«O poema obriga a pernoitar na solidão dos bosques, em campos nevados. Que outra verdade existe no mundo para lá daquela que não pertence a este mundo?»
José Tolentino Mendonça, in Diário de Notícias (Madeira)
segunda-feira, 21 de março de 2011
quinta-feira, 17 de março de 2011
A geração "Os vencidos da vida"
Corre, na NET, um texto do Eça de Queiróz, escrito em 1867, e publicado no jornal “O Distrito de Évora”, que permite discorrer acerca da situação actual, por se vislumbrar ali um curioso paralelismo entre os dois tempos históricos.
Hoje, está na ordem do dia a “Geração Rasca”, para uns, ou a “Geração à Rasca”, para outros.
O "Protesto da Geração à Rasca", assim intitulado, ocorrido no passado Sábado, recolheu, unanimemente, grandes elogios, tendo-lhe sido apontado, porém, um pequeno (ou grande) senão: não apresentou soluções nem compromissos.
O nosso Eça, também ele, pertenceu (foi aliás um dos grandes vultos) a uma famosa geração, a Geração de 70, a par de Antero de Quental, Oliveira Martins e outros.
Apresentaram um diagnóstico correcto da situação (vide “Causas da Decadência dos Povos Peninsulares”, de Antero de Quental, onde está lá tudo), mas acabaram por não conseguir fazer nada (muito menos executar) para modificar o país.
A “Geração de 70” acabou, como se sabe, na geração "Os Vencidos da Vida”.
E a “Geração à Rasca”?
Hoje, está na ordem do dia a “Geração Rasca”, para uns, ou a “Geração à Rasca”, para outros.
O "Protesto da Geração à Rasca", assim intitulado, ocorrido no passado Sábado, recolheu, unanimemente, grandes elogios, tendo-lhe sido apontado, porém, um pequeno (ou grande) senão: não apresentou soluções nem compromissos.
O nosso Eça, também ele, pertenceu (foi aliás um dos grandes vultos) a uma famosa geração, a Geração de 70, a par de Antero de Quental, Oliveira Martins e outros.
Apresentaram um diagnóstico correcto da situação (vide “Causas da Decadência dos Povos Peninsulares”, de Antero de Quental, onde está lá tudo), mas acabaram por não conseguir fazer nada (muito menos executar) para modificar o país.
A “Geração de 70” acabou, como se sabe, na geração "Os Vencidos da Vida”.
E a “Geração à Rasca”?
quarta-feira, 16 de março de 2011
Brincar com o fogo...
O mundo está hoje confrontado com as notícias dramáticas de mais um sismo no Japão, mas desta vez, segundo informação oficial, com uma magnitude de 8,9 na escala de Richter, o mais intenso dos últimos 40 anos.
O Japão é um país distante, mas, não obstante, o povo português contactou aquela gente há mais de 400 anos.
Em 1544, Fernão Mendes Pinto desembarcou na Ilha de Tanixumá, «que é a primeira terra do Japão», como escreveu.
Como é sabido, foram os portugueses que deram a conhecer aos japoneses a espingarda. Fernando Mendes Pinto descreveu-nos assim o espanto dos japoneses ao verem, pela primeira vez, uma arma de fogo:
«Os japões, vendo aquele novo modo de tiros que nunca até então tinham visto, deram rebate disso ao nautoquim que neste tempo estava vendo correr uns cavalos que lhe tinham trazido de fora, o qual espantado desta novidade, mandou logo chamar o Zeimoto ao paul onde andava caçando, e quando o viu vir com a espingarda às costas, e dous chins carregados de caça, fez disto tamanho caso que em todas as cousas se lhe enxergava o gosto do que via, porque como até então naquela terra nunca se tinha visto tiro de fogo, não se sabiam determinar com o que aquilo era, nem entendiam o segredo da pólvora, e assentaram todos que era feitiçaria».
Relata ainda Fernando Mendes Pinto que, uns dias após este episódio, aconteceu um desastre a um filho de El-Rei daquela Ilha de Tanixumá. Aproveitando estar o FMP a dormir, aquele Príncipe levou, sem autorização, a espingarda, e «pondo-lhe fogo, quis a desaventura que arrebentou por três partes...de que o moço logo caiu no chão como morto...». Grande alarme na população indígena: «A espingarda do estrangeiro matou o filho de El-Rei!».
Bem, o nosso FMP, viu-se, de um momento para o outro, em maus lençóis. El-Rei exigiu-lhe, sob pena de morte, que curasse o filho. «E encomendando-me a Deus, e fazendo-me (como se diz) das tripas coração, por ver que não tinha ali outro remédio, e que se assim o não fizesse me haviam de cortar a cabeça, preparei tudo o que era necessário para a cura...». FMP relatou assim como ele se desembaraçou daquela situação, provocada por um mau manuseamento de uma arma de fogo, até então desconhecida daquele povo.
Os jornais de hoje falam-nos de um “Apocalipse” no Japão, com a situação fora de controlo. A situação na central nuclear de Fuxima degrada-se de dia para dia, apesar dos esforços do Governo.
Esta situação de catástrofe levará certamente o governantes daquele país a reflectir seriamente acerca da opção nuclear.
Na verdade, construir centrais nucleares num país que está sentado numa placa tectónica, não parece ser boa e avisada solução.
É, no fundo, brincar com o fogo...
O Japão é um país distante, mas, não obstante, o povo português contactou aquela gente há mais de 400 anos.
