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segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Uma parte de mim...




Hoje é dia de aniversário do poeta brasileiro Ferreira Gullar, nascido em 1930. Foi agraciado com o Prémio Camões em 2010. É dele o poema “TRADUZIR-SE”:





Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte-
será arte?

Ferreira Gullar

domingo, 9 de setembro de 2012

O limite da tolerância


Como irão reagir os portugueses, após o anúncio do Primeiro-Ministro, de sexta feira, de mais medidas de austeridade? Irão os portugueses conservar a sua revolta na esfera da intimidade ou será, desta, que vão trazer para a praça pública o desespero e a descrença nas medidas que vêm sendo tomadas sem resultados à vista?

Já há cerca de 50 anos, Miguel Torga olhava para o país e escrevia (in Diário IX, Chaves 17 de Setembro de 1961):

«É um fenómeno curioso: o país ergue-se indignado, moureja o dia inteiro indignado, come, bebe e diverte-se indignado, mas não passa disto. Falta-lhe o romantismo cívico da agressão.
Somos, socialmente, uma colectividade pacífica de revoltados».

Apetece dizer que os portugueses continuam pacientes e resignados, pelo que, o mais certo, não vai acontecer nada.

Lá no fundo, somos, como disse Torga, uma colectividade pacífica de revoltados.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Fernando Pessoa, o fingidor


Esta lápide, que está na Boca do Inferno, em Cascais, alude a um episódio da vida do nosso poeta Fernando Pessoa.

Tem duas partes distintas: a primeira (em cima) reproduz o texto de uma carta escrita por um famoso mago e astrólogo britânico Aleister Crowley, para a sua companheira; a segunda (em baixo), é uma nota explicativa, para nos dizer que aquele texto pretendia simular o suicídio do mago, naquele lugar, com a conivência do poeta Fernando Pessoa (pasme-se!) e do jornalista e ocultista Augusto Ferreira Gomes.

É caso para perguntar como é que nosso poeta, tão sossegado (embora desassossegasse os outros), e discreto, se envolveu em situação tão bizarra.

João Gaspar Simões, considerado o primeiro biógrafo do poeta, relata este episódio, com pormenores, em Vida e Obra de Fernando Pessoa.

Fernando Pessoa entendeu manter o ritual da blague com que colaborou no «desaparecimento» do atrevido e louco mago, deixando pairar, sempre, sobre o assunto, mesmo quando interrogado pela Polícia, um manto de mistério, por causa, talvez, do seu culto pelo mágico.

De verdade, sabe-se que Crowley desembarcou no dia 2/9/1930 na Gare de Alcântara e que no dia 25/10/1930 se eclipsou. Como? Não se sabe.

Sabe-se, no entanto, que o ocultista britânico veio acompanhado, nesta sua viagem a Lisboa, por uma jovem alemã, Anni L. Jaeger, muito bonita, que terá impressionado profundamente o nosso poeta, ao ponto de este lhe dedicar o seguinte poema:

Dá a surpresa de ser.
É alta, de um louro escuro.
Faz bem só pensar em ver
Seu corpo meio maduro.

Seus seios altos parecem
(Se ela tivesse deitada)
Dois montinhos que amanhecem
Sem ter que haver madrugada.

E a mão do seu braço branco
Assenta em palmo espalhado
Sobre a saliência do flanco
Do seu relevo tapado. 

Apetece como um barco.
Tem qualquer coisa de gomo.
Meu Deus, quando é que eu embarco?
Ó fome, quando é que eu como ?

Fernando Pessoa, in Cancioneiro


Estamos perante um poema erótico? Há discussão. Por mim, penso que não. Tanto que será impossível a um poeta um poema erótico, sem conhecer o erotismo. A menos que faça da sua poesia um fingimento completo, um fingimento triste, como este. Então, e só então, este poema poderá ser um poema erótico, mas nunca deixando de ser um poema fingido.

Mas, não foi ele que disse? “O poeta é um fingidor / Finge tão completamente /
Que chega a fingir que é dor / A dor que deveras sente”.

terça-feira, 31 de julho de 2012

O maratonista Lázaro


Estão a decorrer, na cidade de Londres, os Jogos Olímpicos 2012. Dentro de dias, irá correr-se a maratona, prova em que Portugal já ganhou uma medalha de ouro, através do nosso grande campeão Carlos Lopes.

