Passam hoje 92 anos sobre o nascimento de Jorge de Sena, o poeta que não queria morrer sem saber qual a cor da liberdade.
Não hei-de morrer sem saber
Qual a cor da liberdade.
Eu não posso senão ser
Desta terra em que nasci.
Embora ao mundo pertença
E sempre a verdade vença,
Qual será ser livre aqui,
Não hei-de morrer sem saber.
Trocaram tudo em maldade,
É quase um crime viver.
Mas embora escondam tudo
E me queiram cego e mudo,
Não hei-de morrer sem saber
Qual a cor da liberdade.
1974
quarta-feira, 2 de novembro de 2011
terça-feira, 1 de novembro de 2011
Viagem a Portugal
Igreja da Misericórdia de Penamacor
Igreja manuelina provavelmente construída no início do Séc. XVI, onde se destaca a inegável harmonia dos diferentes elementos do portal.
sábado, 29 de outubro de 2011
Vou passar a noite a Sintra...
Vou passar a noite a Sintra por não poder passá-la em Lisboa,
Mas, quando chegar a Sintra, terei pena de não ter ficado em Lisboa.
Sempre esta inquietação sem propósito, sem nexo, sem conseqüência,
Sempre, sempre, sempre,
Esta angústia excessiva do espírito por coisa nenhuma,
Na estrada de Sintra, ou na estrada do sonho, ou na estrada da vida...
Álvaro de Campos, in Ao Volante do Chevrolet (excerto)
Mas, quando chegar a Sintra, terei pena de não ter ficado em Lisboa.
Sempre esta inquietação sem propósito, sem nexo, sem conseqüência,
Sempre, sempre, sempre,
Esta angústia excessiva do espírito por coisa nenhuma,
Na estrada de Sintra, ou na estrada do sonho, ou na estrada da vida...
Álvaro de Campos, in Ao Volante do Chevrolet (excerto)
quinta-feira, 27 de outubro de 2011
Gaibéus
«Do Alto Alentejo e da Beira Baixa, eles descem às lezírias pelas mondas e ceifas. Gaibéus lhes chamam».
O romance Gaibéus, de Alves Redol, foi publicado pela primeira vez em 1939, inaugurando, em Portugal, o movimento neo-realista em Portugal.
O Neo-Realismo foi uma corrente artística de meados do Século XX, com um carácter ideológico marcadamente de esquerda/marxista, assumindo, quer na prosa, quer na poesia, uma dimensão de intervenção social, agudizada pelo pós-guerra e pela sedução dos sistemas socialistas que o clima português de ditadura mitificava.
Como o próprio Alves Redol viria a reconhecer em 1965, Gaibéus «não pretende ficar na literatura como obra de arte. Quer ser, antes de tudo, um documentário humano fixado no Ribatejo». Por mim, não acrescentaria mais nada.
sexta-feira, 14 de outubro de 2011
O capitão Falcão
Entrei em Mafra no dia 7 de Outubro de 1971 para fazer a recruta. Logo nos primeiros dias, o capitão Falcão, Comandante da Companhia, perguntou quem queria ir a Fátima nos dias 12 e 13 de Outubro.
Para ficar liberto por dois dias do sepulcro do quartel e para fugir ao calvário das marchas penosas, não hesitei um segundo. Em Fátima, montámos as tendas e foi-nos distribuído um talher completo para o rancho. No dia 14, já no quartel, veio a ordem para os talheres serem entregues até ao meio-dia. Eu, com mais alguns do meu pelotão, apertados pelo rigor do horário militar, não fiz a entrega dos ditos talheres.
Enfim, para início de tropa, uma novela com todos os contornos duma narrativa Kafkaniana.
No final, os talheres, que estavam guardados na caserna, foram entregues. Não houve, nem podia haver, castigo algum. Folha limpa, portanto.
O capitão Falcão teve uma entrada de falcão…e uma saída de sendeiro. Isto aconteceu há, precisamente, 40 anos.
Para ficar liberto por dois dias do sepulcro do quartel e para fugir ao calvário das marchas penosas, não hesitei um segundo. Em Fátima, montámos as tendas e foi-nos distribuído um talher completo para o rancho. No dia 14, já no quartel, veio a ordem para os talheres serem entregues até ao meio-dia. Eu, com mais alguns do meu pelotão, apertados pelo rigor do horário militar, não fiz a entrega dos ditos talheres.
Na formatura das 14 horas, depois do almoço, os recrutas em falta foram chamados ao gabinete do Comandante de Companhia. O capitão Falcão vociferou: «Desapareceu, no almoço de hoje, um número de talheres igual àquele que vocês deveriam ter entregado até ao meio-dia e não entregaram». Logo, conclusão de militar, «foram vocês que retiraram os talheres do refeitório para poderem agora fazer a entrega que não fizeram. Bem, para não vos estragar a vida já, vocês pagam o valor dos talheres e o assunto fica resolvido». Os recrutas, trementes de terror, ripostaram com a versão correcta dos factos. O capitão Falcão, vermelho de raiva, fulminou-nos: «Bem, não querem pagar, o assunto vai seguir a sua tramitação e vocês não se livram de uma valente “porrada"». O Piçarra, que era do grupo o mais experimentado, ousou: «Meu capitão, pode dar-me uma “porrada”, mas eu não pago, porque não roubei nada». Os restantes recrutas solidarizaram-se e o Capitão Falcão mandou-nos sair, aos gritos.
