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quarta-feira, 9 de maio de 2012

Conto "O Duende em Casa do Merceeiro"


Está patente, até 30 de Junho, a Exposição Hans Christian Andersen na Casa Roque Gameiro (uma parte), na Amadora.
A exposição pretende prestar homenagem a este escritor dinamarquês, bem como divulgar e contribuir para o conhecimento da sua obra, em áreas tão diversas como a literatura e as artes plásticas.
Entre os famosos contos de Andersen, destacam-se: O Patinho Feio, Os Sapatinhos Vermelhos, A Pequena Sereia, A Pequena Vendedora de Fósforos, O Duende em Casa do Merceeiro, O Soldadinho de Chumbo, dentre outros.
O meu Grupo de Leitura, que se reúne, quinzenalmente, na Casa Roque Gameiro, quis associar-se ao evento, contribuindo com alguns trabalhos para a exposição.
Na nossa reunião, de ontem, foi lido o seguinte conto:

O Duende em Casa do Merceeiro
«Era uma vez um estudante, um autêntico estudante; vivia num sótão e não possuía nada. E era uma vez um merceeiro, um autêntico merceeiro; vivia no rés-do-chão e era dono do prédio inteiro. E foi por isso que o duende decidiu morar com o merceeiro. Além disso, todos os Natais recebia uma tigela de papa de aveia com um grande pedaço de manteiga lá dentro. O merceeiro tinha posses para isso, de maneira que o duende continuava a morar na loja. Há por aqui algures uma moral, se a procurarem bem.
Uma noite, o estudante entrou na mercearia pela porta das traseiras para comprar um pedaço de queijo e velas. Fez as compras e depois pagou, e o merceeiro e a mulher acenaram-lhe com a cabeça e disseram «boa noite». A mulher, contudo, era bem capaz de fazer mais do que acenar; era muito faladora — falava, falava, falava. Tinha o que se chama o hábito de falar pelos cotovelos, disso não havia dúvida. O estudante também fez um aceno — e foi nessa altura que viu qualquer coisa escrita no papel que embrulhava o queijo e parou para ler. Era uma página de um velho livro de poemas, uma página que nunca devia ter sido arrancada.
— Tenho aqui mais desse livro, se quiser — disse o merceeiro. — Dei a uma velhota alguns grãos de café por ele. Pode ficar com o resto por seis dinheiros, se estiver interessado.
— Obrigado — respondeu o estudante. — Dê-mo em vez do queijo. Passo bem só com pão. É uma pena usar um livro destes para papel de embrulho! O senhor é muito boa pessoa e bastante prático, mas percebe tanto de poesia como aquela banheira ali ao canto.
Ora isto foi uma frase indelicada, especialmente aquela parte respeitante à banheira, mas o merceeiro riu-se, e o estudante também; afinal de contas, fora apenas uma brincadeira. Mas o duende ficou aborrecido por alguém se atrever a falar assim com o merceeiro — ainda por cima o senhorio, uma pessoa importante que era dono do prédio todo e vendia manteiga da melhor qualidade.
Nessa noite, quando a loja estava fechada e toda a gente, excepto o estudante, estava na cama, o duende entrou no quarto do merceeiro em bicos de pés e roubou à mulher do merceeiro o dom de falar pelos cotovelos, porque ela não precisava dele enquanto dormia. A seguir, fez com que cada objecto em que tocava ficasse capaz de exprimir as suas opiniões tão bem como a mulher do merceeiro. Mas só podia falar um de cada vez, o que era uma bênção, se não desatavam todos a falar ao mesmo tempo.
Primeiro, o duende deu o dom de falar pelos cotovelos à banheira onde se guardavam os jornais velhos.— É mesmo verdade que não percebes nada de poesia? — perguntou.
— Claro que percebo! — respondeu a banheira. — A poesia é uma coisa que vem no fim das folhas dos jornais e que as pessoas costumam recortar. Acho até que tenho mais poesia dentro de mim do que o estudante; e, apesar disso, sou apenas uma humilde banheira, comparada com o merceeiro.
Depois, o duende deu o dom de falar pelos cotovelos ao moinho de café. Meu Deus, que chinfrineira! Depois, deu-o ao pote de manteiga, e depois à caixa registadora. Todos eram da mesma opinião da banheira e as opiniões da maioria têm de ser respeitadas.
— Agora posso pôr o estudante no seu lugar! — exclamou o duende.
E lá foi em bicos de pés, pela escada das traseiras acima, até ao sótão onde morava o estudante. Havia luz lá dentro. O duende espreitou pelo buraco da fechadura e viu o estudante a ler o velho livro da loja.
Que grande claridade havia no quarto! Do livro saía um brilhante raio de luz, que se tornou num tronco de árvore, de uma nobre árvore que subiu e espalhou os seus ramos por cima do estudante. As folhas eram novas e verdes, e cada flor tinha o rosto de uma linda rapariga, algumas com olhos escuros e misteriosos e outras com olhos azuis cintilantes. Cada fruto era uma estrela luminosa e o ar estava impregnado de um belo som de canções.
O duende nunca tinha visto nem ouvido falar de tais maravilhas; e muito menos seria capaz de as imaginar. Portanto, ficou ali à porta, em bicos de pés, a espreitar, de olhos muito abertos, até que a luz se apagou. O estudante devia ter assoprado a vela e ido para a cama — mas o duende continuava sem ser capaz de arredar pé. Parecia-lhe ouvir a linda música, que ainda ecoava no ar, ajudando o estudante a adormecer.
