Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
e livres habitamos a substância do tempo.
Sophia de Mello Breyner Andresen
segunda-feira, 25 de abril de 2011
quarta-feira, 20 de abril de 2011
O Eléctrico 28
O Eléctrico 28 foi seleccionado pela editora Rough Guide to the World como umas das 1.000 experiências de viagem mais importantes do mundo ("1.000 ultimate travel experiences"). O percurso do eléctrico, referido como uma viagem "slow-motion" pelo coração histórico da cidade de Lisboa.
Uma boa razão para um passeio por Lisboa, utilizando este meio de transporte. mais há ainda uma outra boa razão.
Fernando Pessoa nunca saiu de Lisboa. Ganhou o seu sustento como «correspondente estrangeiro», trabalhando em inúmeras firmas comerciais, todas situadas na Baixa de Lisboa. Nos últimos 15 anos de vida (1920-1935), morou na Rua Coelho da Rocha, nº 16, em Campo de Ourique. Como não tinha carro, o seu transporte de casa para o emprego era o eléctrico 28.
Antes de chegar ao bairro de Campo de Ourique, enquanto o eléctrico faz a viagem, Pessoa escreveu:
«Vou num carro eléctrico, e estou reparando lentamente, conforme é meu costume, em todo os pormenores das pessoas que vão adiante de mim. Para mim, os pormenores são coisas, vozes, letras. Entonteço. Os bancos do eléctrico levam-me a regiões distantes, multiplicam-se-me em vidas, realidades, tudo. Saio do eléctrico exausto e sonâmbulo. Vivi a vida inteira».
segunda-feira, 18 de abril de 2011
Carta a Carlos Pinto Coelho
Nunca nos cruzámos, mas, hoje, escrevo-te esta carta por um motivo: o livro APARIÇÃO, de Vergílio Ferreira. Ontem, por mero acaso, navegando pelo YouTube, vi, pela primeira vez, um programa da RTPN, o qual, com muita pena minha, eu desconhecia e estava a passar ao lado. O programa chama-se Ler+, Ler Melhor. Vi, então, na NET uns tantos programas atrasados. O primeiro vídeo mostra-nos a tua escolha. Para grande surpresa minha, a escolha foi APARIÇÃO, de Vergílio Ferreira. Espanto total! O “Sr. Acontece”, que me havia dado a conhecer tantos e bons livros, veio dizer que o livro da sua vida era a APARIÇÃO, de Vergílio Ferreira.
Aqui tens a razão desta minha carta. Obrigado, amigo, por este tesouro:
Foi José Luis Borges que disse: «Sempre imaginei o paraíso como uma grande biblioteca».
Meu bom amigo, lá na tua nova morada, estás rodeado - tenho a certeza - de muitos livros e, num lugar de destaque, lá está o livro de capa amarela, que tanto te desassossegou quando, ainda jovem, o leste.
quinta-feira, 14 de abril de 2011
Grandes Livros
Acabo de ler PEREGRINAÇÃO, de Fernão Mendes Pinto. Não é tarefa fácil falar desta narrativa que se desenvolve ao longo de 226 capítulos e onde encontramos um número considerável de nomes exóticos: 530 nomes e apenas 186 (cerca de um terço) estão identificados.
Fernão Mendes Pinto tentou, como tantos outros, a sua sorte em terras do Oriente, embarcando para a Índia em 11 de Março de 1537. Regressou a Lisboa em 22 de Setembro de 1558.
Desiludido com a forma como foram recebidos os trabalhos que apresentou à rainha Dona Catarina (o Rei D. João III falecera no ano anterior), desabafou: «e nisto vieram a parar meus serviços de vinte e um anos, nos quais fui treze vezes cativo e dezasseis vendido...».
Podemos dizer, em resumo, que estamos perante uma narrativa que evidencia a desagregação do império, transformando os portugueses em grupos avulsos, divididos entre a missionação, a rapinagem e o confessado roubo.
Há que diga que esta narrativa é, por isso, um anti-Lusíadas. Afirmação curiosa!.
Mas será que, alguma vez, Fernão Mendes Pinto e Luís de Camões se cruzaram?.
Camões chegou à Índia em Setembro de 1553. Fernão Mendes Pinto, que já andava por aquelas terras há mais de 15 anos, passou por Goa, nos primeiros meses do ano de 1554, acompanhando o cadáver de Francisco Xavier, para ali ser enterrado, pois este padre jesuíta falecera dois anos antes em Sanchão quando ia a caminho da China.
