A minha Lista de blogues

sábado, 10 de março de 2012

Florbela Espanca



Busto de Florbela Espanca, da autoria do escultor Diogo de Macedo, no Jardim Público de Évora 

(…) Sento-me, reconciliado, nos bancos de azulejos, fechados em recantos clandestinos, vou visitar Florbela, olho-a de um banco de madeira que lhe fica em frente, medito com ela. É uma cabeça calma, triste e majestosa. Banha-se de grandeza e gravidade desde a fronte cansada, que verga sobre as mãos em repouso, até ás espáduas largas, em que o pescoço se espraia. Sinto que ela prevaleceu sobre a melancolia dos séculos e que chegou até nós para nos dar testemunho. Não está bem ali, rodeada de lirismo. E imagino-a num limite da cidade, frente à planície deserta, num alto pedestal tocando os astros… (…)

Vergílio Ferreira, in Aparição

quinta-feira, 8 de março de 2012

Dia Internacional da Mulher


A Constituição da República Portuguesa assegura a igualdade no trabalho entre homens e mulheres mas estas continuam a ganhar menos, a ter menos acesso aos lugares de decisão nas empresas, a trabalhar mais horas não remuneradas e a ser as primeiras a perder o emprego.

Todavia, não é repetindo, ano após ano, este ritualismo do Dia Internacional da Mulher, que este estado de coisas se modifica.

Coincidência ou não, estreia-se hoje em Portugal o filme “Florbela”. Segundo li, o filme pretende ser um retrato íntimo de Florbela Espanca, uma mulher que viveu de forma intensa e não conseguiu amar docemente.

Sem olhar, especialmente,  para o dia que hoje se comemora, deixo aqui a minha homenagem a esta poetiza, que me desassossega. O poema Alma Perdida não é dos mais conhecidos, mas eu gosto muito.

Toda a noite o rouxinol chorou,
Gemeu, rezou, gritou perdidamente!
Alma de rouxinol, alma de gente,
Tu és talvez alguém que se finou!

Tu és, talvez, um sonho que passou,
Que se fundiu na dor, suavemente...
Talvez sejas a alma, a alma doente
Dalguém que quis amar e nunca amou!

Toda a noite choraste e eu chorei
Talvez porque, ao ouvir-te, adivinhei
Que ninguém é mais triste do que nós!

Cantaste tanta coisa à noite calma,
Que eu pensei que tu eras a minh’alma
Que chorasse perdida em tua voz!...

Florbela Espanca, in Livro de Mágoas





domingo, 26 de fevereiro de 2012

Revisitar Fausto

O livro Peregrinação de Fernão Mendes Pinto é considerado um “livro difícil”. No entanto, há quem defenda que pode ser lido ao jeito de folhetins. É bem possível encontrar histórias que podem ser contadas autonomamente.

Quem assim pensou e melhor o fez,  aliás de forma magnífica,  foi o Fausto em “POR ESTE RIO ACIMA - As viagens de Fernão Mendes Pinto”. Editado em 1982, é considerado, pela crítica em geral, um dos álbuns mais marcantes da música popular portuguesa das últimas décadas.

O álbum conta-nos histórias retiradas dos capítulos do livro. Um delas é “O Romance de Diogo Soares”, a partir, neste caso, do relato que FMP faz nos Capítulos 191 e 192. Conta a história do Diogo Soares, o grande general, por alcunha “O Galego”, que cometeu grandes atrocidades e acabou morto à pedrada por uma turba de indignados.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Sr. Verde, empregado no comércio

Assinala-se, hoje, o 157º aniversário do nascimento de Cesário Verde. O poeta nasceu no dia 25 de Fevereiro de 1855 em Lisboa, na Rua da Padaria, freguesia da Madalena. O pai, José Anastácio Verde, era comerciante e lavrador: além de se ocupar da sua loja de ferragens, na Rua dos Fanqueiros, dedicava-se também à lavoura numa quinta em Linda-a-Pastora, a cerca de dois quilómetros da capital, propriedade da família Verde desde 1797.