Em 1544, Fernão Mendes Pinto desembarcou na Ilha de Tanixumá, «que é a primeira terra do Japão», como escreveu.
Como é sabido, foram os portugueses que deram a conhecer aos japoneses a espingarda. Fernando Mendes Pinto descreveu-nos assim o espanto dos japoneses ao verem, pela primeira vez, uma arma de fogo:
«Os japões, vendo aquele novo modo de tiros que nunca até então tinham visto, deram rebate disso ao nautoquim que neste tempo estava vendo correr uns cavalos que lhe tinham trazido de fora, o qual espantado desta novidade, mandou logo chamar o Zeimoto ao paul onde andava caçando, e quando o viu vir com a espingarda às costas, e dous chins carregados de caça, fez disto tamanho caso que em todas as cousas se lhe enxergava o gosto do que via, porque como até então naquela terra nunca se tinha visto tiro de fogo, não se sabiam determinar com o que aquilo era, nem entendiam o segredo da pólvora, e assentaram todos que era feitiçaria».
Relata ainda Fernando Mendes Pinto que, uns dias após este episódio, aconteceu um desastre a um filho de El-Rei daquela Ilha de Tanixumá. Aproveitando estar o FMP a dormir, aquele Príncipe levou, sem autorização, a espingarda, e «pondo-lhe fogo, quis a desaventura que arrebentou por três partes...de que o moço logo caiu no chão como morto...». Grande alarme na população indígena: «A espingarda do estrangeiro matou o filho de El-Rei!».
Bem, o nosso FMP, viu-se, de um momento para o outro, em maus lençóis. El-Rei exigiu-lhe, sob pena de morte, que curasse o filho. «E encomendando-me a Deus, e fazendo-me (como se diz) das tripas coração, por ver que não tinha ali outro remédio, e que se assim o não fizesse me haviam de cortar a cabeça, preparei tudo o que era necessário para a cura...». FMP relatou assim como ele se desembaraçou daquela situação, provocada por um mau manuseamento de uma arma de fogo, até então desconhecida daquele povo.
Os jornais de hoje falam-nos de um “Apocalipse” no Japão, com a situação fora de controlo. A situação na central nuclear de Fuxima degrada-se de dia para dia, apesar dos esforços do Governo.
Esta situação de catástrofe levará certamente o governantes daquele país a reflectir seriamente acerca da opção nuclear.
Na verdade, construir centrais nucleares num país que está sentado numa placa tectónica, não parece ser boa e avisada solução.
É, no fundo, brincar com o fogo...
(Livro citado: Peregrinação, de Fernando Mendes Pinto, Edição Europa-América, pág 25, 31, 39 e 43 do Vol.II)
sábado, 12 de março de 2011
Levanta a tua voz
No dia de toda a inquietação, deixo aqui o meu mote para a chamada geração à rasca:
«Grita em voz alta, sem te cansares. Levanta a tua voz como uma trombeta»
Da Bíblia Sagrada
«Grita em voz alta, sem te cansares. Levanta a tua voz como uma trombeta»
Da Bíblia Sagrada
terça-feira, 8 de março de 2011
Chama-lhe Mulher!
MULHER
Chamam-te linda, chamam-te formosa,
Chamam-te bela, chamam-te gentil...
A rosa é linda, é bela, é graciosa,
Porém a tua graça é mais subtil.
A onda que na praia, sinuosa,
A areia enfeita com encantos mil,
Não tem a graça, a curva luminosa
Das linhas do teu corpo, amor e ardil.
Chamam-te linda, encantadora ou bela;
Da tua graça é pálida aguarela
Todo o nome que o mundo à graça der.
Pergunto a Deus o nome que hei-de dar-te,
E Deus responde em mim, por toda parte:
Não chames bela – Chama-lhe Mulher!
Rui de Noronha
Chamam-te linda, chamam-te formosa,
Chamam-te bela, chamam-te gentil...
A rosa é linda, é bela, é graciosa,
Porém a tua graça é mais subtil.
A onda que na praia, sinuosa,
A areia enfeita com encantos mil,
Não tem a graça, a curva luminosa
Das linhas do teu corpo, amor e ardil.
Chamam-te linda, encantadora ou bela;
Da tua graça é pálida aguarela
Todo o nome que o mundo à graça der.
Pergunto a Deus o nome que hei-de dar-te,
E Deus responde em mim, por toda parte:
Não chames bela – Chama-lhe Mulher!
Rui de Noronha
domingo, 6 de março de 2011
Parabéns GABO
Gabriel Garcia Marques é o autor de 2 livros simplesmente fabulosos: “Cem Anos de Solidão” e “Amor em tempos de cólera”, que eu, embora já tardiamente, li de supetão. Depois disso, li quase tudo da sua obra. Deixei, para o fim, VIVER PARA CONTÁ-LA, para eu ler se ele morrer antes de mim. Há cerca de 3 anos, recebi, pela primeira vez, o mail que corre na NET em que ele se despede dos amigos, após saber que se encontra gravemente doente. É um texto verdadeiramente comovente. Para felicidade de todos, ele continua entre nós.
Hoje, ele celebra o seu 84º Aniversário. Parabéns, GABO!
Nas sua obras, ele descreve-nos um mundo mítico e fantástico. Escreve no limite, no impossível.
