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segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Um poema de Natal

Ladaínha dos Póstumos Natais

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito.


David Mourão-Ferreira,

sábado, 17 de dezembro de 2011

Uma visita do além

O Prémio Pessoa é um prémio português instituído em 1987 pelo jornal Expresso e patrocinado pela Caixa Geral de Depósitos. É concedido anualmente à pessoa ou pessoas, de nacionalidade portuguesa que durante esse período, se tenha distinguido como protagonista na vida científica, artística ou literária.

O ensaísta, professor universitário e filósofo Eduardo Lourenço, de 88 anos, foi 25.º premiado com o Prémio Pessoa. Eduardo Lourenço recebe um diploma e 60 mil euros.

Crítico e ensaísta literário, virado predominantemente para a poesia, aproximou-se da obra de Fernando Pessoa, a propósito da qual deu à estampa o volume Pessoa Revisitado e Fernando Rei da Nossa Baviera.

Receber uma distinção com o nome de Fernando Pessoa “é como receber do além a visita dele”, sublinhou Eduardo Lourenço.

Bem, se receber mesmo essa visita do Pessoa, não será o primeiro. Pessoa já veio do além, nos primeiros meses do ano de 1936, para falar com o seu homónimo Ricardo Reis.

Todavia, meu caro Eduardo Lourenço, tal só aconteceu, como bem sabe, na narrativa magistral de José Saramago, no Ano da Morte de Ricardo Reis. Mas nunca se sabe…

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Uma sugestão no roteiro Pessoano


Igreja dos Mártires, no Chiado, onde Fernando Pessoa foi baptizado no dia 21 de Julho de 1888. O sino da minha aldeia, meu querido Gaspar Simões, é o da Igreja dos Mártires, ali no Chiado. A aldeia em que nasci foi o Largo de São Carlos (Carta a J. Gaspar Simões de 11.12.1931). O sino da minha aldeia é o desta igreja, escreveu o poeta no Cancioneiro:

Ó sino da minha aldeia,
Dolente na tarde calma,
Cada tua badalada
Soa dentro da minha alma.

E é tão lento o teu soar,
Tão como triste da vida,
Que já a primeira pancada
Tem o som de repetida.

Por mais que me tanjas perto
Quando passo, sempre errante,
És para mim como um sonho,
Soas-me na alma distante.

A cada pancada tua,
Vibrante no céu aberto,
Sinto mais longe o passado,
Sinto a saudade mais perto.

A Igreja dos Mártires é uma construção do século XVIII, terminada em 1784. Substitui  antiga Ermida dos Mártires, anterior ao terramoto de 1755. Assinala a conquista da cidade aos mouros. O baixo-relevo do portal da Igreja dos Mártires evoca, justamente, essa conquista. O nome também. Nas imediações existiu outrora um cemitério, onde foram sepultados os soldados mortos no assalto à cidade. Esses soldados, caídos em batalha, ficaram conhecidos como mártires. A fachada principal da igreja ficou como testemunho do início da era cristã de Lisboa, podendo-se ver o fundador de Portugal em agradecimento à Virgem Maria pela graça da vitória. O altar é em mármore e no seu topo pode ver-se uma representação da Santíssima Trindade. O tecto, pintado por Pedro Alexandrino, ostenta também uma notável pintura. No interior, de uma só nave, existem quatro capelas de cada um dos lados e um órgão do século XVIII.
A capela onde Fernando Pessoa foi baptizado, do lado esquerdo de quem entra, possui portão de ferro dourado e uma inscrição assinalando o primeiro baptismo realizado no templo antigo (que este substitui) em 1147.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Um poema de Natal

Natal

Chove. É dia de Natal.
Lá para o Norte é melhor
Há neve que faz mal
E o frio que ainda é pior.

E toda a gente é contente
Porque é dia de o ficar
Chove no Natal presente
Antes isso que nevar.

Pois apesar de ser esse
O Natal da convenção,
Quando o corpo me arrefece
Tenho frio e Natal não.

Deixo sentir a quem a quadra
E o Natal a quem o fez,
Pois se escrevo ainda outra quadra
Fico gelado dos pés.

Fernando Pessoa
´
Curioso o final este poema. Um tom irónico, nada habitual em Fernando Pessoa…

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

A "Nossa Senhora", de José Régio


Nossa Senhora

Tenho ao cimo da escada, de maneira
Que logo, entrando, os olhos me dão nela,
Uma Nossa Senhora de madeira,
Arrancada a um Calvário de Capela.