É bem provável que tal encontro tenha acontecido, quer nos primeiros meses do ano de 1554, quer, depois, no ano de 1556, sendo Governador de Goa um tal Francisco Barreto, quando há notícia dos dois terem passado, nesse ano, por Goa.
Esta suposição não é despicienda, visto que há autores que admitem que Fernão Mendes Pinto e Luís de Camões se encontraram, nesta cidade, numa tertúlia, que incluiria ainda outras figuras, como Garcia de Orta e Diogo do Couto.
Anos mais tarde, Fernão Mendes Pinto regressou a Lisboa em 22 de Setembro de 1958, enquanto que o regresso de Luís de Camões a Lisboa aconteceu em 7 de Abril de 1570.
Fernão Mendes Pinto foi para Vale de Rosal, em Almada, onde se manteve até à morte e onde escreveu, entre 1570 e 1578, a obra que nos legou, a sua inimitável Peregrinação. Esta só viria a ser publicada 20 anos após a morte do autor, receando-se que o original tenha sofrido alterações às quais não seriam alheios os Jesuítas.
Luís de Camões, embora mais novo, morreu em 10 de Junho de 1580, enquanto que Fernão Mendes Pinto veio a falecer 3 anos mais tarde, em 8 de Julho de 1583.
Fernão Mendes Pinto tentou, como tantos outros, a sua sorte em terras do Oriente, embarcando para a Índia em 11 de Março de 1537. Regressou a Lisboa em 22 de Setembro de 1558.
Desiludido com a forma como foram recebidos os trabalhos que apresentou à rainha Dona Catarina (o Rei D. João III falecera no ano anterior), desabafou: «e nisto vieram a parar meus serviços de vinte e um anos, nos quais fui treze vezes cativo e dezasseis vendido...».
Podemos dizer, em resumo, que estamos perante uma narrativa que evidencia a desagregação do império, transformando os portugueses em grupos avulsos, divididos entre a missionação, a rapinagem e o confessado roubo.
Há que diga que esta narrativa é, por isso, um anti-Lusíadas. Afirmação curiosa!.
Mas será que, alguma vez, Fernão Mendes Pinto e Luís de Camões se cruzaram?.
Camões chegou à Índia em Setembro de 1553. Fernão Mendes Pinto, que já andava por aquelas terras há mais de 15 anos, passou por Goa, nos primeiros meses do ano de 1554, acompanhando o cadáver de Francisco Xavier, para ali ser enterrado, pois este padre jesuíta falecera dois anos antes em Sanchão quando ia a caminho da China.
É bem provável que tal encontro tenha acontecido, quer nos primeiros meses do ano de 1554, quer, depois, no ano de 1556, sendo Governador de Goa um tal Francisco Barreto, quando há notícia dos dois terem passado, nesse ano, por Goa.
Esta suposição não é despicienda, visto que há autores que admitem que Fernão Mendes Pinto e Luís de Camões se encontraram, nesta cidade, numa tertúlia, que incluiria ainda outras figuras, como Garcia de Orta e Diogo do Couto.
Anos mais tarde, Fernão Mendes Pinto regressou a Lisboa em 22 de Setembro de 1958, enquanto que o regresso de Luís de Camões a Lisboa aconteceu em 7 de Abril de 1570.
Fernão Mendes Pinto foi para Vale de Rosal, em Almada, onde se manteve até à morte e onde escreveu, entre 1570 e 1578, a obra que nos legou, a sua inimitável Peregrinação. Esta só viria a ser publicada 20 anos após a morte do autor, receando-se que o original tenha sofrido alterações às quais não seriam alheios os Jesuítas.
Luís de Camões, embora mais novo, morreu em 10 de Junho de 1580, enquanto que Fernão Mendes Pinto veio a falecer 3 anos mais tarde, em 8 de Julho de 1583.
Não havendo certezas quanto a um encontro entre estes 2 grandes escritores da Língua Portuguesa, neste período de 1570 a 1580, em que eles viveram por perto, sempre podemos imaginar, deste modo, o seguinte diálogo entre os dois:
- Amigo Fernão, somos um povo de heróis - disse Luís de Camões;
- Amigo Luís, somos um povo de heróis e de canalhas. Se um dia somos capazes dos maiores feitos, no outro cometemos os crimes mais cruéis – respondeu Fernão Mendes Pinto.
sábado, 9 de abril de 2011
Um sogro do melhorio...
