A minha Lista de blogues

domingo, 17 de julho de 2011

Os livros que eu li

Como anunciado, acabei ler, já há uns dias, o Dom Casmurro, do Machado de Assis.

O livro foi publicado em 1900 e é um dos romance mais conhecidos de Machado de Assis. Narra em primeira pessoa a história de Bentinho que, por circunstâncias várias, se vai fechando em si mesmo e passa a ser conhecido como Dom Casmurro. A história é a seguinte: Órfão de pai, criado com desvelo pela mãe (D. Glória), protegido do mundo pelo círculo doméstico e familiar (tia Justina, tio Cosme, José Dias), Bentinho é destinado à vida sacerdotal, em cumprimento de uma antiga promessa de sua mãe.

A vida do seminário, no entanto, não o atrai. Como tal, inicia o namoro com Capitu, filha dos vizinhos. Apesar de comprometida pela promessa, também D. Glória sofre com a ideia de separar-se do filho único. Por expediente de José Dias, Bentinho abandona o seminário e, em seu lugar, ordena-se um escravo.

Correm os anos e com eles o amor de Bentinho e Capitu. Entre o namoro e o casamento, Bentinho forma-se em Direito e estreita a sua amizade com um ex-colega de seminário, Escobar, que casa com Sancha, amiga de Capitu.

Do casamento de Bentinho e Capitu nasceu Ezequiel. Escobar morre e, durante seu enterro, Bentinho julga estranha a forma pela qual Capitu contempla o cadáver. A partir daí, os ciúmes vão aumentando e precipita-se a crise. À medida que cresce, Ezequiel torna-se cada vez mais parecido com Escobar. Bentinho, muito ciumento, chega a planear o assassinato da esposa e do filho, seguido de suicídio, mas não tem coragem. A tragédia dilui-se na separação do casal.

Capitu viaja com o filho para a Europa, onde morre anos depois. Ezequiel, já adolescente, volta ao Brasil para visitar o pai, que apenas constata a semelhança entre ele e o antigo colega de seminário. Ezequiel volta a viajar e morre no estrangeiro. Bentinho, cada vez mais fechado nas suas dúvidas, passa a ser chamado de casmurro pelos amigos e vizinhos e põe-se a escrever a sua vida (o romance).

Até meio do romance, sucedem-se os estratagemas de Bentinho para não seguir a vida eclesiástica. Eu estava curioso para ver a fórmula final que o autor ia encontrar para fechar este enredo. Por instantes, pensei no António da “Manhã Submersa”, do Vergílio Ferreira. Não, o Machado de Assis não foi por aí. Com pena minha…

terça-feira, 21 de junho de 2011

Machado de Assis

Passam hoje 172 anos que nasceu, no Rio de Janeiro, o escritor Machado de Assis (1839-1908), filho de uma lavadeira açoriana, aquele que veio a ser considerado o grande pioneiro do realismo da literatura brasileira, sobretudo com MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS e DOM CASMURRO.

Machado de Assis fundou e foi o primeiro presidente, eleito por unânimidade, da Academia Brasileira de letras.

DOM CASMURRO vai ser a minha próxima leitura.

Antes, apenas li O ALIENISTA, narrativa em que o autor pretende chamar a atenção para a mentalidade cientificista que marcou o Séc. XIX. Trata-se de uma abordagem satírica e irónica da necessidade de justificar os excessos da ciência como uma condição para os avanços no futuro. Casa Verde, onde decorre a narrativa, acolhe todos os “loucos”, mas, no final, o único “louco” é o médico Simão Bracamarte, a personagem principal.

sábado, 11 de junho de 2011

A Minha Guerra - II

Há coisas na nossa vida que deixam marcas indeléveis para sempre.
A minha participação na Guerra Colonial, como aconteceu com outros da minha geração, é uma delas. Convém manter viva essa memória.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Luís de Camões na Casa Fernando Pessoa

No dia 7 deste mês, teve lugar na Casa Fernando Pessoa uma conferência sobre “Os Lusíadas”, de Luís de Camões, apresentada por Vasco Graça Moura, no âmbito do ciclo de conferências denominado “Livros Difíceis”.

Vasco Graça Moura fez uma exposição essencialmente académica. Portanto, nada a dizer.

Vasco Graça Moura considera Camões o maior vulto de toda a história portuguesa, por ter sido o fundador da língua portuguesa moderna. Logo, só há que respeitar.

A exposição foi totalmente consensual? Quase. No final, só duas questões, mas apenas a primeira é merecedora aqui da nossa atenção. Alguém colocou a seguinte questão: «Fernando Pessoa foi mesmo um anti-camoniano?» Argumentou o ouvinte ser arriscado afirmar que FP não foi um apreciador da obra de Camões, pois, como ele próprio afirmara, o poeta era um fingidor e, assim, o que ele dissera não seria para levar a sério.

VGM iniciara a sua exposição dizendo, justamente, que não deixava de ser irónico falar de “Os Lusíadas”, na casa de alguém que não apreciava Camões e que ele próprio se achava um super-Camões.

O orador teve, então, oportunidade para fundamentar o seu ponto de vista, apresentando, em sua defesa, os factos:

1. Fernando Pessoa escreveu, em 1934, um texto acerca de Camões, desvalorizando a sua obra;

2. No dia 7 de Abril de 1914, respondendo a um inquérito sobre «qual é o mais belo livro português dos últimos trinta anos?» para o jornal «República», Fernando Pessoa considerou a “Pátria” de Guerra Junqueiro como sua eleição, colocando-a mesmo à frente de “Os Lusíadas;

3. Fernando Pessoa não dedicou no seu livro “Mensagem” qualquer poema de exaltação a Camões, como o fez com tantas figuras da História de Portugal.

Tendo a concordar com VGM. Fernando Pessoa não apreciou de sobremaneira a obra de Camões, mas, nesse aspecto, como se sabe, não esteve isolado.

Há, na verdade, há alguns aspectos da obra que poderão ser discutidos (corresponde a narrativa camoniana ao modo realista e existencial, vivido pelos portugueses na sua peregrinação pelo mundo?), mas não são suficientes para deixar de considerar “Os Lusíadas” a epopeia portuguesa por excelência.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

A Nossa Senhora

Ainda a visita à Casa Museu José Régio, do passado dia 25 de Maio passado. Ao passar diante de uma bela imagem de madeira, a guia reuniu o grupo e explicou:

Esta imagem  de Nossa Senhora, em vida do poeta, estava ali ao cimo das escadas, logo à direita. Sempre que entrava em casa, José Régio falava com ela e, um dia, até lhe compôs um poema. A guia pegou num papel que estava na base da imagem e declamou esse belo poema:

Nossa Senhora
Tenho ao cimo da escada, de maneira
Que logo, entrando, os olhos me dão nela,
Uma Nossa Senhora de madeira,
Arrancada a um Calvário de Capela.

Põe as mãos com fervor e angústia.
O manto cobre-lhe a testa, os ombros, cai composto;
É uma expressão de febre e espanto;
Quase lhe afeia o fino rosto.

Mãe de Deus, seus olhos enovoados
Olham, chorosos, fixos muito além...
E eu, ao passar, detenho os passos apressados,
Peço-lhe – “ A sua benção, Mãe!”

Sim, fazemo-nos boa companhia
E não me assusta a Sua dor: quase me apraz
O filho dessa Mãe nunca mais morre. Aleluia!
Só isto bastaria a me dar paz.

“-Porque choras, Mulher?” – Docemente a repreendo.
Mas à minh´alma, então, chega de longe a sua voz
Que eu bem entendo: - “Não é por Ele...”
“Eu sei! Teus filhos somos nós!”

O mesmo poema é a razão deste vídeo:




sexta-feira, 27 de maio de 2011

Toada de Portalegre




«Em Portalegre, cidade
Do Alto Alentejo, cercada
De serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros
Morei numa casa velha,
Velha, grande, tosca e bela
À qual quis como se fora
Feita para eu morar nela...»
(...)





Na Quarta-Feira passada, dia 25 de Maio, fui visitar, na companhia de mais 13 amigos, o Museu José Régio em Portalegre.


José Régio nasceu e morreu em Vila do Conde (1901-1969), mas viveu grande parte da sua vida em Portalegre, onde foi professor, quase 40 anos (1928 a 1967). Deixou uma obra multifacetada. Foi, para além de escritor, desenhador, pintor, um grande coleccionador de arte sacra e e popular.

Nesta cidade do Alto Alentejo, ele escreveu a maior parte dos seus livros e, nos momentos de lazer, vagueava pelos campos a adquirir antiguidades, tendo uma verdadeira paixão pelos crucifixos.


A casa espanta-nos pelo número de crucifixos expostos (não os contei, mas são para cima de 400). Crucifixos de madeira, de metal, de barros, cristos toscos, elegantes, esquisitos, serenos, agonizantes, zangados por serem o Messias, descrentes na ressurreição. Há mesmo um de marfim branco com rubis a fazer as gotinhas de sangue. Em Régio, temos um cristianismo de lamento e não de alegria pela manhã da Páscoa da Ressurreição.

Cristo

Quando eu nasci, Senhor! já tu lá estavas,
Crucificado, lívido, esquecido.
Não respondeste, pois, ao meu gemido,
Que há muito tempo já que não falavas.

Redemoinhavam, longe, as turbas bravas,
Alevantando ao ar fumo e alarido.
E a tua benta Cruz de Deus vencido,
Quis eu erguê-la em minhas mãos escravas!

A turba veio então, seguiu-me os rastros;
E riu-se, e eu nem sequer fui açoitado,
E dos braços da Cruz fizeram mastros...

Senhor! eis-me vencido e tolerado:
Resta-me abrir os braços a teu lado,
E apodrecer contigo à luz dos astros!