Põe as mãos com fervor e angústia.
O manto cobre-lhe a testa, os ombros, cai composto;
É uma expressão de febre e espanto;
Quase lhe afeia o fino rosto.

Mãe de Deus, seus olhos enovoados
Olham, chorosos, fixos muito além...
E eu, ao passar, detenho os passos apressados,
Peço-lhe – “ A sua benção, Mãe!”

Sim, fazemo-nos boa companhia
E não me assusta a Sua dor: quase me apraz
O filho dessa Mãe nunca mais morre. Aleluia!
Só isto bastaria a me dar paz.

“-Porque choras, Mulher?” – Docemente a repreendo.
Mas à minh´alma, então, chega de longe a sua voz
Que eu bem entendo: - “Não é por Ele...”
“Eu sei! Teus filhos somos nós!”.

José Régio

sábado, 3 de dezembro de 2011

Pedro Audi Soares


Entrada de leão, saída de sendeiro”, diz o nosso povo. Pedro Mota Soares, ministro da Solidariedade e Segurança Social, do Governo de Portugal, fez a inversa, ou seja, “entrada de mota, saída de Audi A7

Segundo li na nossa Comunicação Social, o Ministro Pedro Mota Soares faz-se transportar num carro de luxo, cujo preço de venda ao público ronda 86 mil euros. Numa altura de cortes nos subsídios de Natal e de férias de funcionários públicos e pensionistas e em que se pedem sacrifícios aos portugueses, o ministro que, em Junho, se apresentou, na tomada de posse do Governo, ao volante de uma vespa, desloca-se agora num carro novo, de alta cilindrada.

Numa época tão difícil como aquela em que vivemos, se o exemplo não vier de cima, jamais um governo conseguirá mobilizar o país para aquilo que precisa de ser feito.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Fernando Pessoa, adivinho

O Parque dos Poetas, em Oeiras, presta uma justa e bonita homenagem aos poetas portugueses. Nesta primeira fase, estão ali expostas 20 esculturas de poetas do Séc. XX.

Um dos poetas homenageados, como não podia deixar de ser, é Fernando Pessoa.

Lamentavelmente, a estátua do poeta encontra-se vandalizada. Nem morto, o poeta deixa de levar porrada.

Até parece que já o adivinhava, quando, escondido na máscara do Álvaro de Campos, escreveu:

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus companheiros têm sido campeões em tudo
….Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenha calado, tenho sido mais ridículo ainda;
….

Álvaro de Campos (excerto de “Poema em Linha Recta”)

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

O Ano da Morte de Fernando Pessoa


Completam-se hoje 76 anos da morte de Fernando Pessoa. Morreu na madrugada do dia 30 de Novembro de 1935, no Hospital de São Luís dos Franceses, em Lisboa, com um “problemazito” hepático. Tantas vezes apanhado “em flagrante delitro”, como ele se confessou à sua amada Ofélia, foi mais uma vítima daqueles que encontram no álcool um lenitivo para as suas dores existenciais.

Morreu aquele de quem Sophia disse um dia «...E és semelhante a um Deus de quatro rostos/ E és semelhante a um Deus de muitos nomes…»

sábado, 26 de novembro de 2011

Fado como Património Imaterial da Humanidade

Ainda este sábado ou amanhã, a UNESCO poderá anunciar o fado como Património Imaterial da Humanidade. Os responsáveis da candidatura estão bastante confiantes. Existe por aí um grande frenesim quanto ao desfecho da candidatura.

Eu, confesso, não me sinto assim tão entusiasmado.

Quando a Amália Rodrigues começou a cantar fados com letras do poeta Luís de Camões, alguns intelectuais (José Gomes Ferreira e José Cardoso Pires, por exemplo) logo gritaram aqui D´El Rei que o maior vate português não pode estar ao serviço do fado.

Pois, eu penso exactamente o contrário. Apenas gosto de fado quando ele assenta num bom poema, para além, necessariamente, da música que tem que ter qualidade.

Amália Rodrigues soube fazê-lo muito bem, em dada altura da sua carreira, como acontece neste fado, criado a partir do poema “Abandono”, de David Mourão-Ferreira.

Espírito do tempo

           Passagem do tempo por um banco do jardim de Massamá

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

A maior dor humana

Camilo Castelo Branco foi um dos maiores escritores portugueses, dos mais fecundos sem dúvida.