Decorre, neste fim de semana, em Matosinhos, o Congresso do Partido Socialista, com grande fervor militante em volta do seu grande timoneiro.
Estreia-se ali, aliás, um filme com o título "Um sogro do melhorio", que retrata a tragédia portuguesa, e que tem, à frente do elenco, um grande actor, José Sócrates.
A propósito, alguém sabe quem é o melhor sogro do Mundo?.
A resposta é: José Sócrates. Porquê?. PORQUE DEIXOU TUDO À NORA.
Perante este espectáculo torpe da vida pública, só apetece dizer, como Herculano: "Isto dá vontade de morrer!".
sexta-feira, 8 de abril de 2011
Vem aí o FMI
No dia em que os senhores do FMI desembarcam em Lisboa, preparando-se para infernizar o juízo dos portugueses, almocei no Eleven. Saiu-me carote (mesmo com desconto), mas começou, desta maneira, a minha forte e determinada oposição aos senhores do FMI. Para que saibam...
sexta-feira, 1 de abril de 2011
Estamos num beco sem saída?
Corre na NET um vídeo em que vemos um Professor de uma Universidade de Madrid dar uma aula de Economia, sob o tema MORTE E RESSURREIÇÃO DE KEYNES.
A ortodoxia económica, na nova versão Keynesiana, advoga, para a situação actual, politicas fiscais expansionistas (diminuição de impostos e aumento dos gastos do Estado).
A União Europeia (entenda-se aqui a sra. Merkel) receita o aumento de impostos e a diminuição dos gastos do Estado.
A primeira, traz subida do Deficit e da Dívida Pública; a segunda, acarreta mais desemprego e recessão. Venha o diabo e escolha...
Na minha modesta opinião, querer aplicar a receita Keynesiana numa economia em que os governantes já não dominam todas as ferramentas (mormente, a taxa de juro e taxa de câmbio) não pode, de maneira nenhuma, dar bom resultado.
Ou caminhamos para um espaço totalmente integrado nas suas politicas (e adeus soberania) ou saímos do Euro (ou, no mesmo, da União Europeia), o que, dizem os sábios, acarretaria agora custos elevados.
Parece-me que confiámos, em demasia, que os nossos amigos da Europa nos deitavam a mão, mas, agora, na hora do aperto, cada um salva-se como pode.
Estamos num beco sem saída?.
Enfim, a nação atravessa um momento de enorme desespero e, por mim, só me apetece dizer como o poeta António Botto: «Amigos, / Que desgraça nascer em Portugal».
A ortodoxia económica, na nova versão Keynesiana, advoga, para a situação actual, politicas fiscais expansionistas (diminuição de impostos e aumento dos gastos do Estado).
A União Europeia (entenda-se aqui a sra. Merkel) receita o aumento de impostos e a diminuição dos gastos do Estado.
A primeira, traz subida do Deficit e da Dívida Pública; a segunda, acarreta mais desemprego e recessão. Venha o diabo e escolha...
Na minha modesta opinião, querer aplicar a receita Keynesiana numa economia em que os governantes já não dominam todas as ferramentas (mormente, a taxa de juro e taxa de câmbio) não pode, de maneira nenhuma, dar bom resultado.
Ou caminhamos para um espaço totalmente integrado nas suas politicas (e adeus soberania) ou saímos do Euro (ou, no mesmo, da União Europeia), o que, dizem os sábios, acarretaria agora custos elevados.
Parece-me que confiámos, em demasia, que os nossos amigos da Europa nos deitavam a mão, mas, agora, na hora do aperto, cada um salva-se como pode.
Estamos num beco sem saída?.
Enfim, a nação atravessa um momento de enorme desespero e, por mim, só me apetece dizer como o poeta António Botto: «Amigos, / Que desgraça nascer em Portugal».
segunda-feira, 21 de março de 2011
Eu conto como foi
Ontem, vi mais um episódio que a RTP 1 está a passar ao domingo à noite e que se chama “Conta-me como foi”. Trata-se de um retrato muito interessante de uma família da classe média no tempo da primavera Marcelista. No episódio de ontem, o filho mais velho do casal Lopes, que interrompeu os estudos universitários para ir para a tropa, comunicou à família, com muito custo, que estava mobilizado para Moçambique. Vamos ver, agora, se ele, como uma pessoa que só eu conheço, vai omitir o dia da partida, para evitar dramas maiores. Comovi-me, caramba.
