passaram, ontem, 16 anos sobre a morte de Miguel Torga. Destaco de Orfeu Rebelde:

«Nasci subversivo.
A começar por mim - meu principal motivo
de insatisfação
».