Estamos perante um poeta angustiado na procura religiosa, numa insaciável busca de Deus. Olhemos para este poema, onde ele nos dá o conhecer o seu Cristo, crucificado, agonizante, esquecido, mas que ele quer abraçar.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

O poeta do Marão


No último fim de semana fui até Amarante, para ver o Tâmega e o Marão. Ficará para sempre gravada, na minha memória, a visão do Tâmega, naqueles dias de águas barrentas, serpenteando aquelas terras de Portugal. Visitei a Igreja e o Convento de São Gonçalo de Amarante – aquele que atirou o bordão ao rio e onde ele encalhasse seria erguida a sua ermida e a sua casa.


No último dia, já no regresso, peregrinei até à Casa de Teixeira de Pascoaes, o cantor do Marão e do Tâmega. Hoje, existe ali uma unidade de alojamento em Turismo de Habitação. No entanto, foi preservado um espaço dedicado ao poeta, conservando-se ainda a sua biblioteca, assim como os seus objectos pessoais, estando o espaço organizado de modo a recriar a ambiência de trabalho do poeta.

A visita foi possível graças à simpatia da Sra. D. Maria Amélia, com quem dois dias antes, através de telefonema realizado ainda em Lisboa, havia aprazado essa visita para as 10h30m do dia 22 de Maio. Tudo aconteceu como combinado. Tive assim a oportunidade de visitar a casa, bem como parte da quinta. Os herdeiros de Teixeira de Pascoaes, sobretudo a Sra. D. Maria Amélia (foi casada com João de Vasconcelos, sobrinho do poeta) lutam por manter viva esta memória e, até à presente data, conservam na sua posse todo o espólio literário do poeta. Será a melhor solução?

Tive na mão o livro, O MUNDO FECHADO, que a Agustina Bessa-Luís escreveu e enviou ao Teixeira de Pascoaes, em 1948, com uma dedicatória. Eu já ouvira a Agustina contar esta história. O Teixeira de Pacoaes era então uma respeitável figura das letras em Portugal e Agustina achou por bem pedir a sua “benção” para o primeiro livro. De referir que a casa de Pascoaes se situa na freguesia de São João de Gatão e a Agustina nasceu na freguesia de Vila Meã, ambas pertencentes ao concelho de Amarante. Teixeira de Pascoaes não terá respondido ou a sua resposta perdeu-se, tendo este episódio deixado sequelas para sempre, como pude comprovar agora. E, pelo que me foi dito, fiquei curioso de ler o SUSTO, que a Agustina veio a escrever dez anos mais tarde.

Foi muito gratificante ver um recanto da biblioteca, com lareira, onde o poeta Pascoaes recebia os amigos que o visitavam, no íntimo desta sua casa natal e solarenga. Por lá passaram inúmeros intelectuais, nacionais e estrangeiros, como, entre outros, Eugénio de Andrade, Mário Cesariny, Raul Brandão, Leonardo Coimbra, Jaime Cortesão.

Miguel Unamuno, poeta e filosofo espanhol, foi outro grande amigo de Pascoaes e visita frequente da casa de Gatão. Segundo conta Unamuno, em escrito de Fevereiro de 1908, depois de ter ter conhecido Pascoaes em Salamanca e o ter visitado depois no Porto, «de novo, já sem nos separarmos, tornei a conviver com Teixeira de Pascoaes, naquele recanto da sua Amarante, em meio do Portugal campestre e simples, pai do Portugal navegador e heróico».

Também eu, com Pascoaes e Unamuno, assomei àquela janela do miradouro, «para beber com os olhos a água do Tãmega, que vai

(...) compondo versos de neblina
Às arvores do monte, à dura fraga...
Elegias d´orvalho à luz divina,
Endeixas de remanso e cantos de água...»

Por fim, não posso deixar de recordar outro encontro de poetas nesta casa. Aconteceu em Setembro de 1951, quando Sebastião da Gama, o poeta da Arrábida, veio até Amarante, para visitar o poeta do Marão. Sebastião da Gama dizia que conhecemos os poetas no lugar que os fez. A propósito desse lugar que definitivamente dá feição aos poetas, disse então Teixeira de Pascoaes:  «A Arrábida é o altar do Mundo; eu pu-lo no Marão, porque sou daqui».

Regressei a Lisboa com a alma cheia de poesia, depois de visitar a casa do poeta que eu sempre vislumbrei de olhos fundos, de voz cansada, nevoento e pálido.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

A Minha Guerra

Já lá vão 37 anos, mas nunca é tarde. Eis um testemunho da minha participação na guerra colonial.

domingo, 15 de maio de 2011

Grandes Livros

Acabo de ler, ainda que tardiamente, Mau Tempo no Canal, de Vitorino Nemésio. É um romance publicado em 1949, sendo considerada uma das mais importantes narrativas da primeira metade do Século XX, em Portugal. A acção decorre nas ilhas do Faial, Terceira, Pico e na ilha de São Jorge entre 1917 e 1919 e retrata a sociedade açoriana, mais justamente, a sociedade estratificada da cidade da Horta, local onde decorre a intriga principal.

O livro começa com um namoro entre Margarida, filha de uma família aristocrática à beira da falência, e João Garcia, filho de Januário, pequenos burgueses com talento para o negócio mas escorraçados pelos primeiros, os Clark/Dulmo.

O pai de Margarida, Diogo, propõe-lhe que case com o tio Roberto, que virá de Londres e que, rico ainda, poderá salvar da desgraça os fidalgos arruinados seus parentes. Entretanto, Januário, pai de João, congemina vinganças contra os Clark Dulmo que tanto o despeitaram...

Mau Tempo no Canal conta, num ritmo lento, uma quantidade de histórias numa só, é uma trama que enreda uma série de sucedidos e cujo ponto de apoio mais evidente é a relação entre dois personagens (pouco apaixonante), entre duas famílias e entre dois estratos sociais.

Os afectos, as paixões e os amores surgem-nos inteiros, frescos, intensos. Entramos no coração de uma menina de boas famílias, dividida entre o amor original de um rapaz de família indesejada e o dever de alianças com famílias de bem. Neste livro, respira-se a maresia, sofremos a melancolia do mar, a sensação de lonjura, de liberdade e esperança: a sensação de ser ilhéu. Pode-se dizer, por isso, que estamos perante uma literatura regionalista.

No final, a Margarida acaba por fazer um casamento de acomodação, em face da fraqueza de João Garcia. O romance termina com Margarida, resignada, atirando o anel ao mar em sinal de renúncia.

domingo, 1 de maio de 2011

Cântico dos Cânticos

«Beije-me com os beijos da sua boca. Melhor as tuas carícias do que vinho. O aroma dos teus perfumes é melhor. Tua fama é odor que se derrama. Por isso as raparigas amam-te. Arrasta-me atrás de ti, corramos! Fez-me entrar o rei em sua penumbra. Folgaremos e alegrar-nos-emos contigo.»

Estes são os primeiros versículos do livro bíblico do Cântico dos Cânticos, que o actor e encenador Luís Miguel Cintra leu em Lisboa, na Capela do Rato, a 20 de Março.

A Igreja Católica, apenas um dia no ano, inclui na Liturgia da Palavra um excerto deste belo hino. É, pode dizer-se, uma leitura escondida,  reprimida.  Por isso, vale a pena ouvir:


 

terça-feira, 26 de abril de 2011

Paris, 26 de Abril de 1916

Fim

Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!

Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
A um morto nada se recusa,
Eu quero por força ir de burro.

Mário de Sá-Carneiro

segunda-feira, 25 de abril de 2011

O meu Capitão de Abril

A Salgueiro Maia

Aquele que na hora da vitória
respeitou o vencido

Aquele que deu tudo e não pediu a paga

Aquele que na hora da ganância
Perdeu o apetite

Aquele que amou os outros e por isso
Não colaborou com a sua ignorância ou vício

Aquele que foi «Fiel à palavra dada à ideia tida»
como antes dele mas também por ele
Pessoa disse.


Sophia de Mello Breyner Andresen

O sinal vermelho

A coluna do cap. Salgueiro Maia entra em Lisboa. De repente, estaca.
- Então, o que se passa agora? - pergunta Salgueiro Maia,
- É o sinal vermelho, meu capitão - Respondeu um soldado-condutor.
Que raio de revolução é esta que pára aos sinais vermelhos! - comenta o alferes Beato.

Acabo, agora,  mesmo de ver  na RTP-1, pela enésima vez, nos "Capitães de Abril". 

25 de Abril

Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
e livres habitamos a substância do tempo.

Sophia de Mello Breyner Andresen

quarta-feira, 20 de abril de 2011

O Eléctrico 28



O Eléctrico 28 foi seleccionado pela editora Rough Guide to the World como umas das 1.000 experiências de viagem mais importantes do mundo ("1.000 ultimate travel experiences"). O percurso do eléctrico, referido como uma viagem "slow-motion" pelo coração histórico da cidade de Lisboa.
Uma boa razão para um passeio por Lisboa, utilizando este meio de transporte. mais há ainda uma outra boa razão.
Fernando Pessoa nunca saiu de Lisboa. Ganhou o seu sustento como «correspondente estrangeiro», trabalhando em inúmeras firmas comerciais, todas situadas na Baixa de Lisboa. Nos últimos 15 anos de vida (1920-1935), morou na Rua Coelho da Rocha, nº 16, em Campo de Ourique. Como não tinha carro, o seu transporte de casa para o emprego era o eléctrico 28.
Antes de chegar ao bairro de Campo de Ourique, enquanto o eléctrico faz a viagem, Pessoa escreveu:
«Vou num carro eléctrico, e estou reparando lentamente, conforme é meu costume, em todo os pormenores das pessoas que vão adiante de mim. Para mim, os pormenores são coisas, vozes, letras. Entonteço. Os bancos do eléctrico levam-me a regiões distantes, multiplicam-se-me em vidas, realidades, tudo. Saio do eléctrico exausto e sonâmbulo. Vivi a vida inteira».

