A minha Lista de blogues

terça-feira, 21 de junho de 2011

Machado de Assis

Passam hoje 172 anos que nasceu, no Rio de Janeiro, o escritor Machado de Assis (1839-1908), filho de uma lavadeira açoriana, aquele que veio a ser considerado o grande pioneiro do realismo da literatura brasileira, sobretudo com MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS e DOM CASMURRO.

Machado de Assis fundou e foi o primeiro presidente, eleito por unânimidade, da Academia Brasileira de letras.

DOM CASMURRO vai ser a minha próxima leitura.

Antes, apenas li O ALIENISTA, narrativa em que o autor pretende chamar a atenção para a mentalidade cientificista que marcou o Séc. XIX. Trata-se de uma abordagem satírica e irónica da necessidade de justificar os excessos da ciência como uma condição para os avanços no futuro. Casa Verde, onde decorre a narrativa, acolhe todos os “loucos”, mas, no final, o único “louco” é o médico Simão Bracamarte, a personagem principal.

sábado, 11 de junho de 2011

A Minha Guerra - II

Há coisas na nossa vida que deixam marcas indeléveis para sempre.
A minha participação na Guerra Colonial, como aconteceu com outros da minha geração, é uma delas. Convém manter viva essa memória.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Luís de Camões na Casa Fernando Pessoa

No dia 7 deste mês, teve lugar na Casa Fernando Pessoa uma conferência sobre “Os Lusíadas”, de Luís de Camões, apresentada por Vasco Graça Moura, no âmbito do ciclo de conferências denominado “Livros Difíceis”.

Vasco Graça Moura fez uma exposição essencialmente académica. Portanto, nada a dizer.

Vasco Graça Moura considera Camões o maior vulto de toda a história portuguesa, por ter sido o fundador da língua portuguesa moderna. Logo, só há que respeitar.

A exposição foi totalmente consensual? Quase. No final, só duas questões, mas apenas a primeira é merecedora aqui da nossa atenção. Alguém colocou a seguinte questão: «Fernando Pessoa foi mesmo um anti-camoniano?» Argumentou o ouvinte ser arriscado afirmar que FP não foi um apreciador da obra de Camões, pois, como ele próprio afirmara, o poeta era um fingidor e, assim, o que ele dissera não seria para levar a sério.

VGM iniciara a sua exposição dizendo, justamente, que não deixava de ser irónico falar de “Os Lusíadas”, na casa de alguém que não apreciava Camões e que ele próprio se achava um super-Camões.

O orador teve, então, oportunidade para fundamentar o seu ponto de vista, apresentando, em sua defesa, os factos:

1. Fernando Pessoa escreveu, em 1934, um texto acerca de Camões, desvalorizando a sua obra;

2. No dia 7 de Abril de 1914, respondendo a um inquérito sobre «qual é o mais belo livro português dos últimos trinta anos?» para o jornal «República», Fernando Pessoa considerou a “Pátria” de Guerra Junqueiro como sua eleição, colocando-a mesmo à frente de “Os Lusíadas;

3. Fernando Pessoa não dedicou no seu livro “Mensagem” qualquer poema de exaltação a Camões, como o fez com tantas figuras da História de Portugal.

Tendo a concordar com VGM. Fernando Pessoa não apreciou de sobremaneira a obra de Camões, mas, nesse aspecto, como se sabe, não esteve isolado.

Há, na verdade, há alguns aspectos da obra que poderão ser discutidos (corresponde a narrativa camoniana ao modo realista e existencial, vivido pelos portugueses na sua peregrinação pelo mundo?), mas não são suficientes para deixar de considerar “Os Lusíadas” a epopeia portuguesa por excelência.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

A Nossa Senhora

Ainda a visita à Casa Museu José Régio, do passado dia 25 de Maio passado. Ao passar diante de uma bela imagem de madeira, a guia reuniu o grupo e explicou:

Esta imagem  de Nossa Senhora, em vida do poeta, estava ali ao cimo das escadas, logo à direita. Sempre que entrava em casa, José Régio falava com ela e, um dia, até lhe compôs um poema. A guia pegou num papel que estava na base da imagem e declamou esse belo poema:

Nossa Senhora
Tenho ao cimo da escada, de maneira
Que logo, entrando, os olhos me dão nela,
Uma Nossa Senhora de madeira,
Arrancada a um Calvário de Capela.