Cesário dividia-se entre a produção de poesias (publicadas em jornais) e as actividades de comerciante do pai, na loja de ferragens, na Rua dos Fanqueiros: escreve cartas para o estrangeiro, recebe caixeiros viajantes, pesa pregos e parafusos, monta e oleia fechaduras, experimenta ferramentas…
     Casa de Ferragens, na Rua dos Fanqueiros, nºs 2 a 8 (hoje uma instituição bancária)

De que me serve citar-me génio se resulto ajudante de guarda-livros? Quando Cesário Verde fez dizer ao médico que era, não o Sr. Verde empregado no comércio, mas o poeta Cesário Verde, usou de um daqueles verbalismos do orgulho inútil que suam o cheiro da vaidade. O que ele foi sempre, coitado, foi o Sr. Verde empregado no comércio. O poeta nasceu depois de ele morrer, porque foi depois de ele morrer que nasceu a apreciação do poeta”.
Bernardo Soares, Livro do Desassossego

É verdade, ninguém reparou na grandeza da poesia de Cesário. Andaram todos distraídos. Todos, menos um: Fernando Pessoa. Uma vez, pela pena de Bernardo Soares; outra,  levou Álvaro de Campos a bradar:
- Ó Cesário Verde, ó Mestre!

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

D. João V, o "Mãos-Largas"


Visitei, há dois dias, a Igreja de São Roque, assim como o Museu de São Roque, instalado no edifício contíguo. Ambos apresentam aos visitantes um acervo valiosíssimo.

A igreja de São Roque foi construída em conformidade com as orientações da Companhia de Jesus e com as recomendações litúrgicas do Concílio de Trento. De planta rectangular, é composta por uma só nave, uma capela-mor pouco profunda e oito capelas laterais.

Haveria muito para falar do que vi, mas gostaria de destacar apenas a Capela de São João Baptista, uma das oito capelas laterais da Igreja de São Roque, que o magnânimo D. João V encomendou em Itália.

Projectada pelos arquitectos italianos Luigi Vanvitelli e Nicola Solvi sob supervisão do arquitecto régio, Frederico Ludovice, foi inaugurada em 1752.

Destaca-se das restantes capelas da igreja pela utilização, na sua decoração, de materiais de jaspe e bronze, de mosaico e mármore.

Em frente, um quadro a óleo mostra-nos o baptismo de Cristo por São João Baptista, o santo que pregava no deserto e comia gafanhotos. Vida bem austera a deste santo, em oposição a tamanha riqueza que agora o rodeia.

D. João V tinha muito dinheiro para gastar, como se conclui da resposta que deu quando lhe foram dizer que um carrilhão para o Convento de Mafra custava a astronómica quantia de quatrocentos mil réis: «Não pensava que era tão barato; quero dois».

Mas vale mesmo a pena visitar. A Igreja de São Roque, considerada um monumento impar no contexto da arquitectura portuguesa, foi classificada como Monumento Nacional em 1910.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Fernando Pessoa, o indisciplinador de almas

Visitei, hoje, a exposição FERNANDO PESSOA, PLURAL COMO O UNIVERSO, que ontem foi inaugurada na Fundação Calouste Gulbenkian. Dedicada a Fernando Pessoa e aos seus heterónimos, esta exposição pretende mostrar a multiplicidade da obra do poeta. Esta exposição reúne poemas, textos, documentos, fotografias e pintura.

Gostei de ver a primeira edição do livro Mensagem, com uma dedicatória escrita pelo poeta.

Gostei de ver uma folha de papel branco, que pertence ao espólio do poeta na Biblioteca Nacional de Portugal (BNP), onde Fernando Pessoa escreveu a frase: “ Sê plural como o universo!” Foi a partir desse manuscrito que nasceu o título FERNANDO PESSOA, PLURAL COMO O UNIVERSO, que, segundo os criadores, remete para a multiplicidade que conhecemos em Pessoa.

Gostei de ver os muitos poemas que nos são mostrados e que, de imediato, nos vêm à memória. “Nunca conheci quem tivesse levado porrada / Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo (…)”.

Gostei de ver uma instalação (à entrada e pendurado no tecto) feita com a mesa, a cadeira, a chávena de café, o chapéu de Pessoa, em projecção de vários elementos do famoso quadro de Almada Negreiros, Fernando Pessoa lendo Orpheu.