— Isto custa a crer — murmurou o duende para consigo. — Nunca esperei nada do género. Acho que vou ficar no sótão com o estudante. — Depois pensou um bocado e suspirou: — Tenho de ser sensato; o estudante não tem papas de aveia.
E portanto, é claro, voltou para baixo, para a mercearia. Ainda bem que o fez, porque a banheira tinha quase esgotado o dom de falar pelos cotovelos, contando todas as notícias dos jornais que estavam guardados dentro dela. Tinha falado para um lado e estava prestes a virar-se para o outro e a continuar quando o duende devolveu o dom de falar pelos cotovelos à mulher do merceeiro adormecida. E, a partir dessa altura, todas as coisas da loja, desde a caixa registadora até à lenha, seguiram as opiniões da banheira; tinham-lhe tanto respeito que, depois daquilo, quando o merceeiro lia nos jornais críticas de peças ou de livros, pensavam que ele tinha aprendido tudo com a banheira.
Mas o duende já não aguentava ficar ali sentado a ouvir toda a sabedoria e bom senso pronunciados na loja; assim que via luz através das frinchas da porta do sótão, parecia ser atraído para lá por cordelinhos, e tinha de subir a escada e pôr-se a espreitar pelo buraco da fechadura. Sempre que o fazia, sentia-se invadido por uma sensação de indizível grandeza — a espécie de sensação que se tem quando se vê o mar encapelado com ondas tão fortes que o próprio Deus podia vir montado nelas! Que maravilha seria sentar-se debaixo da árvore com o estudante! Mas era impossível.
Entretanto, contentava-se com o buraco da fechadura. Olhava através dele todas as noites, ali parado no patamar deserto, mesmo quando o vento do Outono começou a soprar pela clarabóia, fazendo-o quase morrer de frio. Mas ele nem o sentia até a luz se apagar no quartinho do sótão e a música se calar a pouco e pouco, ficando apenas o uivar do vento. Brr! Então, sentia como estava gelado e descia sem fazer barulho para o seu canto secreto da loja, quente e confortável. Em breve viria a tigela de papas de aveia do Natal, com o seu grande pedaço de manteiga. Sim, o merceeiro era a escolha certa.
Mas uma noite, já bem tarde, o duende acordou com uma grande agitação à sua volta. Estavam pessoas a bater nos estores, o guarda-nocturno apitava: havia fogo, e toda a rua parecia estar em chamas. Que casa é que estava a arder? Aquela ou a do lado? Onde era o fogo? Que gritos! Que pânico! Que agitação! A mulher do merceeiro estava tão desorientada que tirou os brincos de ouro das orelhas e meteu-os num bolso, para salvar pelo menos alguma coisa... O merceeiro foi a correr buscar os seus valores, a criadita foi buscar o seu xaile de seda que tinha comprado com o ordenado. Toda a gente foi a correr buscar aquilo a que dava mais valor.
E o duende fez o mesmo. Num pulo ou dois subiu a escada e entrou no quarto do estudante, que estava calmamente à janela, vendo o incêndio na casa em frente. O duende pegou no livro maravilhoso, que estava em cima da mesa, meteu-o dentro do boné vermelho e agarrou-se a ele com os dois bracitos. A coisa mais preciosa da casa estava salva!
Depois, foi a correr para cima do telhado, mesmo para o alto da chaminé, e ficou ali sentado, iluminado pelas chamas da casa a arder do outro lado da rua, sempre firmemente agarrado ao boné vermelho com o tesouro lá dentro.
Agora sabia para onde o seu coração o puxava: estudante?, merceeiro? — a escolha era clara.
Mas, quando o fogo ficou extinto e o duende já tinha tido tempo para pensar com mais calma, bem...
— Divido o tempo entre eles — decidiu. — Não sou capaz de abandonar o merceeiro, por causa das papas de aveia.
Mesmo coisa de ser humano, francamente! Também nós gostamos de nos dar bem com o merceeiro por causa das papas de aveia»

O conto, que do ponto de vista estilístico está muito longe de entusiasmar, apresenta, aqui e ali, curiosos ensinamentos (a cultura acima da barriga cheia, aproveitamento dos dotes disponíveis, falar um de cada vez, ouvir a opinião de todos, respeito pela opinião da maioria, a leitura ilumina, restituição do que não é nosso, salvar o mais importante em momentos de crise).
A figura do duende é a personagem principal do conto. O duende é o elemento surpresa na casa do merceeiro. Qual o papel dele? Um corruptor? Um moralista? Um politico? Um manipulador? Ou um ser imaginário que está ali para se comportar como um humano.
O duende comporta-se, desde o princípio, com muita ambiguidade. Hesita entre ficar com o estudante ou com o merceeiro. Por vezes, parece aproximar-se do estudante, fascinado pela luz que vem do velho livro de poesia, mas acaba por voltar para o merceeiro, por causa das papas.
Essa ambiguidade atinge o máximo quando é o duende, não o estudante, que salva o livro por ocasião do incêndio. O seu coração está dividido. Estudante? Merceeiro?. Não sou capaz de abandonar o merceeiro, por causa das papas, acaba ele por concluir. É absolutamente certo. Mesmo como um humano.

domingo, 6 de maio de 2012

Pequena aldeia com nome de mamífero


O romance 'O Teu Rosto será o Último', de João Ricardo Pedro, foi o primeiro romance de um autor português a conquistar o Prémio Leya.