Um outro português, Francisco Lázaro, conquistou igualmente nesta prova, a imortalidade, tanto ou mais perene que a alcançada por Carlos Lopes.

Francisco Lázaro fez parte da primeira equipa olímpica portuguesa nos Jogos Olímpicos de 1912, em Estocolmo, na Suécia, onde participou na prova da maratona. Francisco Lázaro desfaleceu durante a prova e veio a morrer poucas horas depois. Tal infeliz desenlace aconteceu no dia 14 de Julho de 1912. Assinalaram-se, portanto, há poucos dias, 100 anos sobre o seu falecimento.

Lázaro, como vem nos dicionários, é sinónimo de “pessoa desastrada”, “pessoa pouco habilidosa”. Terrível presságio. Contrariando colegas da comitiva olímpica, Francisco Lázaro correu a maratona besuntado de sebo, para contrariar, supostamente, a perda de líquidos. Foi fatal. Ao km 29, Lázaro cambaleou, caiu por várias vezes, e por várias vezes se levantou para continuar a prova, até que caiu para não mais se levantar. Com os poros da pele tapados, a transpiração cutânea era impossível. A causa da morte foi uma desidratação irreversível.

A sua aventura conta-se no romance Cemitério de Pianos, do escritor José Luís Peixoto, que recuperou, magnificamente, para as páginas da literatura portuguesa, a corrida louca do maratonista.

A personagem central do romance chama-se Francisco Lázaro. À medida que percorre as ruas de Estocolmo, Lázaro evoca o seu quotidiano na carpintaria (era carpinteiro de uma fábrica de carroçarias de automóveis no Bairro Alto em Lisboa), a vida com a mulher, Marta, os pais, o bairro de Benfica onde treinava. Ao quilómetro 28, “o céu desfaz-se sobre Estocolmo”. Lázaro sente os braços mais leves, “porque deixam de existir”. Cai, mas levanta-se. “As sapatilhas assentam tortas sobre a estrada”. Até que cai, mas já não se levanta.

O romance de José Luís Peixoto é denso, mas, ao mesmo tempo, ágil e envolvente. Já li e recomendo. Um livro rigorosamente a não perder!

sábado, 30 de junho de 2012

Os Livros do Senhor Júlio Dinis

Regras de funcionamento do meu Grupo de Leitura, levaram-me a voltar a ler As Pupilas do Senhor Reitor, do Júlio Dinis. Julgo ter lido este livro por volta dos meus quinze anos, graças às bibliotecas itinerantes da Gulbenkian. Eu era leitor assíduo da carrinha que estacionava no terreiro (agora parque de estacionamento) ao cimo da avenida principal do Fundão, em frente da Câmara.

Digo, desde já, para não haver dúvidas, que não estou nada arrependido de ter revisitado este livro, que Alexandre Herculano considerou «o primeiro romance do século».

Júlio Dinis acabou curso de Medicina em 1861. Veio a morrer precocemente em 1871, apenas com 32 anos de idade, vitimado por tuberculose. Escreveu toda a sua obra, portanto, durante a década de 60. Intensa, quer do ponto de vista literário, quer do ponto de vista político. Parece interessante tentar perceber a opção literária do escritor.

Naquele ano de 1861, Eça de Queirós foi estudar para Coimbra, onde já estava Antero de Quental que, nesse ano, publicou As Odes Modernas. Nesse mesmo ano, morreu D. Pedro V, sucedendo-lhe o irmão D. Luís.

A primeira metade do Século XIX havia sido muito complicada. A fuga da corte real para o Brasil em 1807. As invasões francesas que desencadearam uma guerra violenta, durante sete anos, com efeitos devastadores. A Revolução liberal de 1820. A Guerra Civil de 1828 a 1834. A Revolta Setembrista de 1836. O Massacre do Rossio em 1838. O Golpe de Estado no Porto em 1842, Em 1846, a Maria da Fonte (Abril) e a Patuleia (Outubro). Finalmente, a paz em 1847, com o Acto Constitucional (Adenda à Carta Constitucional).