Gostei de ver, na sala seguinte, o quadro original, que pertence à colecção da Fundação Gulbenkian. Como se sabe, em 1964, por encomenda da Fundação Calouste Gulbenkian, Almada Negreiros realizou uma réplica do Retrato de Fernando Pessoa executado em 1954 para o restaurante Irmãos Unidos, estabelecimento de que era sócio Alfredo Pedro Guisado, colaborador da Orpheu.
Gostei de ver as muitas cartas lá expostas, os últimos poemas escritos por Fernando Pessoa e pelos heterónimos Ricardo Reis e Álvaro de Campos, o primeiro dos jornais fictícios de Pessoa, O Palrador, com notícias reais e fictícias, do caderno mais antigo de Pessoa (datado de 1901), onde ele registou algumas notas do liceu de Durban.

Não gostei de ver escrito num painel “cotidiano”, “ortônimo” e “desassocego”. As grafias das duas primeiras entendem-se, sabendo que a exposição foi criada originalmente para o Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, no Brasil; a terceira parece querer reproduzir a grafia antiga que Fernando Pessoa utilizou num escrito em 1913. Não obstante, face à discussão que por aí vai a propósito do Novo Acordo Ortográfico, era de evitar mais esta confusão. Confesso que fiquei desassossegado. 

Gostei de ver a célebre arca. Está lá um segurança, ninguém pode mexer, claro. Mas garanto a quem me lê (se há quem o faça) que a arca está mesmo vazia.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Meu país desgraçado

Assinalam-se, hoje, os 60 anos do desaparecimento do poeta da Arrábida, com 27 anos de idade, vítima de uma tuberculose que se declarara desde criança. Sebastião da Gama foi um exemplo de superação da oposição entre necessidade de empenhamento / liberdade de criação em que se debatia a poesia, marcada ainda pela polémica entre presencistas e neo-realistas.

Assim, à primeira vista, o título do poema ("Meu País Desgraçado"), que escolhemos, até se pode estranhar. Não, o poeta não aderiu às hostes do neo-realismo, apenas nos exorta a não cruzar os braços.


Meu País Desgraçado

Meu país desgraçado!...
E no entanto há Sol a cada canto
e não há Mar tão lindo noutro lado.
Nem há Céu mais alegre do que o nosso,
nem pássaros, nem águas ...

Meu país desgraçado!...
Por que fatal engano?
Que malévolos crimes
teus direitos de berço violaram?

Meu Povo
de cabeça pendida, mãos caídas,
de olhos sem fé
— busca, dentro de ti, fora de ti, aonde
a causa da miséria se te esconde.

E em nome dos direitos
que te deram a terra, o Sol, o Mar,
fere-a sem dó
com o lume do teu antigo olhar.

Alevanta-te, Povo!
Ah!, visses tu, nos olhos das mulheres,
a calada censura
que te reclama filhos mais robustos!

Povo anémico e triste,
meu Pedro Sem sem forças, sem haveres!
— olha a censura muda das mulheres!
Vai-te de novo ao Mar!
Reganha tuas barcas, tuas forças
e o direito de amar e fecundar
as que só por Amor te não desprezam!


Sebastião da Gama
Cabo da Boa Esperança
Lisboa, Edições Ática, 2000

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Dom Quixote

Tanto quanto sei, o Novo Acordo Ortográfico (NAO) foi aprovado e começou a ser aplicado em todas as comunicações de serviços ligados ao aparelho de Estado. Não percebo a ordem do Vasco Graça Moura. É uma atitude prepotente e estéril. Confesso que tenho uma grande admiração pela estatura intelectual de VGM, apesar de não concordar com esta sua cruzada quixotesca contra o NAO. Uma desilusão! A medida pode não ser ilegal, mas que anda lá perto, anda. Fico agora à espera da resposta do Sr. Secretário da Cultura que, ainda há dias, o ouvi dizer que os escritores, na sua actividade profissional, não estavam obrigados a seguir o NAO, mas essa obrigação é absolutamente imperativa quando no desempenho de um cargo dentro do aparelho do Estado. E agora, Sr. Secretário de Estado?