Escreveu também poesia, uma faceta pouco conhecida. Temos de reconhecer que foi um poeta porventura medíocre.

Porém, no dia de hoje, estou obrigado a roubar-lhe o título de um soneto que ele escreveu, inspirado pela morte sucessiva dos dois filhos de Teófilo Braga.

A maior dor humana

Que imensas agonias se formaram
sob os olhos de Deus! Sinistra hora
em que o homem surgiu! Que negra aurora,
que amargas condições o escravizaram!

As mãos, que um filho amado amortalharam,
erguidas buscam Deus. A Fé implora...
E o céu, que respondeu? As mãos baixaram
para abraçar a filha morta agora.

Depois um pai em trevas vai sonhando,
e apalpa as sombras deles onde os viu
nascer, florir, morrer! Desastre infando!

Ao teu abismo, pai, não vão confortos...
És coração que a dor empederniu,
sepulcro vivo de dois filhos mortos.


Camilo Castelo Branco

terça-feira, 22 de novembro de 2011

A modernidade de Fialho de Almeida

                (Retrato pintado por Columbano Bordalo Pinheiro)
                                        
Li no jornal “Público” de hoje que está decorrer em Lisboa, de 21 a 25 do corrente mês, no Palácio da Independência, sede da Sociedade Histórica da Independência de Portugal (SHIP), o Colóquio Internacional Portugal no Tempo de Fialho de Almeida.

Pretende chamar a atenção não apenas para um prosador de elevado mérito mas também para um dos mais esquecidos precursores da nossa modernidade.

Fialho de Almeida nasceu em Vila de Frades em 7 de Maio de 1857 e morreu em Cuba em 4 de Março de 1911. Foi jornalista e escritor pós-romântico português.

Realizou os estudos secundários num colégio de Lisboa, entre 1866 e 1871. Empregou-se numa farmácia e formou-se em Medicina entre 1878 e 1885.

No entanto, não seguiu a carreira profissional, tendo-se dedicado ao jornalismo e à literatura. Em 1893, voltou à sua terra natal, onde desposou uma senhora abastada, que faleceu logo no ano seguinte. Tornou-se lavrador em Cuba, mas continuou a publicar artigos para jornais e a escrever vários contos e crónicas. Entre as suas obras mais notáveis, encontram-se os cadernos periódicos Os Gatos, redigidos entre 1889 e 1894, que seguiram a mesma linha crítica d'As Farpas, de Ramalho Ortigão.

Todavia, a obra de Fialho de Almeida tem sido vista como fragmentária e de qualidade desigual, mas esse carácter, um tanto anárquico, é justamente um dos aspectos que levou a primeira geração modernista, sobretudo Fernando Pessoa, a render-lhe homenagem.

Segundo consta do citado artigo, várias das comunicações deste congresso associam justamente Fialho de Almeida a Fernando Pessoa, em particular ao seu semi-heterónimo Bernardo Soares, seu confesso admirador. Muito interessante…

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Um poema ao corpo




Acabo de reler o romance Em Nome da Terra, de Vergílio Ferreira, escrito em 1989.  Releio muito e espanto-me sempre, porque percebo melhor o que leio, sempre de uma maneira diferente, mais clara, mais lúcida. E isso dá-me muito prazer.

Em Nome da Terra é um poema ao corpo. Corpo deformado, envelhecido pelo tempo, corpo belo da juventude, corpo eterno. João, o protagonista viúvo, reformado e carcomido pela idade, recolhe-se a uma casa de repouso para não ser um peso à família e à sociedade. À filha Márcia deixara-lhe tudo: a casa, os móveis, os livros. Consigo levou apenas a memória, um Cristo mutilado, um desenho de Dürer, uma estampa a cores de um fresco de Pompeia associados em tríptico, e um concerto para oboé de Mozart. Os quatro motivos materiais são aquilo que chamamos os símbolos deste romance. É com eles e por eles que João vai tecer analogias relativas ao corpo, à morte, ao esplendor e à beleza. São uma das linhas orientadoras da reflexão do escritor ao longo de toda a narrativa, já que tinha esses objectos no seu quarto do lar e em todas as horas se defrontava com eles.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

José Saramago

Se fosse vivo, o escritor José Saramago completaria, hoje, 89 anos. Para celebrar o aniversário, é feito hoje o lançamento oficial do livro Clarabóia.