Inicia-se, então, em Portugal, um período que fica conhecido pela Regeneração e que irá até 1890. Foi um período de acalmia na sociedade. Os partidos guerreavam-se no Parlamento, mas os portugueses deixaram de se matar uns aos outros. Nos anos 60, a juventude republicana concordava que era preciso parar com a luta entre partidos para se cuidar da Economia e da Educação. Mas outros jovens, não menos democratas, citavam Proudhon (socialismo), Comte (positivismo), Darwin (evolucionismo) e Hegel (idealismo) para declararem a Regeneração uma fraude. Antero de Quental, Teófilo Braga, Eça de Queirós, Guerra Junqueiro, Ramalho Ortigão e Oliveira Martins são os principais expoentes das novas ideias, vindas do estrangeiro, e que entraram em confronto com a escola romântica, por vezes até de forma violenta. A discussão irá culminar na Questão Coimbrã, em 1865, e, mais tarde, nas Conferências Democráticas do Casino, em 1871. Estava em marcha um novo movimento literário, o Realismo.

Neste contexto, como entender a opção de Júlio Dinis?
Ortega y Casset disse que «O Homem é o homem e as suas circunstâncias». Embora me pareça uma afirmação por demais evidente, ela aplica-se totalmente ao escritor Júlio Dinis.
Três razões. Primeiro, o escritor nasceu no seio de uma família burguesa; segundo, estudou no Porto e não em Coimbra; terceiro, a doença obrigou-o a uma certa reclusão rural.

Tivesse ele estudado em Coimbra, podia muito bem acontecer que ele fosse contaminado pelas novas ideias, fazendo escola ao lado de Antero e dos restantes companheiros. A vida no campo, por motivo de saúde, em Ovar e na Ilha da Madeira, explicam, também, a opção pelo romance campesino, com as suas personagens tiradas a partir das pessoas com quem conviveu de perto. Preconiza, por isso, o regresso ao campo e à vida simples. Procura uma aliança entre a ciência e a ingenuidade. O que não é fácil. Curiosamente, Eça de Queirós que havia falado de Júlio Dinis, de forma irónica, «J.D. viveu de leve, escreveu de leve, morreu de leve», retomou este tema, em A Cidade e as Serras, ainda que com outra intenção. 

As Pupilas do Senhor Reitor é um romance lançado ao público em formato de folhetim em 1863 e, posteriormente, editado e publicado como livro em 1867.

Até apetece dizer que o primeiro formato de As Pupilas do Senhor Reitor foi uma das inspirações para as telenovelas como as conhecemos hoje. A sua escrita segue uma cuidada e elegante captação de ambientes e retrata, em boa verdade, um certo Portugal social, político e religioso. 

Há uns tempos atrás, a RTP1 passou um documentário com o intelectual Eduardo Lourenço, por altura da atribuição do Prémio Pessoa 2011. Um documentário interessante que dá para ver o humor do Professor, ao contar episódios com muita graça. Um deles foi a propósito do escritor Júlio Dinis. Contou ele: O pai do escritor, intrigado com as leituras do filho, interpelou-o: «Joaquim, que andas tu a ler? Bem, se ainda lesses o Senhor Júlio Dinis, que escreve romances muito bonitos».

quinta-feira, 28 de junho de 2012

A que propósito, José?

Aproveitando a borla existente até final do mês, fui ontem, com os meus amigos do CUTLA (Clube Universitário Tempos Livres da Amadora), à Fundação José Saramago, aberta ao público no passado dia 18, no dia em que passavam 2 anos sobre a morte do escritor.

Está instalada na Casa dos Bicos, edifício que Brás de Albuquerque, filho do vice-rei da Índia Afonso de Albuquerque, mandou construir em 1523, após uma viagem a Itália, e que teve como modelo o Palácio dos Diamantes, em Ferrara. A guia, que nos acompanhou durante a visita, teve oportunidade de, justamente, falar um pouco da história deste edifício que, ao longo do tempo, serviu a distintas funções, tanto privadas como públicas.

É importante saber que o edifício continua propriedade municipal, cedido à Fundação por um período de 10 anos, mediante protocolo assinado em Julho de 2008.

É ainda importante saber que a Fundação se rege, como não podia deixar de ser, por uns Estatutos.

Acontece que, no final da visita, fui assaltado por uma série de dúvidas, porque não vi, no espaço percorrido, nenhuma iniciativa em relação: ao apoio ao surgimento de novos autores de língua portuguesa (cfr. alínea b) dos Estatutos); ao apoio e estímulo a iniciativas e acções culturais em defesa da difusão da Literatura Portuguesa (cfr. al. d) dos Estatutos); a promoção e estímulo a intercâmbios entre as diversas literaturas nacionais que se expressam em português (cfr. al. e) dos Estatutos).

