A minha Lista de blogues

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Dom Quixote

Tanto quanto sei, o Novo Acordo Ortográfico (NAO) foi aprovado e começou a ser aplicado em todas as comunicações de serviços ligados ao aparelho de Estado. Não percebo a ordem do Vasco Graça Moura. É uma atitude prepotente e estéril. Confesso que tenho uma grande admiração pela estatura intelectual de VGM, apesar de não concordar com esta sua cruzada quixotesca contra o NAO. Uma desilusão! A medida pode não ser ilegal, mas que anda lá perto, anda. Fico agora à espera da resposta do Sr. Secretário da Cultura que, ainda há dias, o ouvi dizer que os escritores, na sua actividade profissional, não estavam obrigados a seguir o NAO, mas essa obrigação é absolutamente imperativa quando no desempenho de um cargo dentro do aparelho do Estado. E agora, Sr. Secretário de Estado?

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

A cómoda

                     (Foto tirada  hoje na Casa Fernando Pessoa)

Esta é a cómoda a que Fernando Pessoa se refere na sua carta a Adolfo Casais Monteiro, datada de 13/01/1935.
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Ano e meio, ou dois anos depois, lembrei-me um dia de fazer uma partida ao Sá-Carneiro – de inventar um poeta bucólico, de espécie complicada, e apresentar-lho, já me não lembro como, em qualquer espécie de realidade. Levei uns dias a elaborar o poeta mas nada consegui. Num dia em que finalmente desistira – foi em 8 de Março de 1914 – acerquei-me de uma cómoda alta, e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim. Abri com um título, O Guardador de Rebanhos. E o que se seguiu foi o aparecimento de alguém em mim, a quem dei desde logo o nome de Alberto Caeiro. Desculpe-me o absurdo da frase: aparecera em mim o meu mestre.
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sábado, 28 de janeiro de 2012

Aniversário

28-Janeiro de 1980 (segunda). Aqui estou, pois, no guetto, até se cumprir um mês sobre o acidente. E para não haver grandes intervalos de escrita, aqui estou a escrever. Dá-se o caso, aliás, de cumprir hoje 64 anos. Sem comentários. Perdi no dia 4 uma boa oportunidade de não ter de fazer mais contas. Como é nova e viva esta sensação de que tudo está feito, de que é perfeitamente aceitável que a vida, os outros, nos excluam. Mas fiz 64. E curioso. E já agora talvez que venha a reflectir um pouco no que fui nesses 64. E a ideia mais forte que se me impõe (qual a que se impõe aos outros?) é a de que fui uma espécie de «falso», como se diz dos «falsos» da pintura. De um lado está o nosso ser que é normalmente, bons deuses, péssimo; e do outro o parecer, que já não é mau de todo. Entre os dois nos corre mais ou menos a vida. Ela é assim quase sempre velhacóide. Quanto a mim, deu-me pouco; e o pouco que me deu foi extremamente regateado. Oh, que a comédia acabe depressa, quero lá saber. Mas sem muita maçada, se não é muita maçada. São os votos que me faço no dia do aniversário.(…)

Vergílio Ferreira, Conta-Corrente 3

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Está caladinho, se queres ter trabalhinho

Confesso que, actualmente, oiço muito pouco Rádio. Apenas quando viajo de carro. Às quartas e às sextas, entre as nove e meia e as dez, aproveito uma curta viagem para estar ligado à Antena 1, propositadamente para ouvir, nesses dias, o jornalista e autor Pedro Rosa Mendes e o jornalista-viajante Gonçalo Cadilhe.

No passado dia 18 (quarta-feira), ouvi o Jornalista Pedro Rosa Mendes ler uma crónica muito dura contra o regime angolano e, de passagem, uma crítica feroz de subserviência a que se prestou a nossa RTP, o que aconteceu num programa de “Prós e Contras”.

Pensei, na altura, com os meus botões: que grande bomba! Não me admiro que a bomba rebente mesmo e alguém se aleije.

A bomba rebentou mesmo e fez vítimas, como tem sido abundantemente noticiado. Para além do jornalista Pedro Rosa Mendes, saem de cena os outros cronistas, incluindo o Gonçalo Cadilhe, que eu ouvia, com gosto, falar de viagens e livros.

Ontem, o Pedro Rosa Mendes falou ainda, no horário do costume, mas, penso, pela última vez. Falou de democracia e fez as necessárias despedidas.

A final, deixou um conselho: “Está caladinho, se queres ter trabalhinho”. Infelizmente, é verdade…

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

O centenário de Redol

Leio na Imprensa de hoje que as comemorações do centenário de nascimento de Alves Redol (1911-1969) culmina esta semana com a realização de um congresso internacional, que se inicia hoje na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e prossegue, amanhã e depois, no Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira, terra natal do autor de Gaibéus e Barranco de Cegos, livros que eu revisitei muito recentemente, sobretudo o segundo, do qual, curiosamente, falei aqui ontem.

Gaibéus foi o livro que lançou o neo-realismo na ficção portuguesa. «Este romance não pretende ficar na literatura como obra de arte», escreveu Alves Redol na primeira edição de 1939. «Quer ser, antes de tudo, um documentário humano fixado no Ribatejo».

Alves Redol procurou, depois, outro caminho para a sua narrativa, como forma de responder a críticos, inclusive, com os quais partilhava cumplicidades ideológicas, como Mário Dionísio ou Óscar Lopes, que censuraram a fragilidade estética das suas primeiras obras.

Nesta via, Barranco de Cegos, publicado em 1961, oito anos antes da sua morte, teve o reconhecimento unânime da crítica, como a sua melhor obra.

Esta evolução estilística deve ser creditada a favor do escritor. O compromisso pessoal de Redol com o PCP, de que se tornou militante nos anos 40, não impediu que “o seu projecto de vida tenha sido, desde o início, o de chegar à escrita, no sentido profundo do termo, o de chegar a literatura”, afirmou agora António Pedro Pita, director do Museu do Neo-Realismo.

Por mim, penso que o conseguiu, embora continue a julgar excessivo o destaque que o Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira, lhe dedica, como já tive oportunidade de o dizer aqui. É a minha opinião, mas Barranco de Cegos vale mesmo a pena ser lido.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Barranco de Cegos, de Alves Redol

Acabei de ler o Barranco de Cegos, de Alves Redol. As últimas 60 páginas do livro foram lidas, na madrugada do dia hoje, de supetão. O romance foi publicado em 1962, mas a história discorre sobre os últimos anos da Monarquia em Portugal. É considerada uma das melhores criações da carreira literária do autor, sendo também considerado um dos romances essenciais do Neo-Realismo português.

Narra a luta de um proprietário ribatejano, Diogo Relvas, contra a invasão das indústrias e dos interesses financeiros, num contexto de progressiva afirmação do capitalismo. O título do romance, Barranco de Cegos, retirado da epígrafe de S. Mateus ("Deixai-os; cegos são e condutores de cegos; e se um cego guia a outro cego, ambos vêm a cair no barranco") anuncia, no entanto, que esse combate se encontra, à partida, perdido.

O romance narra a caminhada inconsciente e irremediável da família Relvas e da Nação para o abismo de derrota e de morte, simbolizados, no último capítulo, no corpo embalsamado do velho Relvas que persiste em manter-se agarrado à vida. Cegos são os servos, criados e campinos oprimidos, comandados pelo cego, obstinado e autoritário, Diogo Relvas, ele também guiado por outros cegos, os políticos, o rei, correndo todos para um precipício. Vale a pena ler. Comparado com os Gaibéus, que li o ano passado, este é um livro bem mais consistente.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Pai-Nosso

Os moçárabes eram os cristãos que viviam na península ibérica durante o domínio árabe. Desenvolveram uma liturgia própria que prolongou a tradição suevo-visigótica.

Através deste vídeo, podemos aqui ouvir o canto do Pai-Nosso atribuído à tradição moçárabe, interpretado pelos monges de S. Domingo de Silos, Espanha.

sábado, 14 de janeiro de 2012

Um amigo de Pessoa

A propósito da génese dos heterónimos, foi o próprio Fernando Pessoa que, em carta de 13 de Janeiro de 1935, dirigida a Casais Monteiro, deixou escrito: “Ricardo Reis vive no Brasil desde 1919, pois se expatriou espontâneamente por ser monárquico”.

O poeta da Mensagem deixou-nos assim um enigma: o que aconteceu ao Ricardo Reis que partiu para o Brasil em 1919 e nunca mais voltou?

José Saramago veio ajudar na resolução deste enigma. O Ano da Morte de Ricardo Reis, de José Saramago, conta-nos a história de Ricardo Reis que regressa a Portugal depois de ser informado da morte de Fernando Pessoa. O livro começa em fins de 1935 e vai terminar nove meses depois com a “morte” de Ricardo Reis. No final do livro, Saramago põe na boca de Ricardo Reis: “deixo o mundo aliviado de um enigma”.

Faltava, porém, saber onde se havia Fernando Pessoa inspirado na criação do heterónimo Ricardo Reis.

O Jornal “Publico”, de ontem, trazia uma notícia curiosa sobre a existência de um amigo, até agora desconhecido, de Fernando Pessoa: Carlos Lobo de Oliveira (1895-1973), poeta e tradutor, cuja obra se iniciou em 1912, em revistas literárias como a “Águia”, estando a sua obra disponível no “site” dedicado ao seu espólio - http://www.carloslobooliveira.com/

Numa pasta deste arquivo foi encontrada uma carta de Pessoa, de 17 de Maio de 1928, para Carlos Lobo, que reza assim: “Meu querido Carlos: Só hoje recebi - hoje mesmo a haviam deixado no Café Arcada – a sua carta de 24 de Abril. Consegui arranjar-lhe 3 exemplares da “Athena” que contém o “Christmas Cake”….A minha morada perpetua é Apartado (ou Caixa Postal) 147, Lisboa. Um abraço do muito seu, Fernando Pessoa».

