quarta-feira, 18 de abril de 2012
Nasceu há 170 anos e merece ser recordado.
O PALÁCIO DA VENTURA
Sonho que sou um cavaleiro andante.
Por desertos, por sóis, por noite escura,
Paladino do amor, busco anelante
O palácio encantado da Ventura!
Mas já desmaio, exausto e vacilante,
Quebrada a espada já, rota a armadura...
E eis que súbito o avisto, fulgurante
Na sua pompa e aérea formosura!
Com grandes golpes bato à porta e brado:
Eu sou o Vagabundo, O deserdado...
Abri-vos, portas d’ouro, ante meus ais!
Abrem-se as portas d’ouro, com fragor...
Mas dentro encontro só, cheio de dor,
Silêncio e escuridão – e nada mais!
Antero de Quental
sábado, 14 de abril de 2012
"O senhorito do Monte da Ribeira da Orca"
Eugénio de Andrade fez da mãe a presença central da sua poesia, de onde o pai está quase ausente, esse pai a quem em entrevistas apenas se refere como "o senhorito do Monte da Ribeira da Orca". Ora, Orca é justamente a terra onde eu nasci. Por isso, sinto-me, para sempre, em falta em relação ao poeta que muito admiro. É sabido que o seu nascimento foi fruto de um amor juvenil e que o casamento, celebrado mais tarde, durou muito pouco tempo.
Há um único poema em que o poeta se refere, necessariamente de forma crítica, ao pai. É assim em
Harmónio
Como ladrão ou mulher
pública: vens de noite.Como ladrão ou mulher
Trazes o harmónio
a masculina
música roubada às fontes.
Não te esperava;só uma vez
te esperei tremendo de amor:
eu era tão pequeno
que não me viste.
Nem uma palavra ousas;
só os olhos suplicam que te roube
à morte,que devolva ao sol
a modesta desordem dos teus dias.
Que escute ao menos a pobre
e rouca e desamparada
música do teu pequeno harmónio.
Eugénio de Andrade
quinta-feira, 12 de abril de 2012
Lisboa Revisitada
“Lisbon Revisited (1923)”, de Álvaro de Campos (heterónimo de Fernando Pessoa), é um poema repleto de frustração e sentimento de mágoa.
O poeta recusa tudo e todos à sua volta. Recusa tudo que se mostre como conclusivo e alega que a única certeza é morrer (“Não me venham com conclusões! A única conclusão é morrer.”). O poeta não quer saber de regras nem ideais de conduta ou moral a seguir. Recusa-se a encarar a verdade (“Se têm a verdade, guardem-na!”). Desta Lisboa, o poeta já não reconhece nada (“Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.”).
O poeta revisita a Lisboa da sua infância sem, porém, a reencontrar.
terça-feira, 10 de abril de 2012
Quando nasceu Sebastião da Gama
No dia 10 de Abril de 1924 (se fosse vivo faria hoje 88 anos), nasceu o poeta Sebastião da Gama, em Vila Nogueira de Azeitão.
Quando nasceu, ficou tudo como estava. Nem homens cortaram veias, nem o Sol escureceu, nem houve Estrelas a mais … somente, esquecida das dores, a sua Mãe sorriu e agradeceu. Quando nasceu, não houve nada de novo, senão ele. As nuvens não se espantaram e não enlouqueceu ninguém … para que o dia fosse enorme, bastou ao poeta toda a ternura que olhava nos olhos de sua Mãe.
Foi assim o dia 10 de Abril de 1924. Como soube? É o meu querido poeta da Arrábida que o conta em “Pequeno Poema”. É um lindo poema e, ao mesmo tempo, um bela homenagem às nossas Mães. Obrigado, Sebastião da Gama.
Quando nasceu, ficou tudo como estava. Nem homens cortaram veias, nem o Sol escureceu, nem houve Estrelas a mais … somente, esquecida das dores, a sua Mãe sorriu e agradeceu. Quando nasceu, não houve nada de novo, senão ele. As nuvens não se espantaram e não enlouqueceu ninguém … para que o dia fosse enorme, bastou ao poeta toda a ternura que olhava nos olhos de sua Mãe.