Dia Mundial da Poesia
«O poema obriga a pernoitar na solidão dos bosques, em campos nevados. Que outra verdade existe no mundo para lá daquela que não pertence a este mundo?»
José Tolentino Mendonça, in Diário de Notícias (Madeira)
quinta-feira, 17 de março de 2011
A geração "Os vencidos da vida"
Corre, na NET, um texto do Eça de Queiróz, escrito em 1867, e publicado no jornal “O Distrito de Évora”, que permite discorrer acerca da situação actual, por se vislumbrar ali um curioso paralelismo entre os dois tempos históricos.
Hoje, está na ordem do dia a “Geração Rasca”, para uns, ou a “Geração à Rasca”, para outros.
O "Protesto da Geração à Rasca", assim intitulado, ocorrido no passado Sábado, recolheu, unanimemente, grandes elogios, tendo-lhe sido apontado, porém, um pequeno (ou grande) senão: não apresentou soluções nem compromissos.
O nosso Eça, também ele, pertenceu (foi aliás um dos grandes vultos) a uma famosa geração, a Geração de 70, a par de Antero de Quental, Oliveira Martins e outros.
Apresentaram um diagnóstico correcto da situação (vide “Causas da Decadência dos Povos Peninsulares”, de Antero de Quental, onde está lá tudo), mas acabaram por não conseguir fazer nada (muito menos executar) para modificar o país.
A “Geração de 70” acabou, como se sabe, na geração "Os Vencidos da Vida”.
E a “Geração à Rasca”?
Hoje, está na ordem do dia a “Geração Rasca”, para uns, ou a “Geração à Rasca”, para outros.
O "Protesto da Geração à Rasca", assim intitulado, ocorrido no passado Sábado, recolheu, unanimemente, grandes elogios, tendo-lhe sido apontado, porém, um pequeno (ou grande) senão: não apresentou soluções nem compromissos.
O nosso Eça, também ele, pertenceu (foi aliás um dos grandes vultos) a uma famosa geração, a Geração de 70, a par de Antero de Quental, Oliveira Martins e outros.
Apresentaram um diagnóstico correcto da situação (vide “Causas da Decadência dos Povos Peninsulares”, de Antero de Quental, onde está lá tudo), mas acabaram por não conseguir fazer nada (muito menos executar) para modificar o país.
A “Geração de 70” acabou, como se sabe, na geração "Os Vencidos da Vida”.
E a “Geração à Rasca”?
quarta-feira, 16 de março de 2011
Brincar com o fogo...
O mundo está hoje confrontado com as notícias dramáticas de mais um sismo no Japão, mas desta vez, segundo informação oficial, com uma magnitude de 8,9 na escala de Richter, o mais intenso dos últimos 40 anos.
O Japão é um país distante, mas, não obstante, o povo português contactou aquela gente há mais de 400 anos.
Em 1544, Fernão Mendes Pinto desembarcou na Ilha de Tanixumá, «que é a primeira terra do Japão», como escreveu.
Como é sabido, foram os portugueses que deram a conhecer aos japoneses a espingarda. Fernando Mendes Pinto descreveu-nos assim o espanto dos japoneses ao verem, pela primeira vez, uma arma de fogo:
«Os japões, vendo aquele novo modo de tiros que nunca até então tinham visto, deram rebate disso ao nautoquim que neste tempo estava vendo correr uns cavalos que lhe tinham trazido de fora, o qual espantado desta novidade, mandou logo chamar o Zeimoto ao paul onde andava caçando, e quando o viu vir com a espingarda às costas, e dous chins carregados de caça, fez disto tamanho caso que em todas as cousas se lhe enxergava o gosto do que via, porque como até então naquela terra nunca se tinha visto tiro de fogo, não se sabiam determinar com o que aquilo era, nem entendiam o segredo da pólvora, e assentaram todos que era feitiçaria».
Relata ainda Fernando Mendes Pinto que, uns dias após este episódio, aconteceu um desastre a um filho de El-Rei daquela Ilha de Tanixumá. Aproveitando estar o FMP a dormir, aquele Príncipe levou, sem autorização, a espingarda, e «pondo-lhe fogo, quis a desaventura que arrebentou por três partes...de que o moço logo caiu no chão como morto...». Grande alarme na população indígena: «A espingarda do estrangeiro matou o filho de El-Rei!».