Enfim, para início de tropa, uma novela com todos os contornos duma narrativa Kafkaniana.
No final, os talheres, que estavam guardados na caserna, foram entregues. Não houve, nem podia haver, castigo algum. Folha limpa, portanto.
O capitão Falcão teve uma entrada de falcão…e uma saída de sendeiro. Isto aconteceu há, precisamente, 40 anos.
Quando eu nasci...
Neste dia, um agradecimento muito especial a minha mãe, através dos versos do poeta Sebastião da Gama:
Quando eu nasci,
ficou tudo como estava.
Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu,
nem houve Estrelas a mais …
Somente,
Esquecida das dores,
A minha Mãe sorriu e agradeceu.
Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.
As nuvens não se espantaram,
não enlouqueceu ninguém …
Pra que o dia fosse enorme,
bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos de minha Mãe.
Sebastião da Gama, in Serra-Mãe
Quando eu nasci,
ficou tudo como estava.
Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu,
nem houve Estrelas a mais …
Somente,
Esquecida das dores,
A minha Mãe sorriu e agradeceu.
Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.
As nuvens não se espantaram,
não enlouqueceu ninguém …
Pra que o dia fosse enorme,
bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos de minha Mãe.
Sebastião da Gama, in Serra-Mãe
domingo, 9 de outubro de 2011
Por vezes, sinto até saudades minhas...
Que saudades eu sinto desta flor,
Que vai murchar!
E desta gota de água e de esplendor,
Um pequenino mundo que é só mar.
E desta imagem que por mim passou
Misteriosamente.
E desta folha pálida e tremente
Que tombou...
Da voz do vento que me deixa mudo,
E deste meu espanto de criança.
Que saudades de tudo eu sinto, porque tudo
É feito de lembrança...
Teixeira de Pascoaes, in Versos Pobres (1949)
sexta-feira, 7 de outubro de 2011
Quando eu fui para a tropa
Passam hoje 40 anos que eu entrei na Escola Prática de Infantaria, em Mafra. Iniciei, então, o cumprimento do Serviço Militar Obrigatório, que me levaria, após a recruta ali realizada, até Lamego, Évora, Abrantes, Santa Margarida e, por fim, Angola.
Naquele já longínquo dia 7 de Outubro de 1971, à chegada deram-me as Boas-Vindas, entregando-me um pequeno papel com o número mecanográfico, onde se podia ler: Seja bem-vindo!
Oh, suprema ironia!
Naquele já longínquo dia 7 de Outubro de 1971, à chegada deram-me as Boas-Vindas, entregando-me um pequeno papel com o número mecanográfico, onde se podia ler: Seja bem-vindo!
Oh, suprema ironia!
terça-feira, 27 de setembro de 2011
Moços que parecem homens e nunca foram meninos
Esteiros. Minúsculos canais, como dedos de mão espalmada, abertos na margem do Tejo. Dedos das mãos avaras dos telhais que roubam nateiro às águas e vigores à malta. Mão de lama que só rio afaga.
Li os Esteiros, de Soeiro Pereira Gomes, possivelmente em 1972, numa edição da colecção “Livros de Bolso Europa-América”, não tendo sido por acaso que o editor o escolheu para iniciar uma nova colecção.
Reli-o agora, porque tenciono visitar, brevemente, o Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira.
Esteiros foi publicado em 1941. Integra-se na estética do neo-realismo e retrata o trabalho infantil na vila de Alhandra.
A obra narra a vida de jovens trabalhadores que, nas margens dos esteiros do Rio Tejo, fabricam peças de barro nos telhais.
Gineto, Gaitinhas, Malesso, Maquineta, tantos outros, são os operários-meninos dos telhais à beira dos esteiros do Tejo. Sujeitos à dureza do trabalho quando o conseguem arranjar, vadiam e roubam para comer durante o resto do tempo. Apesar de tudo, sonham.
Esta é história dos rapazitos miseráveis dos esteiros do Tejo.
Este é o romance dos “moços que parecem homens e nunca foram meninos”.
domingo, 25 de setembro de 2011
Os nossos poetas
Ontem, passei pelo Parque dos Poetas, em Oeiras. Já conhecia, mas não havia prestado a devida atenção aos poetas que são ali homenageados. O parque é atravessado pela Alameda dos Poetas, com espaços (chamadas “ilhas”) reservados aos nossos poetas. Nesta primeira fase, estão ali expostas 20 esculturas de poetas do Séc. XX: Teixeira de Pascoaes, Florbela Espanca, José Gomes Ferreira, Miguel Torga, Sophia de Mello Breyner, Natália Correia, Eugénio de Andrade, Fernando Pessoa, Mário de Sá Carneiro, Alexandre O`Neill, Camilo Pessanha, José Régio, Vitorino Nemésio, Jorge de Sena, Carlos Oliveira, Manuel Alegre, David Mourão Ferreira, António Gedeão, Ruy Belo e António Ramos Rosa.