Foi assim o dia 10 de Abril de 1924. Como soube? É o meu querido poeta da Arrábida que o conta em “Pequeno Poema”. É um lindo poema e, ao mesmo tempo, um bela homenagem às nossas Mães. Obrigado, Sebastião da Gama.
domingo, 8 de abril de 2012
Domingo de Páscoa
Evangelho segundo S. João
(...) No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao túmulo logo de manhã, ainda escuro, e viu retirada a pedra que o tapava. Correndo, foi ter com Simão Pedro e com o outro discípulo, o que Jesus amava, e disse-lhes: «O Senhor foi levado do túmulo e não sabemos onde o puseram.» Pedro saiu com o outro discípulo e foram ao túmulo. Corriam os dois juntos, mas o outro discípulo correu mais do que Pedro e chegou primeiro ao túmulo. Inclinou-se para observar e reparou que os panos de linho estavam espalmados no chão, mas não entrou. Entretanto, chegou também Simão Pedro, que o seguira. Entrou no túmulo e ficou admirado ao ver os panos de linho espalmados no chão, ao passo que o lenço que tivera em volta da cabeça não estava espalmado no chão juntamente com os panos de linho, mas de outro modo, enrolado noutra posição. Então, entrou também o outro discípulo, o que tinha chegado primeiro ao túmulo. Viu e começou a crer, pois ainda não tinham entendido a Escritura, segundo a qual Jesus devia ressuscitar dos mortos.
Da Bíblia Sagrada
(...) No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao túmulo logo de manhã, ainda escuro, e viu retirada a pedra que o tapava. Correndo, foi ter com Simão Pedro e com o outro discípulo, o que Jesus amava, e disse-lhes: «O Senhor foi levado do túmulo e não sabemos onde o puseram.» Pedro saiu com o outro discípulo e foram ao túmulo. Corriam os dois juntos, mas o outro discípulo correu mais do que Pedro e chegou primeiro ao túmulo. Inclinou-se para observar e reparou que os panos de linho estavam espalmados no chão, mas não entrou. Entretanto, chegou também Simão Pedro, que o seguira. Entrou no túmulo e ficou admirado ao ver os panos de linho espalmados no chão, ao passo que o lenço que tivera em volta da cabeça não estava espalmado no chão juntamente com os panos de linho, mas de outro modo, enrolado noutra posição. Então, entrou também o outro discípulo, o que tinha chegado primeiro ao túmulo. Viu e começou a crer, pois ainda não tinham entendido a Escritura, segundo a qual Jesus devia ressuscitar dos mortos.
Da Bíblia Sagrada
sexta-feira, 6 de abril de 2012
Semana Santa
(…) Depois disto, José de Arimateia, que era discípulo de Jesus, mas secretamente por medo das autoridades judaicas, pediu a Pilatos que lhe deixasse levar o corpo de Jesus. E Pilatos permitiu-lho. Veio, pois, e retirou o corpo.
Nicodemos, aquele que antes tinha ido ter com Jesus de noite, apareceu também trazendo uma mistura de perto de cem libras de mirra e aloés.
Tomaram então o corpo de Jesus e envolveram-no em panos de linho com os perfumes, segundo o costume dos judeus.
No sítio em que Ele tinha sido crucificado havia um horto e, no horto, um túmulo novo, onde ainda ninguém tinha sido sepultado.
Como para os judeus era o dia da Preparação da Páscoa e o túmulo estava perto, foi ali que puseram Jesus.
Evangelho segundo S. João
Nicodemos, aquele que antes tinha ido ter com Jesus de noite, apareceu também trazendo uma mistura de perto de cem libras de mirra e aloés.
Tomaram então o corpo de Jesus e envolveram-no em panos de linho com os perfumes, segundo o costume dos judeus.