Há algum tempo li, numa entrevista sua, em que confessa ter começado a escrever assim influenciado pela primeira frase com que Franz Kafka inicia o livro A Metamorfose:
«Certa manhã, ao acordar de sonhos inquietos, Gregor Samsa viu-se transformado num gigantesco insecto monstruoso».
Não era para menos!.
Hoje, ele celebra o seu 84º Aniversário. Parabéns, GABO!
Nas sua obras, ele descreve-nos um mundo mítico e fantástico. Escreve no limite, no impossível.
Há algum tempo li, numa entrevista sua, em que confessa ter começado a escrever assim influenciado pela primeira frase com que Franz Kafka inicia o livro A Metamorfose:
«Certa manhã, ao acordar de sonhos inquietos, Gregor Samsa viu-se transformado num gigantesco insecto monstruoso».
Não era para menos!.
sexta-feira, 4 de março de 2011
Pedro e Inês
Eugénio de Castro nasceu em Coimbra, em 4 de Março de 1969, e foi um poeta português, a quem não tem sido dado o devido valor.
Em 1900 foi publicada CONSTANÇA, «a sua obra mais profundamente portuguesa, aquela em que a sua alma mais conseguiu vibrar em uníssono com a alma do seu povo», no dizer de Miguel Unamumo.
Constança foi a esposa do infante D.Pedro, o da desafortunada Inês de Castro, cujos trágicos amores Camões imortalizou.
Constança foi a esposa do infante D.Pedro, o da desafortunada Inês de Castro, cujos trágicos amores Camões imortalizou.
Esta é a tragédia íntima e silenciosa da pobre esposa que vê como a sua mais fraternal amiga lhe rouba o coração do seu Pedro.
Ainda nas palavras de Miguel Unamuno, a figura de Constança parece um símbolo do próprio Portugal, deste desgraçado Portugal que desde Alcácer-Quibir vive submergido em sonhos de grandezas passadas.
Sem ser de propósito, a Companhia de Teatro O Bando estreia, hoje, a peça Pedro e Inês, peça escrita por Miguel Jesus e encenada por Anatoly Proudin, na qual são são revisitados os amores de Pedro e Inês. Depois dos espectáculos de hoje e amanhã em Guimarães, o Bando fará um périplo por várias cidades do país até chegar ao palco do Centro Cultural de Belém, a 9 de Junho.
Mas parece que, inexplicavelmente, pelo menos para mim, a figura de Constança, a mulher do infante D.Pedro, não entra nesta história. Será possível?
Mas parece que, inexplicavelmente, pelo menos para mim, a figura de Constança, a mulher do infante D.Pedro, não entra nesta história. Será possível?
quinta-feira, 3 de março de 2011
Um português na China
O jornal Correio da Manhã noticia, hoje, que a PJ do Porto deteve um cidadão chinês, indiciado por três crimes de tentativa de homicídio.
A comunidade chinesa em Portugal é considerada, em geral, discreta, trabalhadora e pacífica.
Aquele cidadão chinês deve ser, portanto, uma excepção. Se tivesse sido preso na China, iria passar, certamente, um mau bocado.
Aliás, o sistema judicial chinês é conhecido pela sua extrema severidade. E esta severidade não é só de hoje.
Já o nosso Fernão Mendes Pinto, quando chegou à cidade de Pequim, em Outubro de 1541, se espantou com a ordem em que aquele povo vivia:
«Assim que ninguém sai do limite e da ordem que lhe é posta pelos conchalis do governo, que são como almotacéis, sob pena de serem logo por isso gravemente punidos, porque é nesta terra o rei tão venerado e a justiça tão temida, que não há pessoa nenhuma, por grande que seja, que ouse a boquejar nem levantar os olhos para nenhum ministro da justiça, inda que seja upo de açoute, que são como algoses ou beleguins entre nós». (Peregrinação, pág.279, Edição Europa-América)
A comunidade chinesa em Portugal é considerada, em geral, discreta, trabalhadora e pacífica.
Aquele cidadão chinês deve ser, portanto, uma excepção. Se tivesse sido preso na China, iria passar, certamente, um mau bocado.
Aliás, o sistema judicial chinês é conhecido pela sua extrema severidade. E esta severidade não é só de hoje.
Já o nosso Fernão Mendes Pinto, quando chegou à cidade de Pequim, em Outubro de 1541, se espantou com a ordem em que aquele povo vivia:
«Assim que ninguém sai do limite e da ordem que lhe é posta pelos conchalis do governo, que são como almotacéis, sob pena de serem logo por isso gravemente punidos, porque é nesta terra o rei tão venerado e a justiça tão temida, que não há pessoa nenhuma, por grande que seja, que ouse a boquejar nem levantar os olhos para nenhum ministro da justiça, inda que seja upo de açoute, que são como algoses ou beleguins entre nós». (Peregrinação, pág.279, Edição Europa-América)
terça-feira, 1 de março de 2011
Camilo Pessanha
Interrogação
Não sei se isto é amor. Procuro o teu olhar,
Se alguma dor me fere, em busca de um abrigo;
E apesar disso, crê! nunca pensei num lar
Onde fosses feliz, e eu feliz contigo.
Por ti nunca chorei nenhum ideal desfeito.
E nunca te escrevi nenhuns versos românticos.
Nem depois de acordar te procurei no leito
Como a esposa sensual do Cântico dos Cânticos.
Se é amar-te não sei. Não sei se te idealizo
A tua cor sadia, o teu sorriso terno...