A Câmara Municipal de Oeiras, ao que se sabe, consultou 4 Organismos competentes na matéria para fazer a selecção dos poetas a integrarem esta 1ª fase. A escolha é, para mim, quase consensual. Embora reconhecendo que nunca é fácil uma escolha desta natureza, tenho muita pena que o poeta Sebastião da Gama não faça parte desta galeria. O poeta da Arrábida, como é conhecido, morreu muito novo, aos 27 anos, mas deixou uma obra que se caracteriza por uma elevada singularidade.
Ao que li, o projecto inicial do Parque dos Poetas foi de David Mourão-Ferreira, o qual, tenho a certeza, ficaria muito satisfeito se tivesse agora, perto de si, o seu grande amigo Sebastião da Gama. É pena. David Mourão-Ferreira iria ler, muitas vezes, estou certo, o que escreveu a propósito dos passeios que ambos davam pela Arrábida: «…ora aguardando-nos, à chegada da trôpega camioneta que nos tinha levado até Vila Nogueira de Azeitão, para logo a seguir nos arrastar a pé, serra acima, serra abaixo, por veredas de que só ele detinha o segredo, a fim de melhor nos fazer ver ou rever todos os recantos, todos os encantos da sua Arrábida». É pena...
A Câmara Municipal de Oeiras, ao que se sabe, consultou 4 Organismos competentes na matéria para fazer a selecção dos poetas a integrarem esta 1ª fase. A escolha é, para mim, quase consensual. Embora reconhecendo que nunca é fácil uma escolha desta natureza, tenho muita pena que o poeta Sebastião da Gama não faça parte desta galeria. O poeta da Arrábida, como é conhecido, morreu muito novo, aos 27 anos, mas deixou uma obra que se caracteriza por uma elevada singularidade.
Ao que li, o projecto inicial do Parque dos Poetas foi de David Mourão-Ferreira, o qual, tenho a certeza, ficaria muito satisfeito se tivesse agora, perto de si, o seu grande amigo Sebastião da Gama. É pena. David Mourão-Ferreira iria ler, muitas vezes, estou certo, o que escreveu a propósito dos passeios que ambos davam pela Arrábida: «…ora aguardando-nos, à chegada da trôpega camioneta que nos tinha levado até Vila Nogueira de Azeitão, para logo a seguir nos arrastar a pé, serra acima, serra abaixo, por veredas de que só ele detinha o segredo, a fim de melhor nos fazer ver ou rever todos os recantos, todos os encantos da sua Arrábida». É pena...
terça-feira, 13 de setembro de 2011
Os livros do ano em que eu nasci
No ano em que nasci, o José Saramago escreveu o seu primeiro livro. Era para se chamar A VÍUVA, mas a Editora convenceu-o a mudar o nome para TERRA DO PECADO. Era o ano de 1947.
Por curiosidade, fui ler o livro que já andava na minha estante há alguns anos. Sem grande expectativa, devo confessar.
Como o próprio Saramago diz, o autor era um rapaz de 24 anos, calado, metido consigo, que ganhava a vida nos serviços administrativos dos Hospitais Civis de Lisboa e teve, como primeira estante para livros, uma prateleira interior do guarda-louça familiar.
Na capa do livro refere-se OBRA DE JUVENTUDE. Não se pode pedir muito a quem se inicia nas lides literárias. O livro teve mesmo pouco sucesso, “terminando a pouco lustrosa vida nas padiolas”, como reconhece o próprio Saramago.
O livro que foi escrito no ano em que eu nasci. Curioso, e se me desse ao trabalho de ir à descoberta de outros livros dados à estampa em 1947? Vamos a isso…
Por curiosidade, fui ler o livro que já andava na minha estante há alguns anos. Sem grande expectativa, devo confessar.
Como o próprio Saramago diz, o autor era um rapaz de 24 anos, calado, metido consigo, que ganhava a vida nos serviços administrativos dos Hospitais Civis de Lisboa e teve, como primeira estante para livros, uma prateleira interior do guarda-louça familiar.
Na capa do livro refere-se OBRA DE JUVENTUDE. Não se pode pedir muito a quem se inicia nas lides literárias. O livro teve mesmo pouco sucesso, “terminando a pouco lustrosa vida nas padiolas”, como reconhece o próprio Saramago.