O que eu vi, sem mais, foi a divulgação da obra do escritor José Saramago, por todo o lado. São os livros (em muitas línguas), os objectos pessoais, os diplomas, as medalhas, as distinções e, ainda, o merchandising. Onde estão as outras iniciativas previstas nos Estatutos (novos autores portugueses, acções de defesa de divulgação da literatura portuguesa, promoção e intercâmbio das diversas literaturas nacionais)?. Apenas contesto a presença, em regime de exclusividade, da obra do José Saramago.

Mas há ainda, para terminar, uma coisa perfeitamente incompreensível! O edifício é público, mas o amigo do José Saramago, Vasco Gonçalves, tem um lugar privilegiado no terceiro andar. O escritor reservou um espaço, bem razoável, para ali instalar, definitivamente (não, não se trata de uma exposição temporária), a biblioteca do Vasco Gonçalves. A que propósito, José?

quarta-feira, 13 de junho de 2012

O dia dos meus anos


Se o Fernando Pessoa fosse hoje ainda vivo, era dia de festejar o "dia dos meus anos".


Aniversário


No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas
lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

Fernando Pessoa
(Álvaro de Campos)

terça-feira, 12 de junho de 2012

Amado cão

José Jorge Letria escreveu “Amados Cães”, onde conta histórias de cães famosos. Aliás, famosos eram os donos. São pequenas histórias de cães com história. Respiguei quatro delas que achei curiosas.

Hemingway. O adeus aos cães. Gatos e cães ocuparam um espaço importante na vida do autor de O Velho e o Mar. A Quinta da Vigia, situada a cerca de 20 quilómetros de Havana, acolheu quatro cães e 57 gatos e uma biblioteca de mais de 9 mil livros. Os gatos foram em muito maior número que os cães, mas foram estes que tiveram direito a campa e a lápide funerária. Chamavam-se Negrita, Blackie, Machakos e Black Dog. Um dia, um deles, talvez Negrita, viu-o a limpar e olear uma caçadeira e disse para os companheiros cães e gatos: «Há-de ser com ela que irá escrever o capítulo final da sua vida, e não com lápis ou com máquina de escrever». E assim foi.

Kasbec, o galgo afegão de Picasso, tinha uma grande mágoa e, por isso, resolveu escrever uma carta ao dono. “Se tantas vezes celebraste na tela a grandeza e a beleza dos touros que tantas vezes apreciavas, cobiçando talvez a pujança fálica das suas imponentes e ruidosas cobrições, por que motivo nunca me quiseste dar a honra de ser modelo da tua arte, sendo eu belo e elegante como sempre são os cães da minha raça?».

Viagem com Charley, de John Steinbeck, foi um livro que eu li há  bons anos.  Um dia, Steinbeck decidiu ver a América também através do olhar do seu cão Charley, um Poodle castanho, já com dez anos de idade. O escritor sempre gostou de cães e nunca dispensou a companhia deles. A viagem foi feita numa carrinha baptizada com o nome de Rocinante, o mítico cavalo imaginário de D.Quixote. A relação de afecto entre o dono e o cão parece ter sido absolutamente inexcedível. Dessa aventura, nasceu o livro "Viagens com Charley". Sobre o seu inesquecível companheiro de viagem, escreveu Steinbeck: «Inteligente e bem comportado, Charley é mais do que um mero companheiro de viagem; ele é parte integrante do projecto. O cão ajuda a quebrar o gelo com os estranhos: Charley é o meu embaixador».

José Jorge Letria não fala de Machado de Assis, mas podia falar. Este escritor da língua portuguesa, amplamente considerado como o maior nome da literatura brasileira, viveu um grande amor ao lado da sua mulher, Carolina. Os dois nunca tiveram filhos e dedicaram todo seu amor a uma cadela de nome Graziela. Após a morte de Graziela (outra grande perda para Machado de Assis), tiveram um outro cão a quem deram o nome de Zero.