Põe as mãos com fervor e angústia.
O manto cobre-lhe a testa, os ombros, cai composto;
É uma expressão de febre e espanto;
Quase lhe afeia o fino rosto.

Mãe de Deus, seus olhos enovoados
Olham, chorosos, fixos muito além...
E eu, ao passar, detenho os passos apressados,
Peço-lhe – “ A sua benção, Mãe!”

Sim, fazemo-nos boa companhia
E não me assusta a Sua dor: quase me apraz
O filho dessa Mãe nunca mais morre. Aleluia!
Só isto bastaria a me dar paz.

“-Porque choras, Mulher?” – Docemente a repreendo.
Mas à minh´alma, então, chega de longe a sua voz
Que eu bem entendo: - “Não é por Ele...”
“Eu sei! Teus filhos somos nós!”

O mesmo poema é a razão deste vídeo:




sexta-feira, 27 de maio de 2011

Toada de Portalegre




«Em Portalegre, cidade
Do Alto Alentejo, cercada
De serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros
Morei numa casa velha,
Velha, grande, tosca e bela
À qual quis como se fora
Feita para eu morar nela...»
(...)





Na Quarta-Feira passada, dia 25 de Maio, fui visitar, na companhia de mais 13 amigos, o Museu José Régio em Portalegre.


José Régio nasceu e morreu em Vila do Conde (1901-1969), mas viveu grande parte da sua vida em Portalegre, onde foi professor, quase 40 anos (1928 a 1967). Deixou uma obra multifacetada. Foi, para além de escritor, desenhador, pintor, um grande coleccionador de arte sacra e e popular.

Nesta cidade do Alto Alentejo, ele escreveu a maior parte dos seus livros e, nos momentos de lazer, vagueava pelos campos a adquirir antiguidades, tendo uma verdadeira paixão pelos crucifixos.


A casa espanta-nos pelo número de crucifixos expostos (não os contei, mas são para cima de 400). Crucifixos de madeira, de metal, de barros, cristos toscos, elegantes, esquisitos, serenos, agonizantes, zangados por serem o Messias, descrentes na ressurreição. Há mesmo um de marfim branco com rubis a fazer as gotinhas de sangue. Em Régio, temos um cristianismo de lamento e não de alegria pela manhã da Páscoa da Ressurreição.

Cristo

Quando eu nasci, Senhor! já tu lá estavas,
Crucificado, lívido, esquecido.
Não respondeste, pois, ao meu gemido,
Que há muito tempo já que não falavas.

Redemoinhavam, longe, as turbas bravas,
Alevantando ao ar fumo e alarido.
E a tua benta Cruz de Deus vencido,
Quis eu erguê-la em minhas mãos escravas!

A turba veio então, seguiu-me os rastros;
E riu-se, e eu nem sequer fui açoitado,
E dos braços da Cruz fizeram mastros...

Senhor! eis-me vencido e tolerado:
Resta-me abrir os braços a teu lado,
E apodrecer contigo à luz dos astros!

Estamos perante um poeta angustiado na procura religiosa, numa insaciável busca de Deus. Olhemos para este poema, onde ele nos dá o conhecer o seu Cristo, crucificado, agonizante, esquecido, mas que ele quer abraçar.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

O poeta do Marão


No último fim de semana fui até Amarante, para ver o Tâmega e o Marão. Ficará para sempre gravada, na minha memória, a visão do Tâmega, naqueles dias de águas barrentas, serpenteando aquelas terras de Portugal. Visitei a Igreja e o Convento de São Gonçalo de Amarante – aquele que atirou o bordão ao rio e onde ele encalhasse seria erguida a sua ermida e a sua casa.


No último dia, já no regresso, peregrinei até à Casa de Teixeira de Pascoaes, o cantor do Marão e do Tâmega. Hoje, existe ali uma unidade de alojamento em Turismo de Habitação. No entanto, foi preservado um espaço dedicado ao poeta, conservando-se ainda a sua biblioteca, assim como os seus objectos pessoais, estando o espaço organizado de modo a recriar a ambiência de trabalho do poeta.