Conta a história dos primeiros anos de vida de uma criança nascida nos tempos da Revolução de Abril.

Há curiosidade do autor, João Ricardo Pedro, ter escrito o seu primeiro romance numa altura em que ficou desempregado.

Hoje, ao folhear o livro na FNAC, dou conta que o autor coloca o início da narrativa numa «pequena aldeia com nome de mamífero, situada num sopé da Serra da Gardunha, voltado para Sul…».

Ora, esta pequena aldeia com nome de mamífero é, para mim, um sobressalto, um grande enigma. Alguém me ajuda? Eu tenho um palpite.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Na mão de Deus, na sua mão direita


A mulher de Miguel Esteves Cardoso foi operada no passado dia 2 a um tumor que se alojou no cérebro. Nesse dia,  na crónica que habitualmente escreve para o jornal “Público”, MEC colocava a sua Maria João nas mãos dos médicos e cirurgiões. Ontem, MEC confiou-a Deus, escrevendo-lhe uma carta: “Ajuda a Maria João, se puderes. Faz o que só um Deus pode fazer”. É uma carta ARREPIANTE.

Carta a Deus

Deus, Bem avisaste que eras um Deus invejoso e vingativo. Também sei que Job era um caso-limite: uma ameaça do que eras capaz. Nem eu nem a Maria João temos um milésimo da obediência e da resignação de Job. E castigaste-nos menos. Mas foi de mais.

De certeza absoluta que nos amamos mais um ao outro do que te amamos a Ti. Sabemos que isto não está certo. Mas foste Tu que nos fizeste assim. Admite: deste-nos liberdade de mais. Foste presunçoso: pensaste que Te escolheríamos sempre primeiro. Enganaste-Te. Quando inventaste o amor, esqueceste-te de que seria mais popular entre os seres humanos do que entre os seres humanos e Tu. Por uma questão de tangibilidade. E, desculpa lá, de feitio. Tu, Deus, tens o pior das arrogâncias feminina e masculina. Achas que só existes Tu. Como Deus, até é capaz de ser verdade. Mas, para quereres ser um Deus real e humanamente amado, tens de aprender a ser um amor secundário. Sabemos que és Tu que mandas e acreditamos que há uma razão para tudo o que fazes, mesmo quando toda a gente se lixa, porque não nos deste cabeça para Te compreender. Esta deficiência foi uma decisão tua: não quiseste dar-nos a inteligência necessária.

Mas deste-nos cabeça suficiente para Te dizer, cara a cara, que nos preocupamos mais com os entes amados do que contigo.

Ajuda a Maria João, se puderes. Se não puderes, não dificultes a vida a quem pode ajudar. Faz o que só um Deus pode fazer: reduz-te à tua significância. Que é tão grande.


Miguel Esteves Cardoso, in jornal Público de 3 de Maio de 2012

Um Namoro Difícil

Para alguns estudiosos pessoanos (Teresa Rita Lopes, p.e.), Fernando Pessoa pensava mesmo em casar com Ophelia, ainda que nunca o diga explicitamente nas suas cartas. Mas devemos dizer que nem todos pensam assim. Questão controversa, discutindo-se muito a natureza deste namoro.

De todo o modo, para os que acham que Pessoa queria mesmo constituir um lar com a sua Ophelinha, um dos grandes problemas, a esse respeito, era evidentemente o económico. Então, sob o pseudónimo de A A Crosse, Pessoa intensificou as suas respostas a concursos ingleses de charadismo, esperando de uma vitória final a possibilidade de um grande prémio que tudo resolveria.
Um passo da carta de 22/03/1920 é perfeitamente claro a este respeito:
«Olha, Bébézinho ... Nas tuas promessas pede uma cousa que em tempos me pareceu duvidosa, por causa da minha fraca sorte, mas que agora me parece mais, muito mais possível. Pede que o snr. Crosse acerte no alvo de um dos prémios grandes — um dos prémios de mil libras a que concorreu. Não calculas a importância que para nós ambos teria se isso acontecesse!»

Pessoa teve o apoio da própria interessada, que rezou uma novena para Santa Helena e fez uma promessa ao Senhor dos Passos. «Não me esqueço do sr. Crosse», diz Ophelia numa carta; ou «são 11 horas, vou rezar pelo Sr. Crosse e vou-me deitar», diz ela noutra carta. Nem a santa, nem os suspiros casamenteiros, nem as novelas milagreiras, deram o resultado que Ophelia tanto ansiava. Estava escrito nas estrelas que o destino de Crosse era de perder. E o de Pessoa, também. Triste, triste, só Ophelia.