Sabe-se que Carlos Lobo, para fugir às sangrentas represálias decorrentes da sua participação no Movimento da Monarquia do Norte, emigrou para a Galiza e depois para o Brasil, onde viveu desde 1919 a 1924. Não deixa, assim, de ser curiosa, quiçá especulativa, a coincidência entre alguns aspectos da biografia de Carlos Lobo com o heterónimo de Fernando Pessoa, Ricardo Reis.

A relação de amizade entre Carlos Lobo e Fernando Pessoa pode muito bem ter inspirado a gestação de Ricardo Reis.

Se assim for, parece termos agora a história completa acerca deste heterónimo: Carlos Lobo foi a fonte inspiradora de Ricardo Reis; José Saramago marcou o ano e as circunstâncias da morte de Ricardo Reis.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Contos Tradicionais Portugueses: O caldo de pedra



O caldo de pedra

Um frade andava no peditório. Chegou à porta de um lavrador, mas não lhe quiseram aí dar nada.
O frade estava a cair de fome e disse:
- Vou ver se faço um caldinho de pedra.
E pegou numa pedra do chão, sacudiu-lhe a terra e pôs-se a olhar para ela, como para ver se era boa para um caldo.
A gente da casa pôs-se a rir do frade e daquela lembrança. Diz o frade:
- Então nunca comeram caldo de pedra? Só lhes digo que é uma coisa muito boa.
Responderam-lhe:
- Sempre queremos ver isso.
Foi o que o frade quis ouvir. Depois de ter lavado a pedra, pediu:
- Se me emprestassem aí um pucarinho...
Deram-lhe uma panela de barro. Ele encheu-a de água e deitou-lhe a pedra dentro.
- Agora, se me deixassem estar a panelinha aí, ao pé das brasas...
Deixaram. Assim que a panela começou a chiar, disse ele:
- Com um bocadinho de unto é que o caldo ficava a primor!
Foram-lhe buscar um pedaço de unto. Ferveu, ferveu, e a gente da casa pasmada com o que via.
O frade, provando o caldo:
- Está um nadinha insosso. Bem precisa duma pedrinha de sal.
Também lhe deram o sal. Temperou, provou e disse:
- Agora é que, com uns olhinhos de couve, ficava que até os anjos o comeriam.
A dona da casa foi à horta e trouxe-lhe duas couves. O frade limpou-as, ripou-as com os dedos e deitou as folhas na panela. Quando os olhos já estavam aferventados, arriscou:
- Ai! Um naquinho de chouriça é que lhe dava uma graça!...
Trouxeram-lhe um pedaço de chouriço. Ele pô-lo na panela e, enquanto se cozia, tirou do alforge pão e arranjou-se para comer com vagar. O caldo cheirava que era um regalo.
Comeu e lambeu o beiço.
Depois de despejada a panela, ficou a pedra no fundo.
A gente da casa, que estava com os olhos nele, perguntou-lhe:
- Ó senhor frade, então a pedra?
- A pedra... Lavo-a e levo-a comigo para outra vez.
E assim comeu onde não lhe queriam dar nada.

Teófilo Braga, in Contos Tradicionais Portugueses

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Foge, cão, que te fazem barão. Para onde? Se me fazem visconde

O Governo nomeou ontem o presidente da Câmara do Fundão, afecto ao PSD, Manuel Frexes, e o vice-presidente da Câmara do Porto, do CDS-PP, Álvaro Castello-Branco, para o conselho de administração das Águas de Portugal, situação que vem merecendo várias críticas, inclusive do PS (pasme-se!) que considera a situação «muito grave».

Recorde-se que, na semana passada, Eduardo Catroga, entre outros nomes, foram propostos para o conselho geral e de supervisão da EDP.

Se eu fosse militante de algum partido do Governo, saía da minha zona de conforto e emigrava o mais rapidamente possível, não fosse o Governo lembrar-se de mim para alguma cadeira dourada.

Almeida Garrett, se ainda fosse vivo, diria: “Foge, cão, que te fazem barão. Para onde? Se me fazem visconde”.

sábado, 7 de janeiro de 2012

Assumam-se!

Durante a minha vida, ouvi muitas vezes o seguinte diálogo:

- É católico?

- Sim, sou católico, mas não praticante.

Nos últimos dias, tenho ouvido, como nunca, este diálogo:

- É mação?

- Sim, sou mação, mas adormecido.

Assumam-se!

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

A estrela de Sophia de Mello Breyner Andresen

Quantas vezes procuramos fora de nós aquilo que está tão próximo! Quantas vezes procuramos longe o que está próximo!. Como também diz Sophia de Mello Breyner Andresen, neste lindo poema sobre a estrela que guiou os magos: “Quanto deserto / Atravessei para encontrar aquilo / que morava entre os homens e tão perto”.

A ESTRELA
Eu caminhei na noite
Entre silêncio e frio
Só uma estrela secreta me guiava

Grandes perigos na noite me apareceram
Da minha estrela julguei que eu a julgara
Verdadeira sendo ela só reflexo
De uma cidade a néon enfeitada

A minha solidão me pareceu coroa
Sinal de perfeição em minha fronte
Mas vi quando no vento me humilhava
Que a coroa que eu levava era de um ferro
Tão pesado que toda me dobrava

Do frio das montanhas eu pensei
«Minha pureza me cerca e me rodeia»
Porém meu pensamento apodreceu
E a pureza das coisas cintilava
E eu vi que a limpidez não era eu

E a fraqueza da carne e a miragem do espírito
Em monstruosa voz se transformaram
Disse às pedras do monte que falassem
Mas elas como pedras se calaram
Sozinha me vi delirante e perdida
E uma estrela serena me espantava

E eu caminhei na noite minha sombra
De desmedidos gestos me cercava
Silêncio e medo
Nos confins desolados caminhavam
Então eu vi chegar ao meu encontro
Aqueles que uma estrela iluminava

E assim eles disseram: «Vem connosco
Se também vens seguindo aquela estrela»
Então soube que a estrela que eu seguia
Era real e não imaginada

Grandes noites redondas nos cercaram
Grandes brumas miragens nos mostraram
Grandes silêncios de ecos vagabundos
Em direcções distantes nos chamaram

E a sombra dos três homens sobre a terra
Ao lado dos meus passos caminhava
E eu espantada vi que aquela estrela
Para a cidade dos homens nos guiava

E a estrela do céu parou em cima
De uma rua sem cor e sem beleza
Onde a luz tinha a cor que tem a cinza
Longe do verde azul da natureza

Ali não vi as coisas que eu amava
Nem o brilho do sol nem o da água

Ao lado do hospital e da prisão
Entre o agiota e o templo profanado
Onde a rua é mais triste e mais sozinha
E onde tudo parece abandonado
Um lugar pela estrela foi marcado

Nesse lugar pensei: «Quanto deserto
Atravessei para encontrar aquilo
Que morava entre os homens e tão perto
»


Sophia de Mello Breyner Andresen

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

As lojas maçonicas e as lojas do Pingo Doce

"— Todos somos réus - comentou o Pereira Saldanha, ao introduzir um pedaço de rapé nas ventas.
— Não estou de acordo — gritou Zé Botto, tentando desembaraçar o corpo pesado dos braços do cadeirão — Réus, como?!. Para mim, e há muito boa gente da mesma opinião, todo o mal comeu com a revolta do Porto. A revolta republicana meteu medo às pessoas de bem. Eu sei de alguns que puseram o seu dinheiro lá foraEm Paris e em Londres. Devem ter desaparecido fortunas nessa altura. E ainda estão a escapar-se...
— Esses são os cobardes de sempre! — observou João Vitorino - São os mesmos que põem o dinheiro a salvo e encetam conversas, às escondidas, com os mações e os carbonários.
—Mas será tudo?! —perguntou Diogo Relvas do fundo da sala… — Ao que julgo, há uma soma de acontecimentos. A independência do Brasil…
— As lutas liberais — objectou alguém.
— Eu insisto: a independência do Brasil, às aventuras coloniais, agora a implantação da república brasileira, o ultimato, a revolução do Porto... e a falência do Baring Brothers ou lá o que é".

Alves Redol, in Barranco de Cegos

Este romance foi escrito em 1962 e é considerado por muitos a melhor obra de Alves Redol. A narrativa começa à volta do ultimato britânico em 1890 e do colapso financeiro em 1891.

Nestes dias, tem-se falado muito em lojas maçónicas e nas lojas da família Alexandre Soares dos Santos.

Nem de propósito, este excerto do livro que comecei agora a ler...

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Jerusalém, de Gonçalo M.Tavares

Acabei de ler o romance Jerusalém, de Gonçalo M. Tavares. É um romance negro, como parece avisar, desde logo, a cor da capa do livro. O autor leva-nos a mergulhar no mais profundo da mente humana, no que ela tem de mais terrível. Mas, a cor da capa não é um mero acaso. É o próprio autor que o confessa: “São livros pretos, no sentido de uma certa dureza, e de um certo desencanto. Com certos livros tento interferir na existência das pessoas ou pelo menos na forma de se pensar sobre certos acontecimentos. O meu instinto primário foi escrever romances para tentar perceber o mal, como é que ele surge, em que situações se manifestam. Sou um escritor pós-Auschwitz. Tenho consciência do que aconteceu”.

A acção principal desenrola-se no dia 29 de Maio, de um qualquer ano, entre as 4 da manhã e até o dia parecer estar a amanhecer, algures em ruas sombrias perto de uma igreja de uma qualquer cidade alemã, para onde convergem, irresistivelmente, as personagens principais.

A restante narrativa serve apenas para, através de analepses, dar a conhecer ao leitor a história e o perfil das várias personagens. Falemos das principais.