Mas sinto-me sorrir de ver esse sorriso
Que me penetra bem, como este sol de Inverno.
Passo contigo a tarde e sempre sem receio
Da luz crepuscular, que enerva, que provoca.
Eu não demoro o olhar na curva do teu seio
Nem me lembrei jamais de te beijar na boca.
Eu não sei se é amor. Será talvez começo...
Eu não sei que mudança a minha alma pressente...
Amor não sei se o é, mas sei que te estremeço,
Que adoecia talvez de te saber doente.
Camilo Pessanha
Não sei se isto é amor. Procuro o teu olhar,
Se alguma dor me fere, em busca de um abrigo;
E apesar disso, crê! nunca pensei num lar
Onde fosses feliz, e eu feliz contigo.
Por ti nunca chorei nenhum ideal desfeito.
E nunca te escrevi nenhuns versos românticos.
Nem depois de acordar te procurei no leito
Como a esposa sensual do Cântico dos Cânticos.
Se é amar-te não sei. Não sei se te idealizo
A tua cor sadia, o teu sorriso terno...
Mas sinto-me sorrir de ver esse sorriso
Que me penetra bem, como este sol de Inverno.
Passo contigo a tarde e sempre sem receio
Da luz crepuscular, que enerva, que provoca.
Eu não demoro o olhar na curva do teu seio
Nem me lembrei jamais de te beijar na boca.
Eu não sei se é amor. Será talvez começo...
Eu não sei que mudança a minha alma pressente...
Amor não sei se o é, mas sei que te estremeço,
Que adoecia talvez de te saber doente.
Camilo Pessanha
Já passaram 15 anos...
A vida é tão prodigiosa! Mas desse imenso prodígio como é ínfimo o que aproveitamos para ser o pleno de nós que entregaremos à morte.
(Vergílio Ferreira, in Escrever)
(Vergílio Ferreira, in Escrever)
domingo, 27 de fevereiro de 2011
Os "falsos" da NET
A NET está, desgraçadamente, infestada de “falsos” e, não obstante todos os cuidados, ainda caímos no engano. Foi o que me aconteceu, recentemente, ao encaminhar um vídeo com um poema com o título METADE, “da autoria do poeta Ferreira Gullar”, na voz de Oswaldo Montenegro.
Bem, vou ter que apresentar o meu pedido de desculpas a quem enviei tal vídeo, pois estamos perante mais um “falso”.
O poema METADE é da autoria de Oswaldo Montenegro, que o lançou em 1975, no libreto da peça teatral João Sem Nome.
Ferreira Gullar é o autor do poema TRADUZIR-SE, publicado no livro Vertigens do Dia, publicado em 1980.
As duas obras são completamente distintas, embora abordem, ambas, a dualidade humana.
Estes “falsos” são uma praga difícil de exorcizar, porque serão sempre mais os divulgadores do dolo dos que os combatem. Ao Fernando Pessoa são atribuídos poemas de arrepiar. Portanto, importa estar atento: se receberem o tal vídeo, que circula aí pela NET, não é verdade que o poema METADE seja, como lá se diz, da autoria de Ferreira Gullar.
Deixo aqui, para que conste, o poema TRADUZIR-SE do poeta brasileiro Ferreira Gullar, que foi contemplado com o prémio Camões, em 2010:
Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
Traduzir uma parte
na outra parte
_ que é uma questão
de vida ou morte _
será arte?
Ferreira Gullar, in Vertigens do Dia, 1980
Bem, vou ter que apresentar o meu pedido de desculpas a quem enviei tal vídeo, pois estamos perante mais um “falso”.
O poema METADE é da autoria de Oswaldo Montenegro, que o lançou em 1975, no libreto da peça teatral João Sem Nome.
Ferreira Gullar é o autor do poema TRADUZIR-SE, publicado no livro Vertigens do Dia, publicado em 1980.
As duas obras são completamente distintas, embora abordem, ambas, a dualidade humana.
Estes “falsos” são uma praga difícil de exorcizar, porque serão sempre mais os divulgadores do dolo dos que os combatem. Ao Fernando Pessoa são atribuídos poemas de arrepiar. Portanto, importa estar atento: se receberem o tal vídeo, que circula aí pela NET, não é verdade que o poema METADE seja, como lá se diz, da autoria de Ferreira Gullar.
Deixo aqui, para que conste, o poema TRADUZIR-SE do poeta brasileiro Ferreira Gullar, que foi contemplado com o prémio Camões, em 2010:
Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
Traduzir uma parte
na outra parte
_ que é uma questão
de vida ou morte _
será arte?
Ferreira Gullar, in Vertigens do Dia, 1980
sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011
Cesário Verde (2)
Cesário, uns meses antes de morrer, foi para Caneças, a dois passos de Lisboa, onde podia desfrutar de um clima seco. Cesário tem apenas 31 anos, mas já perdeu as ilusões:
- Curo-me? Sim, talvez. Mas como ficou eu? Um cangalho, um canastrão, um grande cesto roto, entra-me a chuva, entra-me o vento no corpo escangalhado...Mas o melhor será ouvir Mário Viegas ler a carta que Cesário escreveu ao Conde de Monsaraz:
- Curo-me? Sim, talvez. Mas como ficou eu? Um cangalho, um canastrão, um grande cesto roto, entra-me a chuva, entra-me o vento no corpo escangalhado...Mas o melhor será ouvir Mário Viegas ler a carta que Cesário escreveu ao Conde de Monsaraz:
Se queres ter um amigo...