Palavras Cruzadas – Universo Fernando Pessoa

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HORIZONTAIS: 1- (…) Reis, heterónimo de Pessoa, educado num colégio de jesuítas, médico, latinista, que se expatriou para o Brasil em 1919 por ser monárquico; (…) Português, segunda parte do livro Mensagem, dedicada ao período áureo das navegações portuguesas. 2- Que tem olhos grandes; Prefixo latino que exprime a ideia de dois. 3- Aproxima-se; Forma reduzida de metropolitano. 4- Limpe; Bernardo (…), semi-heterónimo de FP, autor da célebre frase «A minha pátria é a língua portuguesa». 5- Reza; Puros [fig.]. 6- Símbolo de libra; Avenida [abrev.]. 7- Padre António (…), considerado, por Pessoa, o imperador da língua portuguesa; Elemento de formação de palavras que exprime a ideia de ovo. 8- Alberto (…), heterónimo de Pessoa, natural de Lisboa, mas viveu quase toda a sua vida no campo; Fronteira. 9- Faz zirra-zirra; Pejo 10- Alcoólicos Anónimos [sigla]; Pessoa sentia apetência por questões esotéricas: (…), misticismo, gnosticismo, astrologia, etc… 11- Regimento de Sapadores Bombeiros [sigla]; Peça de vestuário de tecido leve para tronco e braços, geralmente com colarinho e botões à frente [pl.].

VERTICAIS: 1-Antigo e pequeno capote de mangas que se abotoava na frente [pl.]; Título do soberano da Rússia, no tempo do Império. 2- Tornar incomunicável como uma ilha; Apupas. 3- (…) de Pas, primeiro heterónimo de Pessoa, quando tinha 6 anos de idade. 4- Apogeu; Margem. 5- (ant.) República Democrática Alemã [sigla]; Raiva. 6- Nota musical; Sagrado; Aqui. 7- Pedra de amolar [pl.]; Programa Alimentar Mundial [sigla]. 8- Ceia abundante; Rubim. 9- Uma das fobias de Pessoa, tinha horror às (…). 10- Estabeleces; Força (alguém) a ter relações sexuais. 11- Curso natural de água que nasce, em geral, nas montanhas e vai desaguar ao mar…[pl.]; Gemeras [pop.].



quarta-feira, 2 de maio de 2012

Um Encontro Improvável


Idade quarenta e oito anos, natural do Porto, estado civil solteiro, profissão médico, última residência Rio de Janeiro, donde procede. Parece o princípio de uma confissão, uma autobiografia, mas não. Estamos no dia 30 de Dezembro de 1935, no Hotel Bragança, em Lisboa. Fica na Rua do Alecrim, à direita de quem sobe. O quarto que lhe coube é o duzentos e um. O novo hóspede podia chamar-se Jacinto e ser dono de uma quinta em Tormes, mas não. Chama-se Ricardo Reis.


O quarto tem uma janela virada para o rio, o que deixou o hóspede agradado: «Mais vale estarmos sentados ao pé um do outro ouvindo correr o rio e vendo-o». Sobre a mesa estão alguns jornais e revistas já antigos. Causou dolorosa impressão nos círculos intelectuais a morte inesperada de Fernando Pessoa, o poeta do Orfeu, espírito admirável que cultivava não só a poesia mas também a crítica inteligente, morreu anteontem em silêncio, como sempre viveu. Não diz mais este jornal, outro diz de outra maneira. Fernando Pessoa, o poeta extraordinário da Mensagem, poema de exaltação nacionalista, dos mais belos que se têm escrito, foi ontem a enterrar, surpreendeu-o a morte num leito cristão do Hospital de S. Luís, no sábado à noite. Aqui está outro jornal que pôs a notícia na página certa, a de necrologia, e extensamente identifica o falecido. Realizou-se ontem o funeral do senhor Fernando António Nogueira Pessoa, solteiro, de quarenta e sete anos de idade, escritor e poeta muito conhecido no meio literário. A leitura dos jornais foi interrompida. Uma rajada súbita fez estremecer as vidraças, a chuva desabou como um dilúvio. Batem à porta do quarto.
A janela estava aberta e não dei por que a chuva entrasse, está o chão todo molhado - Disse Ricardo Reis - Agradecia pois que limpasse o soalho. Como se chama?
Lídia.
Lídia? Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Lídia sorri, faz o que tem a fazer e sai. Ricardo Reis vai sentar-se no sofá, recosta-se, fecha os olhos. Já sonolento levanta-se, abre o guarda-fato e retira um cobertor com que se cobre. Agora sim, dorme.


Ricardo Reis está encostado a um candeeiro na praça do Chiado. Enquanto espera o eléctrico 28, que o há-de levar aos Prazeres, pode observar, ao fundo, a estátua do Camões. Não se lembraram de pôr-lhe versos no pedestal, mas se um lhe pusessem qual poriam? Ricardo Reis vai agora no eléctrico. Entontece. Os bancos, de um entretecido de palha forte e pequena, levam-no a regiões distantes. Sai do carro exausto e sonâmbulo. Deixara de chover. Ricardo Reis foi à administração do cemitério, ao registo dos defuntos, saber onde estava sepultado Fernando António Nogueira Pessoa, falecido no dia 30 de Novembro de 1935, enterrado no dia 2 do mês que corre. Ricardo Reis agradece as explicações do funcionário e vai à procura do jazigo nº 4371. A assinalar o título de propriedade está o nome de D. Dionísia de Seabra Pessoa. Está ainda outro nome, não mais, Fernando Pessoa, com datas de nascimento e morte. Dentro do jazigo está uma velha tresloucada e está também guardado o corpo apodrecido de um fazedor de versos que deixou a sua parte de loucura no mundo. Caiu uma bátega forte, o que foi um bom motivo para Ricardo Reis se retirar.