Theodor Busbeck é um reputado médico e investigador, ex-marido de Mylia Busbeck. Theodor desenvolveu, ao longo dos anos, um estudo que permitisse estabelecer uma relação entre o horror e o tempo. Pretendia encontrar uma fórmula que permitisse não só prever, mas, sobretudo, agir. Ansiava, por essa via, salvar indivíduos que nunca chegaria a conhecer. Finalmente, publicou a investigação que preenchera a sua cabeça ao longo de décadas: cinco grossos volumes de mais de oitocentas páginas cada um. “O terror ainda não terminou”, repetia Theodor, “nos próximos séculos muitas populações serão massacradas”, vêm aí “vários milhões de mortos”, escreveu. Apresentou ainda, no seu estudo, uma tabela onde enunciava os povos que nos próximos séculos seriam alvo de massacres e os povos que seriam responsáveis por massacrar populações indefesas. O estudo não foi bem recebido. Houve até um crítico que o aconselhou a internar-se, seguindo, aliás, o conselho que ele próprio dava aos seus doentes. Só assim, dizia o crítico, recuperaria o bom senso e a boa racionalidade. Na noite do dia 29 de Maio, Theodor, pelas três da manhã,  saiu para a rua à procura de uma prostituta. Ganhara o vício de frequentar aquele tipo de locais. Encontrou Hanna, mulher que o fascinou fisicamente e lhe abriu a porta do quarto da pensão.

Mylia Busbeck foi casada com o médico Theodor. Começou por ser sua doente quando ela tinha apenas dezoito anos. “A nossa filha não tem saúde” foi a primeira frase que Theodor ouviu sobre Mylia. Com o agravar da doença, Theodor decidiu, no oitavo ano em que viviam juntos, internar a esposa no Hospício Georg Rosenberg, o mais conceituado na cidade. Aqui, Mýlia veio a conhecer Ernst Spengler, outro internado. Desta relação, vai nascer um rapaz a quem vai ser dado o nome de Kaas. O rapaz, porém, vai ser adoptado por Theodor, o qual, a seguir, pede o divórcio de Mylia. Mais tarde, os dois saem do hospício, mas vive cada um em sua casa. Na noite de 29 de Maio, Mylia, às quatro da manhã, estava na rua à procura da igreja, que encontra fechada. Sente-se muito mal e telefona a Ernst a pedir ajuda. Quando este atende, Mylia desmaia.

Ernst Spengler, esquizofrénico, fez um filho a Mylia quando ambos estiveram internados no Hospício Georg Rosenberg. Na noite de 29 de Maio, Ernest estava sozinho no seu sótão, já com a janela aberta, preparado para se atirar quando, subitamente, o telefone tocou. Era Mylia a pedir auxílio. Saiu de casa, seriam talvez quatro, cinco da manhã. À medida que corria, gritava alto por Mylia. Mas, não obstante o seu andar desajeitado, chegou ao pé do corpo deitado. Agarrou-se a ele. Era o corpo de Mylia.

Kaas Busbeck é o filho de Mylia e Ernest, mas vive na casa de Theodor que o adoptou e se encarregou da sua educação. A sua perna direita arrastava-se cada vez mais pelo chão. Era a sua parte fraca, juntamente a sua forma de falar enrolada. Na noite de 29 de Maio, Kaas acordou e olhou para o relógio: três e cinquenta. Aproximou-se do quarto do seu pai, mas surpresa: estava vazio. O pai tinha saído. Kaas não gostou, ficou mesmo zangado com o pai. Uma cobardia, pensou. Resolveu ir à cidade à procura do pai. Deambulou pela noite e estava já a abrandar, ainda longe das ruas centrais da cidade, quando com ele se cruzou um homem. Esse homem era Hinnerk.

Hanna, a prostituta, não pintava as pálpebras de cor roxas para ser amada, mas sim para que a solidão de um homem visse ali uma interrupção exuberante. Hanna tinha um amigo, Hinnerk, ex-combatente. Na noite de 29 de Maio, Hanna estava na pensão com mais seis mulheres. “Vou sair”, disse, “São três da manhã, se não chegar até às seis é porque alguém me matou”. E dando uma risada, bateu com a porta. Saiu para passar por casa de Hinnerk, antes de ir procurar um cliente. Não encontrou Hinnerk em casa, mas Theodor veio ao seu encontro, cheio de excitação.

Hinnerk, ex-combatente, guardava para si dois objectos: uma arma e uma sensação constante de medo. “Tem cara de assassino” e “vem aí o homem” era o murmúrio que ouvia com frequência ao passar na rua. Baixava a cabeça para não ouvir. A única mulher que frequentava a sua casa era Hanna. Esta levava-lhe parte do dinheiro que ganhava na prostituição. Na noite de 29 de Maio, passava um pouco das três e meia da manhã quando Hanna tocou à porta de Hinnerk (este nunca lhe passara a chave para a mão). Tocou várias vezes, ninguém atendeu. Hinnerk havia saído, com a sua arma colocada, como sempre, entre as calças e a barriga. Naquela noite, Hinnerk procurava algo e não tinha medo. Avançava já nas imediações da igreja, sob os candeeiros da cidade, quando se cruzou com Kaas. O rapaz de doze anos, deficiente, que procurava o pai, assustou-se com a figura de Hinnerk. Este agarrou-o com força e atirou-o ao chão. Kaas ainda tentou gritar.

Noite de 29 de Maio, quatro e meia da manhã: Hinnerk acaba de sair de uma pequena ruela onde agora esta estendido o corpo de um rapaz, Kaas Busbeck. Hinnerk encontra Ernst que ajuda Mylia que desmaiara junto a uma cabine telefónica. Hinnerk oferece ajuda aos pais do rapazinho que acabara de matar. Com a ajuda, sobretudo, de Hinnerk, Mylia é levada para um banco do jardim. Hinnerk levantou a camisa e tirou a arma das calças que exibiu num tom nada agressivo. Apesar disso, Ernest e Mylia assustaram-se. Mýlia pega na arma, virou-se na direcção de Hinnerk e perguntou: “E se eu disparar?”.Dispare!”, respondeu Hinnerk, divertido. Passado algum tempo, Mylia está fechada na cela de um hopistal-prisão. Ela fora condenada por “assassínio de um indivíduo adulto de nome Hinnerk Obst na noite de 28 de Maio do ano…”. Na mesma noite o seu filho, Kaas, havia sido assassinado de forma violenta. O assassino nunca fora identificado.

Mas, o autor, a final, surpreende-nos: a história da morte de Hinnerk precisa de ser mais bem contada. Voltando um pouco atrás, Mýlia, que havia sido incentivada a disparar, riu-se e baixou a arma. Ernest, a seu lado, pegou nela. Brinque com ela, disse Hinnerk. A conversa prosseguiu, até que, de repente, um estrondo rebenta com a cabeça de Hinnerk. Ernest está com a pistola na mão, a tremer: a bala saiu. “Que fizeste estúpido!”, diz Mylia. Mataste o homem. Mylia grita. Ernst foge o mais rápido possível daquele local. Mylia cala-se, a arma está no chão. Ernst já desapareceu. Mylia fica na mesma posição durante largos minutos até que se dobra e pega na arma. Caminha em direcção à porta da igreja. Ainda é noite, mas uma breve claridade começa, algures, a surgir. O dia parece estar a amanhecer, Mylia sente-se desmaiar, mas resiste. Finalmente, alguém se aproxima, vindo de dentro da igreja. Mýlia tem de falar para quem está dentro da igreja. Ganha forças e grita: “Matei um homem. Deixam-me entrar?” .

Jerusalém apresenta-nos personagens dilaceradas que se cruzam, se entrelaçam, se movimentam, por vezes se amam e, quase sempre, se magoam na noite de uma fria e emblemática cidade, supostamente, alemã.

A personagem do médico Theodor afigura-se-nos a mais complexa de todas. Ele próprio se considera uma espécie de Deus.Sob a capa do altruísmo e da dedicação para com a humanidade, Theodor mal disfarça seus sentimentos mais obscuros. Ele procura sempre separar com clareza os loucos e "doentes da cabeça" dos "homens saudáveis", os normais. Gaba-se da capacidade de "perceber os loucos". Donde, acha que a melhor solução é interná-los. Foi o que fez com a sua mulher.

Esta filosofia de que em mundo insano quem é são é louco remonta à clássica novela de Machado de Assis, O Alienista. Gonçalo M. Tavares não traz em si, porém, o sarcasmo aberto e corrosivo de Machado. Seu humor lembra mais o de Kafka: lúgubre e melancólico. Gonçalo assemelha-se ao autor checo também pela sua prosa lacónica e enxuta.

No final da leitura, restam dois enigmas para mim indecifráveis:
O primeiro, a data de 29 de Maio tem algum significado? A “Noite dos Cristais” é uma data conhecida pelos actos de violência que ocorreram em diversos locais da Alemanha e da Áustria, então sob o domínio nazi, com destruição de sinagogas, de lojas, de habitações e de agressões contra as pessoas identificadas como judias. Mas, isso aconteceu na noite de 9 de Novembro (de 1938);
o segundo, o título do livro. “Jerusalém” porquê?. «Jerusalém» é nome da cidade símbolo da encruzilhada de civilizações e de religiões. Será que o autor nos apresenta essa mítica cidade como símbolo dos caminhos obscuros que a mente humana pode percorrer?