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

A cómoda

                     (Foto tirada  hoje na Casa Fernando Pessoa)

Esta é a cómoda a que Fernando Pessoa se refere na sua carta a Adolfo Casais Monteiro, datada de 13/01/1935.
...
Ano e meio, ou dois anos depois, lembrei-me um dia de fazer uma partida ao Sá-Carneiro – de inventar um poeta bucólico, de espécie complicada, e apresentar-lho, já me não lembro como, em qualquer espécie de realidade. Levei uns dias a elaborar o poeta mas nada consegui. Num dia em que finalmente desistira – foi em 8 de Março de 1914 – acerquei-me de uma cómoda alta, e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim. Abri com um título, O Guardador de Rebanhos. E o que se seguiu foi o aparecimento de alguém em mim, a quem dei desde logo o nome de Alberto Caeiro. Desculpe-me o absurdo da frase: aparecera em mim o meu mestre.
...

sábado, 28 de janeiro de 2012

Aniversário

28-Janeiro de 1980 (segunda). Aqui estou, pois, no guetto, até se cumprir um mês sobre o acidente. E para não haver grandes intervalos de escrita, aqui estou a escrever. Dá-se o caso, aliás, de cumprir hoje 64 anos. Sem comentários. Perdi no dia 4 uma boa oportunidade de não ter de fazer mais contas. Como é nova e viva esta sensação de que tudo está feito, de que é perfeitamente aceitável que a vida, os outros, nos excluam. Mas fiz 64. E curioso. E já agora talvez que venha a reflectir um pouco no que fui nesses 64. E a ideia mais forte que se me impõe (qual a que se impõe aos outros?) é a de que fui uma espécie de «falso», como se diz dos «falsos» da pintura. De um lado está o nosso ser que é normalmente, bons deuses, péssimo; e do outro o parecer, que já não é mau de todo. Entre os dois nos corre mais ou menos a vida. Ela é assim quase sempre velhacóide. Quanto a mim, deu-me pouco; e o pouco que me deu foi extremamente regateado. Oh, que a comédia acabe depressa, quero lá saber. Mas sem muita maçada, se não é muita maçada. São os votos que me faço no dia do aniversário.(…)

Vergílio Ferreira, Conta-Corrente 3

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Está caladinho, se queres ter trabalhinho

Confesso que, actualmente, oiço muito pouco Rádio. Apenas quando viajo de carro. Às quartas e às sextas, entre as nove e meia e as dez, aproveito uma curta viagem para estar ligado à Antena 1, propositadamente para ouvir, nesses dias, o jornalista e autor Pedro Rosa Mendes e o jornalista-viajante Gonçalo Cadilhe.

No passado dia 18 (quarta-feira), ouvi o Jornalista Pedro Rosa Mendes ler uma crónica muito dura contra o regime angolano e, de passagem, uma crítica feroz de subserviência a que se prestou a nossa RTP, o que aconteceu num programa de “Prós e Contras”.

Pensei, na altura, com os meus botões: que grande bomba! Não me admiro que a bomba rebente mesmo e alguém se aleije.

A bomba rebentou mesmo e fez vítimas, como tem sido abundantemente noticiado. Para além do jornalista Pedro Rosa Mendes, saem de cena os outros cronistas, incluindo o Gonçalo Cadilhe, que eu ouvia, com gosto, falar de viagens e livros.

Ontem, o Pedro Rosa Mendes falou ainda, no horário do costume, mas, penso, pela última vez. Falou de democracia e fez as necessárias despedidas.

A final, deixou um conselho: “Está caladinho, se queres ter trabalhinho”. Infelizmente, é verdade…

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

O centenário de Redol

Leio na Imprensa de hoje que as comemorações do centenário de nascimento de Alves Redol (1911-1969) culmina esta semana com a realização de um congresso internacional, que se inicia hoje na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e prossegue, amanhã e depois, no Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira, terra natal do autor de Gaibéus e Barranco de Cegos, livros que eu revisitei muito recentemente, sobretudo o segundo, do qual, curiosamente, falei aqui ontem.

Gaibéus foi o livro que lançou o neo-realismo na ficção portuguesa. «Este romance não pretende ficar na literatura como obra de arte», escreveu Alves Redol na primeira edição de 1939. «Quer ser, antes de tudo, um documentário humano fixado no Ribatejo».

Alves Redol procurou, depois, outro caminho para a sua narrativa, como forma de responder a críticos, inclusive, com os quais partilhava cumplicidades ideológicas, como Mário Dionísio ou Óscar Lopes, que censuraram a fragilidade estética das suas primeiras obras.

Nesta via, Barranco de Cegos, publicado em 1961, oito anos antes da sua morte, teve o reconhecimento unânime da crítica, como a sua melhor obra.