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Carta a Carlos Pinto Coelho

Nunca nos cruzámos, mas, hoje, escrevo-te esta carta por um motivo: o livro APARIÇÃO, de Vergílio Ferreira. Ontem, por mero acaso, navegando pelo YouTube, vi,  pela primeira vez, um programa da RTPN, o qual, com muita pena minha, eu desconhecia e estava a passar ao lado. O programa chama-se Ler+, Ler Melhor. Vi, então, na NET uns tantos programas atrasados. O primeiro vídeo mostra-nos a tua escolha. Para grande surpresa minha, a escolha foi APARIÇÃO, de Vergílio Ferreira. Espanto total! O “Sr. Acontece”, que me havia dado a conhecer tantos e bons livros, veio dizer que o livro da sua vida era a APARIÇÃO, de Vergílio Ferreira.
Aqui tens a razão desta minha carta.  Obrigado, amigo, por este tesouro:


Foi José Luis Borges que disse: «Sempre imaginei o paraíso como uma grande biblioteca».

Meu bom amigo, lá na tua nova morada, estás rodeado - tenho a certeza - de muitos livros e, num lugar de destaque, lá está o livro de capa amarela, que tanto te desassossegou quando, ainda jovem, o leste.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Grandes Livros

Acabo de ler PEREGRINAÇÃO, de Fernão Mendes Pinto. Não é tarefa fácil falar desta narrativa que se desenvolve ao longo de 226 capítulos e onde encontramos um número considerável de nomes exóticos: 530 nomes e apenas 186 (cerca de um terço) estão identificados.
Fernão Mendes Pinto tentou, como tantos outros, a sua sorte em terras do Oriente, embarcando para a Índia em 11 de Março de 1537. Regressou a Lisboa em 22 de Setembro de 1558.
Desiludido com a forma como foram recebidos os trabalhos que apresentou à rainha Dona Catarina (o Rei D. João III falecera no ano anterior), desabafou: «e nisto vieram a parar meus serviços de vinte e um anos, nos quais fui treze vezes cativo e dezasseis vendido...».
Podemos dizer, em resumo, que estamos perante uma narrativa que evidencia a desagregação do império, transformando os portugueses em grupos avulsos, divididos entre a missionação, a rapinagem e o confessado roubo.

Há que diga que esta narrativa é, por isso, um anti-Lusíadas. Afirmação curiosa!.
Mas será que, alguma vez, Fernão Mendes Pinto e Luís de Camões se cruzaram?.
Camões chegou à Índia em Setembro de 1553. Fernão Mendes Pinto, que já andava por aquelas terras há mais de 15 anos, passou por Goa, nos primeiros meses do ano de 1554, acompanhando o cadáver de Francisco Xavier, para ali ser enterrado, pois este padre jesuíta falecera dois anos antes em Sanchão quando ia a caminho da China.
É bem provável que tal encontro tenha acontecido, quer nos primeiros meses do ano de 1554, quer, depois, no ano de 1556, sendo Governador de Goa um tal Francisco Barreto, quando há notícia dos dois terem passado, nesse ano, por Goa.
Esta suposição não é despicienda, visto que há autores que admitem que Fernão Mendes Pinto e Luís de Camões se encontraram, nesta cidade, numa tertúlia, que incluiria ainda outras figuras, como Garcia de Orta e Diogo do Couto.
Anos mais tarde, Fernão Mendes Pinto regressou a Lisboa em 22 de Setembro de 1958, enquanto que o regresso de Luís de Camões a Lisboa aconteceu em 7 de Abril de 1570.
Fernão Mendes Pinto foi para Vale de Rosal, em Almada, onde se manteve até à morte e onde escreveu, entre 1570 e 1578, a obra que nos legou, a sua inimitável Peregrinação. Esta só viria a ser publicada 20 anos após a morte do autor, receando-se que o original tenha sofrido alterações às quais não seriam alheios os Jesuítas.
Luís de Camões, embora mais novo, morreu em 10 de Junho de 1580, enquanto que Fernão Mendes Pinto veio a falecer 3 anos mais tarde, em 8 de Julho de 1583.

Não havendo certezas quanto a um encontro entre estes 2 grandes escritores da Língua Portuguesa, neste período de 1570 a 1580, em que eles viveram por perto, sempre podemos imaginar, deste modo, o seguinte diálogo entre os dois:
- Amigo Fernão, somos um povo de heróis - disse Luís de Camões;
- Amigo Luís, somos um povo de heróis e de canalhas. Se um dia somos capazes dos maiores feitos, no outro cometemos os crimes mais cruéis – respondeu Fernão Mendes Pinto.

sábado, 9 de abril de 2011

Um sogro do melhorio...

Decorre, neste fim de semana, em Matosinhos, o Congresso do Partido Socialista, com grande fervor militante em volta do seu grande timoneiro.
Estreia-se ali, aliás, um filme com o título "Um sogro do melhorio", que retrata a tragédia portuguesa, e que tem, à frente do elenco, um grande actor, José Sócrates.
A propósito, alguém sabe quem é o melhor sogro do Mundo?.
A resposta é: José Sócrates. Porquê?. PORQUE DEIXOU TUDO À NORA.
Perante este espectáculo torpe da vida pública, só apetece dizer, como Herculano: "Isto dá vontade de morrer!".

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Vem aí o FMI

No dia em que os senhores do FMI desembarcam em Lisboa, preparando-se para infernizar o juízo dos portugueses, almocei no Eleven. Saiu-me carote (mesmo com desconto), mas começou, desta maneira, a minha forte e determinada oposição aos senhores do FMI. Para que saibam... 

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Estamos num beco sem saída?

Corre na NET um vídeo em que vemos um Professor de uma Universidade de Madrid dar uma aula de Economia, sob o tema MORTE E RESSURREIÇÃO DE KEYNES.

A ortodoxia económica, na nova versão Keynesiana, advoga, para a situação actual, politicas fiscais expansionistas (diminuição de impostos e aumento dos gastos do Estado).

A União Europeia (entenda-se aqui a sra. Merkel) receita o aumento de impostos e a diminuição dos gastos do Estado.

A primeira, traz subida do Deficit e da Dívida Pública; a segunda, acarreta mais desemprego e recessão. Venha o diabo e escolha...

Na minha modesta opinião, querer aplicar a receita Keynesiana numa economia em que os governantes já não dominam todas as ferramentas (mormente, a taxa de juro e taxa de câmbio) não pode, de maneira nenhuma, dar bom resultado.

Ou caminhamos para um espaço totalmente integrado nas suas politicas (e adeus soberania) ou saímos do Euro (ou, no mesmo, da União Europeia), o que, dizem os sábios, acarretaria agora custos elevados.

Parece-me que confiámos, em demasia, que os nossos amigos da Europa nos deitavam a mão, mas, agora, na hora do aperto, cada um salva-se como pode.

Estamos num beco sem saída?.

Enfim, a nação atravessa um momento de enorme desespero e, por mim, só me apetece dizer como o poeta António Botto: «Amigos, / Que desgraça nascer em Portugal».

segunda-feira, 21 de março de 2011

Eu conto como foi

Ontem, vi mais um episódio que a RTP 1 está a passar ao domingo à noite e que se chama “Conta-me como foi”. Trata-se de um retrato muito interessante de uma família da classe média no tempo da primavera Marcelista. No episódio de ontem, o filho mais velho do casal Lopes, que interrompeu os estudos universitários para ir para a tropa, comunicou à família, com muito custo, que estava mobilizado para Moçambique. Vamos ver, agora, se ele, como uma pessoa que só eu conheço, vai omitir o dia da partida, para evitar dramas maiores. Comovi-me, caramba.

Dia Mundial da Poesia

«O poema obriga a pernoitar na solidão dos bosques, em campos nevados. Que outra verdade existe no mundo para lá daquela que não pertence a este mundo?»
José Tolentino Mendonça, in Diário de Notícias (Madeira)

quinta-feira, 17 de março de 2011

A geração "Os vencidos da vida"

Corre, na NET, um texto do Eça de Queiróz, escrito em 1867, e publicado no jornal “O Distrito de Évora”, que permite discorrer acerca da situação actual,  por se vislumbrar ali um curioso paralelismo entre os dois tempos históricos.

Hoje, está na ordem do dia a “Geração Rasca”, para uns, ou a “Geração à Rasca”, para outros.

O "Protesto da Geração à Rasca", assim intitulado, ocorrido no passado Sábado, recolheu, unanimemente, grandes elogios, tendo-lhe sido apontado, porém, um pequeno (ou grande) senão: não apresentou soluções nem compromissos.

O nosso Eça, também ele, pertenceu (foi aliás um dos grandes vultos) a uma famosa geração, a Geração de 70, a par de Antero de Quental, Oliveira Martins e outros.

Apresentaram um diagnóstico correcto da situação (vide “Causas da Decadência dos Povos Peninsulares”, de Antero de Quental, onde está lá tudo), mas acabaram por não conseguir fazer nada (muito menos executar) para modificar o país.

A “Geração de 70” acabou, como se sabe, na geração "Os Vencidos da Vida”.

E a “Geração à Rasca”?

quarta-feira, 16 de março de 2011

Brincar com o fogo...

O mundo está hoje confrontado com as notícias dramáticas de mais um sismo no Japão, mas desta vez, segundo informação oficial, com uma magnitude de 8,9 na escala de Richter, o mais intenso dos últimos 40 anos.

O Japão é um país distante, mas, não obstante, o povo português contactou aquela gente há mais de 400 anos.

Em 1544, Fernão Mendes Pinto desembarcou na Ilha de Tanixumá, «que é a primeira terra do Japão», como escreveu.