Bem, o nosso FMP, viu-se, de um momento para o outro, em maus lençóis. El-Rei exigiu-lhe, sob pena de morte, que curasse o filho. «E encomendando-me a Deus, e fazendo-me (como se diz) das tripas coração, por ver que não tinha ali outro remédio, e que se assim o não fizesse me haviam de cortar a cabeça, preparei tudo o que era necessário para a cura...». FMP relatou assim como ele se desembaraçou daquela situação, provocada por um mau manuseamento de uma arma de fogo, até então desconhecida daquele povo.
Os jornais de hoje falam-nos de um “Apocalipse” no Japão, com a situação fora de controlo. A situação na central nuclear de Fuxima degrada-se de dia para dia, apesar dos esforços do Governo.
Esta situação de catástrofe levará certamente o governantes daquele país a reflectir seriamente acerca da opção nuclear.
Na verdade, construir centrais nucleares num país que está sentado numa placa tectónica, não parece ser boa e avisada solução.
É, no fundo, brincar com o fogo...
O Japão é um país distante, mas, não obstante, o povo português contactou aquela gente há mais de 400 anos.
Em 1544, Fernão Mendes Pinto desembarcou na Ilha de Tanixumá, «que é a primeira terra do Japão», como escreveu.
Como é sabido, foram os portugueses que deram a conhecer aos japoneses a espingarda. Fernando Mendes Pinto descreveu-nos assim o espanto dos japoneses ao verem, pela primeira vez, uma arma de fogo:
«Os japões, vendo aquele novo modo de tiros que nunca até então tinham visto, deram rebate disso ao nautoquim que neste tempo estava vendo correr uns cavalos que lhe tinham trazido de fora, o qual espantado desta novidade, mandou logo chamar o Zeimoto ao paul onde andava caçando, e quando o viu vir com a espingarda às costas, e dous chins carregados de caça, fez disto tamanho caso que em todas as cousas se lhe enxergava o gosto do que via, porque como até então naquela terra nunca se tinha visto tiro de fogo, não se sabiam determinar com o que aquilo era, nem entendiam o segredo da pólvora, e assentaram todos que era feitiçaria».
Relata ainda Fernando Mendes Pinto que, uns dias após este episódio, aconteceu um desastre a um filho de El-Rei daquela Ilha de Tanixumá. Aproveitando estar o FMP a dormir, aquele Príncipe levou, sem autorização, a espingarda, e «pondo-lhe fogo, quis a desaventura que arrebentou por três partes...de que o moço logo caiu no chão como morto...». Grande alarme na população indígena: «A espingarda do estrangeiro matou o filho de El-Rei!».
Bem, o nosso FMP, viu-se, de um momento para o outro, em maus lençóis. El-Rei exigiu-lhe, sob pena de morte, que curasse o filho. «E encomendando-me a Deus, e fazendo-me (como se diz) das tripas coração, por ver que não tinha ali outro remédio, e que se assim o não fizesse me haviam de cortar a cabeça, preparei tudo o que era necessário para a cura...». FMP relatou assim como ele se desembaraçou daquela situação, provocada por um mau manuseamento de uma arma de fogo, até então desconhecida daquele povo.
Os jornais de hoje falam-nos de um “Apocalipse” no Japão, com a situação fora de controlo. A situação na central nuclear de Fuxima degrada-se de dia para dia, apesar dos esforços do Governo.
Esta situação de catástrofe levará certamente o governantes daquele país a reflectir seriamente acerca da opção nuclear.
Na verdade, construir centrais nucleares num país que está sentado numa placa tectónica, não parece ser boa e avisada solução.
É, no fundo, brincar com o fogo...
(Livro citado: Peregrinação, de Fernando Mendes Pinto, Edição Europa-América, pág 25, 31, 39 e 43 do Vol.II)
sábado, 12 de março de 2011
Levanta a tua voz
No dia de toda a inquietação, deixo aqui o meu mote para a chamada geração à rasca:
«Grita em voz alta, sem te cansares. Levanta a tua voz como uma trombeta»
Da Bíblia Sagrada
«Grita em voz alta, sem te cansares. Levanta a tua voz como uma trombeta»
Da Bíblia Sagrada
terça-feira, 8 de março de 2011
Chama-lhe Mulher!