Esta evolução estilística deve ser creditada a favor do escritor. O compromisso pessoal de Redol com o PCP, de que se tornou militante nos anos 40, não impediu que “o seu projecto de vida tenha sido, desde o início, o de chegar à escrita, no sentido profundo do termo, o de chegar a literatura”, afirmou agora António Pedro Pita, director do Museu do Neo-Realismo.

Por mim, penso que o conseguiu, embora continue a julgar excessivo o destaque que o Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira, lhe dedica, como já tive oportunidade de o dizer aqui. É a minha opinião, mas Barranco de Cegos vale mesmo a pena ser lido.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Barranco de Cegos, de Alves Redol

Acabei de ler o Barranco de Cegos, de Alves Redol. As últimas 60 páginas do livro foram lidas, na madrugada do dia hoje, de supetão. O romance foi publicado em 1962, mas a história discorre sobre os últimos anos da Monarquia em Portugal. É considerada uma das melhores criações da carreira literária do autor, sendo também considerado um dos romances essenciais do Neo-Realismo português.

Narra a luta de um proprietário ribatejano, Diogo Relvas, contra a invasão das indústrias e dos interesses financeiros, num contexto de progressiva afirmação do capitalismo. O título do romance, Barranco de Cegos, retirado da epígrafe de S. Mateus ("Deixai-os; cegos são e condutores de cegos; e se um cego guia a outro cego, ambos vêm a cair no barranco") anuncia, no entanto, que esse combate se encontra, à partida, perdido.

O romance narra a caminhada inconsciente e irremediável da família Relvas e da Nação para o abismo de derrota e de morte, simbolizados, no último capítulo, no corpo embalsamado do velho Relvas que persiste em manter-se agarrado à vida. Cegos são os servos, criados e campinos oprimidos, comandados pelo cego, obstinado e autoritário, Diogo Relvas, ele também guiado por outros cegos, os políticos, o rei, correndo todos para um precipício. Vale a pena ler. Comparado com os Gaibéus, que li o ano passado, este é um livro bem mais consistente.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Pai-Nosso

Os moçárabes eram os cristãos que viviam na península ibérica durante o domínio árabe. Desenvolveram uma liturgia própria que prolongou a tradição suevo-visigótica.

Através deste vídeo, podemos aqui ouvir o canto do Pai-Nosso atribuído à tradição moçárabe, interpretado pelos monges de S. Domingo de Silos, Espanha.

sábado, 14 de janeiro de 2012

Um amigo de Pessoa

A propósito da génese dos heterónimos, foi o próprio Fernando Pessoa que, em carta de 13 de Janeiro de 1935, dirigida a Casais Monteiro, deixou escrito: “Ricardo Reis vive no Brasil desde 1919, pois se expatriou espontâneamente por ser monárquico”.

O poeta da Mensagem deixou-nos assim um enigma: o que aconteceu ao Ricardo Reis que partiu para o Brasil em 1919 e nunca mais voltou?

José Saramago veio ajudar na resolução deste enigma. O Ano da Morte de Ricardo Reis, de José Saramago, conta-nos a história de Ricardo Reis que regressa a Portugal depois de ser informado da morte de Fernando Pessoa. O livro começa em fins de 1935 e vai terminar nove meses depois com a “morte” de Ricardo Reis. No final do livro, Saramago põe na boca de Ricardo Reis: “deixo o mundo aliviado de um enigma”.

Faltava, porém, saber onde se havia Fernando Pessoa inspirado na criação do heterónimo Ricardo Reis.

O Jornal “Publico”, de ontem, trazia uma notícia curiosa sobre a existência de um amigo, até agora desconhecido, de Fernando Pessoa: Carlos Lobo de Oliveira (1895-1973), poeta e tradutor, cuja obra se iniciou em 1912, em revistas literárias como a “Águia”, estando a sua obra disponível no “site” dedicado ao seu espólio - http://www.carloslobooliveira.com/

Numa pasta deste arquivo foi encontrada uma carta de Pessoa, de 17 de Maio de 1928, para Carlos Lobo, que reza assim: “Meu querido Carlos: Só hoje recebi - hoje mesmo a haviam deixado no Café Arcada – a sua carta de 24 de Abril. Consegui arranjar-lhe 3 exemplares da “Athena” que contém o “Christmas Cake”….A minha morada perpetua é Apartado (ou Caixa Postal) 147, Lisboa. Um abraço do muito seu, Fernando Pessoa».