A visita foi possível graças à simpatia da Sra. D. Maria Amélia, com quem dois dias antes, através de telefonema realizado ainda em Lisboa, havia aprazado essa visita para as 10h30m do dia 22 de Maio. Tudo aconteceu como combinado. Tive assim a oportunidade de visitar a casa, bem como parte da quinta. Os herdeiros de Teixeira de Pascoaes, sobretudo a Sra. D. Maria Amélia (foi casada com João de Vasconcelos, sobrinho do poeta) lutam por manter viva esta memória e, até à presente data, conservam na sua posse todo o espólio literário do poeta. Será a melhor solução?

Tive na mão o livro, O MUNDO FECHADO, que a Agustina Bessa-Luís escreveu e enviou ao Teixeira de Pascoaes, em 1948, com uma dedicatória. Eu já ouvira a Agustina contar esta história. O Teixeira de Pacoaes era então uma respeitável figura das letras em Portugal e Agustina achou por bem pedir a sua “benção” para o primeiro livro. De referir que a casa de Pascoaes se situa na freguesia de São João de Gatão e a Agustina nasceu na freguesia de Vila Meã, ambas pertencentes ao concelho de Amarante. Teixeira de Pascoaes não terá respondido ou a sua resposta perdeu-se, tendo este episódio deixado sequelas para sempre, como pude comprovar agora. E, pelo que me foi dito, fiquei curioso de ler o SUSTO, que a Agustina veio a escrever dez anos mais tarde.

Foi muito gratificante ver um recanto da biblioteca, com lareira, onde o poeta Pascoaes recebia os amigos que o visitavam, no íntimo desta sua casa natal e solarenga. Por lá passaram inúmeros intelectuais, nacionais e estrangeiros, como, entre outros, Eugénio de Andrade, Mário Cesariny, Raul Brandão, Leonardo Coimbra, Jaime Cortesão.

Miguel Unamuno, poeta e filosofo espanhol, foi outro grande amigo de Pascoaes e visita frequente da casa de Gatão. Segundo conta Unamuno, em escrito de Fevereiro de 1908, depois de ter ter conhecido Pascoaes em Salamanca e o ter visitado depois no Porto, «de novo, já sem nos separarmos, tornei a conviver com Teixeira de Pascoaes, naquele recanto da sua Amarante, em meio do Portugal campestre e simples, pai do Portugal navegador e heróico».

Também eu, com Pascoaes e Unamuno, assomei àquela janela do miradouro, «para beber com os olhos a água do Tãmega, que vai

(...) compondo versos de neblina
Às arvores do monte, à dura fraga...
Elegias d´orvalho à luz divina,
Endeixas de remanso e cantos de água...»

Por fim, não posso deixar de recordar outro encontro de poetas nesta casa. Aconteceu em Setembro de 1951, quando Sebastião da Gama, o poeta da Arrábida, veio até Amarante, para visitar o poeta do Marão. Sebastião da Gama dizia que conhecemos os poetas no lugar que os fez. A propósito desse lugar que definitivamente dá feição aos poetas, disse então Teixeira de Pascoaes:  «A Arrábida é o altar do Mundo; eu pu-lo no Marão, porque sou daqui».

Regressei a Lisboa com a alma cheia de poesia, depois de visitar a casa do poeta que eu sempre vislumbrei de olhos fundos, de voz cansada, nevoento e pálido.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

A Minha Guerra

Já lá vão 37 anos, mas nunca é tarde. Eis um testemunho da minha participação na guerra colonial.

domingo, 15 de maio de 2011

Grandes Livros

Acabo de ler, ainda que tardiamente, Mau Tempo no Canal, de Vitorino Nemésio. É um romance publicado em 1949, sendo considerada uma das mais importantes narrativas da primeira metade do Século XX, em Portugal. A acção decorre nas ilhas do Faial, Terceira, Pico e na ilha de São Jorge entre 1917 e 1919 e retrata a sociedade açoriana, mais justamente, a sociedade estratificada da cidade da Horta, local onde decorre a intriga principal.

O livro começa com um namoro entre Margarida, filha de uma família aristocrática à beira da falência, e João Garcia, filho de Januário, pequenos burgueses com talento para o negócio mas escorraçados pelos primeiros, os Clark/Dulmo.