No sítio em que Ele tinha sido crucificado havia um horto e, no horto, um túmulo novo, onde ainda ninguém tinha sido sepultado.
Como para os judeus era o dia da Preparação da Páscoa e o túmulo estava perto, foi ali que puseram Jesus.
Evangelho segundo S. João
segunda-feira, 2 de abril de 2012
O Desejado
Rei D. Sebastião no seu nicho na frontaria da estação do Rossio. Se o lá puseram (confesso que eu só hoje reparei), teremos de reexaminar a importância e os caminhos do sebastianismo, com nevoeiro ou sem ele. É patente que, afinal, o Desejado virá de comboio, ainda que sujeito a atrasos…
quinta-feira, 22 de março de 2012
Deus
"como exigir que se saiba que Deus existe ou não existe? Sabê-lo é um milagre para raros, em raros instantes apenas. Eis porque se admite às vezes não estar ninguém certo de ser crente ou descrente."
Vergilio Ferreira, in Invocação ao Meu Corpo (1969)
Vergilio Ferreira, in Invocação ao Meu Corpo (1969)
quarta-feira, 21 de março de 2012
Dia Mundial da Poesia
No início do séc. XX, o insigne pensador espanhol Miguel de Unamuno comentou que Portugal era “um país de poetas e suicidas”, impressionado pelo rol de poetas portugueses que se suicidaram (Antero de Quental, Camilo, Trindade Coelho, etc…) ou se afastaram do mundo para se deixarem morrer (Alexandre Herculano, por ex.).
Hoje, Dia Mundial da Poesia, é dia de falar dos nossos poetas. Apetecia-me deixar aqui uma torrente de poemas que me desassossegam. Impossível.
Como tal, voz aos poetas. O “Cântico Negro” na voz do próprio José Régio.
Hoje, Dia Mundial da Poesia, é dia de falar dos nossos poetas. Apetecia-me deixar aqui uma torrente de poemas que me desassossegam. Impossível.
Como tal, voz aos poetas. O “Cântico Negro” na voz do próprio José Régio.
terça-feira, 20 de março de 2012
Prémio Vida Literária 2012
A direcção da Associação Portuguesa de Escritores decidiu, por unanimidade, atribuir a João Rui de Sousa o Prémio Vida Literária 2012.
José Manuel Mendes, presidente da APE, justificou a distinção por se tratar do autor de uma obra “que vem sendo editada há mais de meio século com grande notoriedade pública…” e de ser expressão de “uma relação intensa com a literatura, tanto na poesia como no ensaio”.
Apenas conheço, confesso, um livro do escritor ora distinguido: Fernando Pessoa, empregado de escritório.
Recentemente, tive oportunidade de consultar este livro bastante ao pormenor. Dá-nos a conhecer, de uma forma competente e exaustiva, todos os prédios da cidade de Lisboa, em que se situaram os cerca de 20 escritórios, para quem Fernando Pessoa trabalhou como «correspondente comercial em línguas estrangeiras», assim como os prédios onde foram sediadas as firmas comerciais que o poeta ousou criar, em sociedade ou não.
Para quem quer conhecer a faceta do Pessoa, quer como trabalhador por conta de outrem, quer como empreendedor, a consulta daquele livro é incontornável.
segunda-feira, 19 de março de 2012
Aos Nossos Pais
Não conheço muitos poemas, na poesia portuguesa, dedicados ao PAI. Mas, neste dia, lembrei-me deste poema, que eu acho muito bonito, que o Miguel Torga dedicou ao seu pai. Aqui fica.