Sabe-se que Carlos Lobo, para fugir às sangrentas represálias decorrentes da sua participação no Movimento da Monarquia do Norte, emigrou para a Galiza e depois para o Brasil, onde viveu desde 1919 a 1924. Não deixa, assim, de ser curiosa, quiçá especulativa, a coincidência entre alguns aspectos da biografia de Carlos Lobo com o heterónimo de Fernando Pessoa, Ricardo Reis.

A relação de amizade entre Carlos Lobo e Fernando Pessoa pode muito bem ter inspirado a gestação de Ricardo Reis.

Se assim for, parece termos agora a história completa acerca deste heterónimo: Carlos Lobo foi a fonte inspiradora de Ricardo Reis; José Saramago marcou o ano e as circunstâncias da morte de Ricardo Reis.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Contos Tradicionais Portugueses: O caldo de pedra



O caldo de pedra

Um frade andava no peditório. Chegou à porta de um lavrador, mas não lhe quiseram aí dar nada.
O frade estava a cair de fome e disse:
- Vou ver se faço um caldinho de pedra.
E pegou numa pedra do chão, sacudiu-lhe a terra e pôs-se a olhar para ela, como para ver se era boa para um caldo.
A gente da casa pôs-se a rir do frade e daquela lembrança. Diz o frade:
- Então nunca comeram caldo de pedra? Só lhes digo que é uma coisa muito boa.
Responderam-lhe:
- Sempre queremos ver isso.
Foi o que o frade quis ouvir. Depois de ter lavado a pedra, pediu:
- Se me emprestassem aí um pucarinho...
Deram-lhe uma panela de barro. Ele encheu-a de água e deitou-lhe a pedra dentro.
- Agora, se me deixassem estar a panelinha aí, ao pé das brasas...
Deixaram. Assim que a panela começou a chiar, disse ele:
- Com um bocadinho de unto é que o caldo ficava a primor!
Foram-lhe buscar um pedaço de unto. Ferveu, ferveu, e a gente da casa pasmada com o que via.
O frade, provando o caldo:
- Está um nadinha insosso. Bem precisa duma pedrinha de sal.
Também lhe deram o sal. Temperou, provou e disse:
- Agora é que, com uns olhinhos de couve, ficava que até os anjos o comeriam.
A dona da casa foi à horta e trouxe-lhe duas couves. O frade limpou-as, ripou-as com os dedos e deitou as folhas na panela. Quando os olhos já estavam aferventados, arriscou:
- Ai! Um naquinho de chouriça é que lhe dava uma graça!...
Trouxeram-lhe um pedaço de chouriço. Ele pô-lo na panela e, enquanto se cozia, tirou do alforge pão e arranjou-se para comer com vagar. O caldo cheirava que era um regalo.
Comeu e lambeu o beiço.
Depois de despejada a panela, ficou a pedra no fundo.
A gente da casa, que estava com os olhos nele, perguntou-lhe:
- Ó senhor frade, então a pedra?
- A pedra... Lavo-a e levo-a comigo para outra vez.
E assim comeu onde não lhe queriam dar nada.

Teófilo Braga, in Contos Tradicionais Portugueses

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Foge, cão, que te fazem barão. Para onde? Se me fazem visconde

O Governo nomeou ontem o presidente da Câmara do Fundão, afecto ao PSD, Manuel Frexes, e o vice-presidente da Câmara do Porto, do CDS-PP, Álvaro Castello-Branco, para o conselho de administração das Águas de Portugal, situação que vem merecendo várias críticas, inclusive do PS (pasme-se!) que considera a situação «muito grave».

Recorde-se que, na semana passada, Eduardo Catroga, entre outros nomes, foram propostos para o conselho geral e de supervisão da EDP.

Se eu fosse militante de algum partido do Governo, saía da minha zona de conforto e emigrava o mais rapidamente possível, não fosse o Governo lembrar-se de mim para alguma cadeira dourada.

Almeida Garrett, se ainda fosse vivo, diria: “Foge, cão, que te fazem barão. Para onde? Se me fazem visconde”.

sábado, 7 de janeiro de 2012

Assumam-se!

Durante a minha vida, ouvi muitas vezes o seguinte diálogo:

- É católico?

- Sim, sou católico, mas não praticante.

Nos últimos dias, tenho ouvido, como nunca, este diálogo:

- É mação?