O pai de Margarida, Diogo, propõe-lhe que case com o tio Roberto, que virá de Londres e que, rico ainda, poderá salvar da desgraça os fidalgos arruinados seus parentes. Entretanto, Januário, pai de João, congemina vinganças contra os Clark Dulmo que tanto o despeitaram...

Mau Tempo no Canal conta, num ritmo lento, uma quantidade de histórias numa só, é uma trama que enreda uma série de sucedidos e cujo ponto de apoio mais evidente é a relação entre dois personagens (pouco apaixonante), entre duas famílias e entre dois estratos sociais.

Os afectos, as paixões e os amores surgem-nos inteiros, frescos, intensos. Entramos no coração de uma menina de boas famílias, dividida entre o amor original de um rapaz de família indesejada e o dever de alianças com famílias de bem. Neste livro, respira-se a maresia, sofremos a melancolia do mar, a sensação de lonjura, de liberdade e esperança: a sensação de ser ilhéu. Pode-se dizer, por isso, que estamos perante uma literatura regionalista.

No final, a Margarida acaba por fazer um casamento de acomodação, em face da fraqueza de João Garcia. O romance termina com Margarida, resignada, atirando o anel ao mar em sinal de renúncia.

domingo, 1 de maio de 2011

Cântico dos Cânticos

«Beije-me com os beijos da sua boca. Melhor as tuas carícias do que vinho. O aroma dos teus perfumes é melhor. Tua fama é odor que se derrama. Por isso as raparigas amam-te. Arrasta-me atrás de ti, corramos! Fez-me entrar o rei em sua penumbra. Folgaremos e alegrar-nos-emos contigo.»

Estes são os primeiros versículos do livro bíblico do Cântico dos Cânticos, que o actor e encenador Luís Miguel Cintra leu em Lisboa, na Capela do Rato, a 20 de Março.

A Igreja Católica, apenas um dia no ano, inclui na Liturgia da Palavra um excerto deste belo hino. É, pode dizer-se, uma leitura escondida,  reprimida.  Por isso, vale a pena ouvir:


 

terça-feira, 26 de abril de 2011

Paris, 26 de Abril de 1916

Fim

Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!

Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
A um morto nada se recusa,
Eu quero por força ir de burro.

Mário de Sá-Carneiro

segunda-feira, 25 de abril de 2011

O meu Capitão de Abril

A Salgueiro Maia

Aquele que na hora da vitória
respeitou o vencido

Aquele que deu tudo e não pediu a paga

Aquele que na hora da ganância
Perdeu o apetite

Aquele que amou os outros e por isso
Não colaborou com a sua ignorância ou vício

Aquele que foi «Fiel à palavra dada à ideia tida»
como antes dele mas também por ele
Pessoa disse.


Sophia de Mello Breyner Andresen

O sinal vermelho

A coluna do cap. Salgueiro Maia entra em Lisboa. De repente, estaca.
- Então, o que se passa agora? - pergunta Salgueiro Maia,
- É o sinal vermelho, meu capitão - Respondeu um soldado-condutor.
Que raio de revolução é esta que pára aos sinais vermelhos! - comenta o alferes Beato.

Acabo, agora,  mesmo de ver  na RTP-1, pela enésima vez, nos "Capitães de Abril". 

25 de Abril

Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
e livres habitamos a substância do tempo.

Sophia de Mello Breyner Andresen

quarta-feira, 20 de abril de 2011

O Eléctrico 28



O Eléctrico 28 foi seleccionado pela editora Rough Guide to the World como umas das 1.000 experiências de viagem mais importantes do mundo ("1.000 ultimate travel experiences"). O percurso do eléctrico, referido como uma viagem "slow-motion" pelo coração histórico da cidade de Lisboa.
Uma boa razão para um passeio por Lisboa, utilizando este meio de transporte. mais há ainda uma outra boa razão.
Fernando Pessoa nunca saiu de Lisboa. Ganhou o seu sustento como «correspondente estrangeiro», trabalhando em inúmeras firmas comerciais, todas situadas na Baixa de Lisboa. Nos últimos 15 anos de vida (1920-1935), morou na Rua Coelho da Rocha, nº 16, em Campo de Ourique. Como não tinha carro, o seu transporte de casa para o emprego era o eléctrico 28.
Antes de chegar ao bairro de Campo de Ourique, enquanto o eléctrico faz a viagem, Pessoa escreveu:
«Vou num carro eléctrico, e estou reparando lentamente, conforme é meu costume, em todo os pormenores das pessoas que vão adiante de mim. Para mim, os pormenores são coisas, vozes, letras. Entonteço. Os bancos do eléctrico levam-me a regiões distantes, multiplicam-se-me em vidas, realidades, tudo. Saio do eléctrico exausto e sonâmbulo. Vivi a vida inteira».