O livro que foi escrito no ano em que eu nasci. Curioso, e se me desse ao trabalho de ir à descoberta de outros livros dados à estampa em 1947? Vamos a isso…
domingo, 11 de setembro de 2011
Santo Antero
(retrato de Columbano Bordalo Pinheiro, 1889)
No dia 11 de Setembro do ano de 1891 (há 120 anos), morreu o poeta Antero de Quental, a quem Eça chamava o nosso Stº Antero.
Escreveu o soneto "NA MÃO DE DEUS", oração que podia ser dita por um de nós:
Na mão de Deus, na sua mão direita,
Descansou afinal meu coração.
Do palácio encantado da Ilusão
Desci a passo e passo a escada estreita.
Como as flores mortais, com que se enfeita
A ignorância infantil, despojo vão,
Depus do Ideal e da Paixão
A forma transitória e imperfeita.
Como criança, em lôbrega jornada,
Que a mãe leva ao colo agasalhada
E atravessa, sorrindo vagamente,
Selvas, mares, areias do deserto...
Dorme o teu sono, coração liberto,
Dorme na mão de Deus eternamente!
No dia 11 de Setembro do ano de 1891 (há 120 anos), morreu o poeta Antero de Quental, a quem Eça chamava o nosso Stº Antero.
Escreveu o soneto "NA MÃO DE DEUS", oração que podia ser dita por um de nós:
Na mão de Deus, na sua mão direita,
Descansou afinal meu coração.
Do palácio encantado da Ilusão
Desci a passo e passo a escada estreita.
Como as flores mortais, com que se enfeita
A ignorância infantil, despojo vão,
Depus do Ideal e da Paixão
A forma transitória e imperfeita.
Como criança, em lôbrega jornada,
Que a mãe leva ao colo agasalhada
E atravessa, sorrindo vagamente,
Selvas, mares, areias do deserto...
Dorme o teu sono, coração liberto,
Dorme na mão de Deus eternamente!
sexta-feira, 9 de setembro de 2011
José Saramago, o viajante
“O fim duma viagem é apenas o começo doutra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre."
A minha relação de amor-ódio com o José Saramago não pára nunca. Nestas férias, li a Viagem a Portugal, livro agora reeditado pela Caminho. Não é um guia turístico, como ele diz, mas (tenho a certeza) vai ajudar nas minhas (raras) investidas pelo país. O livro é um deleite. Uma agradável surpresa.
Viagem a Portugal é uma colecção de crónicas escritas, em 1981, ao longo da sua viagem por todas regiões de Portugal Continental. Entra nas igrejas e museus, passeia por ruínas e castelos, fala sobre estilos arquitectónicos, conhece azulejistas, pintores, escultores. Ele escreve dando as suas opiniões. Conta incidentes, faz amizades pelo caminho. Esta edição não traz fotos, o que é uma pena, mas sei que existe uma edição com fotografias tiradas por Maurício Abreu, que então acompanhou o Saramago. Tenho agora a certeza que há muito pouca gente em Portugal que tenha entrado em tantas igrejas. Chega a impressionar os quilómetros que ele anda para conhecer uma pequena capela por algum motivo em especial e o número de portas a que tinha de bater para ter a chave da igreja. Para um ateu, como o Saramago, é obra…
Viagem a Portugal é uma colecção de crónicas escritas, em 1981, ao longo da sua viagem por todas regiões de Portugal Continental. Entra nas igrejas e museus, passeia por ruínas e castelos, fala sobre estilos arquitectónicos, conhece azulejistas, pintores, escultores. Ele escreve dando as suas opiniões. Conta incidentes, faz amizades pelo caminho. Esta edição não traz fotos, o que é uma pena, mas sei que existe uma edição com fotografias tiradas por Maurício Abreu, que então acompanhou o Saramago. Tenho agora a certeza que há muito pouca gente em Portugal que tenha entrado em tantas igrejas. Chega a impressionar os quilómetros que ele anda para conhecer uma pequena capela por algum motivo em especial e o número de portas a que tinha de bater para ter a chave da igreja. Para um ateu, como o Saramago, é obra…
domingo, 24 de julho de 2011
A Leste do Paraíso
A RTP2 passou, já nas primeiras horas de hoje, o filme “A Leste do Paraíso”, de Elia Kazan, inspirado no livro, com o mesmo título, de John Steinbeck. É um filme de 1955, considerado um clássico e ganhou, parece, mais que um Óscar. O desempenho de James Dean, no papel de Cal Trask, é colossal. John Steinbeck, que era um escritor místico, aproveitou para nos apresentar uma releitura da história bíblica de Caim (Cal Trask) e de Abel (Aaron Trask).
O filme é feito apenas, como não podia deixar de ser, de uma linha principal, explorando os lados mais ajustados ao registo cinematográfico. Diferenças principais ou aspectos que me surpreendem: a proximidade entre Cal e Abra (namorada do irmão), o que não acontece no livro; imaginei que a Kate (a mãe dos dois irmãos que os abandona ainda muito pequenos), fosse mais bonita; o papel quase apagado do Lee, o “China”;
O final do filme é apresentado de forma bastante diferente, na medida em que Abra toma o papel do Lee. No filme, é Abra que incentiva Adam (o patriarca da família), num último esforço, antes de morrer, a perdoar o filho Cal, a dar-lhe, finalmente, uma palavra de amor, uma atitude que não fosse, como habitualmente, de total desdém, em flagrante contraste com o tratamento dado ao outro filho Aaron.