Não podia deixar de falar, agora, do meu cão. Foi baptizado com o nome de Joyce, sem pensar, confesso, no escritor James Joyce. Desconheço, até, se o escritor irlandês gostava de animais. Sei que escreveu, entre outros, o livro "Ulisses", cuja leitura que eu tentei, mas desisti sempre. Livro difícil. Há poucos dias, o Gonçalo M. Tavares falou dele na Casa Fernando Pessoa, mas eu não pude estar presente. A Joyce, a minha cadela, entrou na nossa casa há doze anos. Era um bebé, com um mês de vida. Entrou na nossa casa num momento muito difícil. Veio com uma missão de grande responsabilidade, mas não teve tempo para pôr em acção todo o seu saber. Mas ficou connosco para sempre. Tem sido uma grande ajuda. Dá-nos tudo, sem reclamar qualquer contrapartida. Agora, é imprescindível nas nossas vidas.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

“O Teu Rosto Será o Último”, revisitado

A leitura do livro “O Teu Rosto Será o Último”, de João Ricardo Pedro, deixou-me, no final, uma sensação um tanto estranha. Donde, a necessidade de revisitar o livro. O intuito, porventura condenado ao falhanço, é tentar descobrir um fio condutor entre as várias personagens e encontrar um fim plausível para as histórias deixadas dependuradas.

A história principal é simples, é a história das três gerações de uma família.

Duarte é o personagem principal da narrativa, que muitos garantiam que ia ser o maior beethoviano do seu tempo. Vivia com os pais em Queluz, melhor (preciso eu) numa freguesia com nome de monte e de um profeta. Um dia, não quis tocar mais, ninguém entendendo porque o fez.

António Mendes, o pai, que acordava todas as noites aos berros, a pensar que está a ser atacado por pretos no meio do mato e engole quarenta comprimidos por dia só para se conseguir lembrar o nome do filho. Um dia, suicida-se com a pistola do seu pai.

Dona Paula, a mãe, que o filho não percebia como é que ela, uma beata, era capaz de torcer pela União Soviética, num jogo de futebol contra a Holanda. Um dia, disse ao marido e ao filho: «Tenho um cancro», encostando a mão ao seio esquerdo. Depois disse ainda: «Vou ser operada na segunda-feira, amanhã dou entrada no hospital» E mais disse: «A despensa está cheia, fiz bacalhau com natas, que está no congelador, e uma panela de sopa».

Augusto Mendes, o avô paterno, médico, que um dia vem do Norte para se instalar numa pequena aldeia com nome de mamífero, encalacrada num sopé da Serra da Gardunha, voltada para sul sem consciência de que estava voltada para sul. Um dia, em que se preparava para ver passar - na aldeia donde até as cobras fogem - a Volta a Portugal em bicicleta, caiu inanimado no chão. Passado algum tempo, não obstante os cuidados da mulher, morreu.

Dona Laura, a avó materna, era a única rapariga da aldeia com a terceira classe. Começou por limpar a casa e o consultório do doutor Augusto Mendes. Até que, um dia, o doutor Augusto Mendes disse, Laura, acho que devíamos casar. Dona Laura, parece, ainda vive na aldeia. Um dia que lá passar, vou perguntar por ela.

Os avós maternos não se sabem os nomes. Estes eram de Lisboa. O avô era do “contra”, participou na campanha do Humberto Delgado. Um dia, depois do jantar, foi levado para o António Maria Cardoso. No dia seguinte, bateram à posta de casa, alguém veio anunciar que ele tinha morrido. A avó morreu atropelada por um eléctrico na Rua do Alecrim, enquanto a filha a esperava, sentada a uma mesa dum café ali perto.


Há, depois, as outras histórias que se cruzam com a história principal, onde orbitam personagens, cujas ligações não são fáceis de entender.

Celestino chega à aldeia que tem nome de mamífero, quarenta anos antes do 25 de Abril de 1974. Neste dia, é assassinado, exactamente à mesma hora que Marcelo Caetano se rende no Largo do Carmo.

Policarpo é o amigo do Dr. Augusto Mendes. É quem lhe vende a casa na aldeia que tem nome de mamífero. Parte para a Europa numa altura em que o professor de Coimbra estava a começar a carreira. Prometeu, e cumpriu, ir remetendo cartas a dar notícias. O avô de Duarte foi sempre lendo ao neto todas as cartas recebidas do seu amigo Policarpo, à excepção a carta de 1975, se calhar, ou talvez por isso, por se encontrar incompleta. Mais tarde, foi viver para Buenos Aires, onde veio a morrer.