- Sim, sou mação, mas adormecido.

Assumam-se!

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

A estrela de Sophia de Mello Breyner Andresen

Quantas vezes procuramos fora de nós aquilo que está tão próximo! Quantas vezes procuramos longe o que está próximo!. Como também diz Sophia de Mello Breyner Andresen, neste lindo poema sobre a estrela que guiou os magos: “Quanto deserto / Atravessei para encontrar aquilo / que morava entre os homens e tão perto”.

A ESTRELA
Eu caminhei na noite
Entre silêncio e frio
Só uma estrela secreta me guiava

Grandes perigos na noite me apareceram
Da minha estrela julguei que eu a julgara
Verdadeira sendo ela só reflexo
De uma cidade a néon enfeitada

A minha solidão me pareceu coroa
Sinal de perfeição em minha fronte
Mas vi quando no vento me humilhava
Que a coroa que eu levava era de um ferro
Tão pesado que toda me dobrava

Do frio das montanhas eu pensei
«Minha pureza me cerca e me rodeia»
Porém meu pensamento apodreceu
E a pureza das coisas cintilava
E eu vi que a limpidez não era eu

E a fraqueza da carne e a miragem do espírito
Em monstruosa voz se transformaram
Disse às pedras do monte que falassem
Mas elas como pedras se calaram
Sozinha me vi delirante e perdida
E uma estrela serena me espantava

E eu caminhei na noite minha sombra
De desmedidos gestos me cercava
Silêncio e medo
Nos confins desolados caminhavam
Então eu vi chegar ao meu encontro
Aqueles que uma estrela iluminava

E assim eles disseram: «Vem connosco
Se também vens seguindo aquela estrela»
Então soube que a estrela que eu seguia
Era real e não imaginada

Grandes noites redondas nos cercaram
Grandes brumas miragens nos mostraram
Grandes silêncios de ecos vagabundos
Em direcções distantes nos chamaram

E a sombra dos três homens sobre a terra
Ao lado dos meus passos caminhava
E eu espantada vi que aquela estrela
Para a cidade dos homens nos guiava

E a estrela do céu parou em cima
De uma rua sem cor e sem beleza
Onde a luz tinha a cor que tem a cinza
Longe do verde azul da natureza

Ali não vi as coisas que eu amava
Nem o brilho do sol nem o da água

Ao lado do hospital e da prisão
Entre o agiota e o templo profanado
Onde a rua é mais triste e mais sozinha
E onde tudo parece abandonado
Um lugar pela estrela foi marcado

Nesse lugar pensei: «Quanto deserto
Atravessei para encontrar aquilo
Que morava entre os homens e tão perto
»


Sophia de Mello Breyner Andresen

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

As lojas maçonicas e as lojas do Pingo Doce

"— Todos somos réus - comentou o Pereira Saldanha, ao introduzir um pedaço de rapé nas ventas.
— Não estou de acordo — gritou Zé Botto, tentando desembaraçar o corpo pesado dos braços do cadeirão — Réus, como?!. Para mim, e há muito boa gente da mesma opinião, todo o mal comeu com a revolta do Porto. A revolta republicana meteu medo às pessoas de bem. Eu sei de alguns que puseram o seu dinheiro lá foraEm Paris e em Londres. Devem ter desaparecido fortunas nessa altura. E ainda estão a escapar-se...
— Esses são os cobardes de sempre! — observou João Vitorino - São os mesmos que põem o dinheiro a salvo e encetam conversas, às escondidas, com os mações e os carbonários.
—Mas será tudo?! —perguntou Diogo Relvas do fundo da sala… — Ao que julgo, há uma soma de acontecimentos. A independência do Brasil…
— As lutas liberais — objectou alguém.
— Eu insisto: a independência do Brasil, às aventuras coloniais, agora a implantação da república brasileira, o ultimato, a revolução do Porto... e a falência do Baring Brothers ou lá o que é".

Alves Redol, in Barranco de Cegos

Este romance foi escrito em 1962 e é considerado por muitos a melhor obra de Alves Redol. A narrativa começa à volta do ultimato britânico em 1890 e do colapso financeiro em 1891.

Nestes dias, tem-se falado muito em lojas maçónicas e nas lojas da família Alexandre Soares dos Santos.

Nem de propósito, este excerto do livro que comecei agora a ler...