Como é sabido, foram os portugueses que deram a conhecer aos japoneses a espingarda. Fernando Mendes Pinto descreveu-nos assim o espanto dos japoneses ao verem, pela primeira vez, uma arma de fogo:

«Os japões, vendo aquele novo modo de tiros que nunca até então tinham visto, deram rebate disso ao nautoquim que neste tempo estava vendo correr uns cavalos que lhe tinham trazido de fora, o qual espantado desta novidade, mandou logo chamar o Zeimoto ao paul onde andava caçando, e quando o viu vir com a espingarda às costas, e dous chins carregados de caça, fez disto tamanho caso que em todas as cousas se lhe enxergava o gosto do que via, porque como até então naquela terra nunca se tinha visto tiro de fogo, não se sabiam determinar com o que aquilo era, nem entendiam o segredo da pólvora, e assentaram todos que era feitiçaria».

Relata ainda Fernando Mendes Pinto que, uns dias após este episódio, aconteceu um desastre a um filho de El-Rei daquela Ilha de Tanixumá. Aproveitando estar o FMP a dormir, aquele Príncipe levou, sem autorização, a espingarda, e «pondo-lhe fogo, quis a desaventura que arrebentou por três partes...de que o moço logo caiu no chão como morto...». Grande alarme na população indígena: «A espingarda do estrangeiro matou o filho de El-Rei!».

Bem, o nosso FMP, viu-se, de um momento para o outro, em maus lençóis. El-Rei exigiu-lhe, sob pena de morte, que curasse o filho. «E encomendando-me a Deus, e fazendo-me (como se diz) das tripas coração, por ver que não tinha ali outro remédio, e que se assim o não fizesse me haviam de cortar a cabeça, preparei tudo o que era necessário para a cura...». FMP relatou assim como ele se desembaraçou daquela situação, provocada por um mau manuseamento de uma arma de fogo, até então desconhecida daquele povo.

Os jornais de hoje falam-nos de um “Apocalipse” no Japão, com a situação fora de controlo. A situação na central nuclear de Fuxima degrada-se de dia para dia, apesar dos esforços do Governo.

Esta situação de catástrofe levará certamente o governantes daquele país a reflectir seriamente acerca da opção nuclear.

Na verdade, construir centrais nucleares num país que está sentado numa placa tectónica, não parece ser boa e avisada solução.

É, no fundo, brincar com o fogo...

(Livro citado: Peregrinação, de Fernando Mendes Pinto, Edição Europa-América, pág 25, 31, 39 e 43 do Vol.II)

sábado, 12 de março de 2011

Levanta a tua voz

No dia de toda a inquietação, deixo aqui o meu mote para a chamada geração à rasca:

«Grita em voz alta, sem te cansares. Levanta a tua voz como uma trombeta»

Da Bíblia Sagrada

terça-feira, 8 de março de 2011

Chama-lhe Mulher!

MULHER

Chamam-te linda, chamam-te formosa,
Chamam-te bela, chamam-te gentil...
A rosa é linda, é bela, é graciosa,
Porém a tua graça é mais subtil.

A onda que na praia, sinuosa,
A areia enfeita com encantos mil,
Não tem a graça, a curva luminosa
Das linhas do teu corpo, amor e ardil.

Chamam-te linda, encantadora ou bela;
Da tua graça é pálida aguarela
Todo o nome que o mundo à graça der.

Pergunto a Deus o nome que hei-de dar-te,
E Deus responde em mim, por toda parte:
Não chames bela – Chama-lhe Mulher!

Rui de Noronha

domingo, 6 de março de 2011

Parabéns GABO

Gabriel Garcia Marques é o autor de 2 livros simplesmente fabulosos: “Cem Anos de Solidão” e “Amor em tempos de cólera”, que eu, embora já tardiamente, li de supetão. Depois disso, li quase tudo da sua obra. Deixei, para o fim, VIVER PARA CONTÁ-LA, para eu ler se ele morrer antes de mim. Há cerca de 3 anos, recebi, pela primeira vez, o mail que corre na NET em que ele se despede dos amigos, após saber que se encontra gravemente doente. É um texto verdadeiramente comovente. Para felicidade de todos, ele continua entre nós.
Hoje, ele celebra o seu 84º Aniversário. Parabéns, GABO!
Nas sua obras, ele descreve-nos um mundo mítico e fantástico. Escreve no limite, no impossível.
Há algum tempo li, numa entrevista sua, em que confessa ter começado a escrever assim influenciado pela primeira frase com que Franz Kafka inicia o livro A Metamorfose:
«Certa manhã, ao acordar de sonhos inquietos, Gregor Samsa viu-se transformado num gigantesco insecto monstruoso».
Não era para menos!.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Pedro e Inês

Eugénio de Castro nasceu em Coimbra, em 4 de Março de 1969, e foi um poeta português, a quem não tem sido dado o devido valor.
Em 1900 foi publicada CONSTANÇA, «a sua obra mais profundamente portuguesa, aquela em que a sua alma mais conseguiu vibrar em uníssono com a alma do seu povo»,  no dizer de Miguel Unamumo.
Constança foi a esposa do infante D.Pedro, o da desafortunada Inês de Castro, cujos trágicos amores Camões imortalizou.
Esta é a tragédia íntima e silenciosa da pobre esposa que vê como a sua mais fraternal amiga lhe rouba o coração do seu Pedro.
Ainda nas palavras de Miguel Unamuno, a figura de Constança parece um símbolo do próprio Portugal, deste desgraçado Portugal que desde Alcácer-Quibir vive submergido em sonhos de grandezas passadas.
Sem ser de propósito, a Companhia de Teatro O Bando estreia, hoje, a peça Pedro e Inês, peça escrita por Miguel Jesus e encenada por Anatoly Proudin, na qual são são revisitados os amores de Pedro e Inês. Depois dos espectáculos de hoje e amanhã em Guimarães, o Bando fará um périplo por várias cidades do país até chegar ao palco do Centro Cultural de Belém, a 9 de Junho.
Mas parece que, inexplicavelmente, pelo menos para mim, a figura de Constança, a mulher do infante D.Pedro, não entra nesta história. Será possível?

quinta-feira, 3 de março de 2011

Um português na China

O jornal Correio da Manhã noticia, hoje, que a PJ do Porto deteve um cidadão chinês, indiciado por três crimes de tentativa de homicídio.
A comunidade chinesa em Portugal é considerada, em geral, discreta, trabalhadora e pacífica.
Aquele cidadão chinês deve ser, portanto, uma excepção. Se tivesse sido preso na China, iria passar, certamente, um mau bocado.
Aliás, o sistema judicial chinês é conhecido pela sua extrema severidade. E esta severidade não é só de hoje.
Já o nosso Fernão Mendes Pinto, quando chegou à cidade de Pequim, em Outubro de 1541, se espantou com a ordem em que aquele povo vivia:
«Assim que ninguém sai do limite e da ordem que lhe é posta pelos conchalis do governo, que são como almotacéis, sob pena de serem logo por isso gravemente punidos, porque é nesta terra o rei tão venerado e a justiça tão temida, que não há pessoa nenhuma, por grande que seja, que ouse a boquejar nem levantar os olhos para nenhum ministro da justiça, inda que seja upo de açoute, que são como algoses ou beleguins entre nós». (Peregrinação, pág.279, Edição Europa-América)

terça-feira, 1 de março de 2011

Camilo Pessanha

Interrogação

Não sei se isto é amor. Procuro o teu olhar,
Se alguma dor me fere, em busca de um abrigo;
E apesar disso, crê! nunca pensei num lar
Onde fosses feliz, e eu feliz contigo.

Por ti nunca chorei nenhum ideal desfeito.
E nunca te escrevi nenhuns versos românticos.
Nem depois de acordar te procurei no leito
Como a esposa sensual do Cântico dos Cânticos.

Se é amar-te não sei. Não sei se te idealizo
A tua cor sadia, o teu sorriso terno...
Mas sinto-me sorrir de ver esse sorriso
Que me penetra bem, como este sol de Inverno.

Passo contigo a tarde e sempre sem receio
Da luz crepuscular, que enerva, que provoca.
Eu não demoro o olhar na curva do teu seio
Nem me lembrei jamais de te beijar na boca.

Eu não sei se é amor. Será talvez começo...
Eu não sei que mudança a minha alma pressente...
Amor não sei se o é, mas sei que te estremeço,
Que adoecia talvez de te saber doente.

Camilo Pessanha

Já passaram 15 anos...

A vida é tão prodigiosa! Mas desse imenso prodígio como é ínfimo o que aproveitamos para ser o pleno de nós que entregaremos à morte.
(Vergílio Ferreira, in Escrever)

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Os "falsos" da NET

A NET está, desgraçadamente, infestada de “falsos” e, não obstante todos os cuidados, ainda caímos no engano. Foi o que me aconteceu, recentemente, ao encaminhar um vídeo com um poema com o título METADE, “da autoria do poeta Ferreira Gullar”, na voz de Oswaldo Montenegro.
Bem, vou ter que apresentar o meu pedido de desculpas a quem enviei tal vídeo, pois estamos perante mais um “falso”.
O poema METADE é da autoria de Oswaldo Montenegro, que o lançou em 1975, no libreto da peça teatral João Sem Nome.
Ferreira Gullar é o autor do poema TRADUZIR-SE, publicado no livro Vertigens do Dia, publicado em 1980.
As duas obras são completamente distintas, embora abordem, ambas, a dualidade humana.
Estes “falsos” são uma praga difícil de exorcizar, porque serão sempre mais os divulgadores do dolo dos que os combatem. Ao Fernando Pessoa são atribuídos poemas de arrepiar. Portanto, importa estar atento: se receberem o tal vídeo, que circula aí pela NET, não é verdade que o poema METADE seja, como lá se diz, da autoria de Ferreira Gullar.
Deixo aqui, para que conste, o poema TRADUZIR-SE do poeta brasileiro Ferreira Gullar, que foi contemplado com o prémio Camões, em 2010:

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
_ que é uma questão
de vida ou morte _
será arte?