A vida é feita de nadas:
De grandes serras paradas
À espera de movimento;
De searas onduladas
Pelo vento;
De casas de moradia
Caídas e com sinais
De ninhos que outrora havia
Nos beirais;
De poeira;
De sombra de uma figueira;
De ver esta maravilha:
Meu Pai a erguer uma videira
Como uma mãe que faz a trança à filha.
sábado, 10 de março de 2012
Florbela Espanca
(…) Sento-me, reconciliado, nos bancos de azulejos, fechados em recantos clandestinos, vou visitar Florbela, olho-a de um banco de madeira que lhe fica em frente, medito com ela. É uma cabeça calma, triste e majestosa. Banha-se de grandeza e gravidade desde a fronte cansada, que verga sobre as mãos em repouso, até ás espáduas largas, em que o pescoço se espraia. Sinto que ela prevaleceu sobre a melancolia dos séculos e que chegou até nós para nos dar testemunho. Não está bem ali, rodeada de lirismo. E imagino-a num limite da cidade, frente à planície deserta, num alto pedestal tocando os astros… (…)
Vergílio Ferreira, in Aparição
quinta-feira, 8 de março de 2012
Dia Internacional da Mulher
A Constituição da República Portuguesa assegura a igualdade no trabalho entre homens e mulheres mas estas continuam a ganhar menos, a ter menos acesso aos lugares de decisão nas empresas, a trabalhar mais horas não remuneradas e a ser as primeiras a perder o emprego.
Todavia, não é repetindo, ano após ano, este ritualismo do Dia Internacional da Mulher, que este estado de coisas se modifica.
Coincidência ou não, estreia-se hoje em Portugal o filme “Florbela”. Segundo li, o filme pretende ser um retrato íntimo de Florbela Espanca, uma mulher que viveu de forma intensa e não conseguiu amar docemente.
Todavia, não é repetindo, ano após ano, este ritualismo do Dia Internacional da Mulher, que este estado de coisas se modifica.
Coincidência ou não, estreia-se hoje em Portugal o filme “Florbela”. Segundo li, o filme pretende ser um retrato íntimo de Florbela Espanca, uma mulher que viveu de forma intensa e não conseguiu amar docemente.
Sem olhar, especialmente, para o dia que hoje se comemora, deixo aqui a minha homenagem a esta poetiza, que me desassossega. O poema Alma Perdida não é dos mais conhecidos, mas eu gosto muito.
Toda a noite o rouxinol chorou,
Gemeu, rezou, gritou perdidamente!
Alma de rouxinol, alma de gente,
Tu és talvez alguém que se finou!
Tu és, talvez, um sonho que passou,
Que se fundiu na dor, suavemente...
Talvez sejas a alma, a alma doente
Dalguém que quis amar e nunca amou!
Toda a noite choraste e eu chorei
Talvez porque, ao ouvir-te, adivinhei
Que ninguém é mais triste do que nós!
Cantaste tanta coisa à noite calma,
Que eu pensei que tu eras a minh’alma
Que chorasse perdida em tua voz!...
Florbela Espanca, in Livro de Mágoas
domingo, 26 de fevereiro de 2012
Revisitar Fausto
O livro Peregrinação de Fernão Mendes Pinto é considerado um “livro difícil”. No entanto, há quem defenda que pode ser lido ao jeito de folhetins. É bem possível encontrar histórias que podem ser contadas autonomamente.
Quem assim pensou e melhor o fez, aliás de forma magnífica, foi o Fausto em “POR ESTE RIO ACIMA - As viagens de Fernão Mendes Pinto”. Editado em 1982, é considerado, pela crítica em geral, um dos álbuns mais marcantes da música popular portuguesa das últimas décadas.
O álbum conta-nos histórias retiradas dos capítulos do livro. Um delas é “O Romance de Diogo Soares”, a partir, neste caso, do relato que FMP faz nos Capítulos 191 e 192. Conta a história do Diogo Soares, o grande general, por alcunha “O Galego”, que cometeu grandes atrocidades e acabou morto à pedrada por uma turba de indignados.
Quem assim pensou e melhor o fez, aliás de forma magnífica, foi o Fausto em “POR ESTE RIO ACIMA - As viagens de Fernão Mendes Pinto”. Editado em 1982, é considerado, pela crítica em geral, um dos álbuns mais marcantes da música popular portuguesa das últimas décadas.