Aqui ficam estes dois enigmas. Pode ser que, algum dia, eu venha a conhecer a resposta.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Lamego


Uma voz amiga faz o favor de me lembrar datas “importantes” da nossa vida militar em comum. Passam hoje 40 anos sobre a minha ida para Lamego, para frequentar o 2º Ciclo do C.O.M.. Os meus camaradas ficaram em Mafra, mas a mim (lá viram que tinha bom corpo para amochar), deram-me guia de marcha para os Rangers, em Lamego.
A minha viagem até Lamego, há quarenta anos, é inesquecível. Nesse longínquo dia 3 de Janeiro de 1971, apanhei um comboio às 7h, 30m com destino à cidade da Guarda, onde era suposto apanhar um autocarro por volta das 15h,30m, para chegar a Lamego às 17h. Este era o plano de viagem estabelecido, em face dos transportes disponíveis ao tempo. Acontece que na noite anterior caiu um grande nevão em toda a zona centro do país. Chegado à Guarda, os autocarros estavam impedidos de circular, donde a solução foi prosseguir a viagem de comboio até à Régua (estação mais próxima de Lamego), com passagem por Coimbra e Porto. Cheguei a Lamego por volta das 22h, pelo que, face ao adiantado da hora, já não me apresentei no quartel. Procurei, eu e mais uns tantos camaradas que haviam passado pelos mesmos contratempos, uma pensão para passar a noite. Já não me lembro da ementa do jantar, mas lembro-me que comi, nessa noite, uns pedacinhos de presunto como nunca comera na minha vida. Hoje, à distância de 40 anos, não sei se o presunto seria assim tão bom. Eu sentia-me o homem mais desgraçado,  mas o sabor dele encheu-me a alma e fez com que houvesse ainda mundo à minha volta...

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Há dois dias, o jornal “Público” trazia a notícia da adaptação cinematográfica, por Luchino Visconti, de dois livros de Fiódor Dostoiévski. Um deles é “Noites Brancas”, escrito em 1848, um ano antes da sua prisão na Sibéria.

Li este livro há já alguns anos. Narra a história de um homem, sem nome, que vagueia pela noite branca (um fenómeno comum na Europa quando o Sol não chega a pôr-se completamente à noite) de São Petersburgo. A sua solidão é preenchida quando se apaixona por Nastrienka, uma mulher que espera por um antigo amor.

O filme existe agora em DVD, o que aguça a minha curiosidade. Por regra, nem sempre um bom livro dá um bom filme. Vamos ver, mas palpita-me que sim.

domingo, 25 de dezembro de 2011

FELIZ NATAL


 Alegrem-se o céu e a terra
cantemos com alegria
já nasceu o Deus Menino
filho da Virgem Maria 

FELIZ NATAL são os votos do AlegriaBreve aos seus (poucos mas bons) leitores.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Aleluia

No momento presente, por incerto e imperfeito que seja, saudamos os sinais do tempo de Deus. Por isso, no Natal cantamos

ALELUIA

A ti
de ti
por ti
para ti
sem ti
ante ti
perante ti
depois de ti
longe de ti
fora de ti
além de ti
contra ti
sobre ti
sob ti

Dentro de ti

Poema de Jorge Sousa Braga

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Um conto de Natal, de Alexandre O´Neill

Há 87 anos, precisamente, nasceu, em Lisboa, Alexandre O´Neill, que foi um importante poeta do movimento surrealista.

Escreveu um curioso conto de Natal a que deu o título

Exercícios de auto-apoucamento (com vista ao próximo Natal)

A ideia de há muito que o andava a desassossegar. Depois dos primeiros ensaios de auto-apoucamento, Valério conseguiu um primeiro grande resultado: meter-se todo, todinho, numa das pernas (por sinal, a esquerda) do par de calças de sarja que comprara nas Confecções Nilo por trezentos convidativos escudos. Com voz-de-dentro-de-calça chamou a mulher:
- Ó Quinhas anda ver!
Quinhas levou um susto ao dar com uma perna de calça sustentando-se em pé sem, aparentemente, homem lá dentro. Logo se refez para fingir que não era capaz de o encontrar:
- Mas onde é que se teria metido meu Lèrinho!
- Aqui, sua estúpida! – desabafou-abafou a voz de Valério.
Quinhas continuava a brincadeirinha apalpando a perna vazia e bichanando:
- Lèrinho, Lèrinho!
Quando Valério, por fim, se libertou da perna da calça e retomou o seu (natural) ascendente, trocaram prazenteiramente insultos como só os casais muito unidos sabem trocar.
Quinhas seguira os exercícios de auto-apoucamento de Valério. Este começara a enovelar-se pelos cantos da casa: passara de seguida aos gavetões da cómoda e acabara por ser encontrado numa das gavetas da mesa da cozinha. Dessa feita, Quinhas gritara. É que Valério saltara lá de dentro e avantajara-se brandindo aos urros um facalhaz.
- Que horror, querido, pareces um cossaco! – dissera Quinhas que, no autocarro dessa manhã, lera nas Selecções um artigo dum biólogo americano sobre cossacos.
E, então, solenemente, como só os casais muito amigos sabem fazer, combinaram logo ali que Valério, por mais apoucado e encafuado que estivesse, não pregaria sustos daqueles à sua Quinhas. E beijocaram-se, prazidos. Os exercícios de auto-apoucamento de Valério tinham um fim: preparar a grande surpresa para o Necas, quando ele viesse a férias pelo Natal. E vai daí – como o tempo corre! – o Necas veio. Valério considerou o filho com apreensão. Valeria a pena a surpresa? Necas estava tão grande! Aquela sombra no beiço, aquela voz do peito pontuada de estridulações…
- Ora, o Necas é ainda tão criança! – sossegou-o Quinhas.
Criança que era, o Necas só muito raramente acordava no meio do sono com as movimentações tardias que naquela casa estavam a ser o teor diário. Mas na véspera do Natal, o silêncio foi inesperadamente tão grande que o Necas passou toda a noite numa excitação que nem te digo. Coisas de crianças, coisas da quadra?
Ao levantar-se, pés nus, para ir ver o sapatinho, o Necas já ia a bordo dos patins que a mãe lhe prometera. Quando deu com o pai, apoucado, a acenar-lhe amigavelmente da amurada do sapato, Necas fugiu a procurar no regaço de Quinhas a verdadeira dimensão do seu horror:
- Sa…Sa…Saiu-me o…o… o pai no sa…sa…sapato! – soluuuuçava o órfão de vivo. E a mãe, ultrapassada pela reacção do Necas, consolava-o como ia podendo, prometendo-lhe que o pai voltaria a crescer, a crescer.

Um poema de Natal

Ladaínha dos Póstumos Natais

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito.


David Mourão-Ferreira,

sábado, 17 de dezembro de 2011

Uma visita do além

O Prémio Pessoa é um prémio português instituído em 1987 pelo jornal Expresso e patrocinado pela Caixa Geral de Depósitos. É concedido anualmente à pessoa ou pessoas, de nacionalidade portuguesa que durante esse período, se tenha distinguido como protagonista na vida científica, artística ou literária.

O ensaísta, professor universitário e filósofo Eduardo Lourenço, de 88 anos, foi 25.º premiado com o Prémio Pessoa. Eduardo Lourenço recebe um diploma e 60 mil euros.

Crítico e ensaísta literário, virado predominantemente para a poesia, aproximou-se da obra de Fernando Pessoa, a propósito da qual deu à estampa o volume Pessoa Revisitado e Fernando Rei da Nossa Baviera.

Receber uma distinção com o nome de Fernando Pessoa “é como receber do além a visita dele”, sublinhou Eduardo Lourenço.

Bem, se receber mesmo essa visita do Pessoa, não será o primeiro. Pessoa já veio do além, nos primeiros meses do ano de 1936, para falar com o seu homónimo Ricardo Reis.

Todavia, meu caro Eduardo Lourenço, tal só aconteceu, como bem sabe, na narrativa magistral de José Saramago, no Ano da Morte de Ricardo Reis. Mas nunca se sabe…

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Uma sugestão no roteiro Pessoano


Igreja dos Mártires, no Chiado, onde Fernando Pessoa foi baptizado no dia 21 de Julho de 1888. O sino da minha aldeia, meu querido Gaspar Simões, é o da Igreja dos Mártires, ali no Chiado. A aldeia em que nasci foi o Largo de São Carlos (Carta a J. Gaspar Simões de 11.12.1931). O sino da minha aldeia é o desta igreja, escreveu o poeta no Cancioneiro:

Ó sino da minha aldeia,
Dolente na tarde calma,
Cada tua badalada
Soa dentro da minha alma.

E é tão lento o teu soar,
Tão como triste da vida,
Que já a primeira pancada
Tem o som de repetida.

Por mais que me tanjas perto
Quando passo, sempre errante,
És para mim como um sonho,
Soas-me na alma distante.

A cada pancada tua,
Vibrante no céu aberto,
Sinto mais longe o passado,
Sinto a saudade mais perto.

A Igreja dos Mártires é uma construção do século XVIII, terminada em 1784. Substitui  antiga Ermida dos Mártires, anterior ao terramoto de 1755. Assinala a conquista da cidade aos mouros. O baixo-relevo do portal da Igreja dos Mártires evoca, justamente, essa conquista. O nome também. Nas imediações existiu outrora um cemitério, onde foram sepultados os soldados mortos no assalto à cidade. Esses soldados, caídos em batalha, ficaram conhecidos como mártires. A fachada principal da igreja ficou como testemunho do início da era cristã de Lisboa, podendo-se ver o fundador de Portugal em agradecimento à Virgem Maria pela graça da vitória. O altar é em mármore e no seu topo pode ver-se uma representação da Santíssima Trindade. O tecto, pintado por Pedro Alexandrino, ostenta também uma notável pintura. No interior, de uma só nave, existem quatro capelas de cada um dos lados e um órgão do século XVIII.
A capela onde Fernando Pessoa foi baptizado, do lado esquerdo de quem entra, possui portão de ferro dourado e uma inscrição assinalando o primeiro baptismo realizado no templo antigo (que este substitui) em 1147.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Um poema de Natal

Natal

Chove. É dia de Natal.
Lá para o Norte é melhor
Há neve que faz mal
E o frio que ainda é pior.

E toda a gente é contente
Porque é dia de o ficar
Chove no Natal presente
Antes isso que nevar.