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Carta a Carlos Pinto Coelho

Nunca nos cruzámos, mas, hoje, escrevo-te esta carta por um motivo: o livro APARIÇÃO, de Vergílio Ferreira. Ontem, por mero acaso, navegando pelo YouTube, vi,  pela primeira vez, um programa da RTPN, o qual, com muita pena minha, eu desconhecia e estava a passar ao lado. O programa chama-se Ler+, Ler Melhor. Vi, então, na NET uns tantos programas atrasados. O primeiro vídeo mostra-nos a tua escolha. Para grande surpresa minha, a escolha foi APARIÇÃO, de Vergílio Ferreira. Espanto total! O “Sr. Acontece”, que me havia dado a conhecer tantos e bons livros, veio dizer que o livro da sua vida era a APARIÇÃO, de Vergílio Ferreira.
Aqui tens a razão desta minha carta.  Obrigado, amigo, por este tesouro:


Foi José Luis Borges que disse: «Sempre imaginei o paraíso como uma grande biblioteca».

Meu bom amigo, lá na tua nova morada, estás rodeado - tenho a certeza - de muitos livros e, num lugar de destaque, lá está o livro de capa amarela, que tanto te desassossegou quando, ainda jovem, o leste.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Grandes Livros

Acabo de ler PEREGRINAÇÃO, de Fernão Mendes Pinto. Não é tarefa fácil falar desta narrativa que se desenvolve ao longo de 226 capítulos e onde encontramos um número considerável de nomes exóticos: 530 nomes e apenas 186 (cerca de um terço) estão identificados.
Fernão Mendes Pinto tentou, como tantos outros, a sua sorte em terras do Oriente, embarcando para a Índia em 11 de Março de 1537. Regressou a Lisboa em 22 de Setembro de 1558.
Desiludido com a forma como foram recebidos os trabalhos que apresentou à rainha Dona Catarina (o Rei D. João III falecera no ano anterior), desabafou: «e nisto vieram a parar meus serviços de vinte e um anos, nos quais fui treze vezes cativo e dezasseis vendido...».
Podemos dizer, em resumo, que estamos perante uma narrativa que evidencia a desagregação do império, transformando os portugueses em grupos avulsos, divididos entre a missionação, a rapinagem e o confessado roubo.

Há que diga que esta narrativa é, por isso, um anti-Lusíadas. Afirmação curiosa!.
Mas será que, alguma vez, Fernão Mendes Pinto e Luís de Camões se cruzaram?.
Camões chegou à Índia em Setembro de 1553. Fernão Mendes Pinto, que já andava por aquelas terras há mais de 15 anos, passou por Goa, nos primeiros meses do ano de 1554, acompanhando o cadáver de Francisco Xavier, para ali ser enterrado, pois este padre jesuíta falecera dois anos antes em Sanchão quando ia a caminho da China.
É bem provável que tal encontro tenha acontecido, quer nos primeiros meses do ano de 1554, quer, depois, no ano de 1556, sendo Governador de Goa um tal Francisco Barreto, quando há notícia dos dois terem passado, nesse ano, por Goa.
Esta suposição não é despicienda, visto que há autores que admitem que Fernão Mendes Pinto e Luís de Camões se encontraram, nesta cidade, numa tertúlia, que incluiria ainda outras figuras, como Garcia de Orta e Diogo do Couto.
Anos mais tarde, Fernão Mendes Pinto regressou a Lisboa em 22 de Setembro de 1958, enquanto que o regresso de Luís de Camões a Lisboa aconteceu em 7 de Abril de 1570.
Fernão Mendes Pinto foi para Vale de Rosal, em Almada, onde se manteve até à morte e onde escreveu, entre 1570 e 1578, a obra que nos legou, a sua inimitável Peregrinação. Esta só viria a ser publicada 20 anos após a morte do autor, receando-se que o original tenha sofrido alterações às quais não seriam alheios os Jesuítas.
Luís de Camões, embora mais novo, morreu em 10 de Junho de 1580, enquanto que Fernão Mendes Pinto veio a falecer 3 anos mais tarde, em 8 de Julho de 1583.