Alcino era barbeiro no salão Playboy, onde o Duarte tinha hábito cortar o cabelo. Antes de começar a cortar o cabelo aos clientes, as mãos do Alcino tremiam como varas verdes. Mas Duarte acreditava que o barbeiro Alcino era, provavelmente, o único barbeiro do mundo a proporcionar aos seus clientes a sensação de terem sobrevivido a um desastre. Como certas pinturas que nos comovem, não pelas suas qualidades estéticas, mas por sabermos, de antemão, que foram pintadas por crianças sem braços…

A professora de canto (nome?) tinha umas mamas e um rabo que faziam lembrar certos madrigais de Monteverdi. Um dia, Duarte, ao tocar o Prelúdio BWW 867, em Si bemol menor, caiu sobre o piano. Acudiu-lhe a professora de piano…uma sorte para Duarte.

O médico (nome?), que gostava de Bach, usava, no dedo mindinho, da mão esquerda, um anel de ouro que tinha gravadas, em estilo gótico, as letras H e C. O Duarte saiu do consultório, com uma caterva de exames para fazer. O médico passou todo o fim de semana sem sair de casa. Não recebeu qualquer visita, nem atendeu o telefone.

O professor de piano (nome?), tinha um pai (nome?) que se apaixonou pelas pinturas de Bruegel. O filho conta a história do pai: Um dia, o pai professor, ao entrar na sala do Museu de História de Arte, em Viena, onde se encontrava o quadro de Bruegel, deparou-se com uma mulher que acabara de colocar um a tela ainda em branco. Uns dias depois, assombrou-se: o rosto da mulher pintada era igual ao rosto da pintora, por sua vez igual ao do quadro do Bruegel. Era um autorretrato. A pintora tinha-se encontrado a si própria, já que, como no quadro, tinha uma perna mutilada. Um dia, a mulher da tela desapareceu sem deixar rasto. Na iminência de uma nova Guerra, regressaram a Portugal. O pai morreu e foi enterrado no cemitério de Vila Viçosa.

Numa manhã, o professor de piano, depois de recordar história do pai enquanto fazia a barba, saiu de casa e, na rua, apanhou um táxi: “Queluz, por favor”. Consigo levava um embrulho. O destino foi a casa de Duarte. Em casa só estava a mãe. Explicou-lhe que dentro do embrulho estava um quadro. E contou-lhe a história do quadro. Já muitos anos de o pai ter morrido, o encontrou num quarto de um hotel em Buenos Aires.”Quero dá-lo ao seu filho” e explicou: “Pelos momentos em que o ouvi tocar Mozart, Beethoven, Bach…” e disse ainda “que pena ele ter desistido” E acrescentou: “mas acho que o quadro me deu a resposta para a desistência do seu filho”. O Duarte desistiu precisamente no momento em que estava prestes a tornar-se igual à música que tocava…

Dias mais tarde, ao pendurar o quadro na parede, Duarte reparou: Wien, 3/8/1924 e, ainda, num canto, as iniciais HC. Nesse preciso momento, Duarte lembrou-se de duas coisas: primeira, o anel que o médico que usava no dedo mindinho e que tinha gravado as iniciais HC; segunda, a carta de Policarpo de 1975, que o avô nunca lhe lera e lhe faltavam as últimas folhas.

Artur Monteiro, soldado em África, depois inspector, para quem o pai de Duarte foi a pessoa mais extraordinária que conheceu em toda a vida. Ao ver o quadro, o inspector Monteiro deu-se conta que aquele rosto assustado lhe recordava alguém. Alguém de cujo nome já não se lembrava…Quando chegou a casa, o soldado Monteiro perguntou-se como é que poderíamos esquecer tudo acerca de uma pessoa e, no entanto, lembrarmo-nos do seu rosto até ao ínfimo detalhe.