Pois apesar de ser esse
O Natal da convenção,
Quando o corpo me arrefece
Tenho frio e Natal não.

Deixo sentir a quem a quadra
E o Natal a quem o fez,
Pois se escrevo ainda outra quadra
Fico gelado dos pés.

Fernando Pessoa
´
Curioso o final este poema. Um tom irónico, nada habitual em Fernando Pessoa…

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

A "Nossa Senhora", de José Régio


Nossa Senhora

Tenho ao cimo da escada, de maneira
Que logo, entrando, os olhos me dão nela,
Uma Nossa Senhora de madeira,
Arrancada a um Calvário de Capela.

Põe as mãos com fervor e angústia.
O manto cobre-lhe a testa, os ombros, cai composto;
É uma expressão de febre e espanto;
Quase lhe afeia o fino rosto.

Mãe de Deus, seus olhos enovoados
Olham, chorosos, fixos muito além...
E eu, ao passar, detenho os passos apressados,
Peço-lhe – “ A sua benção, Mãe!”

Sim, fazemo-nos boa companhia
E não me assusta a Sua dor: quase me apraz
O filho dessa Mãe nunca mais morre. Aleluia!
Só isto bastaria a me dar paz.

“-Porque choras, Mulher?” – Docemente a repreendo.
Mas à minh´alma, então, chega de longe a sua voz
Que eu bem entendo: - “Não é por Ele...”
“Eu sei! Teus filhos somos nós!”.

José Régio

sábado, 3 de dezembro de 2011

Pedro Audi Soares


Entrada de leão, saída de sendeiro”, diz o nosso povo. Pedro Mota Soares, ministro da Solidariedade e Segurança Social, do Governo de Portugal, fez a inversa, ou seja, “entrada de mota, saída de Audi A7

Segundo li na nossa Comunicação Social, o Ministro Pedro Mota Soares faz-se transportar num carro de luxo, cujo preço de venda ao público ronda 86 mil euros. Numa altura de cortes nos subsídios de Natal e de férias de funcionários públicos e pensionistas e em que se pedem sacrifícios aos portugueses, o ministro que, em Junho, se apresentou, na tomada de posse do Governo, ao volante de uma vespa, desloca-se agora num carro novo, de alta cilindrada.

Numa época tão difícil como aquela em que vivemos, se o exemplo não vier de cima, jamais um governo conseguirá mobilizar o país para aquilo que precisa de ser feito.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Fernando Pessoa, adivinho

O Parque dos Poetas, em Oeiras, presta uma justa e bonita homenagem aos poetas portugueses. Nesta primeira fase, estão ali expostas 20 esculturas de poetas do Séc. XX.

Um dos poetas homenageados, como não podia deixar de ser, é Fernando Pessoa.

Lamentavelmente, a estátua do poeta encontra-se vandalizada. Nem morto, o poeta deixa de levar porrada.

Até parece que já o adivinhava, quando, escondido na máscara do Álvaro de Campos, escreveu:

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus companheiros têm sido campeões em tudo
….Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenha calado, tenho sido mais ridículo ainda;
….

Álvaro de Campos (excerto de “Poema em Linha Recta”)

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

O Ano da Morte de Fernando Pessoa


Completam-se hoje 76 anos da morte de Fernando Pessoa. Morreu na madrugada do dia 30 de Novembro de 1935, no Hospital de São Luís dos Franceses, em Lisboa, com um “problemazito” hepático. Tantas vezes apanhado “em flagrante delitro”, como ele se confessou à sua amada Ofélia, foi mais uma vítima daqueles que encontram no álcool um lenitivo para as suas dores existenciais.

Morreu aquele de quem Sophia disse um dia «...E és semelhante a um Deus de quatro rostos/ E és semelhante a um Deus de muitos nomes…»

sábado, 26 de novembro de 2011

Fado como Património Imaterial da Humanidade

Ainda este sábado ou amanhã, a UNESCO poderá anunciar o fado como Património Imaterial da Humanidade. Os responsáveis da candidatura estão bastante confiantes. Existe por aí um grande frenesim quanto ao desfecho da candidatura.

Eu, confesso, não me sinto assim tão entusiasmado.

Quando a Amália Rodrigues começou a cantar fados com letras do poeta Luís de Camões, alguns intelectuais (José Gomes Ferreira e José Cardoso Pires, por exemplo) logo gritaram aqui D´El Rei que o maior vate português não pode estar ao serviço do fado.

Pois, eu penso exactamente o contrário. Apenas gosto de fado quando ele assenta num bom poema, para além, necessariamente, da música que tem que ter qualidade.

Amália Rodrigues soube fazê-lo muito bem, em dada altura da sua carreira, como acontece neste fado, criado a partir do poema “Abandono”, de David Mourão-Ferreira.

Espírito do tempo

           Passagem do tempo por um banco do jardim de Massamá

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

A maior dor humana

Camilo Castelo Branco foi um dos maiores escritores portugueses, dos mais fecundos sem dúvida.

Escreveu também poesia, uma faceta pouco conhecida. Temos de reconhecer que foi um poeta porventura medíocre.

Porém, no dia de hoje, estou obrigado a roubar-lhe o título de um soneto que ele escreveu, inspirado pela morte sucessiva dos dois filhos de Teófilo Braga.

A maior dor humana

Que imensas agonias se formaram
sob os olhos de Deus! Sinistra hora
em que o homem surgiu! Que negra aurora,
que amargas condições o escravizaram!

As mãos, que um filho amado amortalharam,
erguidas buscam Deus. A Fé implora...
E o céu, que respondeu? As mãos baixaram
para abraçar a filha morta agora.

Depois um pai em trevas vai sonhando,
e apalpa as sombras deles onde os viu
nascer, florir, morrer! Desastre infando!

Ao teu abismo, pai, não vão confortos...
És coração que a dor empederniu,
sepulcro vivo de dois filhos mortos.


Camilo Castelo Branco

terça-feira, 22 de novembro de 2011

A modernidade de Fialho de Almeida

                (Retrato pintado por Columbano Bordalo Pinheiro)
                                        
Li no jornal “Público” de hoje que está decorrer em Lisboa, de 21 a 25 do corrente mês, no Palácio da Independência, sede da Sociedade Histórica da Independência de Portugal (SHIP), o Colóquio Internacional Portugal no Tempo de Fialho de Almeida.

Pretende chamar a atenção não apenas para um prosador de elevado mérito mas também para um dos mais esquecidos precursores da nossa modernidade.

Fialho de Almeida nasceu em Vila de Frades em 7 de Maio de 1857 e morreu em Cuba em 4 de Março de 1911. Foi jornalista e escritor pós-romântico português.

Realizou os estudos secundários num colégio de Lisboa, entre 1866 e 1871. Empregou-se numa farmácia e formou-se em Medicina entre 1878 e 1885.

No entanto, não seguiu a carreira profissional, tendo-se dedicado ao jornalismo e à literatura. Em 1893, voltou à sua terra natal, onde desposou uma senhora abastada, que faleceu logo no ano seguinte. Tornou-se lavrador em Cuba, mas continuou a publicar artigos para jornais e a escrever vários contos e crónicas. Entre as suas obras mais notáveis, encontram-se os cadernos periódicos Os Gatos, redigidos entre 1889 e 1894, que seguiram a mesma linha crítica d'As Farpas, de Ramalho Ortigão.

Todavia, a obra de Fialho de Almeida tem sido vista como fragmentária e de qualidade desigual, mas esse carácter, um tanto anárquico, é justamente um dos aspectos que levou a primeira geração modernista, sobretudo Fernando Pessoa, a render-lhe homenagem.

Segundo consta do citado artigo, várias das comunicações deste congresso associam justamente Fialho de Almeida a Fernando Pessoa, em particular ao seu semi-heterónimo Bernardo Soares, seu confesso admirador. Muito interessante…

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Um poema ao corpo




Acabo de reler o romance Em Nome da Terra, de Vergílio Ferreira, escrito em 1989.  Releio muito e espanto-me sempre, porque percebo melhor o que leio, sempre de uma maneira diferente, mais clara, mais lúcida. E isso dá-me muito prazer.

Em Nome da Terra é um poema ao corpo. Corpo deformado, envelhecido pelo tempo, corpo belo da juventude, corpo eterno. João, o protagonista viúvo, reformado e carcomido pela idade, recolhe-se a uma casa de repouso para não ser um peso à família e à sociedade. À filha Márcia deixara-lhe tudo: a casa, os móveis, os livros. Consigo levou apenas a memória, um Cristo mutilado, um desenho de Dürer, uma estampa a cores de um fresco de Pompeia associados em tríptico, e um concerto para oboé de Mozart. Os quatro motivos materiais são aquilo que chamamos os símbolos deste romance. É com eles e por eles que João vai tecer analogias relativas ao corpo, à morte, ao esplendor e à beleza. São uma das linhas orientadoras da reflexão do escritor ao longo de toda a narrativa, já que tinha esses objectos no seu quarto do lar e em todas as horas se defrontava com eles.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

José Saramago

Se fosse vivo, o escritor José Saramago completaria, hoje, 89 anos. Para celebrar o aniversário, é feito hoje o lançamento oficial do livro Clarabóia.

«Claraboia é a história de um prédio com seis inquilinos sucessivamente envolvidos num enredo. Acho que o livro não está mal construído. Enfim, é um livro também ingénuo, mas que, tanto quanto me recordo, tem coisas que já têm que ver com o meu modo de ser».  Disse José Saramago.

Comprei o livro há uns dias. Vou a meio, mas dá para ver que estamos perante um livro de início de carreira e como José Saramago progrediu, e de que maneira, na sua forma de escrever.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011


Grandes Livros é uma série documental da RTP-2 que dedicou cada um dos seus 12 episódios a uma obra-prima da literatura nacional e ao seu autor.