No livro, o Adam diz apenas a palavra Timshel, antes de fechar os olhos e adormecer para sempre. Contudo, esta palavra é, para Cal, redentora, e basta. Trata-se de uma palavra hebraica, que significa “Tu Podes”. Em termos filosóficos, é talvez, segundo a tese do autor do livro, a palavra mais importante do Mundo. Significa que o caminho está aberto. A responsabilidade incumbe ao homem, pois, se “tu podes”, também é verdade que “tu não podes”. “Tu podes” é algo que engrandece o homem e o eleva ao tamanho dos deuses, porque, apesar de todos os seus erros, é ele (o Homem) ainda quem dispõe da escolha. Pode escolher o caminho, lutar para o percorrer, e vencer. O realizador do filme opta por um final mais ligeiro, retirando, em minha opinião, esta carga filosófica. Assim, Adam, incentivado por Abra, acaba por, finalmente, e por uma única vez na vida, pedir um favor ao filho, que este acata.
O filme é feito apenas, como não podia deixar de ser, de uma linha principal, explorando os lados mais ajustados ao registo cinematográfico. Diferenças principais ou aspectos que me surpreendem: a proximidade entre Cal e Abra (namorada do irmão), o que não acontece no livro; imaginei que a Kate (a mãe dos dois irmãos que os abandona ainda muito pequenos), fosse mais bonita; o papel quase apagado do Lee, o “China”;
O final do filme é apresentado de forma bastante diferente, na medida em que Abra toma o papel do Lee. No filme, é Abra que incentiva Adam (o patriarca da família), num último esforço, antes de morrer, a perdoar o filho Cal, a dar-lhe, finalmente, uma palavra de amor, uma atitude que não fosse, como habitualmente, de total desdém, em flagrante contraste com o tratamento dado ao outro filho Aaron.
No livro, o Adam diz apenas a palavra Timshel, antes de fechar os olhos e adormecer para sempre. Contudo, esta palavra é, para Cal, redentora, e basta. Trata-se de uma palavra hebraica, que significa “Tu Podes”. Em termos filosóficos, é talvez, segundo a tese do autor do livro, a palavra mais importante do Mundo. Significa que o caminho está aberto. A responsabilidade incumbe ao homem, pois, se “tu podes”, também é verdade que “tu não podes”. “Tu podes” é algo que engrandece o homem e o eleva ao tamanho dos deuses, porque, apesar de todos os seus erros, é ele (o Homem) ainda quem dispõe da escolha. Pode escolher o caminho, lutar para o percorrer, e vencer. O realizador do filme opta por um final mais ligeiro, retirando, em minha opinião, esta carga filosófica. Assim, Adam, incentivado por Abra, acaba por, finalmente, e por uma única vez na vida, pedir um favor ao filho, que este acata.
Por último, tenho de referir uma cena muito forte, aquela em que o Cal, sempre desprezado pelo pai, quer, como último recurso, comprar o seu amor. Então, e aproveitando o dia de aniversário do pai, preparou um festa e deu-lhe, de presente, um elevado montante em dinheiro, como forma de o compensar do elevado prejuízo resultante do negócio das alfaces e, no fundo, tentar conquistar o seu amor. O pai reagiu mal e, mais uma vez, arrasou o Cal, na presença do outro filho, que, em contrapartida, foi elogiado. O Cal fica de rastos, destroçado, levando-o à revolta e, desta vez, à vingança (levou o irmão a conhecer a mãe que era uma prostituta).