Ferreira Gullar, in Vertigens do Dia, 1980

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Cesário Verde (2)

Cesário, uns meses antes de morrer, foi para Caneças, a dois passos de Lisboa, onde podia desfrutar de um clima seco. Cesário tem apenas 31 anos, mas já perdeu as ilusões:
- Curo-me? Sim, talvez. Mas como ficou eu? Um cangalho, um canastrão, um grande cesto roto, entra-me a chuva, entra-me o vento no corpo escangalhado...Mas o melhor será ouvir Mário Viegas ler a carta que Cesário escreveu ao Conde de Monsaraz:

Se queres ter um amigo...

Livro de Eclesiástico 6,5-17.

Palavras amáveis multiplicam os amigos, a linguagem afável atrai muitas respostas agradáveis. Procura estar de bem com muitos, mas escolhe para conselheiro um entre mil. Se queres ter um amigo, põe-no primeiro à prova, não confies nele muito depressa. Com efeito, há amigos de ocasião, que não são fiéis no dia da tribulação. Há amigo que se torna inimigo, que desvendará as tuas fraquezas, para tua vergonha. Há amigo que só o é para a mesa, e que deixará de o ser no dia da desgraça; na tua prosperidade mostra-se igual a ti, dirigindo-se com à vontade aos teus servos; mas, se te colhe o infortúnio, volta-se contra ti, e oculta-se da tua presença. Afasta-te daqueles que são teus inimigos, e está alerta com os teus amigos. Um amigo fiel é uma poderosa protecção; quem o encontrou, descobriu um tesouro. Nada se pode comparar a um amigo fiel, e nada se iguala ao seu valor. Um amigo fiel é um bálsamo de vida; os que temem o Senhor acharão tal amigo. O que teme o Senhor terá também boas amizades, porque o seu amigo será semelhante a ele.

Cesário Verde (1)




Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.





Assim começa O Sentimento dum Ocidental (Avé-Marias), poema de Cesário Verde, publicado no Jornal de Viagens do Porto, em 1880, nas comemorações do tricentenário da morte de Camões. Andavam, porém, todos muito distraídos, pois ninguém lhe deu o devido valor. Só anos mais tarde, muitos, Fernando Pessoa, primeira vez, através do seu heterónimo Álvaro de Campos, bradou bem forte:
- Ó Cesário Verde, ó Mestre!
E, depois, através de Alberto Caeiro:
“Leio até me arderem os olhos / O Livro de Cesário Verde”.
Faz hoje 156 que nasceu Cesário Verde, vindo a falecer, em 1886, quando contava 31 anos de idade, tuberculoso. Participou, em 1881, nas reunião do chamado Grupo do Leão (referência ao restaurante “Leão de Ouro”), com outros literatos: Abel Botelho, Fialho de Almeida, entre outros. Também participaram nessa tertúlia pintores da época, como José Malhoa, Alberto de Oliveira e os irmãos Columbano e Rafael Bordalo Pinheiro. O “Grupo do Leão” foi imortalizado em 1885 num conhecido quadro a óleo sobre tela da autoria do Columbano. Cesário Verde, tal como Fialho de Almeida, foram esquecidos pelo pintor. Esquecimento? Talvez não...
Não faz mal, porque, dessa tertúlia, será Cesário, um não pintor, que antecipará a chegada do impressionismo a Portugal. O seu poema De Tarde é como uma tela de Renoir ou, quiçá, a representação do “Almoço na Relva” de Manet:

Naquele pic-nic de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampamos, inda o Sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão-de-ló molhado em malvasia

Mas, todo púrpuro a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto
da merenda
O ramalhete rubro das papoulas!

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

O povo é quem mais ordena



Faz hoje 24 anos que morreu Zeca Afonso, quando contava 57 anos. Deixou-nos, entre outras coisas bonitas, esta porta para ABRIL.

Grândola, vila morena
Terra da fraternidade
O povo é quem mais ordena
Dentro de ti, ó cidade

Dentro de ti, ó cidade
O povo é quem mais ordena
Terra da fraternidade
Grândola, vila morena

Em cada esquina um amigo
Em cada rosto igualdade
Grândola, vila morena
Terra da fraternidade

Terra da fraternidade
Grândola, vila morena
Em cada rosto igualdade
O povo é quem mais ordena

À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade
Jurei ter por companheira
Grândola a tua vontade.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Jogo da Cabra Cega, de José Régio

José Régio escreveu o romance Jogo da Cabra Cega, em 1934, ainda no início da sua carreira literária. Ele próprio disse, mais tarde, em 1967, em carta dirigida a uma amiga: «É um livro de abandono e excesso, em que o escritor estava ainda muito adolescente. Não pense que o desestimo, gosto muito de o ter escrito com aquela coragem quase inconsciente...». Por isso, a crítica literária refere que estamos perante um Romance de Formação. Refere, ainda essa crítica literária, que se trata de um Romance Psicológico, por apresentar as seguintes características: (i) a acção não avança por efeitos externos; (ii) recorre abundantemente à memória; (iii) é patente a influência de Freud (embora Régio diga que, à data, ainda não conhecia Freud - estamos perante uma pré-experiência?). O resultado é, como o próprio Régio reconhece, «um romance com uma intensidade quase frenética e quase desarrumada». É ainda Régio que aceita como boa a influência que Dostoievski exerceu sobre a sua escrita, «À parte o ele ser um génio de primeira grandeza, com ele reconhecia profundas afinidades: sobretudo no seu turvo e fascinante misticismo, e no seu sublime debate entre o Bem e o Mal na alma do homem». Aliás, Régio reflectiu sempre, como sabemos, ao longo da sua obra, problemas relativos ao conflito entre o Bem e o Mal, o individuo e a sociedade, Deus e o Diabo.  «Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém./ Todos tiveram pai, todos tiveram mãe; / Mas eu, que nunca principio nem acabo,/ Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo». Escreveu Régio escreveu, de forma sublime, em Cântico Negro.
David Mourão Ferreira diz que «Régio recorre a Deus quando “incompreendido e escorraçado”. Recorre, portanto, por orgulho – e, sendo como é o orgulho uma característica eminentemente diabólica, Régio dialoga com Deus através de Lúcifer. Esta será, talvez, uma das maiores originalidades da sua poesia, a mais frequente e a mais fecunda.»
Sem dúvida, um livro importante que marca o início da 2ª fase do Modernismo (dando continuidade ao género literário iniciado com Pessoa e Mário de Sá-Carneiro), ousando, aliás, contrariar os tempos emergentes do neo-realismo.
Jogo da Cabra Cega é um livro autobiográfico?. Tratando-se de uma ficção, será que, mesmo assim, é um livro autobiográfico? Há quem defenda que sim, dizendo que a ficção nunca mente: revela o escritor na sua totalidade.
Em o Jogo da Cabra Cega encontramos um Eu que procura identificar-se com outro Eu. Aqui encontramos semelhanças óbvias com a Confissão de Lúcio, de Mário de Sá-Carneiro, de quem Régio era admirador confesso. Lá, como Ricardo e Lúcio eram o espelho um do outro, aqui, o autor conduz-nos, igualmente, para essa relação de amor/ódio (confusão/fragmentação) entre as duas personagens principais da narrativa: Pedro Serra e Jaime Franco.
Estamos assim perante uma perfeita fragmentação do sujeito, um sujeito, no fundo, estilhaçado. Esta ideia está bem expressa no poema A Jaula e as Feras, «-Meu corpo, ó meu hospício de alienados! / Abre-te aos meus desejos enjaulados, / Deixa-os despedaçar a minha vida!».
O jogo da cabra cega é, como se sabe, um jogo em que a gente procura agarrar alguém, e reconhecê-lo, com os braços estendidos e os olhos vendados. Pedro Serra, alter-ego de Régio, percorre, às palpadelas, o labirinto da sua mente imaginária, qual hospício de alienados!.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Namoro

Viriato da Cruz, poeta angolano, foi considerado um dos mais importantes impulsionadores de uma poesia regionalista angolana, nas décadas de 40 e 50, e um dos lideres da luta pela libertação de Angola.
Na década de 60 tornou-se Secretário-Geral do MPLA – Movimento Popular de Libertação de Angola, partido esse que ajudou a fundar, juntamente com Mário Pinto de Andrade. Mais tarde, dissabores com Agostinho Neto irão obrigá-lo a abandonar o partido; Neto defendia um comunismo soviético e, Viriato, um comunismo maoísta.
Vai para Pequim em 1966, isto é, no início da "revolução cultural". Mais tarde, cai em divergências com os dirigentes chineses, os quais, contrariando a sua vontade, não o deixaram sair do país. Morre em 1973, tendo sido humilhante a forma como foi sepultado no cemitério dos estrangeiros.
Viriato da Cruz deixou-nos um dos poemas mais bonitos acerca dos namorados. O poema chama-se NAMORO e conta uma linda história de amor. Fausto fez a música que todos conhecem, mas, hoje, o que conta é o poema:

Mandei-lhe uma carta em papel perfumado
e com letra bonita eu disse ela tinha
um sorrir luminoso tão quente e gaiato
como o sol de Novembro brincando
de artista nas acácias floridas
espalhando diamantes na fímbria do mar
e dando calor ao sumo das mangas

Sua pele macia - era sumaúma...
Sua pele macia, da cor do jambo, cheirando a rosas
sua pele macia guardava as doçuras do corpo rijo
tão rijo e tão doce - como o maboque...
Seus seios, laranjas - laranjas do Loje
seus dentes... - marfim...
Mandei-lhe essa carta
e ela disse que não.

Mandei-lhe um cartão
que o amigo Maninho tipografou:
"Por ti sofre o meu coração"
Num canto - SIM, noutro canto - NÃO
E ela o canto do NÃO dobrou

Mandei-lhe um recado pela Zefa do Sete
pedindo, rogando de joelhos no chão
pela Senhora do Cabo, pela Santa Ifigenia,
me desse a ventura do seu namoro...
E ela disse que não.