A RTP-2 está a repetir essa série e ontem assisti ao episódio dedicado ao romance Mau Tempo no Canal, de Vitorino Nemésio.

Mau Tempo no Canal é um romance publicado em 1949. A acção decorre nas ilhas do Faial, Terceira, Pico e na ilha de São Jorge entre 1917 e 1919 e retrata a sociedade açoriana, mais justamente, a sociedade estratificada da cidade da Horta, local onde decorre a intriga principal e onde Vitorino Nemésio se encontra nesta altura da sua vida.

Mau Tempo no Canal conta, num ritmo lento, uma quantidade de histórias numa só, é uma trama que enreda uma série de sucedidos e cujo ponto de apoio mais evidente é a relação entre dois personagens (pouco apaixonante), entre duas famílias e entre dois estratos sociais.

O ritmo é, na verdade, bastante lento. Vitorino Nemésio excede-se em pormenores acerca da sociedade açoriana e não resiste em mostrar a sua erudição acerca de uma grande variedade de assuntos, estendendo em demasia o romance.

De todo o modo, parece não haver dúvidas que estamos perante uma das principais narrativas em língua portuguesa da primeira metade do Séc. XX, a par de, segundo os críticos, de Húmus, de Raul Brandão, A Confissão de Lúcio, de Mário de Sá-Carneiro e O Jogo da Cabra, de José Régio.

domingo, 13 de novembro de 2011

Um poema de Sophia


MEDITAÇÃO DO DUQUE DE GANDIA
SOBRE A MORTE DE ISABEL DE PORTUGAL


Nunca mais
a tua face será pura limpa e viva,
nem teu andar como onda fugitiva
se poderá nos passos do tempo tecer.
E nunca mais darei ao tempo a minha vida.

Nunca mais servirei senhor que possa morrer.
A luz da tarde mostra-me os destroços
do teu ser. Em breve a podridão
beberá os teus olhos e os teus ossos
tomando a tua mão na sua mão.

Nunca mais amarei quem não possa viver
sempre,
porque eu amei como se fossem eternos
a glória, a luz e o brilho do teu ser,
amei-te em verdade e transparência
e nem sequer me resta a tua ausência,
és um rosto de nojo e negação
e eu fecho os olhos para não te ver.
Nunca mais servirei senhor que possa morrer.

Sophia de Mello Breyner Andresen

sábado, 12 de novembro de 2011

Malabarice, que palavra curiosa!

Há dois dias, liguei a televisão quando estava a transmitir, num dos canais, em directo da Assembleia da República, a discussão do Orçamento para 2012.

De repente, a minha alma exaltou. «Malabarice é filho de malabarismo com aldrabice», disse o bloquista Louçã, que então discursava.

Malabarice, que palavra curiosa!

Percebi, depois, que respondia ao nosso Primeiro-Ministro que antes havia dito “O Orçamento para 2012 não tem malabarices com as cativações como aconteceu no passado".

Eu não sei onde é que o nosso Primeiro-Ministro foi buscar este vocábulo. Será que o nosso Primeiro-Ministro anda a ler Mia Couto? Não vejo outra fonte de inspiração possível. Se foi, está de parabéns.

Mia Couto tem já no panorama da literatura portuguesa um estatuto incontestado que se deve não só à forma como descreve e trata os problemas, mas principalmente à inventiva poética da sua escrita, numa permanente descoberta de novas palavras.

Mia Couto é um mágico da língua, criando, apropriando, recriando, renovando a língua portuguesa.

Mas agora, pelos vistos, Mia Couto tem, quando menos se esperava, um concorrente de peso na recriação da língua portuguesa.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

O Museu do Neo-Realismo em Vila Franca de Xira

Há dois dias, na companhia dos meus amigos do Clube de Leitura Roque Gameiro, visitei o Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira, que está instalado num belo edifício projectado pelo arquitecto Alcino Soutinho.

O Neo-Realismo foi uma corrente artística de meados do século XX, com um carácter ideológico marcadamente de esquerda marxista e este aspecto, ainda que subtilmente, está patente em toda a exposição.
A primeira impressão dos visitantes, logo ao entrar, é a figura tutelar do escritor Alves Redol. O rés-do-chão é exclusivamente dedicado a Alves Redol, sendo o espaço da entrada principal do edifício ocupado, magnanimamente, por uma estátua sua, da autoria do escultor Lagoa Henriques. Nos outros dois andares, a figura deste escritor nunca deixa de estar bem presente.

Alves Redol compreendeu a literatura como forma de intervenção social, sendo um dos seus primeiros romances, Gaibéus, de 1939, considerado um dos textos literários fundadores da narrativa neo-realista. Tal postura valeu-lhe um grande êxito junto de um grande público, mas também, ao mesmo tempo, um ataque da crítica, que apontava como deficiências de escrita a linguagem simples da sua prosa. Acusações que o próprio Alves Redol de certa forma aceitou, vindo a afirmar, nos anos 60, que "Este romance não pretende ficar na literatura como obra de arte. Quer ser, antes de tudo, um documentário humano fixado no Ribatejo. Depois disso, será o que os outros entenderem". Pode-se dizer que a sua obra evoluiu de uma primeira fase mais impulsiva para uma outra caracterizada por um maior amadurecimento de análise e por um maior aperfeiçoamento formal. O romance Barranco dos Cegos, publicado em 1962, é considerada a sua melhor obra.

Por agora, deixo aqui uma pergunta. Será que a obra de Alves Redol se sobreleva assim tanto sobre a dos restantes vultos neo-realistas (Soeiro Pereira Gomes, Manuel da Fonseca, Carlos Oliveira, Mário Dionísio, Joaquim Namorado, Fernando Namora, etc..) justifica o destaque que o Museu lhe outorga?

terça-feira, 8 de novembro de 2011

O poeta do Marão

«O aperfeiçoamento da Humanidade depende do aperfeiçoamento de cada um dos indivíduos que a formam. Enquanto as partes não forem boas, o todo não pode ser bom. Os homens, na sua maioria, são ainda maus e é, por isso, que a sociedade enferma de tantos males. Não foi a sociedade que fez os homens; foram os homens que fizeram a sociedade».
Teixeira de Pascoaes, in "A Saudade e o Saudosismo"

Passam hoje 134 anos sobre o nascimento de Teixeira de Pascoais, poeta e escritor português, representante do Saudosismo.

Passou maior parte da sua vida no solar de família em São João de Gatão, perto de Amarante, com a mãe e outros membros da sua família. Dedicou-se à gestão das propriedades, à incansável contemplação da natureza e da sua amada Serra do Marão.

Em Maio último estive na casa de São João da Gatão, aonde fui como peregrino. A família insiste em manter na sua posse o espólio do poeta, mas eu, depois de ver o que vi, estou longe de pensar que seja a melhor solução. É pena.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

A inspiração dos poetas

Ruy Belo nasceu em 1933, em São João da Ribeira, Rio Maior e morreu em 1978, em Queluz, com apenas 55 anos. Foi poeta e ensaísta.

Apesar do curto período de actividade literária, Ruy Belo tornou-se um dos maiores poetas portugueses da segunda metade do século XX, tendo as suas obras sido reeditadas diversas vezes.

A passagem dos 50 anos sobre a publicação da primeira obra de Ruy Belo, Aquele Grande Rio Eufrates, é assinalada, na Fundação Gulbenkian, em Lisboa, com um colóquio internacional, que decorre hoje e amanhã.

Sobre este evento, a Antena 1 foi ouvir, hoje, a viúva do poeta, Maria Teresa Belo. Conta ela que ambos gostavam muito de nadar na praia e que até tinham o hábito de se afastarem um bocado da costa e que, numa dessas vezes, poeta disse de repente para a mulher:
- Vamos depressa para a praia porque tenho aqui um poema para escrever já.
Ai esta inspiração dos poetas que chega quando menos se espera!

Também uma vez, andando à caça em S. Martinho de Anta, que tanto amava, o Miguel Torga falhou um tiro a uma perdiz. Logo, um companheiro lhe disse:
- Como falhou o tiro, Doutor?
- Estava-se-me a desenrolar um poema - respondeu o Miguel Torga.
Ai esta inspiração dos poetas!

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

O Seminarista

Acabei de ler há dias um romance do escritor brasileiro Rubem Fonseca, O Seminarista. Trata-se de um romance curto, movimentado e, como um filme de Quentin Tarantino, divertido apesar das cenas ultraviolentas.

O personagem principal do romance O Seminarista chama-se José, gosta de árvores, torce pelo Vasco da Gama, considera o vinho a única bebida digna de acompanhar uma refeição, ouve rock, é apaixonado por poesia. Torce pelo Vasco da Gama, equipa carioca associada aos descendentes de portugueses, como ele.

Rubem Fonseca nasceu em 1925, no Brasil, em Juiz de Fora. É formado em Direito, tendo exercido várias actividades antes de se dedicar inteiramente à literatura. Em 2003 venceu o Prémio Camões, o mais prestigiado galardão literário para a Língua Portuguesa.

A cor da liberdade

Passam hoje 92 anos sobre o nascimento de Jorge de Sena, o poeta que não queria morrer sem saber qual a cor da liberdade.

Não hei-de morrer sem saber
Qual a cor da liberdade.
Eu não posso senão ser
Desta terra em que nasci.
Embora ao mundo pertença

E sempre a verdade vença,
Qual será ser livre aqui,
Não hei-de morrer sem saber.
Trocaram tudo em maldade,
É quase um crime viver.

Mas embora escondam tudo
E me queiram cego e mudo,
Não hei-de morrer sem saber
Qual a cor da liberdade.

1974

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Viagem a Portugal

                                          
                            Igreja da Misericórdia de Penamacor

Igreja manuelina provavelmente construída no início do Séc. XVI, onde se destaca a inegável harmonia dos diferentes elementos do portal.

sábado, 29 de outubro de 2011

Vou passar a noite a Sintra...