O álbum conta-nos histórias retiradas dos capítulos do livro. Um delas é “O Romance de Diogo Soares”, a partir, neste caso, do relato que FMP faz nos Capítulos 191 e 192. Conta a história do Diogo Soares, o grande general, por alcunha “O Galego”, que cometeu grandes atrocidades e acabou morto à pedrada por uma turba de indignados.
sábado, 25 de fevereiro de 2012
Sr. Verde, empregado no comércio
Assinala-se, hoje, o 157º aniversário do nascimento de Cesário Verde. O poeta nasceu no dia 25 de Fevereiro de 1855 em Lisboa, na Rua da Padaria, freguesia da Madalena. O pai, José Anastácio Verde, era comerciante e lavrador: além de se ocupar da sua loja de ferragens, na Rua dos Fanqueiros, dedicava-se também à lavoura numa quinta em Linda-a-Pastora, a cerca de dois quilómetros da capital, propriedade da família Verde desde 1797.
Cesário dividia-se entre a produção de poesias (publicadas em jornais) e as actividades de comerciante do pai, na loja de ferragens, na Rua dos Fanqueiros: escreve cartas para o estrangeiro, recebe caixeiros viajantes, pesa pregos e parafusos, monta e oleia fechaduras, experimenta ferramentas…
Cesário dividia-se entre a produção de poesias (publicadas em jornais) e as actividades de comerciante do pai, na loja de ferragens, na Rua dos Fanqueiros: escreve cartas para o estrangeiro, recebe caixeiros viajantes, pesa pregos e parafusos, monta e oleia fechaduras, experimenta ferramentas…
Casa de Ferragens, na Rua dos Fanqueiros, nºs 2 a 8 (hoje uma instituição bancária)
“De que me serve citar-me génio se resulto ajudante de guarda-livros? Quando Cesário Verde fez dizer ao médico que era, não o Sr. Verde empregado no comércio, mas o poeta Cesário Verde, usou de um daqueles verbalismos do orgulho inútil que suam o cheiro da vaidade. O que ele foi sempre, coitado, foi o Sr. Verde empregado no comércio. O poeta nasceu depois de ele morrer, porque foi depois de ele morrer que nasceu a apreciação do poeta”.
Bernardo Soares, Livro do Desassossego
É verdade, ninguém reparou na grandeza da poesia de Cesário. Andaram todos distraídos. Todos, menos um: Fernando Pessoa. Uma vez, pela pena de Bernardo Soares; outra, levou Álvaro de Campos a bradar:
- Ó Cesário Verde, ó Mestre!
sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012
D. João V, o "Mãos-Largas"
Visitei, há dois dias, a Igreja de São Roque, assim como o Museu de São Roque, instalado no edifício contíguo. Ambos apresentam aos visitantes um acervo valiosíssimo.
A igreja de São Roque foi construída em conformidade com as orientações da Companhia de Jesus e com as recomendações litúrgicas do Concílio de Trento. De planta rectangular, é composta por uma só nave, uma capela-mor pouco profunda e oito capelas laterais.
Haveria muito para falar do que vi, mas gostaria de destacar apenas a Capela de São João Baptista, uma das oito capelas laterais da Igreja de São Roque, que o magnânimo D. João V encomendou em Itália.
Projectada pelos arquitectos italianos Luigi Vanvitelli e Nicola Solvi sob supervisão do arquitecto régio, Frederico Ludovice, foi inaugurada em 1752.
Destaca-se das restantes capelas da igreja pela utilização, na sua decoração, de materiais de jaspe e bronze, de mosaico e mármore.
Em frente, um quadro a óleo mostra-nos o baptismo de Cristo por São João Baptista, o santo que pregava no deserto e comia gafanhotos. Vida bem austera a deste santo, em oposição a tamanha riqueza que agora o rodeia.
D. João V tinha muito dinheiro para gastar, como se conclui da resposta que deu quando lhe foram dizer que um carrilhão para o Convento de Mafra custava a astronómica quantia de quatrocentos mil réis: «Não pensava que era tão barato; quero dois».