Livro de Eclesiástico 6,5-17.
Palavras amáveis multiplicam os amigos, a linguagem afável atrai muitas respostas agradáveis. Procura estar de bem com muitos, mas escolhe para conselheiro um entre mil. Se queres ter um amigo, põe-no primeiro à prova, não confies nele muito depressa. Com efeito, há amigos de ocasião, que não são fiéis no dia da tribulação. Há amigo que se torna inimigo, que desvendará as tuas fraquezas, para tua vergonha. Há amigo que só o é para a mesa, e que deixará de o ser no dia da desgraça; na tua prosperidade mostra-se igual a ti, dirigindo-se com à vontade aos teus servos; mas, se te colhe o infortúnio, volta-se contra ti, e oculta-se da tua presença. Afasta-te daqueles que são teus inimigos, e está alerta com os teus amigos. Um amigo fiel é uma poderosa protecção; quem o encontrou, descobriu um tesouro. Nada se pode comparar a um amigo fiel, e nada se iguala ao seu valor. Um amigo fiel é um bálsamo de vida; os que temem o Senhor acharão tal amigo. O que teme o Senhor terá também boas amizades, porque o seu amigo será semelhante a ele.
Palavras amáveis multiplicam os amigos, a linguagem afável atrai muitas respostas agradáveis. Procura estar de bem com muitos, mas escolhe para conselheiro um entre mil. Se queres ter um amigo, põe-no primeiro à prova, não confies nele muito depressa. Com efeito, há amigos de ocasião, que não são fiéis no dia da tribulação. Há amigo que se torna inimigo, que desvendará as tuas fraquezas, para tua vergonha. Há amigo que só o é para a mesa, e que deixará de o ser no dia da desgraça; na tua prosperidade mostra-se igual a ti, dirigindo-se com à vontade aos teus servos; mas, se te colhe o infortúnio, volta-se contra ti, e oculta-se da tua presença. Afasta-te daqueles que são teus inimigos, e está alerta com os teus amigos. Um amigo fiel é uma poderosa protecção; quem o encontrou, descobriu um tesouro. Nada se pode comparar a um amigo fiel, e nada se iguala ao seu valor. Um amigo fiel é um bálsamo de vida; os que temem o Senhor acharão tal amigo. O que teme o Senhor terá também boas amizades, porque o seu amigo será semelhante a ele.
Cesário Verde (1)
Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.
Assim começa O Sentimento dum Ocidental (Avé-Marias), poema de Cesário Verde, publicado no Jornal de Viagens do Porto, em 1880, nas comemorações do tricentenário da morte de Camões. Andavam, porém, todos muito distraídos, pois ninguém lhe deu o devido valor. Só anos mais tarde, muitos, Fernando Pessoa, primeira vez, através do seu heterónimo Álvaro de Campos, bradou bem forte:
“- Ó Cesário Verde, ó Mestre!”
E, depois, através de Alberto Caeiro:
“Leio até me arderem os olhos / O Livro de Cesário Verde”.
Faz hoje 156 que nasceu Cesário Verde, vindo a falecer, em 1886, quando contava 31 anos de idade, tuberculoso. Participou, em 1881, nas reunião do chamado Grupo do Leão (referência ao restaurante “Leão de Ouro”), com outros literatos: Abel Botelho, Fialho de Almeida, entre outros. Também participaram nessa tertúlia pintores da época, como José Malhoa, Alberto de Oliveira e os irmãos Columbano e Rafael Bordalo Pinheiro. O “Grupo do Leão” foi imortalizado em 1885 num conhecido quadro a óleo sobre tela da autoria do Columbano. Cesário Verde, tal como Fialho de Almeida, foram esquecidos pelo pintor. Esquecimento? Talvez não...
Não faz mal, porque, dessa tertúlia, será Cesário, um não pintor, que antecipará a chegada do impressionismo a Portugal. O seu poema De Tarde é como uma tela de Renoir ou, quiçá, a representação do “Almoço na Relva” de Manet:
Naquele pic-nic de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.
Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.
Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampamos, inda o Sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão-de-ló molhado em malvasia
Mas, todo púrpuro a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas!
quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011
O povo é quem mais ordena
Faz hoje 24 anos que morreu Zeca Afonso, quando contava 57 anos. Deixou-nos, entre outras coisas bonitas, esta porta para ABRIL.
Grândola, vila morena
Terra da fraternidade
O povo é quem mais ordena
Dentro de ti, ó cidade
Dentro de ti, ó cidade
O povo é quem mais ordena
Terra da fraternidade
Grândola, vila morena
Em cada esquina um amigo
Em cada rosto igualdade
Grândola, vila morena
Terra da fraternidade
Terra da fraternidade
Grândola, vila morena
Em cada rosto igualdade
O povo é quem mais ordena
À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade
Jurei ter por companheira
Grândola a tua vontade.
sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011
Jogo da Cabra Cega, de José Régio
José Régio escreveu o romance Jogo da Cabra Cega, em 1934, ainda no início da sua carreira literária. Ele próprio disse, mais tarde, em 1967, em carta dirigida a uma amiga: «É um livro de abandono e excesso, em que o escritor estava ainda muito adolescente. Não pense que o desestimo, gosto muito de o ter escrito com aquela coragem quase inconsciente...». Por isso, a crítica literária refere que estamos perante um Romance de Formação. Refere, ainda essa crítica literária, que se trata de um Romance Psicológico, por apresentar as seguintes características: (i) a acção não avança por efeitos externos; (ii) recorre abundantemente à memória; (iii) é patente a influência de Freud (embora Régio diga que, à data, ainda não conhecia Freud - estamos perante uma pré-experiência?). O resultado é, como o próprio Régio reconhece, «um romance com uma intensidade quase frenética e quase desarrumada». É ainda Régio que aceita como boa a influência que Dostoievski exerceu sobre a sua escrita, «À parte o ele ser um génio de primeira grandeza, com ele reconhecia profundas afinidades: sobretudo no seu turvo e fascinante misticismo, e no seu sublime debate entre o Bem e o Mal na alma do homem». Aliás, Régio reflectiu sempre, como sabemos, ao longo da sua obra, problemas relativos ao conflito entre o Bem e o Mal, o individuo e a sociedade, Deus e o Diabo. «Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém./ Todos tiveram pai, todos tiveram mãe; / Mas eu, que nunca principio nem acabo,/ Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo». Escreveu Régio escreveu, de forma sublime, em Cântico Negro.
David Mourão Ferreira diz que «Régio recorre a Deus quando “incompreendido e escorraçado”. Recorre, portanto, por orgulho – e, sendo como é o orgulho uma característica eminentemente diabólica, Régio dialoga com Deus através de Lúcifer. Esta será, talvez, uma das maiores originalidades da sua poesia, a mais frequente e a mais fecunda.»
Sem dúvida, um livro importante que marca o início da 2ª fase do Modernismo (dando continuidade ao género literário iniciado com Pessoa e Mário de Sá-Carneiro), ousando, aliás, contrariar os tempos emergentes do neo-realismo.
Jogo da Cabra Cega é um livro autobiográfico?. Tratando-se de uma ficção, será que, mesmo assim, é um livro autobiográfico? Há quem defenda que sim, dizendo que a ficção nunca mente: revela o escritor na sua totalidade.
Em o Jogo da Cabra Cega encontramos um Eu que procura identificar-se com outro Eu. Aqui encontramos semelhanças óbvias com a Confissão de Lúcio, de Mário de Sá-Carneiro, de quem Régio era admirador confesso. Lá, como Ricardo e Lúcio eram o espelho um do outro, aqui, o autor conduz-nos, igualmente, para essa relação de amor/ódio (confusão/fragmentação) entre as duas personagens principais da narrativa: Pedro Serra e Jaime Franco.
Estamos assim perante uma perfeita fragmentação do sujeito, um sujeito, no fundo, estilhaçado. Esta ideia está bem expressa no poema A Jaula e as Feras, «-Meu corpo, ó meu hospício de alienados! / Abre-te aos meus desejos enjaulados, / Deixa-os despedaçar a minha vida!».
O jogo da cabra cega é, como se sabe, um jogo em que a gente procura agarrar alguém, e reconhecê-lo, com os braços estendidos e os olhos vendados. Pedro Serra, alter-ego de Régio, percorre, às palpadelas, o labirinto da sua mente imaginária, qual hospício de alienados!.
Sem dúvida, um livro importante que marca o início da 2ª fase do Modernismo (dando continuidade ao género literário iniciado com Pessoa e Mário de Sá-Carneiro), ousando, aliás, contrariar os tempos emergentes do neo-realismo.
Jogo da Cabra Cega é um livro autobiográfico?. Tratando-se de uma ficção, será que, mesmo assim, é um livro autobiográfico? Há quem defenda que sim, dizendo que a ficção nunca mente: revela o escritor na sua totalidade.
Em o Jogo da Cabra Cega encontramos um Eu que procura identificar-se com outro Eu. Aqui encontramos semelhanças óbvias com a Confissão de Lúcio, de Mário de Sá-Carneiro, de quem Régio era admirador confesso. Lá, como Ricardo e Lúcio eram o espelho um do outro, aqui, o autor conduz-nos, igualmente, para essa relação de amor/ódio (confusão/fragmentação) entre as duas personagens principais da narrativa: Pedro Serra e Jaime Franco.
Estamos assim perante uma perfeita fragmentação do sujeito, um sujeito, no fundo, estilhaçado. Esta ideia está bem expressa no poema A Jaula e as Feras, «-Meu corpo, ó meu hospício de alienados! / Abre-te aos meus desejos enjaulados, / Deixa-os despedaçar a minha vida!».
O jogo da cabra cega é, como se sabe, um jogo em que a gente procura agarrar alguém, e reconhecê-lo, com os braços estendidos e os olhos vendados. Pedro Serra, alter-ego de Régio, percorre, às palpadelas, o labirinto da sua mente imaginária, qual hospício de alienados!.
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
Namoro
Viriato da Cruz, poeta angolano, foi considerado um dos mais importantes impulsionadores de uma poesia regionalista angolana, nas décadas de 40 e 50, e um dos lideres da luta pela libertação de Angola.
Na década de 60 tornou-se Secretário-Geral do MPLA – Movimento Popular de Libertação de Angola, partido esse que ajudou a fundar, juntamente com Mário Pinto de Andrade. Mais tarde, dissabores com Agostinho Neto irão obrigá-lo a abandonar o partido; Neto defendia um comunismo soviético e, Viriato, um comunismo maoísta.