Vou passar a noite a Sintra por não poder passá-la em Lisboa,
Mas, quando chegar a Sintra, terei pena de não ter ficado em Lisboa.
Sempre esta inquietação sem propósito, sem nexo, sem conseqüência,
Sempre, sempre, sempre,
Esta angústia excessiva do espírito por coisa nenhuma,
Na estrada de Sintra, ou na estrada do sonho, ou na estrada da vida...

Álvaro de Campos, in Ao Volante do Chevrolet (excerto)

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Gaibéus


  






«Do Alto Alentejo e da Beira Baixa, eles descem às lezírias pelas mondas e ceifas. Gaibéus lhes chamam».




O romance Gaibéus, de Alves Redol, foi publicado pela primeira vez em 1939, inaugurando, em Portugal, o movimento neo-realista em Portugal.

O Neo-Realismo foi uma corrente artística de meados do Século XX, com um carácter ideológico marcadamente de esquerda/marxista, assumindo, quer na prosa, quer na poesia, uma dimensão de intervenção social, agudizada pelo pós-guerra e pela sedução dos sistemas socialistas que o clima português de ditadura mitificava.

Como o próprio Alves Redol viria a reconhecer em 1965, Gaibéus «não pretende ficar na literatura como obra de arte. Quer ser, antes de tudo, um documentário humano fixado no Ribatejo». Por mim, não acrescentaria mais nada.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

O capitão Falcão

Entrei em Mafra no dia 7 de Outubro de 1971 para fazer a recruta.  Logo nos primeiros dias, o capitão Falcão, Comandante da Companhia,  perguntou quem queria ir a Fátima nos dias 12 e 13 de Outubro.

Para ficar liberto por dois dias do sepulcro do quartel e para fugir ao calvário das marchas penosas, não hesitei um segundo. Em Fátima, montámos as tendas e foi-nos distribuído um talher completo para o rancho. No dia 14, já no quartel, veio a ordem para os talheres serem entregues até ao meio-dia. Eu, com mais alguns do meu pelotão, apertados pelo rigor do horário militar, não fiz a entrega dos ditos talheres.

Na formatura das 14 horas, depois do almoço, os recrutas em falta foram chamados ao gabinete do Comandante de Companhia. O capitão Falcão vociferou: «Desapareceu, no almoço de hoje, um número de talheres igual àquele que vocês deveriam ter entregado até ao meio-dia e não entregaram». Logo, conclusão de militar, «foram vocês que retiraram os talheres do refeitório para poderem agora fazer a entrega que não fizeram. Bem, para não vos estragar a vida já, vocês pagam o valor dos talheres e o assunto fica resolvido». Os recrutas, trementes de terror,  ripostaram com  a versão correcta dos factos.  O capitão Falcão, vermelho de raiva, fulminou-nos: «Bem, não querem pagar, o assunto vai seguir a sua tramitação e vocês não se livram de uma valente “porrada"». O Piçarra, que era do grupo o mais experimentado, ousou: «Meu capitão, pode dar-me uma “porrada”, mas eu não pago, porque não roubei nada». Os restantes recrutas solidarizaram-se e o Capitão Falcão mandou-nos sair, aos gritos.

Enfim, para início de tropa, uma novela com todos os contornos duma narrativa Kafkaniana.

No final, os talheres, que estavam guardados na caserna, foram entregues. Não houve, nem podia haver, castigo algum. Folha limpa, portanto.

O capitão Falcão teve uma entrada de falcão…e uma saída de sendeiro. Isto aconteceu há, precisamente, 40 anos.

Quando eu nasci...

Neste dia, um agradecimento muito especial a minha mãe, através dos versos do poeta Sebastião da Gama:

Quando eu nasci,
ficou tudo como estava.

Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu,
nem houve Estrelas a mais …
Somente,
Esquecida das dores,
A minha Mãe sorriu e agradeceu.

Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.

As nuvens não se espantaram,
não enlouqueceu ninguém …

Pra que o dia fosse enorme,
bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos de minha Mãe.


Sebastião da Gama, in Serra-Mãe

domingo, 9 de outubro de 2011

Por vezes, sinto até saudades minhas...


Que saudades eu sinto desta flor,
Que vai murchar!
E desta gota de água e de esplendor,
Um pequenino mundo que é só mar.
E desta imagem que por mim passou
Misteriosamente.
E desta folha pálida e tremente
Que tombou...
Da voz do vento que me deixa mudo,
E deste meu espanto de criança.
Que saudades de tudo eu sinto, porque tudo
É feito de lembrança...

Teixeira de Pascoaes, in Versos Pobres (1949)

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Quando eu fui para a tropa

Passam hoje 40 anos que eu entrei na Escola Prática de Infantaria, em Mafra. Iniciei, então, o cumprimento do Serviço Militar Obrigatório, que me levaria, após a recruta ali realizada, até Lamego, Évora, Abrantes, Santa Margarida e, por fim, Angola.

Naquele já longínquo dia 7 de Outubro de 1971,  à chegada deram-me as Boas-Vindas, entregando-me um pequeno papel com o número mecanográfico, onde se podia ler: Seja bem-vindo!

Oh, suprema ironia!

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Moços que parecem homens e nunca foram meninos



Esteiros. Minúsculos canais, como dedos de mão espalmada, abertos na margem do Tejo. Dedos das mãos avaras dos telhais que roubam nateiro às águas e vigores à malta. Mão de lama que só rio afaga.



Li os Esteiros, de Soeiro Pereira Gomes, possivelmente em 1972, numa edição da colecção “Livros de Bolso Europa-América”, não tendo sido por acaso que o editor o escolheu para iniciar uma nova colecção.

Reli-o agora, porque tenciono visitar, brevemente, o Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira.

Esteiros foi publicado em 1941. Integra-se na estética do neo-realismo e retrata o trabalho infantil na vila de Alhandra.

A obra narra a vida de jovens trabalhadores que, nas margens dos esteiros do Rio Tejo, fabricam peças de barro nos telhais.

Gineto, Gaitinhas, Malesso, Maquineta, tantos outros, são os operários-meninos dos telhais à beira dos esteiros do Tejo. Sujeitos à dureza do trabalho quando o conseguem arranjar, vadiam e roubam para comer durante o resto do tempo. Apesar de tudo, sonham.

Esta é história dos rapazitos miseráveis dos esteiros do Tejo.

Este é o romance dos “moços que parecem homens e nunca foram meninos”.

domingo, 25 de setembro de 2011

Os nossos poetas

Ontem, passei pelo Parque dos Poetas, em Oeiras. Já conhecia, mas não havia prestado a devida atenção aos poetas que são ali homenageados. O parque é atravessado pela Alameda dos Poetas, com espaços (chamadas “ilhas”) reservados aos nossos poetas. Nesta primeira fase, estão ali expostas 20 esculturas de poetas do Séc. XX: Teixeira de Pascoaes, Florbela Espanca, José Gomes Ferreira, Miguel Torga, Sophia de Mello Breyner, Natália Correia, Eugénio de Andrade, Fernando Pessoa, Mário de Sá Carneiro, Alexandre O`Neill, Camilo Pessanha, José Régio, Vitorino Nemésio, Jorge de Sena, Carlos Oliveira, Manuel Alegre, David Mourão Ferreira, António Gedeão, Ruy Belo e António Ramos Rosa.

A Câmara Municipal de Oeiras, ao que se sabe, consultou 4 Organismos competentes na matéria para fazer a selecção dos poetas a integrarem esta 1ª fase. A escolha é, para mim, quase consensual. Embora reconhecendo que nunca é fácil uma escolha desta natureza, tenho muita pena que o poeta Sebastião da Gama não faça parte desta galeria. O poeta da Arrábida, como é conhecido, morreu muito novo, aos 27 anos, mas deixou uma obra que se caracteriza por uma elevada singularidade.

Ao que li, o projecto inicial do Parque dos Poetas foi de David Mourão-Ferreira, o qual, tenho a certeza, ficaria muito satisfeito se tivesse agora, perto de si, o seu grande amigo Sebastião da Gama. É pena. David Mourão-Ferreira iria ler, muitas vezes, estou certo, o que escreveu a propósito dos passeios que ambos davam pela Arrábida: «…ora aguardando-nos, à chegada da trôpega camioneta que nos tinha levado até Vila Nogueira de Azeitão, para logo a seguir nos arrastar a pé, serra acima, serra abaixo, por veredas de que só ele detinha o segredo, a fim de melhor nos fazer ver ou rever todos os recantos, todos os encantos da sua Arrábida». É pena...

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Os livros do ano em que eu nasci

No ano em que nasci, o José Saramago escreveu o seu primeiro livro. Era para se chamar A VÍUVA, mas a Editora convenceu-o a mudar o nome para TERRA DO PECADO. Era o ano de 1947.

Por curiosidade, fui ler o livro que já andava na minha estante há alguns anos. Sem grande expectativa, devo confessar.

Como o próprio Saramago diz, o autor era um rapaz de 24 anos, calado, metido consigo, que ganhava a vida nos serviços administrativos dos Hospitais Civis de Lisboa e teve, como primeira estante para livros, uma prateleira interior do guarda-louça familiar.

Na capa do livro refere-se OBRA DE JUVENTUDE. Não se pode pedir muito a quem se inicia nas lides literárias. O livro teve mesmo pouco sucesso, “terminando a pouco lustrosa vida nas padiolas”, como reconhece o próprio Saramago.

O livro que foi escrito no ano em que eu nasci. Curioso, e se me desse ao trabalho de ir à descoberta de outros livros dados à estampa em 1947? Vamos a isso…

domingo, 11 de setembro de 2011

Santo Antero

                         (retrato de Columbano Bordalo Pinheiro, 1889)


No dia 11 de Setembro do ano de 1891 (há 120 anos), morreu o poeta Antero de Quental, a quem Eça chamava o nosso Stº Antero.