Mas vale mesmo a pena visitar. A Igreja de São Roque, considerada um monumento impar no contexto da arquitectura portuguesa, foi classificada como Monumento Nacional em 1910.
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
Fernando Pessoa, o indisciplinador de almas
Visitei, hoje, a exposição FERNANDO PESSOA, PLURAL COMO O UNIVERSO, que ontem foi inaugurada na Fundação Calouste Gulbenkian. Dedicada a Fernando Pessoa e aos seus heterónimos, esta exposição pretende mostrar a multiplicidade da obra do poeta. Esta exposição reúne poemas, textos, documentos, fotografias e pintura.
Gostei de ver a primeira edição do livro Mensagem, com uma dedicatória escrita pelo poeta.
Gostei de ver uma folha de papel branco, que pertence ao espólio do poeta na Biblioteca Nacional de Portugal (BNP), onde Fernando Pessoa escreveu a frase: “ Sê plural como o universo!” Foi a partir desse manuscrito que nasceu o título FERNANDO PESSOA, PLURAL COMO O UNIVERSO, que, segundo os criadores, remete para a multiplicidade que conhecemos em Pessoa.
Gostei de ver os muitos poemas que nos são mostrados e que, de imediato, nos vêm à memória. “Nunca conheci quem tivesse levado porrada / Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo (…)”.
Gostei de ver uma instalação (à entrada e pendurado no tecto) feita com a mesa, a cadeira, a chávena de café, o chapéu de Pessoa, em projecção de vários elementos do famoso quadro de Almada Negreiros, Fernando Pessoa lendo Orpheu.
Gostei de ver, na sala seguinte, o quadro original, que pertence à colecção da Fundação Gulbenkian. Como se sabe, em 1964, por encomenda da Fundação Calouste Gulbenkian, Almada Negreiros realizou uma réplica do Retrato de Fernando Pessoa executado em 1954 para o restaurante Irmãos Unidos, estabelecimento de que era sócio Alfredo Pedro Guisado, colaborador da Orpheu.
Gostei de ver as muitas cartas lá expostas, os últimos poemas escritos por Fernando Pessoa e pelos heterónimos Ricardo Reis e Álvaro de Campos, o primeiro dos jornais fictícios de Pessoa, O Palrador, com notícias reais e fictícias, do caderno mais antigo de Pessoa (datado de 1901), onde ele registou algumas notas do liceu de Durban.
Não gostei de ver escrito num painel “cotidiano”, “ortônimo” e “desassocego”. As grafias das duas primeiras entendem-se, sabendo que a exposição foi criada originalmente para o Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, no Brasil; a terceira parece querer reproduzir a grafia antiga que Fernando Pessoa utilizou num escrito em 1913. Não obstante, face à discussão que por aí vai a propósito do Novo Acordo Ortográfico, era de evitar mais esta confusão. Confesso que fiquei desassossegado.
Gostei de ver a célebre arca. Está lá um segurança, ninguém pode mexer, claro. Mas garanto a quem me lê (se há quem o faça) que a arca está mesmo vazia.
terça-feira, 7 de fevereiro de 2012
Meu país desgraçado
Assinalam-se, hoje, os 60 anos do desaparecimento do poeta da Arrábida, com 27 anos de idade, vítima de uma tuberculose que se declarara desde criança. Sebastião da Gama foi um exemplo de superação da oposição entre necessidade de empenhamento / liberdade de criação em que se debatia a poesia, marcada ainda pela polémica entre presencistas e neo-realistas.
Assim, à primeira vista, o título do poema ("Meu País Desgraçado"), que escolhemos, até se pode estranhar. Não, o poeta não aderiu às hostes do neo-realismo, apenas nos exorta a não cruzar os braços.
Meu País Desgraçado
Meu país desgraçado!...
E no entanto há Sol a cada canto
e não há Mar tão lindo noutro lado.
Nem há Céu mais alegre do que o nosso,
nem pássaros, nem águas ...
Meu país desgraçado!...
Por que fatal engano?
Que malévolos crimes
teus direitos de berço violaram?