Depois do jantar, Ricardo Reis instalou-se na sala de recepção do hotel, especialmente preparada, naquele dia, para o révellion. Estamos no último dia do ano de 1935. Ricardo Reis não fica para a festa, sobe devagar a escada até ao seu quarto. Vai descansar, mas na rua perpassa uma algazarra medonha. Já deram as onze horas, quando, bruscamente, Ricardo Reis levanta-se e sai. Sobe a Rua do Alecrim, pára diante da estátua de Eça de Queirós, ou Queiroz, por respeito da ortografia que o dono do nome usou. Sobre a nudez forte da verdade o manto diáfano da fantasia. Ou, sobre a nudez forte da fantasia o manto diáfano da verdade? Ricardo Reis sente-se confuso. Desce o Chiado e a Rua do Carmo. O Rossio está cheio de gente. Faltam 4 minutos para a meia-noite. Depois é a gritaria da multidão, as campainhas dos eléctricos, as buzinas dos automóveis, o barulho das sereias, abraçam-se uns aos outros, conhecidos e desconhecidos, beijam-se homens e mulheres ao acaso. Mas, ainda não passou um minuto, e já o som vai decrescendo. Ainda há grupos no Rossio, mas a animação é cada vez menos. A Rua do Ouro, que agora desce, está juncada de detritos e ainda se lançam pela janela fora trapos, caixas vazias, ferro-velho… Ricardo Reis, cansado, regressa ao hotel.