MULHER
Chamam-te linda, chamam-te formosa,
Chamam-te bela, chamam-te gentil...
A rosa é linda, é bela, é graciosa,
Porém a tua graça é mais subtil.
A onda que na praia, sinuosa,
A areia enfeita com encantos mil,
Não tem a graça, a curva luminosa
Das linhas do teu corpo, amor e ardil.
Chamam-te linda, encantadora ou bela;
Da tua graça é pálida aguarela
Todo o nome que o mundo à graça der.
Pergunto a Deus o nome que hei-de dar-te,
E Deus responde em mim, por toda parte:
Não chames bela – Chama-lhe Mulher!
Rui de Noronha
Chamam-te linda, chamam-te formosa,
Chamam-te bela, chamam-te gentil...
A rosa é linda, é bela, é graciosa,
Porém a tua graça é mais subtil.
A onda que na praia, sinuosa,
A areia enfeita com encantos mil,
Não tem a graça, a curva luminosa
Das linhas do teu corpo, amor e ardil.
Chamam-te linda, encantadora ou bela;
Da tua graça é pálida aguarela
Todo o nome que o mundo à graça der.
Pergunto a Deus o nome que hei-de dar-te,
E Deus responde em mim, por toda parte:
Não chames bela – Chama-lhe Mulher!
Rui de Noronha
domingo, 6 de março de 2011
Parabéns GABO
Gabriel Garcia Marques é o autor de 2 livros simplesmente fabulosos: “Cem Anos de Solidão” e “Amor em tempos de cólera”, que eu, embora já tardiamente, li de supetão. Depois disso, li quase tudo da sua obra. Deixei, para o fim, VIVER PARA CONTÁ-LA, para eu ler se ele morrer antes de mim. Há cerca de 3 anos, recebi, pela primeira vez, o mail que corre na NET em que ele se despede dos amigos, após saber que se encontra gravemente doente. É um texto verdadeiramente comovente. Para felicidade de todos, ele continua entre nós.
Hoje, ele celebra o seu 84º Aniversário. Parabéns, GABO!
Nas sua obras, ele descreve-nos um mundo mítico e fantástico. Escreve no limite, no impossível.
Há algum tempo li, numa entrevista sua, em que confessa ter começado a escrever assim influenciado pela primeira frase com que Franz Kafka inicia o livro A Metamorfose:
«Certa manhã, ao acordar de sonhos inquietos, Gregor Samsa viu-se transformado num gigantesco insecto monstruoso».
Não era para menos!.
Hoje, ele celebra o seu 84º Aniversário. Parabéns, GABO!
Nas sua obras, ele descreve-nos um mundo mítico e fantástico. Escreve no limite, no impossível.
Há algum tempo li, numa entrevista sua, em que confessa ter começado a escrever assim influenciado pela primeira frase com que Franz Kafka inicia o livro A Metamorfose:
«Certa manhã, ao acordar de sonhos inquietos, Gregor Samsa viu-se transformado num gigantesco insecto monstruoso».
Não era para menos!.
sexta-feira, 4 de março de 2011
Pedro e Inês
Eugénio de Castro nasceu em Coimbra, em 4 de Março de 1969, e foi um poeta português, a quem não tem sido dado o devido valor.
Em 1900 foi publicada CONSTANÇA, «a sua obra mais profundamente portuguesa, aquela em que a sua alma mais conseguiu vibrar em uníssono com a alma do seu povo», no dizer de Miguel Unamumo.
Constança foi a esposa do infante D.Pedro, o da desafortunada Inês de Castro, cujos trágicos amores Camões imortalizou.
Constança foi a esposa do infante D.Pedro, o da desafortunada Inês de Castro, cujos trágicos amores Camões imortalizou.
Esta é a tragédia íntima e silenciosa da pobre esposa que vê como a sua mais fraternal amiga lhe rouba o coração do seu Pedro.
Ainda nas palavras de Miguel Unamuno, a figura de Constança parece um símbolo do próprio Portugal, deste desgraçado Portugal que desde Alcácer-Quibir vive submergido em sonhos de grandezas passadas.
Sem ser de propósito, a Companhia de Teatro O Bando estreia, hoje, a peça Pedro e Inês, peça escrita por Miguel Jesus e encenada por Anatoly Proudin, na qual são são revisitados os amores de Pedro e Inês. Depois dos espectáculos de hoje e amanhã em Guimarães, o Bando fará um périplo por várias cidades do país até chegar ao palco do Centro Cultural de Belém, a 9 de Junho.