Levei á Avo Chica, quimbanda de fama
a areia da marca que o seu pé deixou
para que fizesse um feitiço forte e seguro
que nela nascesse um amor como o meu...
E o feitiço falhou.

Esperei-a de tarde, á porta da fabrica,
ofertei-lhe um colar e um anel e um broche,
paguei-lhe doces na calçada da Missão,
ficamos num banco do largo da Estátua,
afaguei-lhe as mãos...
falei-lhe de amor... e ela disse que não.

Andei barbudo, sujo e descalço,
como um mona-ngamba.
Procuraram por mim
"-Não viu...(ai, não viu...?) não viu Benjamim?"
E perdido me deram no morro da Samba.

Para me distrair
levaram-me ao baile do Sô Januario
mas ela lá estava num canto a rir
contando o meu caso
as moças mais lindas do Bairro Operário.

Tocaram uma rumba - dancei com ela
e num passo maluco voamos na sala
qual uma estrela riscando o céu!
E a malta gritou: "Aí Benjamim !"
Olhei-a nos olhos - sorriu para mim
pedi-lhe um beijo - e ela disse que sim


Viriato da Cruz

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Um momento histórico?

Ontem, à noite, assisti na SICNotícias a um Momento Histórico, para um dia recordar... Com muita pena, só assisti à parte final. Falava então o bloquista Daniel Oliveira e que dizia ele?. Pois que a Direcção do BE, ao anunciar ir apresentar no Parlamento uma moção de censura ao Governo, demonstrava encontrar-se num momento de grande perturbação! Momento Histórico! Gritou logo o seu antagonista de debate, Luís Delgado, perante a estupefacção da moderadora, Ana Lourenço. E eu concordo. Corri para o Arrastão, na procura de mais pormenores. Ainda não há nada. Temos de aguardar. Para já, pelo Eixo do Mal, logo à noite.
Era bom, para mim, ver o Daniel Oliveira, a quem reconheço inteligência, desmarcar-se dos bloquistas (o que não será fácil). Depois do que está a acontecer, o Bloco só merece desprezo.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Sebastião da Gama (quando eu morri...)

Passam, hoje, 59 anos sobre a morte de Sebastião da Gama, o poeta da Arrábida. Faleceu no Hospital de S. Luís, em Lisboa, no dia 7 de Fevereiro de 1952, pelas 8h30 da manhã.
A tuberculose, de que padecia desde a sua junventude, vencera-o, pondo fim a um percurso de 27 anos, cheio de escrita e de leitura.
Bem, por mim, gostaria só de corrigir a hora oficial da sua morte. O poeta morreu, não às 8h30, mas sim pelas 9h15. É ele que o diz no:

Poema da minha esperança

Que bom ter o relógio adiantado!...
A gente assim, por saber
que tem sempre tempo a mais,
não se rala nem se apressa.

O meu sorriso de troça,
Amigos!,
quando vejo o meu relógio
com três quartos de hora a mais!...

Tic-tac... Tic-tac...
(Lá pensa ele
que é já o fim dos meus dias.)

Tic-tac...
(Como eu rio, cá p'ra dentro,
de esta coisa divertida:
ele a julgar que é já o resto
e eu a saber que tenho sempre mais
três quartos de hora de vida.)
Sebastião da Gama, in Serra-Mãe

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Almeida Garrett

Comemora-se, hoje, mais um aniversário de Almeida Garrett. Nasceu no Porto, no dia 4 de Fevereiro de 1799. Porto, Cidade de Garrett, no dizer do poeta Eugénio de Andrade.
Garrett que ousou escreveu, para nosso espanto:
«E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico?» Almeida Garrett, in As Viagens na Minha Terra, pág. 51.
Por mim, não encontro melhor maneira de o felicitar senão destacar aqui o seu poema intitulado A UM AMIGO, no qual ele, justamente, felicita um seu amigo por ocasião de mais um aniversário.
A um Amigo
Fiel ao costume antigo,
Trago ao meu jovem amigo
Versos próprios deste dia.
E que de os ver tão singelos,
Tão simples como eu, não ria:
Qualquer os fará mais belos,
Ninguém tão d’alma os faria.

Que sobre a flor de seus anos
Soprem tarde os desenganos;
Que em torno os bafeje amor,
Amor da esposa querida,
Prolongando a doce vida
Fruto que suceda à flor.

Recebe este voto, amigo,
Que eu, fiel ao uso antigo,
Quis trazer-te neste dia
Em poucos versos singelos.
Qualquer os fará mais belos,
Ninguém tão d’alma os faria.

Almeida Garrett, in 'Folhas Caídas

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

O Quarto do Filho

Ontem, à noite, tive a oportunidade de rever “O Quarto do Filho”, um filme de Nanni Moretti. Impressionante. Retrato implacável. Olhei mais para a figura do pai (desempenhada pelo próprio realizador). Uma dedicação (se calhar excessiva) ao trabalho. O dia fatídico. O acidente. A dor. A revolta. A culpa. A desorganização da família. A discussão entre o casal. A mulher que acha que o marido não quer falar do assunto e quer, ao mesmo tempo, impedir que ela fale sobre o mesmo. O nervosismo que se instala em cada um (a cena da filha que, por nada, discute com o árbitro num jogo de basquetebol). A não aceitação de ajuda de terceiros, mesmo a do padre da missa do sétimo dia. “Mas que frase aquela, sem sentido!” - diz ele. “Não sabemos a que horas vem o ladrão, se soubéssemos, trancávamos todas as portas” - dissera o padre, citando o Evangelho: “Há que aceitar os desígnios de Deus, com fé" - dissera o padre ainda. Mas, o pai não aceita. É uma revolta muito grande. Por fim, uma carta redentora. Todos agarram aquela oportunidade com força. Para tanto, a família viaja de carro, toda da noite, para ajudar a ex-namorada do filho. No carro todos dormem, à excepção do casal. Diz ele: “Mantemo-nos acordados um ao outro”. E eu? E nós? Será que, um dia, vamos receber a tal carta redentora?.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

A Confissão de Lúcio, de Mário de Sá-Carneiro (2)