Entra no hotel e segue o corredor que o leva ao seu quarto, que é o duzentos e um. É então que repara que por baixo da porta passa uma réstia de luz. Ter-se-á esquecido de alguma coisa? Meteu a chave à fechadura, abriu, há alguém no quarto. Será Lídia? Não, sentado no sofá estava um homem. Reconheceu-o, imediatamente, apesar de não o ver há já 16 anos. À sua espera, estava Fernando Pessoa.
Olá! - disse Ricardo Reis, ainda que duvidando de que ele lhe responderia.
Como nem sempre o absurdo respeita a lógica, acontece que respondeu mesmo.
Viva! - respondeu Fernando Pessoa, estendendo a mão e dando-lhe um abraço.
- Então como tem passado? Um deles fez a pergunta, ou ambos, não importando saber, tão insignificante é a frase.
Ricardo Reis despiu a gabardina, pousou o chapéu e arrumou cuidadosamente o guarda-chuva no lavatório, não fosse pingar o oleado do chão. Puxou uma cadeira e sentou-se defronte do visitante. Olham-se com simpatia, vê-se que estão contentes por se terem reencontrado depois de longa ausência. É Fernando Pessoa quem primeiro fala.
Soube que me foi visitar, eu não estava, mas disseram-me quando cheguei.
Pensei que estivesse, pensei que nunca de lá saísse - respondeu Ricardo Reis.
Por enquanto saio, ainda tenho uns oito meses para circular à vontade - explicou Fernando Pessoa.
Oito meses porquê - perguntou Ricardo Reis.
Contas certas, no geral e em média, são nove meses, tantos quantos os que andamos na barriga das nossas mães, acho que é por uma questão de equilíbrio - esclareceu Fernando Pessoa.
-  E agora diga-me você que é que o trouxe a Portugal - perguntou Fernando Pessoa.
Ricardo Reis tirou a carteira do bolso interior do casaco, extraiu dela um papel dobrado, fez menção de o entregar a Fernando Pessoa, mas este recusou com um gesto.
Já não sei ler, leia você - disse Fernando Pessoa.
E Ricardo Reis leu: «Fernando Pessoa faleceu Stop Parto para Glasgow Stop Álvaro de Campos».
Quando recebi este telegrama decidi regressar, senti que era uma espécie de dever - acrescentou Ricardo Reis.
-  Houve ainda uma outra razão para este meu regresso, essa mais egoísta, é que em Novembro rebentou no Brasil uma revolução, estava indeciso, parto, não parto, mas depois chegou o telegrama, aí decidi-me - disse ainda Ricardo Reis.
Você, Reis, tem sina de andar a fugir das revoluções, em mil novecentos e dezanove foi para o Brasil por causa de outra que provavelmente falhou também - disse Fernando Pessoa.
Em rigor eu não fugi do Brasil e talvez que ainda lá estivesse se você não tem morrido - disse Ricardo Reis.
Você continua monárquico - sublinhou Fernando Pessoa.
Continuo. Sem rei. Pode-se ser monárquico e não querer um rei - confirmou Ricardo Reis.
Ricardo Reis puxou uma cadeira e sentou-se defronte do visitante e disparou:
Bem, Fernando, conte lá, se for capaz, a história do nascimento dos heterónimos.
Vou ver se consigo responder completamente – disse Fernando Pessoa, prosseguindo - Aí por 1912, salvo erro (que nunca pode ser grande), veio-me à ideia escrever uns poemas de índole pagã. Esbocei umas cousas em verso irregular (não no estilo Álvaro de Campos, mas num estilo de meia regularidade), e abandonei o caso. Esboçara-se-me, contudo, numa penumbra mal urdida, um vago retrato da pessoa que estava a fazer aquilo. Tinha nascido, sem que eu soubesse, você, Ricardo Reis.
Então, quer dizer, fui o princípio de tudo? – interrompeu o Ricardo Reis.
Sim, se fica contente. Ano e meio, ou dois anos depois – foi em 8 de Março de 1914 – acerquei-me de uma cómoda alta, e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triunfal da minha vida. Aparecido Alberto Caeiro, tratei logo de lhe descobrir – instintiva e subconscientemente – uns discípulos.
Está bem, não precisa de contar mais – disse Ricardo Reis.
Fernando Pessoa levantou-se do sofá, passeou um pouco pela saleta, no quarto parou diante do espelho, depois voltou. Tomou a sentar-se, cruzou a perna.
E agora, vai ficar para sempre em Portugal, ou regressa a casa? - perguntou Fernando Pessoa.
-  Ainda não sei, apenas trouxe o indispensável, pode ser que me resolva a ficar, abrir consultório, fazer clientela, também pode acontecer que regresse ao Rio - retorquiu Ricardo Reis.
Nenhum vivo pode substituir um morto - sentenciou Fernando Pessoa.
Nenhum de nós é verdadeiramente vivo nem verdadeiramente morto - concordou Ricardo Reis.
Bem dito, com essa faria você uma daquelas odes - observou, muito a propósito, Fernando Pessoa.
Ambos sorriram.
Diga-me como soube que eu estava hospedado neste hotel - perguntou Ricardo Reis.
Quando se está morto, sabe-se tudo, é uma das vantagens.
E entrar, como foi que entrou no meu quarto?
Como qualquer outra pessoa entraria.
Não veio pelos ares, não atravessou as paredes. Que absurda ideia, meu caro, isso só acontece nos livros de fantasma - contrapôs Ricardo Reis.
Os mortos servem-se dos caminhos dos vivos, aliás nem há outros, vim por aí fora desde os Prazeres como qualquer mortal. Subi a escada, abri aquela porta, sentei me neste sofá à sua espera - explicou Fernando Pessoa.
E ninguém deu pela entrada de um desconhecido, sim, que você aqui é um desconhecido - ironizou Ricardo Reis.
-  Essa é outra vantagem de estar morto, ninguém nos vê, querendo nós
- Disse Fernando Pessoa.
Mas eu vejo-o a si - logo contrapôs Ricardo Reis.
Porque eu quero que me veja, e, além disso, se reflectirmos bem, quem é você? - Perguntou, com grande ironia, Fernando Pessoa, não esperando, obviamente, a resposta.
Ricardo Reis não respondeu. Houve um silêncio arrastado, espesso. Ouviu-se como em outro mundo o relógio do patamar, duas horas. Fernando Pessoa levantou-se.
Vou-me chegando.
Já? - interrogou-se Ricardo Reis.
Bem, não julgue que tenho horas marcadas, sou livre, é verdade que a minha avó está lá, mas deixou de me maçar - disse Fernando Pessoa.
Fique um pouco mais - implorou Ricardo Reis.
Está a fazer-se tarde, você precisa de descansar - ripostou Fernando Pessoa.
Quando volta?
Quer que eu volte? - pergunta Fernando Pessoa.
Gostaria muito, podíamos conversar, restaurar a nossa amizade, não se esqueça de que, passados dezasseis anos, sou novo na terra - quase implorou Ricardo Reis.
Mas olhe que só vamos poder estar juntos oito meses, depois acabou-se, não terei mais tempo. Quando puder, aparecerei - respondeu Fernando Pessoa.
Não quer marcar um dia, hora, local? - insistiu Ricardo Reis.
Tudo menos isso, Então até breve - retorquiu Fernando Pessoa.
Fernando, gostei de o ver.
E eu a si, Ricardo.
Fernando Pessoa abriu a porta do quarto, saiu para o corredor. Não se ouviram os seus passos. Ricardo Reis foi à janela. Pela Rua do Alecrim acima afastava-se Fernando Pessoa.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Gideon Sundback, inventor do fecho de correr ou éclair, é recordado hoje pelo Google.

Não resisto a deixar aqui um poema do António Gedeão, que ele escreveu a propósito de objecto tão útil e que o Rei Filipe II, tão rico que era, não tinha.

 
Poema do Fecho éclair

Filipe II tinha um colar de oiro
tinha um colar de oiro com pedras
rubis.
Cingia a cintura com cinto de coiro,
com fivela de oiro,
olho de perdiz.
Comia num prato
de prata lavrada
girafa trufada,
rissóis de serpente.
O copo era um gomo
que em flor desabrocha,
de cristal de rocha
do mais transparente.