Bem, estamos, definitivamente, perante um bom livro e um bom filme, o que raramente acontece…
terça-feira, 19 de julho de 2011
Memorial do Convento
Era uma vez um rei, D. João V, Rei de Portugal, rico e poderoso. Preocupado com a falta de descendentes, promete levantar um convento em Mafra, se tiver filhos da rainha;
Era uma vez Baltasar Sete-Sóis, maneta, chega a Lisboa como pedinte. Conhece Blimunda, ajuda na construção da passarola e morre num auto-de-fé;
Era uma vez Blimunda Sete-Luas, com capacidades de vidente, vê entranhas e vontades nas pessoas, ajuda na construção da passarola, partilha a sua vida com Baltasar;
Era uma vez um padre, Padre Bartolomeu de Gusmão, evita, durante algum tempo, a Inquisição devido à amizade com o Rei. Com a ajuda de Baltasar e de Blimunda, constrói a passarola. Perseguido, de novo, pela Inquisição, foge para Castela, vindo a morrer em Toledo;
Era uma vez um povo, O Povo de Portugal, construiu o convento em Mafra, à custa de muitos sacrifícios e até mesmo algumas mortes;
Era uma vez um livro, Memorial do Convento, que eu acabo de revisitar e que, se Deus quiser (quer o José Saramago queira ou não), ainda hei-de voltar a ler. Há livros assim…
Era uma vez Baltasar Sete-Sóis, maneta, chega a Lisboa como pedinte. Conhece Blimunda, ajuda na construção da passarola e morre num auto-de-fé;
Era uma vez Blimunda Sete-Luas, com capacidades de vidente, vê entranhas e vontades nas pessoas, ajuda na construção da passarola, partilha a sua vida com Baltasar;
Era uma vez um padre, Padre Bartolomeu de Gusmão, evita, durante algum tempo, a Inquisição devido à amizade com o Rei. Com a ajuda de Baltasar e de Blimunda, constrói a passarola. Perseguido, de novo, pela Inquisição, foge para Castela, vindo a morrer em Toledo;
Era uma vez um povo, O Povo de Portugal, construiu o convento em Mafra, à custa de muitos sacrifícios e até mesmo algumas mortes;
Era uma vez um livro, Memorial do Convento, que eu acabo de revisitar e que, se Deus quiser (quer o José Saramago queira ou não), ainda hei-de voltar a ler. Há livros assim…
domingo, 17 de julho de 2011
Os livros que eu li
Como anunciado, acabei ler, já há uns dias, o Dom Casmurro, do Machado de Assis.
O livro foi publicado em 1900 e é um dos romance mais conhecidos de Machado de Assis. Narra em primeira pessoa a história de Bentinho que, por circunstâncias várias, se vai fechando em si mesmo e passa a ser conhecido como Dom Casmurro. A história é a seguinte: Órfão de pai, criado com desvelo pela mãe (D. Glória), protegido do mundo pelo círculo doméstico e familiar (tia Justina, tio Cosme, José Dias), Bentinho é destinado à vida sacerdotal, em cumprimento de uma antiga promessa de sua mãe.
A vida do seminário, no entanto, não o atrai. Como tal, inicia o namoro com Capitu, filha dos vizinhos. Apesar de comprometida pela promessa, também D. Glória sofre com a ideia de separar-se do filho único. Por expediente de José Dias, Bentinho abandona o seminário e, em seu lugar, ordena-se um escravo.
Correm os anos e com eles o amor de Bentinho e Capitu. Entre o namoro e o casamento, Bentinho forma-se em Direito e estreita a sua amizade com um ex-colega de seminário, Escobar, que casa com Sancha, amiga de Capitu.
Do casamento de Bentinho e Capitu nasceu Ezequiel. Escobar morre e, durante seu enterro, Bentinho julga estranha a forma pela qual Capitu contempla o cadáver. A partir daí, os ciúmes vão aumentando e precipita-se a crise. À medida que cresce, Ezequiel torna-se cada vez mais parecido com Escobar. Bentinho, muito ciumento, chega a planear o assassinato da esposa e do filho, seguido de suicídio, mas não tem coragem. A tragédia dilui-se na separação do casal.
Capitu viaja com o filho para a Europa, onde morre anos depois. Ezequiel, já adolescente, volta ao Brasil para visitar o pai, que apenas constata a semelhança entre ele e o antigo colega de seminário. Ezequiel volta a viajar e morre no estrangeiro. Bentinho, cada vez mais fechado nas suas dúvidas, passa a ser chamado de casmurro pelos amigos e vizinhos e põe-se a escrever a sua vida (o romance).
Até meio do romance, sucedem-se os estratagemas de Bentinho para não seguir a vida eclesiástica. Eu estava curioso para ver a fórmula final que o autor ia encontrar para fechar este enredo. Por instantes, pensei no António da “Manhã Submersa”, do Vergílio Ferreira. Não, o Machado de Assis não foi por aí. Com pena minha…
O livro foi publicado em 1900 e é um dos romance mais conhecidos de Machado de Assis. Narra em primeira pessoa a história de Bentinho que, por circunstâncias várias, se vai fechando em si mesmo e passa a ser conhecido como Dom Casmurro. A história é a seguinte: Órfão de pai, criado com desvelo pela mãe (D. Glória), protegido do mundo pelo círculo doméstico e familiar (tia Justina, tio Cosme, José Dias), Bentinho é destinado à vida sacerdotal, em cumprimento de uma antiga promessa de sua mãe.
A vida do seminário, no entanto, não o atrai. Como tal, inicia o namoro com Capitu, filha dos vizinhos. Apesar de comprometida pela promessa, também D. Glória sofre com a ideia de separar-se do filho único. Por expediente de José Dias, Bentinho abandona o seminário e, em seu lugar, ordena-se um escravo.
Correm os anos e com eles o amor de Bentinho e Capitu. Entre o namoro e o casamento, Bentinho forma-se em Direito e estreita a sua amizade com um ex-colega de seminário, Escobar, que casa com Sancha, amiga de Capitu.