Vai para Pequim em 1966, isto é, no início da "revolução cultural". Mais tarde, cai em divergências com os dirigentes chineses, os quais, contrariando a sua vontade, não o deixaram sair do país. Morre em 1973, tendo sido humilhante a forma como foi sepultado no cemitério dos estrangeiros.
Viriato da Cruz deixou-nos um dos poemas mais bonitos acerca dos namorados. O poema chama-se NAMORO e conta uma linda história de amor. Fausto fez a música que todos conhecem, mas, hoje, o que conta é o poema:
Mandei-lhe uma carta em papel perfumado
e com letra bonita eu disse ela tinha
um sorrir luminoso tão quente e gaiato
como o sol de Novembro brincando
de artista nas acácias floridas
espalhando diamantes na fímbria do mar
e dando calor ao sumo das mangas
Sua pele macia - era sumaúma...
Sua pele macia, da cor do jambo, cheirando a rosas
sua pele macia guardava as doçuras do corpo rijo
tão rijo e tão doce - como o maboque...
Seus seios, laranjas - laranjas do Loje
seus dentes... - marfim...
Mandei-lhe essa carta
e ela disse que não.
Mandei-lhe um cartão
que o amigo Maninho tipografou:
"Por ti sofre o meu coração"
Num canto - SIM, noutro canto - NÃO
E ela o canto do NÃO dobrou
Mandei-lhe um recado pela Zefa do Sete
pedindo, rogando de joelhos no chão
pela Senhora do Cabo, pela Santa Ifigenia,
me desse a ventura do seu namoro...
E ela disse que não.
Levei á Avo Chica, quimbanda de fama
a areia da marca que o seu pé deixou
para que fizesse um feitiço forte e seguro
que nela nascesse um amor como o meu...
E o feitiço falhou.
Esperei-a de tarde, á porta da fabrica,
ofertei-lhe um colar e um anel e um broche,
paguei-lhe doces na calçada da Missão,
ficamos num banco do largo da Estátua,
afaguei-lhe as mãos...
falei-lhe de amor... e ela disse que não.
Andei barbudo, sujo e descalço,
como um mona-ngamba.
Procuraram por mim
"-Não viu...(ai, não viu...?) não viu Benjamim?"
E perdido me deram no morro da Samba.
Para me distrair
levaram-me ao baile do Sô Januario
mas ela lá estava num canto a rir
contando o meu caso
as moças mais lindas do Bairro Operário.
Tocaram uma rumba - dancei com ela
e num passo maluco voamos na sala
qual uma estrela riscando o céu!
E a malta gritou: "Aí Benjamim !"
Olhei-a nos olhos - sorriu para mim
pedi-lhe um beijo - e ela disse que sim
Viriato da Cruz
Na década de 60 tornou-se Secretário-Geral do MPLA – Movimento Popular de Libertação de Angola, partido esse que ajudou a fundar, juntamente com Mário Pinto de Andrade. Mais tarde, dissabores com Agostinho Neto irão obrigá-lo a abandonar o partido; Neto defendia um comunismo soviético e, Viriato, um comunismo maoísta.
Vai para Pequim em 1966, isto é, no início da "revolução cultural". Mais tarde, cai em divergências com os dirigentes chineses, os quais, contrariando a sua vontade, não o deixaram sair do país. Morre em 1973, tendo sido humilhante a forma como foi sepultado no cemitério dos estrangeiros.
Viriato da Cruz deixou-nos um dos poemas mais bonitos acerca dos namorados. O poema chama-se NAMORO e conta uma linda história de amor. Fausto fez a música que todos conhecem, mas, hoje, o que conta é o poema:
Mandei-lhe uma carta em papel perfumado
e com letra bonita eu disse ela tinha
um sorrir luminoso tão quente e gaiato
como o sol de Novembro brincando
de artista nas acácias floridas
espalhando diamantes na fímbria do mar
e dando calor ao sumo das mangas
Sua pele macia - era sumaúma...
Sua pele macia, da cor do jambo, cheirando a rosas
sua pele macia guardava as doçuras do corpo rijo
tão rijo e tão doce - como o maboque...
Seus seios, laranjas - laranjas do Loje
seus dentes... - marfim...
Mandei-lhe essa carta
e ela disse que não.
Mandei-lhe um cartão
que o amigo Maninho tipografou:
"Por ti sofre o meu coração"
Num canto - SIM, noutro canto - NÃO
E ela o canto do NÃO dobrou
Mandei-lhe um recado pela Zefa do Sete
pedindo, rogando de joelhos no chão
pela Senhora do Cabo, pela Santa Ifigenia,
me desse a ventura do seu namoro...
E ela disse que não.
Levei á Avo Chica, quimbanda de fama
a areia da marca que o seu pé deixou
para que fizesse um feitiço forte e seguro
que nela nascesse um amor como o meu...
E o feitiço falhou.
Esperei-a de tarde, á porta da fabrica,
ofertei-lhe um colar e um anel e um broche,
paguei-lhe doces na calçada da Missão,
ficamos num banco do largo da Estátua,
afaguei-lhe as mãos...
falei-lhe de amor... e ela disse que não.
Andei barbudo, sujo e descalço,
como um mona-ngamba.
Procuraram por mim
"-Não viu...(ai, não viu...?) não viu Benjamim?"
E perdido me deram no morro da Samba.
Para me distrair
levaram-me ao baile do Sô Januario
mas ela lá estava num canto a rir
contando o meu caso
as moças mais lindas do Bairro Operário.