Volto aqui à Confissão de Lúcio, de Mário de Sá-Carneiro, após ter participado, no dia 19 deste mês, no Grupo de Leituras sobre Narrativa Portuguesa, que teve lugar na Fundação das Casas de Fronteira e Alorna. A palestrante foi a Profª. Maria Helena Santana e teve a presença da Profª. Maria Alzira Seixo, como convidada especial.
Do que li e do que ouvi, deixo aqui, por isso, mais uns tantos comentários.
A questão principal parece, pois, ser a seguinte: De quem é a confissão desta narrativa? De Lúcio? De Ricardo? Do próprio Mário de Sá-Carneiro?
O argumento da narrativa, recorrendo curiosamente ao formato de um romance policial, é muito simples: Após 10 anos de prisão, Lúcio decide dar uma confissão sincera que explica todas as circunstâncias do assassinato envolvido em mistério e demonstrar a sua inocência.
As personagens principais da narrativa são três. Lúcio, Ricardo e Marta. E o enredo é também incrivelmente (ou só aparentemente) simples:
1- Lúcio vai para Paris estudar Direito, ou melhor, não estudar...Aí conhece Ricardo Loureiro, por quem logo experimentou uma viva simpatia. Os dois participam numa espectáculo assombroso, oferecido pela amiga americana. A “Orgia do Fogo” foi assim um espectáculo de luzes, corpos, aromas, fogo e água!. Mas, para Lúcio, a lembrança deste fabuloso espectáculo ficou gravada na sua lembrança, não por a ter vivido, mas sim porque, dessa noite, nasceu a sua amizade por Ricardo!. Esse encontro marcou o princípio da sua vida!.
2-  Esse relacionamento intensifica-se e Ricardo revela-se: «Diga-me, Lúcio, você não é sujeito a certos medos inexplicáveis, destrambelhados?» Ricardo diz ainda: «a minha alma não se angustia apenas, a minha alma sangra»...«Sim, a minha pobre alma anda morta de sono, e não deixam dormir - tem frio e não a sei aquecer! Endurece-se-me toda, toda!»...«Até que um dia (oh! É fatal) ela se me partirá, voará em estilhaços... a minha pobre alma! A minha pobre alma!»
3- Ricardo encheu-se coragem para confessar: «É isto só: não posso ser amigo de ninguém...não proteste..eu não sou seu amigo. Nunca soube ter afectos (já lhe contei), apenas ternuras. A amizade máxima, para mim, traduzir-se-ia unicamente pela maior ternura. E uma ternura traz sempre consigo um desejo caricioso: um desejo de beijar...de estreitar...Enfim: de possuir!»
Atente-se como M.S.C. condensou toda a narrativa nesta quadra do poema:
"Não sou amigo de ninguém. Pra o ser
Forçoso me era antes possuir
Quem eu estimasse --- ou homem ou mulher,
E eu não logro nunca possuir!"
4- Entretanto, Ricardo regressou a Portugal, a Lisboa. Lúcio regressa também a Lisboa, decorrido um ano. No regresso, Ricardo apresenta a Lúcio a sua mulher-Marta - com quem havia casado. «Era uma linda mulher loira, muito loira, alta escultural – e a carne mordorada, dura, fugitiva». Mulher fatal e inatingível!».
5- A personagem misteriosa de Marta é um símbolo da ligação do corpo de Lúcio com a alma de Ricardo. Lúcio aproxima-se de Marta, fascinado pelo mistério que a envolve. Mas o que o impelia para aquela mulher, não era a sua alma, não era a sua beleza – era só o seu mistério. Derrubado o segredo, esvair-se-ia o encantamento e ele poderia caminhar bem seguro. «Por fim os nossos corpos embaralharam-se, oscilaram perdidos numa ânsia ruiva...»...«... e em verdade não fui eu que a possuí – ela, toda nua, ela sim, é que me possuiu...».
6- Entretanto, a ligação entre Lúcio e Marta foi prosseguindo, sem uma sombra. Marta, de resto, encarava o seu relacionamento com Lúcio sem qualquer prudência. Até que, um dia, Marta exigiu, na presença de Ricardo, que Lúcio a beijasse. O que Lúcio fez desajeitamente. Marta exigiu então a Ricardo que o ensinasse. Surpresa. «Rindo, o meu amigo ergueu-se, avançou para mim...tomou-me o rosto...beijou-me...»!... «O beijo de Ricardo fora igual, exactamente igual, tivera a mesma cor, a mesma perturbação que os beijos da minha amante. Eu sentira-o da mesma maneira!». Rematou assim Lúcio.
7- Porém, com o decorrer do tempo, Lúcio começa a observar uma certa mudança na atitude de Marta. Será que ela tem outro amante?. Decide espioná-la. E é verdade. Marta é também amante do russo Sérgio. E será que tem mais amantes? E Ricardo sabe dos amantes de Marta? Adensa-se o Mistério de Marta!
8- Desiludido, Lúcio parte para Paris. «De novo, ungindo-me de Europa, alastrando-me da sua vibração, se encapelava dentro de mim Paris – o meu Paris, o Paris dos meus vinte e três anos...».
9- Em Paris, Lúcio tem conhecimento da publicação do livro DIADEMA, de que é autor Ricardo, obra essa que veio revelar ao mundo uma literatura nova...
10- Cresce em Lúcio, entretanto, algo de muito bizarro: no asco, no ódio que sentia por Ricardo, «misturava-se como que um vago despeito, um ciúme, um verdadeiro ciúme dele próprio»...«num relâmpago me voou pelo cérebro a ideia rubra de o assassinar – para satisfazer a minha inveja, o meu ciúme: para me vingar dele!».
11- Desde que chegara a Paris, Lúcio não avançou uma linha do drama que vinha escrevendo, «já nem sequer me lembrava de que era um escritor...» Entretanto, Lúcio escreve o último acto d`A Chama e parte com ele, de volta, para Lisboa.
12- Por mero acaso, Lúcio encontra Ricardo, deixando-o, num primeiro momento, sem reacção. Ricardo confessa-se: «Esqueceste-o?...Eu não podia ser amigo de ninguém...não podia experimentar afectos...Tudo em mim ecoava em ternuras...» e continuou «Dedicavas-me um grande afecto; eu queria vibrar esse teu afecto – isto é: retribuir-to; e era-me impossível!... Só se te beijasse, se te enlaçasse, se te possuísse...Ah! mas como possuir uma criatura do nosso sexo?». Como fazer? «retribuir-to: mandei-A ser tua! Mas estreitando-te ela, era eu próprio quem te estreitava...Satisfiz a minha ternura». Atónito, Lúcio ouvia o poeta como que hipnotizado. Por fim, Ricardo agarrou, violentamente, Lúcio por um braço...e obrigou-o a correr com ele... até casa.
13- Aproxima-se o desenlace final. «Chegou a hora de dissipar fantasmas... Ela é só tua..hás-de-me acreditar». Gritou Ricardo em delírio, puxando Lúcio para os aposentos da esposa. Marta folheava um livro junto à janela. Mal teve tempo de se voltar. Ricardo puxou de um revólver e desfechou-o à queima-roupa...Marta tombou inanimada no solo...«E então foi o Mistério...o Mistério fantástico da minha vida...» Espanta-se Lúcio: «Ó assombro! Ó quebranto!. Quem jazia estiraçado junto da janela não era Marta – não!-, era o meu amigo, era Ricardo... E aos meus pés-sim, aos meus pés! – caíra o seu revólver ainda fumegante!...» ...«Marta, essa desaparecera, evolara-se em silêncio, como se extingue uma chama...»
14- Por fim, diz Lúcio, achou-se preso num calabouço do Governo Civil, guardado à vista por uma sentinela...
15- Cumpridos os 10 anos de prisão, não resta a Lúcio que não seja dar a sua versão dos factos e explicar (será que alguma vez ele será capaz de explicar o que é inexplicável?) todas as circunstâncias do assassinato envolvido em mistério.

Saído do cárcere, Lúcio retirou-se para uma vivenda rural, isolada, perdida, sem desejos, sem esperanças, sem preocupações quanto ao futuro. Antes da morte real, o autor apenas quis escrever a sua estranha aventura. Ela prova, diz ele, como factos que se nos afiguram bem claros são muitas vezes os mais emaranhados; ela prova como um inocente, muita vez, se não pode justificar, porque a sua justificação é inverosímil - embora verdadeira.
Como o próprio diz a final, sobre tudo pairou um vago ar de mistério. Marta foi procurada pela polícia, mas em vão ( será que poderia haver outro resultado?).
Comentários finais
Parece que M. Sá-Carneiro mistura muito do que era a sua história com muito do que seria o seu futuro. Sem o saber? Será assim?. Este livro foi considerado por José Régio uma obra-prima, onde estão presentes três das suas obsessões: o suicídio, o amor e o anormal avançando até à loucura.
Nesta obra desfilam temas como o suícidio, a modernidade, a ânsia de grandes cidades, o culto de Paris e da sua tradição face ao burgo português, ou, uma vez mais, a loucura (vide Loucura, de Mário de Sá-Carneiro). Não sem antes, no meio da receita, temperar tudo isto com uma descrição mordaz e deliciosa da falsidade poética, do exagero na criação de movimentos artísticos e do snobismo intelectual
Para além do mais, esta obra ganha um sabor especial por constituir uma espécie de versão portuguesa de O Retrato de Dorian Gray. Mas, ao contrário do livro do também brilhante Oscar Wilde, Sá-Carneiro troca as personagens, retira-lhes previsibilidade e aspira tudo o que está a mais no texto, deixando apenas génio, sem lacunas ou artefactos. Em comum com este tem a procura de uma nova estética e um surrealismo muito característico. Ganha Oscar Wilde em descrição da sociedade, ganha Sá-Carneiro em descrição da mente. Curioso nesta aproximação Wildesca, é o facto de, pioneiramente, Sá-Carneiro quase introduzir o tema da homossexualidade, tão presente na vida de Wilde.
Em Mário de Sá-Carneiro, as personagens das suas novelas são dispersas, enlouquecidas e quase sempre buscam uma solução para fugir aos seus problemas, ou seja, à realidade.
Tendo Fiódor Dostoiévsky como uma das suas referências, podemos ver, nesta narrativa, uma aproximação entre Lúcio e Raskólnikov, as duas personagens principais: monólogo interior a tentar explicar os motivos que levaram ao assassinato.
Podemos ainda falar, como marca de carácter do autor, do Complexo de Ícaro. «...a vida de todos os dias - é a única que eu amo. Simplesmente não a posso existir». No poema QUASE, M.S.C. recorre à história da antiga mitologia grega com os seus símbolos característicos: sol, asas e mar.

Conclusão
O desdobramento das personagens é um tema permanente das novelas e poemas de Mário de Sá-Carneiro. As marcas do desdobramento das personagens reflecte-se por exemplo no conto Eu-Próprio o Outro. O narrador transforma-se lentamente em alguém outro, por quem sentiu no inicio admiração. Ao fundirem-se as duas almas (do Eu e do Outro), o narrador deseja fugir do outro, porque assim perde a sua individualidade.
“Já não existo. Precipitei-me nele.
Confundi-me.
Deixámos de ser nós-dois. Somos um só.
Eu bem o pressentia, era fatal...
Ah! Como o odeio!
Foi-me sugando pouco a pouco.
O seu corpo era poroso. Absorveu-me. (...)”

Não é surpreendente que as novelas ilustram as próprias sensações do autor, a sua alma desdobrada, a ânsia de fugir de si mesmo e o desejo de ser o outro. Contudo, numa das cartas mandadas a Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro confessa que a duplicidade das almas não pode existir. Escreve que, no caso da compreensão total entre as duas almas, os corpos morrem e persiste só uma alma fundida.
Este pode ser o caso da Confissão de Lúcio. Os corpos de uma pessoa unida morreram (cada um do seu próprio modo: um corpo desaparece, um fica morto no chão e o terceiro e ainda vivo mas sem sensação da vida) mas a alma fundida sobreviveu.
A personagem desdobrada de uma alma não conseguiu viver no mundo real. Por causa da sua alma dispersa, as suas partes - Lúcio e Ricardo - não foram capazes de aceitar nas suas vidas a Marta, a personificação da arte. Não conseguiam viver na vida real e a convivência com Marta trouxe consigo martírios ainda mais pesados. Marta tornou-se um elemento que desdobrou ainda mais as duas partes (de Lúcio e de Ricardo) duma personagem. Por isso, a morte bizarra, com certeza significa um tipo da libertação dos martírios que já ultrapassaram as fronteiras aceitáveis.
Mas tal como a alma, também a arte não se pode matar. Assim podemos explicar o desaparecimento de Marta. Pois, Ricardo tentou matá-la, mas como a arte é imortal, Marta não morreu, somente desapareceu. Em vez de Marta, estendeu-se no chão o corpo de Ricardo e Marta, como um espírito artístico dissipa-se para encontrar outro espaço, ou seja, outro corpo em que podia dar impulsos para criatividade artística.
Também o próprio Mário de Sá-Carneiro não encontrou modo para viver a vida quotidiana, também a sua alma foi desdobrada, e ainda que quisesse, não conseguiu nem viver no mundo real nem no mundo de arte e decidiu suicidar-se da mesma forma como os protagonistas da Confissão de Lúcio. Se calhar, também a sua alma artística ficou a viver à procura doutra colocação.
A Confissão de Lúcio pode ser, portanto, percebida como a confissão do próprio autor.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Senhora Presidente ou Senhora Presidenta?