Não havendo certezas quanto a um encontro entre estes 2 grandes escritores da Língua Portuguesa, neste período de 1570 a 1580, em que eles viveram por perto, sempre podemos imaginar, deste modo, o seguinte diálogo entre os dois:
- Amigo Fernão, somos um povo de heróis - disse Luís de Camões;
- Amigo Luís, somos um povo de heróis e de canalhas. Se um dia somos capazes dos maiores feitos, no outro cometemos os crimes mais cruéis – respondeu Fernão Mendes Pinto.

sábado, 9 de abril de 2011

Um sogro do melhorio...

Decorre, neste fim de semana, em Matosinhos, o Congresso do Partido Socialista, com grande fervor militante em volta do seu grande timoneiro.
Estreia-se ali, aliás, um filme com o título "Um sogro do melhorio", que retrata a tragédia portuguesa, e que tem, à frente do elenco, um grande actor, José Sócrates.
A propósito, alguém sabe quem é o melhor sogro do Mundo?.
A resposta é: José Sócrates. Porquê?. PORQUE DEIXOU TUDO À NORA.
Perante este espectáculo torpe da vida pública, só apetece dizer, como Herculano: "Isto dá vontade de morrer!".

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Vem aí o FMI

No dia em que os senhores do FMI desembarcam em Lisboa, preparando-se para infernizar o juízo dos portugueses, almocei no Eleven. Saiu-me carote (mesmo com desconto), mas começou, desta maneira, a minha forte e determinada oposição aos senhores do FMI. Para que saibam... 

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Estamos num beco sem saída?

Corre na NET um vídeo em que vemos um Professor de uma Universidade de Madrid dar uma aula de Economia, sob o tema MORTE E RESSURREIÇÃO DE KEYNES.

A ortodoxia económica, na nova versão Keynesiana, advoga, para a situação actual, politicas fiscais expansionistas (diminuição de impostos e aumento dos gastos do Estado).

A União Europeia (entenda-se aqui a sra. Merkel) receita o aumento de impostos e a diminuição dos gastos do Estado.

A primeira, traz subida do Deficit e da Dívida Pública; a segunda, acarreta mais desemprego e recessão. Venha o diabo e escolha...

Na minha modesta opinião, querer aplicar a receita Keynesiana numa economia em que os governantes já não dominam todas as ferramentas (mormente, a taxa de juro e taxa de câmbio) não pode, de maneira nenhuma, dar bom resultado.

Ou caminhamos para um espaço totalmente integrado nas suas politicas (e adeus soberania) ou saímos do Euro (ou, no mesmo, da União Europeia), o que, dizem os sábios, acarretaria agora custos elevados.

Parece-me que confiámos, em demasia, que os nossos amigos da Europa nos deitavam a mão, mas, agora, na hora do aperto, cada um salva-se como pode.

Estamos num beco sem saída?.

Enfim, a nação atravessa um momento de enorme desespero e, por mim, só me apetece dizer como o poeta António Botto: «Amigos, / Que desgraça nascer em Portugal».

segunda-feira, 21 de março de 2011

Eu conto como foi

Ontem, vi mais um episódio que a RTP 1 está a passar ao domingo à noite e que se chama “Conta-me como foi”. Trata-se de um retrato muito interessante de uma família da classe média no tempo da primavera Marcelista. No episódio de ontem, o filho mais velho do casal Lopes, que interrompeu os estudos universitários para ir para a tropa, comunicou à família, com muito custo, que estava mobilizado para Moçambique. Vamos ver, agora, se ele, como uma pessoa que só eu conheço, vai omitir o dia da partida, para evitar dramas maiores. Comovi-me, caramba.