Mas parece que, inexplicavelmente, pelo menos para mim, a figura de Constança, a mulher do infante D.Pedro, não entra nesta história. Será possível?
Mas parece que, inexplicavelmente, pelo menos para mim, a figura de Constança, a mulher do infante D.Pedro, não entra nesta história. Será possível?
quinta-feira, 3 de março de 2011
Um português na China
O jornal Correio da Manhã noticia, hoje, que a PJ do Porto deteve um cidadão chinês, indiciado por três crimes de tentativa de homicídio.
A comunidade chinesa em Portugal é considerada, em geral, discreta, trabalhadora e pacífica.
Aquele cidadão chinês deve ser, portanto, uma excepção. Se tivesse sido preso na China, iria passar, certamente, um mau bocado.
Aliás, o sistema judicial chinês é conhecido pela sua extrema severidade. E esta severidade não é só de hoje.
Já o nosso Fernão Mendes Pinto, quando chegou à cidade de Pequim, em Outubro de 1541, se espantou com a ordem em que aquele povo vivia:
«Assim que ninguém sai do limite e da ordem que lhe é posta pelos conchalis do governo, que são como almotacéis, sob pena de serem logo por isso gravemente punidos, porque é nesta terra o rei tão venerado e a justiça tão temida, que não há pessoa nenhuma, por grande que seja, que ouse a boquejar nem levantar os olhos para nenhum ministro da justiça, inda que seja upo de açoute, que são como algoses ou beleguins entre nós». (Peregrinação, pág.279, Edição Europa-América)
A comunidade chinesa em Portugal é considerada, em geral, discreta, trabalhadora e pacífica.
Aquele cidadão chinês deve ser, portanto, uma excepção. Se tivesse sido preso na China, iria passar, certamente, um mau bocado.
Aliás, o sistema judicial chinês é conhecido pela sua extrema severidade. E esta severidade não é só de hoje.
Já o nosso Fernão Mendes Pinto, quando chegou à cidade de Pequim, em Outubro de 1541, se espantou com a ordem em que aquele povo vivia:
«Assim que ninguém sai do limite e da ordem que lhe é posta pelos conchalis do governo, que são como almotacéis, sob pena de serem logo por isso gravemente punidos, porque é nesta terra o rei tão venerado e a justiça tão temida, que não há pessoa nenhuma, por grande que seja, que ouse a boquejar nem levantar os olhos para nenhum ministro da justiça, inda que seja upo de açoute, que são como algoses ou beleguins entre nós». (Peregrinação, pág.279, Edição Europa-América)
terça-feira, 1 de março de 2011
Camilo Pessanha
Interrogação
Não sei se isto é amor. Procuro o teu olhar,
Se alguma dor me fere, em busca de um abrigo;
E apesar disso, crê! nunca pensei num lar
Onde fosses feliz, e eu feliz contigo.
Por ti nunca chorei nenhum ideal desfeito.
E nunca te escrevi nenhuns versos românticos.
Nem depois de acordar te procurei no leito
Como a esposa sensual do Cântico dos Cânticos.
Se é amar-te não sei. Não sei se te idealizo
A tua cor sadia, o teu sorriso terno...
Mas sinto-me sorrir de ver esse sorriso
Que me penetra bem, como este sol de Inverno.
Passo contigo a tarde e sempre sem receio
Da luz crepuscular, que enerva, que provoca.
Eu não demoro o olhar na curva do teu seio
Nem me lembrei jamais de te beijar na boca.
Eu não sei se é amor. Será talvez começo...
Eu não sei que mudança a minha alma pressente...
Amor não sei se o é, mas sei que te estremeço,
Que adoecia talvez de te saber doente.
Camilo Pessanha
Não sei se isto é amor. Procuro o teu olhar,
Se alguma dor me fere, em busca de um abrigo;
E apesar disso, crê! nunca pensei num lar
Onde fosses feliz, e eu feliz contigo.
Por ti nunca chorei nenhum ideal desfeito.
E nunca te escrevi nenhuns versos românticos.
Nem depois de acordar te procurei no leito
Como a esposa sensual do Cântico dos Cânticos.
Se é amar-te não sei. Não sei se te idealizo
A tua cor sadia, o teu sorriso terno...