Andava nas salas
forradas de Arrás,
com panos por cima,
pela frente e por trás.
Tapetes flamengos,
combates de galos,
alões e podengos,
falcões e cavalos.

Dormia na cama
de prata maciça
com dossel de lhama
de franja roliça.
Na mesa do canto
vermelho damasco
a tíbia de um santo
guardada num frasco.

Foi dono da terra,
foi senhor do mundo,
nada lhe faltava,
Filipe Segundo.

Tinha oiro e prata,
pedras nunca vistas,
safira, topázios,
rubis, ametistas.

Tinha tudo, tudo
sem peso nem conta,
bragas de veludo,
peliças de lontra.

Um homem tão grande
tem tudo o que quer.

O que ele não tinha
era um fecho éclair.

António Gedeão

sábado, 21 de abril de 2012

A minha peregrinação a Évora

Na Quarta-Feira passada (dia 18) peregrinei até Évora, com os meus amigos dos livros, para fazer o percurso da Aparição do Vergílio Ferreira. Fomos acompanhados por um guia que o Turismo de Évora disponibilizou.
A peregrinação começou na praça famosa do Giraldo, aquele cavaleiro salteador ou salteador cavaleiro que, para Afonso Henriques lhe perdoar os crimes, se determinou a conquistar esta cidade. Entrámos no Café Arcada, mas o Dr. Moura faltou ao encontro marcado. Certamente, tomava conta dos seus doentes. Tem um Deus para lhe tomar conta da vida e da morte. Logo ali ao lado, à esquina, parada no tempo, a montra da livraria do Nazareth. Depois, penetrámos na cidade, enredada de ruas, semeada de ruínas, de arcos partidos, nichos de santos, janelas góticas. Subimos a Rua da Selaria, agora sem a praga das carroças atroando a cidade. Perto do nicho do Senhor dos Terramotos, ao alto, o cão cansou-se da espera do osso da janela lá de cima. Depois, o Largo do Templo de Diana. Nas colunas solitárias pareceu-me ouvir um murmúrio antigo de uma floresta imóvel. O zimbório da Sé lá estava, mas não brilhava. À direita, ao chegar ao Largo, está o Museu. Espreitei mas a Sofia e o Alberto Soares já haviam saído. Ao pé do Templo de Diana, está a Biblioteca, mas, nesse dia, não havia aula de português. Não entrámos na Sé. Ana, estás aí dentro, tenho a certeza, encontraste finalmente o caminho que dá sentido à tua vida. Ergui os olhos para a massa escura da catedral, o alinhamento dos contrafortes, a renda da corda, lavrada a mãos grossas, pelas rosáceas, pelas ameias, a ascensão, até às flechas, de uma força entroncada, vinda do fundo da terra, escorrendo ainda o negrume de raízes…e os Apóstolos da Sé, à entrada, são magníficos. Depois, descemos as ruas apressadas e oblíquas, descobrindo, finalmente, o edifício da Universidade de Évora, o antigo liceu.
Procurei o bom reitor do liceu, que não encontrei. Também não dei pela presença do cão. Sobre um pequeno lago, ergue-se uma taça de mármore, onde os pombos vêm (ou vinham?) beber água. Aí tirámos a fotografia da praxe.

Saímos e vamos pela Rua do Colégio. Há uma casa à direita, ao alto de um jardim, com uma fachada de azulejos azuis. Uma outra casa adiante, com um brasão, abre-se de arcarias, num jardim traçado pela curva da rua. A guia levou-nos até ao Largo das Portas de Moura, mas não me levou à Rua da Mesquita, à casa onde viveu Vergílio Ferreira. Vimos a janela de Garcia de Resende e percorremos a Rua dos Infantes, que, desta vez, não estava embaraçada de peões. Do alto de uma janela, vem um som do princípio do mundo. Cristina toca uma música celestial. É para mim uma aparição. Oh, Cristina! E que estarás tu tocando? Bach? Beethoven? Mozart? Chopin? Não sei. Descemos agora pela Travessa da Caraça. À igreja de São Francisco chegámos quase sem forças. Passeámos pela grande nave, admirámos as pinturas atribuídas a Garcia Fernandes. Embora não fazendo parte do percurso vergiliano, entrámos na Capela dos Ossos. Visita mais apropriada para uma Quarta-Feira de Cinzas. Saímos deprimidos. Estes franciscanos, tanta canseira, para nos obrigarem a pensar por breves momentos. O milagre da vida, em face da inverossimilhança da morte. Perto, fica a casa do Chico, um tipo com um ar dominador de pugilista, com quem tenho um combate a travar, mas hoje não. O último local da viagem é o Jardim Público, junto ao busto da Florbela Espanca, ali desde 1949, da autoria do escultor Diogo de Macedo.
Através dos túneis de sombra, entrevejo Alberto Soares: «Sento-me, reconciliado, nos bancos de azulejos, fechados em recantos clandestinos, vou visitar Florbela, olho-a de um banco de madeira que lhe fica em frente, medito com ela. É uma cabeça calma, triste e majestosa. Banha-se de grandeza e gravidade desde a fronte cansada, que verga sobre as mãos em repouso, até às espáduas largas, em que o pescoço se espraia. Sinto que ela prevaleceu sobre a melancolia dos séculos e que chegou até nós para nos dar testemunho. Não está bem ali, rodeada de lirismo. E imagino-a num limite da cidade, frente à planície deserta, num alto pedestal tocando os astros…»
Finalmente, o encontro com Florbela. Interrompemos a sua meditação com a nossa poesia. Até eu, coitado, ousei dizer o poema “Alma Perdida”.  Momento há muito esperado.