Do casamento de Bentinho e Capitu nasceu Ezequiel. Escobar morre e, durante seu enterro, Bentinho julga estranha a forma pela qual Capitu contempla o cadáver. A partir daí, os ciúmes vão aumentando e precipita-se a crise. À medida que cresce, Ezequiel torna-se cada vez mais parecido com Escobar. Bentinho, muito ciumento, chega a planear o assassinato da esposa e do filho, seguido de suicídio, mas não tem coragem. A tragédia dilui-se na separação do casal.
Capitu viaja com o filho para a Europa, onde morre anos depois. Ezequiel, já adolescente, volta ao Brasil para visitar o pai, que apenas constata a semelhança entre ele e o antigo colega de seminário. Ezequiel volta a viajar e morre no estrangeiro. Bentinho, cada vez mais fechado nas suas dúvidas, passa a ser chamado de casmurro pelos amigos e vizinhos e põe-se a escrever a sua vida (o romance).
Até meio do romance, sucedem-se os estratagemas de Bentinho para não seguir a vida eclesiástica. Eu estava curioso para ver a fórmula final que o autor ia encontrar para fechar este enredo. Por instantes, pensei no António da “Manhã Submersa”, do Vergílio Ferreira. Não, o Machado de Assis não foi por aí. Com pena minha…
terça-feira, 21 de junho de 2011
Machado de Assis
Passam hoje 172 anos que nasceu, no Rio de Janeiro, o escritor Machado de Assis (1839-1908), filho de uma lavadeira açoriana, aquele que veio a ser considerado o grande pioneiro do realismo da literatura brasileira, sobretudo com MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS e DOM CASMURRO.
Machado de Assis fundou e foi o primeiro presidente, eleito por unânimidade, da Academia Brasileira de letras.
DOM CASMURRO vai ser a minha próxima leitura.
Machado de Assis fundou e foi o primeiro presidente, eleito por unânimidade, da Academia Brasileira de letras.
DOM CASMURRO vai ser a minha próxima leitura.
Antes, apenas li O ALIENISTA, narrativa em que o autor pretende chamar a atenção para a mentalidade cientificista que marcou o Séc. XIX. Trata-se de uma abordagem satírica e irónica da necessidade de justificar os excessos da ciência como uma condição para os avanços no futuro. Casa Verde, onde decorre a narrativa, acolhe todos os “loucos”, mas, no final, o único “louco” é o médico Simão Bracamarte, a personagem principal.
sábado, 11 de junho de 2011
A Minha Guerra - II
Há coisas na nossa vida que deixam marcas indeléveis para sempre.
A minha participação na Guerra Colonial, como aconteceu com outros da minha geração, é uma delas. Convém manter viva essa memória.
A minha participação na Guerra Colonial, como aconteceu com outros da minha geração, é uma delas. Convém manter viva essa memória.
sexta-feira, 10 de junho de 2011
Luís de Camões na Casa Fernando Pessoa
No dia 7 deste mês, teve lugar na Casa Fernando Pessoa uma conferência sobre “Os Lusíadas”, de Luís de Camões, apresentada por Vasco Graça Moura, no âmbito do ciclo de conferências denominado “Livros Difíceis”.
Vasco Graça Moura fez uma exposição essencialmente académica. Portanto, nada a dizer.
Vasco Graça Moura considera Camões o maior vulto de toda a história portuguesa, por ter sido o fundador da língua portuguesa moderna. Logo, só há que respeitar.
A exposição foi totalmente consensual? Quase. No final, só duas questões, mas apenas a primeira é merecedora aqui da nossa atenção. Alguém colocou a seguinte questão: «Fernando Pessoa foi mesmo um anti-camoniano?» Argumentou o ouvinte ser arriscado afirmar que FP não foi um apreciador da obra de Camões, pois, como ele próprio afirmara, o poeta era um fingidor e, assim, o que ele dissera não seria para levar a sério.
VGM iniciara a sua exposição dizendo, justamente, que não deixava de ser irónico falar de “Os Lusíadas”, na casa de alguém que não apreciava Camões e que ele próprio se achava um super-Camões.
O orador teve, então, oportunidade para fundamentar o seu ponto de vista, apresentando, em sua defesa, os factos:
1. Fernando Pessoa escreveu, em 1934, um texto acerca de Camões, desvalorizando a sua obra;
2. No dia 7 de Abril de 1914, respondendo a um inquérito sobre «qual é o mais belo livro português dos últimos trinta anos?» para o jornal «República», Fernando Pessoa considerou a “Pátria” de Guerra Junqueiro como sua eleição, colocando-a mesmo à frente de “Os Lusíadas;
3. Fernando Pessoa não dedicou no seu livro “Mensagem” qualquer poema de exaltação a Camões, como o fez com tantas figuras da História de Portugal.
Tendo a concordar com VGM. Fernando Pessoa não apreciou de sobremaneira a obra de Camões, mas, nesse aspecto, como se sabe, não esteve isolado.