«Claraboia é a história de um prédio com seis inquilinos sucessivamente envolvidos num enredo. Acho que o livro não está mal construído. Enfim, é um livro também ingénuo, mas que, tanto quanto me recordo, tem coisas que já têm que ver com o meu modo de ser».  Disse José Saramago.

Comprei o livro há uns dias. Vou a meio, mas dá para ver que estamos perante um livro de início de carreira e como José Saramago progrediu, e de que maneira, na sua forma de escrever.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011


Grandes Livros é uma série documental da RTP-2 que dedicou cada um dos seus 12 episódios a uma obra-prima da literatura nacional e ao seu autor.

A RTP-2 está a repetir essa série e ontem assisti ao episódio dedicado ao romance Mau Tempo no Canal, de Vitorino Nemésio.

Mau Tempo no Canal é um romance publicado em 1949. A acção decorre nas ilhas do Faial, Terceira, Pico e na ilha de São Jorge entre 1917 e 1919 e retrata a sociedade açoriana, mais justamente, a sociedade estratificada da cidade da Horta, local onde decorre a intriga principal e onde Vitorino Nemésio se encontra nesta altura da sua vida.

Mau Tempo no Canal conta, num ritmo lento, uma quantidade de histórias numa só, é uma trama que enreda uma série de sucedidos e cujo ponto de apoio mais evidente é a relação entre dois personagens (pouco apaixonante), entre duas famílias e entre dois estratos sociais.

O ritmo é, na verdade, bastante lento. Vitorino Nemésio excede-se em pormenores acerca da sociedade açoriana e não resiste em mostrar a sua erudição acerca de uma grande variedade de assuntos, estendendo em demasia o romance.

De todo o modo, parece não haver dúvidas que estamos perante uma das principais narrativas em língua portuguesa da primeira metade do Séc. XX, a par de, segundo os críticos, de Húmus, de Raul Brandão, A Confissão de Lúcio, de Mário de Sá-Carneiro e O Jogo da Cabra, de José Régio.

domingo, 13 de novembro de 2011

Um poema de Sophia


MEDITAÇÃO DO DUQUE DE GANDIA
SOBRE A MORTE DE ISABEL DE PORTUGAL


Nunca mais
a tua face será pura limpa e viva,
nem teu andar como onda fugitiva
se poderá nos passos do tempo tecer.
E nunca mais darei ao tempo a minha vida.

Nunca mais servirei senhor que possa morrer.
A luz da tarde mostra-me os destroços
do teu ser. Em breve a podridão
beberá os teus olhos e os teus ossos
tomando a tua mão na sua mão.

Nunca mais amarei quem não possa viver
sempre,
porque eu amei como se fossem eternos
a glória, a luz e o brilho do teu ser,
amei-te em verdade e transparência
e nem sequer me resta a tua ausência,
és um rosto de nojo e negação
e eu fecho os olhos para não te ver.
Nunca mais servirei senhor que possa morrer.

Sophia de Mello Breyner Andresen

sábado, 12 de novembro de 2011

Malabarice, que palavra curiosa!

Há dois dias, liguei a televisão quando estava a transmitir, num dos canais, em directo da Assembleia da República, a discussão do Orçamento para 2012.

De repente, a minha alma exaltou. «Malabarice é filho de malabarismo com aldrabice», disse o bloquista Louçã, que então discursava.

Malabarice, que palavra curiosa!

Percebi, depois, que respondia ao nosso Primeiro-Ministro que antes havia dito “O Orçamento para 2012 não tem malabarices com as cativações como aconteceu no passado".

Eu não sei onde é que o nosso Primeiro-Ministro foi buscar este vocábulo. Será que o nosso Primeiro-Ministro anda a ler Mia Couto? Não vejo outra fonte de inspiração possível. Se foi, está de parabéns.

Mia Couto tem já no panorama da literatura portuguesa um estatuto incontestado que se deve não só à forma como descreve e trata os problemas, mas principalmente à inventiva poética da sua escrita, numa permanente descoberta de novas palavras.

Mia Couto é um mágico da língua, criando, apropriando, recriando, renovando a língua portuguesa.

Mas agora, pelos vistos, Mia Couto tem, quando menos se esperava, um concorrente de peso na recriação da língua portuguesa.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

O Museu do Neo-Realismo em Vila Franca de Xira

Há dois dias, na companhia dos meus amigos do Clube de Leitura Roque Gameiro, visitei o Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira, que está instalado num belo edifício projectado pelo arquitecto Alcino Soutinho.