Senhora Presidente ou Senhora Presidenta? Boa questão. Pertinente como vulgo se diz.
Como é sabido, existe um permanente conflito entre a norma e o uso. A norma é a gramática, o uso é aquilo que a maioria das pessoas (provavelmente num número cada vez maior) diz no dia a dia. E o que acontece é que, ao fim de muitos anos, a norma adopta o uso. Sempre foi assim. Mas, enquanto tal não acontece, o uso viola a norma. Donde, quem não respeita a norma, comete um erro gramatical. Os Acordos Gramaticais e as Reformas da Língua, que sempre houve ao longo da nossa História, com mais de 800 anos, servem precisamente para isso.
No caso presente, o vocábulo presidenta já se encontra dicionarizado. Tenho aqui comigo o Dicionário da Língua Portuguesa 2010, da Porto Editora, e lá vem: «presidenta=mulher que preside». Tenho também aqui à mão o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, o qual, do mesmo modo, nos apresenta: «presidenta=mulher que se elege para a presidência de um país; mulher que preside...». Surpresa! Reparo agora que o "velho" Dicionário do Morais, em minha casa há mais de 30 anos, já nos apresenta: «presidenta=mulher que preside; mulher de um presidente».
Por último, fui ver o que o Prof. Lindley Cintra diz sobre esta matéria e nova surpresa. E o que diz ele?. Pois, a pág. 195 da sua Nova Gramática do Português Contemporâneo, diz assim:
«os substantivos terminados em e são geralmente uniformes. Essa igualdade formal para os dois géneros é quase absoluta nos finalizados em nte de regra originários de particípios presentes e de adjectivos uniformes latinos. Há, porém, um pequeno número que, à semelhança da substituição do o (masculino) para a (feminino), troca o e por a (ex: elefante/elefanta; governante/governanta; infante/infanta; mestre/mestra; monje/monja; parente/parenta».
Depois, diz ainda em observações: «os femininos giganta (de gigante), hóspeda (de hóspede) e presidenta (de presidente), têm ainda curso restrito no idioma». Isto disse o ilustre linguista em 1984, já há cerca de 28 anos.
Em conclusão, propendo a aceitar, como boa, a forma presidenta.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Os Bichos, de Miguel Torga

Há cerca de um mês, a RTP-2 apresentou, com toda a justiça, no programa GRANDES LIVROS, 2ª Série, o livro Bichos, de Miguel Torga, editado em 1940, reeditado, mais tarde, em traduções sucessivas para variadíssimas línguas. Animais com sentir humano ou seres humanos vestidos de animais. Homens que são bichos e bichos que são seres humanos. Nero conta-nos a última hora de um cão. Morgado é a história do burro que, após uma vida de trabalho, é abandonado pelo dono. Tenório é a história do galo que é confrontado com o seu declínio. Mago é a história do gato que se deixou domesticar pela dona. Miura é a história do touro que, já vencido, se entrega à espada. Madalena é a história de uma mulher de Trás-os-Montes que se isola para dar à luz. Estas são algumas das histórias do livro que nos fala da perda da essência humana.
O último conto do livro conta a história do Vicente. Vicente é um corvo que, inconformado, foge da Arca de Noé e que, em luta com o Criador, não se rende.
O conto baseia-se no episódio bíblico da Arca de Noé. Deus, zangado com a conduta dos homens, decide puni-los. Mas que tinham a ver os bichos com as fornicações dos homens? Vicente, incorformado, decorridos 40 dias após a entrada na Arca, resolve fugir. Abre as asas e vai «de encontro à imensidão terrível do mar».
Diz Torga que «o seu gesto foi, naquele momento, o símbolo da universal libertação».
O patriarca Noé, então com seiscentos anos de idade, é interpelado pelo Criador para prestar contas acerca da localização do seu servo Vicente. Não resta outro caminho ao patriarca senão ir procurá-lo. A Arca navega então pelos mares, «carregada de incertezas e terror. Iria Deus obrigar o corvo a regressar à barca? Iria sacrificá-lo, pura e simplesmente, para exemplo?».
À vista, as águas cobriam já toda a terra, à excepção de um pequeno penhasco. Mas, à medida que as águas cresciam, esse pequeno outeiro ia diminuindo. Restava dele apenas o topo, «sobre o qual, negro, sereno, impávido, permanecia Vicente. Escolhera a liberdade e aceitara desde esse momento todas as consequências da opção. Olhava a barca, sim, para encarar de frente a degradação».
No espírito de cada um, este dilema apenas: «ou se salva o pedestal que sustinha o Vicente, e o Senhor preservava a grandeza do instante genesíaco - a total autonomia da criatura em relação ao Criador-, ou, submerso o ponto de apoio, Vicente morria, e o seu aniquilamento invalidava essa hora suprema».
Suspense. «Três vezes uma onda alta, num arranco de fim, lambeu as garras do corvo, mas três vezes recuou. A morte temia a morte. Finalmente, o Senhor cedeu. Nada podia contra aquela vontade inabalável de ser livre!. Para salvar a sua própria obra, o Criador fechou, por fim, as comportas do céu».
É deste duelo entre Deus e um corvo, que queria alcançar a sua própria liberdade, se percebe a mensagem de os Bichos.

Miguel Torga, o subversivo


Passaram, ontem, 16 anos sobre a morte de Miguel Torga. Destaco de Orfeu Rebelde:

«Nasci subversivo.
A começar por mim - meu principal motivo
de insatisfação
».

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Os Instrumentos de Tortura do Séc. XXI

Hoje, de manhã, fui ao Fitcenter fazer a minha sessão habitual de ginástica. Mas, hoje, cheguei a casa “de gatas”, feito num 88888888...
Há uns bons anos, acompanhado dos meus filhos, fui ao Palácio das Galveias, ao Campo Pequeno, em Lisboa, ver uma exposição sobre os Instrumentos de Tortura na Idade Média. Impressionante, arrepiante, pavoroso, assustador, terrível, sinistro, aterrador, horroroso, medonho, sanguinolento, cruciante, atroz, bárbaro, doloroso, severo, pungente, lancinante, feroz, horripilante, cruel, temeroso, desumano (faltam-me, ainda, outros adjectivos para descrever tal horror em toda a sua dimensão).
Bem, meus amigos, o ginásio, que frequento, está apetrechado com uns aparelhos que não são muito diferentes daqueles que eu vi na tal exposição: o garrote, a serra, a roda, o empalamento, as cunhas, os estiradores, os tirantes, o esmagador, as pinças, a forquilha, o emparedamento, o quebrador de joelhos, etc...
É tudo para o nosso bem, dizem os meus monitores, quais novos inquisidores da Idade Moderna.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

O saco de figos

«...O salão era excessivamente grande para mim, os cães ladravam para o agouro das trevas, eu estava só no mundo. De longe, da minha infância perdida, veio a ternura da memória, a face cansada de minha mãe, a luz suave de tudo para nunca mais. E uma saudade densa caiu-me, como um peso, na alma. E chorei longamente, um choro recolhido, só choro para mim. Chorei quanto pude, até que a noite foi minha irmã e eu fui irmão da noite, um diante do outro, calados e de mãos dados. Então lembrei-me, por entre o pranto, de um pequeno saco de figos que minha mãe me dera à despedida. Procurei-o na saca da roupa, puxei-o para a cama. E o sabor deles, que me encheu a alma, trouxe-me a presença de um carinho morto, como se minha mãe ali me estivesse velando e houvesse ainda aldeia à minha volta...»


Vergílio Ferreira, in Manhã Submersa (pág. 30)

Ausência


Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua

Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.

Sophia de Mello Breynner

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

A Confissão de Lúcio, de Mário de Sá-Carneiro (1)

Acabo de ler a CONFISSÃO DE LÚCIO de Mário de Sá-Carneiro. Quase de supetão. Parece que M. Sá-Carneiro mistura muito do que era a sua história com muito do que seria o seu futuro. Sem o saber? Será assim?. Este livro foi considerado por José Régio uma obra-prima, onde estão presentes três das suas obsessões: o suicídio, o amor e o anormal avançando até à loucura.
Obra complexa, a merecer, por isso, uma melhor análise. A Fundação das Casas de Fronteira e Alorna vai realizar, pelo Grupo de Leitura dedicado à Narrativa Portuguesa dos Princípios do Séc. XX, a leitura desta obra, o que acontecerá no dia 19 do corrente, pelas 21h30, no Palácio Fronteira.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

O mundo de Sophia de Mello Breyner

Segundo notícias vindas a público, o espólio de Sophia de Mello Breyner será doado a 26 de Janeiro de 2011 pela família da escritora à Biblioteca Nacional. No mesmo dia, se inaugurará uma exposição sobre a sua vida e obra.
Nesse espólio, existem cadernos que contêm poemas escritos a lápis ou tinta permanente, datados da adolescência de Sophia, do período entre 1932 e 1941.
Revelam os esboços dos primeiros poemas de Sophia. Numa folha solta, dobrada de um desses cadernos, está mesmo o primeiro poema escrito, intitulado “Primeira noite de verão”.
«Comecei a escrever numa noite de Primavera, uma incrível noite de vento leste e Junho. Nela o fervor do universo transbordava e eu não podia reter, cercar, conter-nem podia desfazer-me em noite, fundir-me na noite.
No gume da perfeição, no imenso halo de luz azul e transparente, no rouco da treva, na quasi palavra de murmúrio da brisa entre as folhas, no íman da lua, no insondável perfume das rosas, havia algo de pungente, algo de alarme.Como sempre a noite de vento leste misturava extasi e pânico».
(Primeira noite de Verão, 9/5/1934).

Leio até me arderem os olhos

Ao entardecer, debruçado pela janela,
E sabendo de soslaio que há campos em frente,
Leio até me arderem os olhos
O Livro de Cesário Verde.

Alberto Caeiro, in O Guardador de Rebanhos

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

O Dia Original

                                                
                                           Há muitas coisas espantosas,
                                           mas nada há mais espantoso do que o homem.
                                           (Sófocles, in Antígona)