Há, na verdade, há alguns aspectos da obra que poderão ser discutidos (corresponde a narrativa camoniana ao modo realista e existencial, vivido pelos portugueses na sua peregrinação pelo mundo?), mas não são suficientes para deixar de considerar “Os Lusíadas” a epopeia portuguesa por excelência.
Vasco Graça Moura fez uma exposição essencialmente académica. Portanto, nada a dizer.
Vasco Graça Moura considera Camões o maior vulto de toda a história portuguesa, por ter sido o fundador da língua portuguesa moderna. Logo, só há que respeitar.
A exposição foi totalmente consensual? Quase. No final, só duas questões, mas apenas a primeira é merecedora aqui da nossa atenção. Alguém colocou a seguinte questão: «Fernando Pessoa foi mesmo um anti-camoniano?» Argumentou o ouvinte ser arriscado afirmar que FP não foi um apreciador da obra de Camões, pois, como ele próprio afirmara, o poeta era um fingidor e, assim, o que ele dissera não seria para levar a sério.
VGM iniciara a sua exposição dizendo, justamente, que não deixava de ser irónico falar de “Os Lusíadas”, na casa de alguém que não apreciava Camões e que ele próprio se achava um super-Camões.
O orador teve, então, oportunidade para fundamentar o seu ponto de vista, apresentando, em sua defesa, os factos:
1. Fernando Pessoa escreveu, em 1934, um texto acerca de Camões, desvalorizando a sua obra;
2. No dia 7 de Abril de 1914, respondendo a um inquérito sobre «qual é o mais belo livro português dos últimos trinta anos?» para o jornal «República», Fernando Pessoa considerou a “Pátria” de Guerra Junqueiro como sua eleição, colocando-a mesmo à frente de “Os Lusíadas;
3. Fernando Pessoa não dedicou no seu livro “Mensagem” qualquer poema de exaltação a Camões, como o fez com tantas figuras da História de Portugal.
Tendo a concordar com VGM. Fernando Pessoa não apreciou de sobremaneira a obra de Camões, mas, nesse aspecto, como se sabe, não esteve isolado.
Há, na verdade, há alguns aspectos da obra que poderão ser discutidos (corresponde a narrativa camoniana ao modo realista e existencial, vivido pelos portugueses na sua peregrinação pelo mundo?), mas não são suficientes para deixar de considerar “Os Lusíadas” a epopeia portuguesa por excelência.
quarta-feira, 1 de junho de 2011
A Nossa Senhora
Ainda a visita à Casa Museu José Régio, do passado dia 25 de Maio passado. Ao passar diante de uma bela imagem de madeira, a guia reuniu o grupo e explicou:
Esta imagem de Nossa Senhora, em vida do poeta, estava ali ao cimo das escadas, logo à direita. Sempre que entrava em casa, José Régio falava com ela e, um dia, até lhe compôs um poema. A guia pegou num papel que estava na base da imagem e declamou esse belo poema:
Nossa Senhora
Tenho ao cimo da escada, de maneira
Que logo, entrando, os olhos me dão nela,
Uma Nossa Senhora de madeira,
Arrancada a um Calvário de Capela.
Põe as mãos com fervor e angústia.
O manto cobre-lhe a testa, os ombros, cai composto;
É uma expressão de febre e espanto;
Quase lhe afeia o fino rosto.
Mãe de Deus, seus olhos enovoados
Olham, chorosos, fixos muito além...
E eu, ao passar, detenho os passos apressados,
Peço-lhe – “ A sua benção, Mãe!”
Sim, fazemo-nos boa companhia
E não me assusta a Sua dor: quase me apraz
O filho dessa Mãe nunca mais morre. Aleluia!
Só isto bastaria a me dar paz.
“-Porque choras, Mulher?” – Docemente a repreendo.
Mas à minh´alma, então, chega de longe a sua voz
Que eu bem entendo: - “Não é por Ele...”
“Eu sei! Teus filhos somos nós!”
Nossa Senhora
Tenho ao cimo da escada, de maneira
Que logo, entrando, os olhos me dão nela,
Uma Nossa Senhora de madeira,
Arrancada a um Calvário de Capela.
Põe as mãos com fervor e angústia.
O manto cobre-lhe a testa, os ombros, cai composto;
É uma expressão de febre e espanto;
Quase lhe afeia o fino rosto.
Mãe de Deus, seus olhos enovoados
Olham, chorosos, fixos muito além...
E eu, ao passar, detenho os passos apressados,
Peço-lhe – “ A sua benção, Mãe!”
Sim, fazemo-nos boa companhia
E não me assusta a Sua dor: quase me apraz
O filho dessa Mãe nunca mais morre. Aleluia!
Só isto bastaria a me dar paz.
“-Porque choras, Mulher?” – Docemente a repreendo.
Mas à minh´alma, então, chega de longe a sua voz
Que eu bem entendo: - “Não é por Ele...”
“Eu sei! Teus filhos somos nós!”
O mesmo poema é a razão deste vídeo:
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