Por sugestão do guia, fomos terminar a peregrinação numa pastelaria afamada na cidade. Havia que descansar e retemperar forças antes de iniciar o regresso. Então, ao aproximar-me da pastelaria, vi, ao longe, o antigo edifício do Regimento de Infantaria 16 de Évora. Larguei os meus companheiros de jornada e aproximei-me com os mesmos medos de há 40 anos. Lentamente, o casarão foi rodando com a curva da rua, espiando-me do alto da sua quietude lôbrega. Entrei de supetão e veio ao meu encontro um missionário. Contei a minha história. O comandante, o louco Zé Pinheiro, não estava. Estará em nova comissão de serviço? Posso tirar uma fotografia? Só lá fora, respondeu o missionário do quartel. Eu pedi uma história quente, mas serviram-me uma recordação fria.
Juntei-me aos meus amigos, para iniciar o regresso a casa. Tinha encontro marcado com tanta gente, mas faltaram todos. No regresso, nas algibeiras, só recordações. Raiva. No tempo, há 40 anos, quando vim a esta cidade branca pela primeira vez, eu era feliz e ninguém estava morto.

quarta-feira, 18 de abril de 2012


Nasceu há 170 anos e merece ser recordado.

O PALÁCIO DA VENTURA

Sonho que sou um cavaleiro andante.
Por desertos, por sóis, por noite escura,
Paladino do amor, busco anelante
O palácio encantado da Ventura!

Mas já desmaio, exausto e vacilante,
Quebrada a espada já, rota a armadura...
E eis que súbito o avisto, fulgurante
Na sua pompa e aérea formosura!

Com grandes golpes bato à porta e brado:
Eu sou o Vagabundo, O deserdado...
Abri-vos, portas d’ouro, ante meus ais!

Abrem-se as portas d’ouro, com fragor...
Mas dentro encontro só, cheio de dor,
Silêncio e escuridão – e nada mais!

Antero de Quental

sábado, 14 de abril de 2012

"O senhorito do Monte da Ribeira da Orca"


Eugénio de Andrade fez da mãe a presença central da sua poesia, de onde o pai está quase ausente, esse pai a quem em entrevistas apenas se refere como "o senhorito do Monte da Ribeira da Orca". Ora, Orca é justamente a terra onde eu nasci. Por isso, sinto-me, para sempre, em falta em relação ao poeta que muito admiro.  É sabido que o seu nascimento foi fruto de um amor juvenil e que o casamento, celebrado mais tarde, durou muito pouco tempo. 
Há um único poema em que o poeta se refere, necessariamente de forma crítica, ao pai. É assim em

Harmónio
Como ladrão ou mulher
pública: vens de noite.
Trazes o harmónio
a masculina
música roubada às fontes.
Não te esperava;só uma vez
te esperei tremendo de amor:
eu era tão pequeno
que não me viste.
Nem uma palavra ousas;
só os olhos suplicam que te roube
à morte,que devolva ao sol
a modesta desordem dos teus dias.
Que escute ao menos a pobre
e rouca e desamparada
música do teu pequeno harmónio.

Eugénio de Andrade

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Lisboa Revisitada


Lisbon Revisited (1923)”, de Álvaro de Campos (heterónimo de Fernando Pessoa), é um poema repleto de frustração e sentimento de mágoa.
O poeta recusa tudo e todos à sua volta. Recusa tudo que se mostre como conclusivo e alega que a única certeza é morrer (“Não me venham com conclusões! A única conclusão é morrer.”). O poeta não quer saber de regras nem ideais de conduta ou moral a seguir. Recusa-se a encarar a verdade (“Se têm a verdade, guardem-na!”). Desta Lisboa, o poeta já não reconhece nada (“Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.”).

O poeta revisita a Lisboa da sua infância sem, porém, a reencontrar.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Quando nasceu Sebastião da Gama

No dia 10 de Abril de 1924 (se fosse vivo faria hoje 88 anos), nasceu o poeta Sebastião da Gama, em Vila Nogueira de Azeitão.

Quando nasceu, ficou tudo como estava. Nem homens cortaram veias, nem o Sol escureceu, nem houve Estrelas a mais … somente, esquecida das dores, a sua Mãe sorriu e agradeceu. Quando nasceu, não houve nada de novo, senão ele. As nuvens não se espantaram e não enlouqueceu ninguém … para que o dia fosse enorme, bastou ao poeta toda a ternura que olhava nos olhos de sua Mãe.

Foi assim o dia 10 de Abril de 1924. Como soube? É o meu querido poeta da Arrábida que o conta em “Pequeno Poema”. É um lindo poema e, ao mesmo tempo, um bela homenagem às nossas Mães. Obrigado, Sebastião da Gama.