O Neo-Realismo foi uma corrente artística de meados do século XX, com um carácter ideológico marcadamente de esquerda marxista e este aspecto, ainda que subtilmente, está patente em toda a exposição.
A primeira impressão dos visitantes, logo ao entrar, é a figura tutelar do escritor Alves Redol. O rés-do-chão é exclusivamente dedicado a Alves Redol, sendo o espaço da entrada principal do edifício ocupado, magnanimamente, por uma estátua sua, da autoria do escultor Lagoa Henriques. Nos outros dois andares, a figura deste escritor nunca deixa de estar bem presente.

Alves Redol compreendeu a literatura como forma de intervenção social, sendo um dos seus primeiros romances, Gaibéus, de 1939, considerado um dos textos literários fundadores da narrativa neo-realista. Tal postura valeu-lhe um grande êxito junto de um grande público, mas também, ao mesmo tempo, um ataque da crítica, que apontava como deficiências de escrita a linguagem simples da sua prosa. Acusações que o próprio Alves Redol de certa forma aceitou, vindo a afirmar, nos anos 60, que "Este romance não pretende ficar na literatura como obra de arte. Quer ser, antes de tudo, um documentário humano fixado no Ribatejo. Depois disso, será o que os outros entenderem". Pode-se dizer que a sua obra evoluiu de uma primeira fase mais impulsiva para uma outra caracterizada por um maior amadurecimento de análise e por um maior aperfeiçoamento formal. O romance Barranco dos Cegos, publicado em 1962, é considerada a sua melhor obra.

Por agora, deixo aqui uma pergunta. Será que a obra de Alves Redol se sobreleva assim tanto sobre a dos restantes vultos neo-realistas (Soeiro Pereira Gomes, Manuel da Fonseca, Carlos Oliveira, Mário Dionísio, Joaquim Namorado, Fernando Namora, etc..) justifica o destaque que o Museu lhe outorga?

terça-feira, 8 de novembro de 2011

O poeta do Marão

«O aperfeiçoamento da Humanidade depende do aperfeiçoamento de cada um dos indivíduos que a formam. Enquanto as partes não forem boas, o todo não pode ser bom. Os homens, na sua maioria, são ainda maus e é, por isso, que a sociedade enferma de tantos males. Não foi a sociedade que fez os homens; foram os homens que fizeram a sociedade».
Teixeira de Pascoaes, in "A Saudade e o Saudosismo"

Passam hoje 134 anos sobre o nascimento de Teixeira de Pascoais, poeta e escritor português, representante do Saudosismo.

Passou maior parte da sua vida no solar de família em São João de Gatão, perto de Amarante, com a mãe e outros membros da sua família. Dedicou-se à gestão das propriedades, à incansável contemplação da natureza e da sua amada Serra do Marão.

Em Maio último estive na casa de São João da Gatão, aonde fui como peregrino. A família insiste em manter na sua posse o espólio do poeta, mas eu, depois de ver o que vi, estou longe de pensar que seja a melhor solução. É pena.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

A inspiração dos poetas

Ruy Belo nasceu em 1933, em São João da Ribeira, Rio Maior e morreu em 1978, em Queluz, com apenas 55 anos. Foi poeta e ensaísta.

Apesar do curto período de actividade literária, Ruy Belo tornou-se um dos maiores poetas portugueses da segunda metade do século XX, tendo as suas obras sido reeditadas diversas vezes.

A passagem dos 50 anos sobre a publicação da primeira obra de Ruy Belo, Aquele Grande Rio Eufrates, é assinalada, na Fundação Gulbenkian, em Lisboa, com um colóquio internacional, que decorre hoje e amanhã.

Sobre este evento, a Antena 1 foi ouvir, hoje, a viúva do poeta, Maria Teresa Belo. Conta ela que ambos gostavam muito de nadar na praia e que até tinham o hábito de se afastarem um bocado da costa e que, numa dessas vezes, poeta disse de repente para a mulher:
- Vamos depressa para a praia porque tenho aqui um poema para escrever já.
Ai esta inspiração dos poetas que chega quando menos se espera!

Também uma vez, andando à caça em S. Martinho de Anta, que tanto amava, o Miguel Torga falhou um tiro a uma perdiz. Logo, um companheiro lhe disse:
- Como falhou o tiro, Doutor?
- Estava-se-me a desenrolar um poema - respondeu o Miguel Torga.
Ai esta inspiração dos poetas!