Meu Povo
de cabeça pendida, mãos caídas,
de olhos sem fé
— busca, dentro de ti, fora de ti, aonde
a causa da miséria se te esconde.
E em nome dos direitos
que te deram a terra, o Sol, o Mar,
fere-a sem dó
com o lume do teu antigo olhar.
Alevanta-te, Povo!
Ah!, visses tu, nos olhos das mulheres,
a calada censura
que te reclama filhos mais robustos!
Povo anémico e triste,
meu Pedro Sem sem forças, sem haveres!
— olha a censura muda das mulheres!
Vai-te de novo ao Mar!
Reganha tuas barcas, tuas forças
e o direito de amar e fecundar
as que só por Amor te não desprezam!
Sebastião da Gama
Cabo da Boa Esperança
Lisboa, Edições Ática, 2000
Assim, à primeira vista, o título do poema ("Meu País Desgraçado"), que escolhemos, até se pode estranhar. Não, o poeta não aderiu às hostes do neo-realismo, apenas nos exorta a não cruzar os braços.
Meu País Desgraçado
Meu país desgraçado!...
E no entanto há Sol a cada canto
e não há Mar tão lindo noutro lado.
Nem há Céu mais alegre do que o nosso,
nem pássaros, nem águas ...
Meu país desgraçado!...
Por que fatal engano?
Que malévolos crimes
teus direitos de berço violaram?
Meu Povo
de cabeça pendida, mãos caídas,
de olhos sem fé
— busca, dentro de ti, fora de ti, aonde
a causa da miséria se te esconde.
E em nome dos direitos
que te deram a terra, o Sol, o Mar,
fere-a sem dó
com o lume do teu antigo olhar.
Alevanta-te, Povo!
Ah!, visses tu, nos olhos das mulheres,
a calada censura
que te reclama filhos mais robustos!
Povo anémico e triste,
meu Pedro Sem sem forças, sem haveres!
— olha a censura muda das mulheres!
Vai-te de novo ao Mar!
Reganha tuas barcas, tuas forças
e o direito de amar e fecundar
as que só por Amor te não desprezam!
Sebastião da Gama
Cabo da Boa Esperança
Lisboa, Edições Ática, 2000
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012
Dom Quixote
Tanto quanto sei, o Novo Acordo Ortográfico (NAO) foi aprovado e começou a ser aplicado em todas as comunicações de serviços ligados ao aparelho de Estado. Não percebo a ordem do Vasco Graça Moura. É uma atitude prepotente e estéril. Confesso que tenho uma grande admiração pela estatura intelectual de VGM, apesar de não concordar com esta sua cruzada quixotesca contra o NAO. Uma desilusão! A medida pode não ser ilegal, mas que anda lá perto, anda. Fico agora à espera da resposta do Sr. Secretário da Cultura que, ainda há dias, o ouvi dizer que os escritores, na sua actividade profissional, não estavam obrigados a seguir o NAO, mas essa obrigação é absolutamente imperativa quando no desempenho de um cargo dentro do aparelho do Estado. E agora, Sr. Secretário de Estado?
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012
A cómoda
(Foto tirada hoje na Casa Fernando Pessoa)
Esta é a cómoda a que Fernando Pessoa se refere na sua carta a Adolfo Casais Monteiro, datada de 13/01/1935.
...Ano e meio, ou dois anos depois, lembrei-me um dia de fazer uma partida ao Sá-Carneiro – de inventar um poeta bucólico, de espécie complicada, e apresentar-lho, já me não lembro como, em qualquer espécie de realidade. Levei uns dias a elaborar o poeta mas nada consegui. Num dia em que finalmente desistira – foi em 8 de Março de 1914 – acerquei-me de uma cómoda alta, e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim. Abri com um título, O Guardador de Rebanhos. E o que se seguiu foi o aparecimento de alguém em mim, a quem dei desde logo o nome de Alberto Caeiro. Desculpe-me o absurdo da frase: aparecera em mim o meu mestre.
...
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