Mas sinto-me sorrir de ver esse sorriso
Que me penetra bem, como este sol de Inverno.
Passo contigo a tarde e sempre sem receio
Da luz crepuscular, que enerva, que provoca.
Eu não demoro o olhar na curva do teu seio
Nem me lembrei jamais de te beijar na boca.
Eu não sei se é amor. Será talvez começo...
Eu não sei que mudança a minha alma pressente...
Amor não sei se o é, mas sei que te estremeço,
Que adoecia talvez de te saber doente.
Camilo Pessanha
Já passaram 15 anos...
A vida é tão prodigiosa! Mas desse imenso prodígio como é ínfimo o que aproveitamos para ser o pleno de nós que entregaremos à morte.
(Vergílio Ferreira, in Escrever)
(Vergílio Ferreira, in Escrever)
domingo, 27 de fevereiro de 2011
Os "falsos" da NET
A NET está, desgraçadamente, infestada de “falsos” e, não obstante todos os cuidados, ainda caímos no engano. Foi o que me aconteceu, recentemente, ao encaminhar um vídeo com um poema com o título METADE, “da autoria do poeta Ferreira Gullar”, na voz de Oswaldo Montenegro.
Bem, vou ter que apresentar o meu pedido de desculpas a quem enviei tal vídeo, pois estamos perante mais um “falso”.
O poema METADE é da autoria de Oswaldo Montenegro, que o lançou em 1975, no libreto da peça teatral João Sem Nome.
Ferreira Gullar é o autor do poema TRADUZIR-SE, publicado no livro Vertigens do Dia, publicado em 1980.
As duas obras são completamente distintas, embora abordem, ambas, a dualidade humana.
Estes “falsos” são uma praga difícil de exorcizar, porque serão sempre mais os divulgadores do dolo dos que os combatem. Ao Fernando Pessoa são atribuídos poemas de arrepiar. Portanto, importa estar atento: se receberem o tal vídeo, que circula aí pela NET, não é verdade que o poema METADE seja, como lá se diz, da autoria de Ferreira Gullar.
Deixo aqui, para que conste, o poema TRADUZIR-SE do poeta brasileiro Ferreira Gullar, que foi contemplado com o prémio Camões, em 2010:
Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
Traduzir uma parte
na outra parte
_ que é uma questão
de vida ou morte _
será arte?
Ferreira Gullar, in Vertigens do Dia, 1980
Bem, vou ter que apresentar o meu pedido de desculpas a quem enviei tal vídeo, pois estamos perante mais um “falso”.
O poema METADE é da autoria de Oswaldo Montenegro, que o lançou em 1975, no libreto da peça teatral João Sem Nome.
Ferreira Gullar é o autor do poema TRADUZIR-SE, publicado no livro Vertigens do Dia, publicado em 1980.
As duas obras são completamente distintas, embora abordem, ambas, a dualidade humana.
Estes “falsos” são uma praga difícil de exorcizar, porque serão sempre mais os divulgadores do dolo dos que os combatem. Ao Fernando Pessoa são atribuídos poemas de arrepiar. Portanto, importa estar atento: se receberem o tal vídeo, que circula aí pela NET, não é verdade que o poema METADE seja, como lá se diz, da autoria de Ferreira Gullar.
Deixo aqui, para que conste, o poema TRADUZIR-SE do poeta brasileiro Ferreira Gullar, que foi contemplado com o prémio Camões, em 2010:
Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
Traduzir uma parte
na outra parte
_ que é uma questão
de vida ou morte _
será arte?
Ferreira Gullar, in Vertigens do Dia, 1980
sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011
Cesário Verde (2)
Cesário, uns meses antes de morrer, foi para Caneças, a dois passos de Lisboa, onde podia desfrutar de um clima seco. Cesário tem apenas 31 anos, mas já perdeu as ilusões:
- Curo-me? Sim, talvez. Mas como ficou eu? Um cangalho, um canastrão, um grande cesto roto, entra-me a chuva, entra-me o vento no corpo escangalhado...Mas o melhor será ouvir Mário Viegas ler a carta que Cesário escreveu ao Conde de Monsaraz:
- Curo-me? Sim, talvez. Mas como ficou eu? Um cangalho, um canastrão, um grande cesto roto, entra-me a chuva, entra-me o vento no corpo escangalhado...Mas o melhor será ouvir Mário Viegas ler a carta que Cesário escreveu ao Conde de Monsaraz:
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