Escreveu o soneto "NA MÃO DE DEUS", oração que podia ser dita por um de nós:

Na mão de Deus, na sua mão direita,
Descansou afinal meu coração.
Do palácio encantado da Ilusão
Desci a passo e passo a escada estreita.

Como as flores mortais, com que se enfeita
A ignorância infantil, despojo vão,
Depus do Ideal e da Paixão
A forma transitória e imperfeita.

Como criança, em lôbrega jornada,
Que a mãe leva ao colo agasalhada
E atravessa, sorrindo vagamente,

Selvas, mares, areias do deserto...
Dorme o teu sono, coração liberto,
Dorme na mão de Deus eternamente!

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

José Saramago, o viajante

O fim duma viagem é apenas o começo doutra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre."

A minha relação de amor-ódio com o José Saramago não pára nunca. Nestas férias, li a Viagem a Portugal, livro agora reeditado pela Caminho.  Não é um guia turístico, como ele diz, mas (tenho a certeza) vai ajudar nas minhas (raras) investidas pelo país. O livro é um deleite. Uma agradável surpresa.

Viagem a Portugal é uma colecção de crónicas escritas, em 1981, ao longo da sua viagem por todas regiões de Portugal Continental. Entra nas igrejas e museus, passeia por ruínas e castelos, fala sobre estilos arquitectónicos, conhece azulejistas, pintores, escultores. Ele escreve dando as suas opiniões. Conta incidentes, faz amizades pelo caminho. Esta edição não traz fotos, o que é uma pena, mas sei que existe uma edição com fotografias tiradas por Maurício Abreu, que então acompanhou o Saramago. Tenho agora a certeza que há muito pouca gente em Portugal que tenha entrado em tantas igrejas. Chega a impressionar os quilómetros que ele anda para conhecer uma pequena capela por algum motivo em especial e o número de portas a que tinha de bater para ter a chave da igreja. Para um ateu, como o Saramago, é obra…

domingo, 24 de julho de 2011

A Leste do Paraíso

A RTP2 passou, já nas primeiras horas de hoje, o filme “A Leste do Paraíso”, de Elia Kazan, inspirado no livro, com o mesmo título, de John Steinbeck. É um filme de 1955, considerado um clássico e ganhou, parece, mais que um Óscar. O desempenho de James Dean, no papel de Cal Trask, é colossal. John Steinbeck, que era um escritor místico, aproveitou para nos apresentar uma releitura da história bíblica de Caim (Cal Trask) e de Abel (Aaron Trask).

O filme é feito apenas, como não podia deixar de ser, de uma linha principal, explorando os lados mais ajustados ao registo cinematográfico. Diferenças principais ou aspectos que me surpreendem: a proximidade entre Cal e Abra (namorada do irmão), o que não acontece no livro; imaginei que a Kate (a mãe dos dois irmãos que os abandona ainda muito pequenos), fosse mais bonita; o papel quase apagado do Lee, o “China”;

O final do filme é apresentado de forma bastante diferente, na medida em que Abra toma o papel do Lee. No filme, é Abra que incentiva Adam (o patriarca da família), num último esforço, antes de morrer, a perdoar o filho Cal, a dar-lhe, finalmente, uma palavra de amor, uma atitude que não fosse, como habitualmente, de total desdém, em flagrante contraste com o tratamento dado ao outro filho Aaron.

No livro, o Adam diz apenas a palavra Timshel, antes de fechar os olhos e adormecer para sempre. Contudo, esta palavra é, para Cal, redentora, e basta. Trata-se de uma palavra hebraica, que significa “Tu Podes”. Em termos filosóficos, é talvez, segundo a tese do autor do livro, a palavra mais importante do Mundo. Significa que o caminho está aberto. A responsabilidade incumbe ao homem, pois, se “tu podes”, também é verdade que “tu não podes”. “Tu podes” é algo que engrandece o homem e o eleva ao tamanho dos deuses, porque, apesar de todos os seus erros, é ele (o Homem) ainda quem dispõe da escolha. Pode escolher o caminho, lutar para o percorrer, e vencer. O realizador do filme opta por um final mais ligeiro, retirando, em minha opinião, esta carga filosófica. Assim, Adam, incentivado por Abra, acaba por, finalmente, e por uma única vez na vida, pedir um favor ao filho, que este acata.

Por último, tenho de referir uma cena muito forte, aquela em que o Cal, sempre desprezado pelo pai, quer,  como último recurso, comprar o seu amor. Então, e aproveitando o dia de aniversário do pai, preparou um festa e deu-lhe, de presente, um elevado montante em dinheiro, como forma de o compensar do elevado prejuízo resultante do negócio das alfaces e, no fundo, tentar conquistar o seu amor. O pai reagiu mal e, mais uma vez, arrasou o Cal, na presença do outro filho, que, em contrapartida, foi elogiado. O Cal fica de rastos, destroçado,  levando-o à revolta e, desta vez, à vingança (levou o irmão a conhecer a mãe que era uma prostituta).

Bem, estamos, definitivamente, perante um bom livro e um bom filme, o que raramente acontece…

terça-feira, 19 de julho de 2011

Memorial do Convento

Era uma vez um rei, D. João V, Rei de Portugal, rico e poderoso. Preocupado com a falta de descendentes, promete levantar um convento em Mafra, se tiver filhos da rainha;

Era uma vez Baltasar Sete-Sóis, maneta, chega a Lisboa como pedinte. Conhece Blimunda, ajuda na construção da passarola e morre num auto-de-fé;

Era uma vez Blimunda Sete-Luas, com capacidades de vidente, vê entranhas e vontades nas pessoas, ajuda na construção da passarola, partilha a sua vida com Baltasar;

Era uma vez um padre, Padre Bartolomeu de Gusmão, evita, durante algum tempo, a Inquisição devido à amizade com o Rei. Com a ajuda de Baltasar e de Blimunda, constrói a passarola. Perseguido, de novo, pela Inquisição, foge para Castela, vindo a morrer em Toledo;

Era uma vez um povo, O Povo de Portugal, construiu o convento em Mafra, à custa de muitos sacrifícios e até mesmo algumas mortes;

Era uma vez um livro, Memorial do Convento, que eu acabo de revisitar e que, se Deus quiser (quer o José Saramago queira ou não), ainda hei-de voltar a ler. Há livros assim…

domingo, 17 de julho de 2011

Os livros que eu li

Como anunciado, acabei ler, já há uns dias, o Dom Casmurro, do Machado de Assis.

O livro foi publicado em 1900 e é um dos romance mais conhecidos de Machado de Assis. Narra em primeira pessoa a história de Bentinho que, por circunstâncias várias, se vai fechando em si mesmo e passa a ser conhecido como Dom Casmurro. A história é a seguinte: Órfão de pai, criado com desvelo pela mãe (D. Glória), protegido do mundo pelo círculo doméstico e familiar (tia Justina, tio Cosme, José Dias), Bentinho é destinado à vida sacerdotal, em cumprimento de uma antiga promessa de sua mãe.

A vida do seminário, no entanto, não o atrai. Como tal, inicia o namoro com Capitu, filha dos vizinhos. Apesar de comprometida pela promessa, também D. Glória sofre com a ideia de separar-se do filho único. Por expediente de José Dias, Bentinho abandona o seminário e, em seu lugar, ordena-se um escravo.

Correm os anos e com eles o amor de Bentinho e Capitu. Entre o namoro e o casamento, Bentinho forma-se em Direito e estreita a sua amizade com um ex-colega de seminário, Escobar, que casa com Sancha, amiga de Capitu.

Do casamento de Bentinho e Capitu nasceu Ezequiel. Escobar morre e, durante seu enterro, Bentinho julga estranha a forma pela qual Capitu contempla o cadáver. A partir daí, os ciúmes vão aumentando e precipita-se a crise. À medida que cresce, Ezequiel torna-se cada vez mais parecido com Escobar. Bentinho, muito ciumento, chega a planear o assassinato da esposa e do filho, seguido de suicídio, mas não tem coragem. A tragédia dilui-se na separação do casal.

Capitu viaja com o filho para a Europa, onde morre anos depois. Ezequiel, já adolescente, volta ao Brasil para visitar o pai, que apenas constata a semelhança entre ele e o antigo colega de seminário. Ezequiel volta a viajar e morre no estrangeiro. Bentinho, cada vez mais fechado nas suas dúvidas, passa a ser chamado de casmurro pelos amigos e vizinhos e põe-se a escrever a sua vida (o romance).

Até meio do romance, sucedem-se os estratagemas de Bentinho para não seguir a vida eclesiástica. Eu estava curioso para ver a fórmula final que o autor ia encontrar para fechar este enredo. Por instantes, pensei no António da “Manhã Submersa”, do Vergílio Ferreira. Não, o Machado de Assis não foi por aí. Com pena minha…

terça-feira, 21 de junho de 2011

Machado de Assis

Passam hoje 172 anos que nasceu, no Rio de Janeiro, o escritor Machado de Assis (1839-1908), filho de uma lavadeira açoriana, aquele que veio a ser considerado o grande pioneiro do realismo da literatura brasileira, sobretudo com MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS e DOM CASMURRO.

Machado de Assis fundou e foi o primeiro presidente, eleito por unânimidade, da Academia Brasileira de letras.

DOM CASMURRO vai ser a minha próxima leitura.

Antes, apenas li O ALIENISTA, narrativa em que o autor pretende chamar a atenção para a mentalidade cientificista que marcou o Séc. XIX. Trata-se de uma abordagem satírica e irónica da necessidade de justificar os excessos da ciência como uma condição para os avanços no futuro. Casa Verde, onde decorre a narrativa, acolhe todos os “loucos”, mas, no final, o único “louco” é o médico Simão Bracamarte, a personagem principal.