Tocaram uma rumba - dancei com ela
e num passo maluco voamos na sala
qual uma estrela riscando o céu!
E a malta gritou: "Aí Benjamim !"
Olhei-a nos olhos - sorriu para mim
pedi-lhe um beijo - e ela disse que sim
Viriato da Cruz
sábado, 12 de fevereiro de 2011
Um momento histórico?
Ontem, à noite, assisti na SICNotícias a um Momento Histórico, para um dia recordar... Com muita pena, só assisti à parte final. Falava então o bloquista Daniel Oliveira e que dizia ele?. Pois que a Direcção do BE, ao anunciar ir apresentar no Parlamento uma moção de censura ao Governo, demonstrava encontrar-se num momento de grande perturbação! Momento Histórico! Gritou logo o seu antagonista de debate, Luís Delgado, perante a estupefacção da moderadora, Ana Lourenço. E eu concordo. Corri para o Arrastão, na procura de mais pormenores. Ainda não há nada. Temos de aguardar. Para já, pelo Eixo do Mal, logo à noite.
Era bom, para mim, ver o Daniel Oliveira, a quem reconheço inteligência, desmarcar-se dos bloquistas (o que não será fácil). Depois do que está a acontecer, o Bloco só merece desprezo.
Era bom, para mim, ver o Daniel Oliveira, a quem reconheço inteligência, desmarcar-se dos bloquistas (o que não será fácil). Depois do que está a acontecer, o Bloco só merece desprezo.
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011
Sebastião da Gama (quando eu morri...)
Passam, hoje, 59 anos sobre a morte de Sebastião da Gama, o poeta da Arrábida. Faleceu no Hospital de S. Luís, em Lisboa, no dia 7 de Fevereiro de 1952, pelas 8h30 da manhã.
A tuberculose, de que padecia desde a sua junventude, vencera-o, pondo fim a um percurso de 27 anos, cheio de escrita e de leitura.
Bem, por mim, gostaria só de corrigir a hora oficial da sua morte. O poeta morreu, não às 8h30, mas sim pelas 9h15. É ele que o diz no:
A tuberculose, de que padecia desde a sua junventude, vencera-o, pondo fim a um percurso de 27 anos, cheio de escrita e de leitura.
Bem, por mim, gostaria só de corrigir a hora oficial da sua morte. O poeta morreu, não às 8h30, mas sim pelas 9h15. É ele que o diz no:
Poema da minha esperança
Que bom ter o relógio adiantado!...
A gente assim, por saber
que tem sempre tempo a mais,
não se rala nem se apressa.
O meu sorriso de troça,
Amigos!,
quando vejo o meu relógio
com três quartos de hora a mais!...
Tic-tac... Tic-tac...
(Lá pensa ele
que é já o fim dos meus dias.)
Tic-tac...
(Como eu rio, cá p'ra dentro,
de esta coisa divertida:
ele a julgar que é já o resto
e eu a saber que tenho sempre mais
três quartos de hora de vida.)
Sebastião da Gama, in Serra-Mãe
sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011
Almeida Garrett
Comemora-se, hoje, mais um aniversário de Almeida Garrett. Nasceu no Porto, no dia 4 de Fevereiro de 1799. Porto, Cidade de Garrett, no dizer do poeta Eugénio de Andrade.
Garrett que ousou escreveu, para nosso espanto:
«E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico?» Almeida Garrett, in As Viagens na Minha Terra, pág. 51.
Por mim, não encontro melhor maneira de o felicitar senão destacar aqui o seu poema intitulado A UM AMIGO, no qual ele, justamente, felicita um seu amigo por ocasião de mais um aniversário.
Garrett que ousou escreveu, para nosso espanto:
«E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico?» Almeida Garrett, in As Viagens na Minha Terra, pág. 51.
Por mim, não encontro melhor maneira de o felicitar senão destacar aqui o seu poema intitulado A UM AMIGO, no qual ele, justamente, felicita um seu amigo por ocasião de mais um aniversário.
A um Amigo
Fiel ao costume antigo,
Trago ao meu jovem amigo
Versos próprios deste dia.
E que de os ver tão singelos,
Tão simples como eu, não ria:
Qualquer os fará mais belos,
Ninguém tão d’alma os faria.
Que sobre a flor de seus anos
Soprem tarde os desenganos;
Que em torno os bafeje amor,
Amor da esposa querida,
Prolongando a doce vida
Fruto que suceda à flor.
Recebe este voto, amigo,
Que eu, fiel ao uso antigo,
Quis trazer-te neste dia
Em poucos versos singelos.
Qualquer os fará mais belos,
Ninguém tão d’alma os faria.
Almeida Garrett, in 'Folhas Caídas
Trago ao meu jovem amigo
Versos próprios deste dia.
E que de os ver tão singelos,
Tão simples como eu, não ria:
Qualquer os fará mais belos,
Ninguém tão d’alma os faria.
Que sobre a flor de seus anos
Soprem tarde os desenganos;
Que em torno os bafeje amor,
Amor da esposa querida,
Prolongando a doce vida
Fruto que suceda à flor.
Recebe este voto, amigo,
Que eu, fiel ao uso antigo,
Quis trazer-te neste dia
Em poucos versos singelos.
Qualquer os fará mais belos,
Ninguém tão d’alma os faria.
Almeida Garrett, in 'Folhas Caídas
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