Na carta de 1975, escrita em Buenos Aires, que lhe faltavam as últimas páginas, Policarpo diz algumas coisas que era suposto ajudar a desenrolar o novelo: a importância que atribui à morte de Celestino; Antes da II Grande Guerra estava em Berlim numa data coincidente com a chegada do Celestino à aldeia que tinha nome de mamífero; anuncia que vai apresentar a explicação para o motivo da fuga de Celestino, assim como da sua morte; fala da aquisição do hotel há 6 anos, que se chamava Robert e que veio mais tarde saber que chamava Joseph; fala ainda do hóspede (a mulher da tela) do quarto 302 que veio a morrer uns anos depois; da surpresa do quadro dependurado na parede onde aparecia uma mulher de lenço azul na cabeça que só tinha uma perna e caminhava com ajuda de duas maletas; a constatação de que o rosto da mulher do quadro era igual ao retrato da hóspede, apesar do tempo decorrido; a antologia, em alemão, de poemas de Camões; a velhota, cidadã aparentemente alemã (a mulher da tela?), tinha noventa anos e chamava-se Clawdia e não Hannah, como inicialmente se pensou; há dois meses (já depois do 25 de Abril), chega a Buenos Aires um português, a perguntar por Joseph Castorp (antigo dono do hotel) e que diz que a razão da sua vida àquela cidade são assuntos relacionados com Beethoven; Afinal, Joseph Castorp chama-se Robert Cussler; Este homem chora ao olhar para o quadro da mulher sem perna; o homem vai depois falar do pai, mas, neste altura, as páginas seguintes (as tais que iam dar a explicação para todos os enigmas) desapareceram.

E agora, leitor?. Desenrasca-te. Tenta tu ligar as pontas deixadas no ar…

Confesso que, de palpável, pouco ou nada se consegue. Apenas uma conclusão, com um algum grau de razoabilidade, mas sem relevância para a decifração da narrativa: O homem, que gostava das pinturas de Bruegel, relaciona-se com a mulher da tela. Esse homem, e o seu filho (que nos conta a história do pai) voltam a Portugal. A mulher da tela vai para Buenos Aires. O filho é o professor de piano de Duarte, que vai a Buenos Aires e traz o quadro para o oferecer ao Duarte. O quadro tinha as iniciais HC (de Hannah e de Clawdia?). E o médico, que gostava de Bach, também está ligado a este núcleo de pessoas. Se não, como explicar as iniciais HC no anel que ele usava no dedo mindinho. O que quer ainda dizer que este anel devia pertencer à mulher da tela. É só. Uma mão cheia de nada.

Permanecem as principais dúvidas (porque morreu Celestino? Porque é que Duarte achava que o Índio viria a ser um grande artista? Porque é que o barbeiro Alcino tremia das mãos? Porque é que o médico conhecia Bach como as suas mãos? Quem era a mulher do museu? Porque é que Duarte deixa de tocar piano? Quem é HC, no anel do médico?).

Mas valerá mesmo a pena tentar ligar os fios do novelo? Há histórias assim. Nem todas histórias têm necessariamente que ter um fim. A nossa vida também é assim, incompleta.

No final, só um enigma eu consegui decifrar. A pequena aldeia com nome de mamífero, encalacrada num sopé da Serra da Gardunha, virada a sul…ORCA.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

De médico e louco....



Machado de Assis, em O Alienista (1882), pretende, sobretudo, chamar a atenção para a mentalidade científica que marcou o Séc. XIX. É uma abordagem satírica e irónica da necessidade de justificar os excessos da ciência como uma condição para os avanços no futuro.




A narrativa de Machado de Assis conduz-nos, de forma hábil, por caminhos em que é muito difícil ao leitor distinguir a linha que separa a razão da loucura, do que é certo do que não é, do que é verdade ou não, de que quem está isento ou não.

É, ainda, uma sátira ao poder. Tanto a razão como a loucura são usados pelo poder, dependendo do interesse. E como o poder é, quase sempre, pouco duradouro, sobretudo quando é alcançado através de manobras demagógicas. E, pior ainda, quando esse poder cai nas mãos de mentecaptos, como o caso do barbeiro do conto, que pouca coisa entende para além da navalha e da barba…

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Carta ao Jornal do Fundão

Caro Fernando Paulouro,

Já fui assinante do Jornal do Fundão, hoje não, do que me penitencio. De todo o modo, graças à gentileza de amigos, tenho lido o jornal, nos últimos tempos. Ainda recentemente, li uma referência elogiosa a um livro que fala da aldeia onde eu nasci. Orca Terra, de Rosa Salvado Mesquita.

Posso dizer, ainda, que, nos últimos dias, andei às voltas com uns recortes do Jornal do Fundão, do ano de 1992! Um muito interessante debate, terçado nas páginas desse jornal, a propósito de um artigo (17/1/92) que o padre António Morão escreveu quando saiu livro “O Evangelho segundo Jesus Cristo”, de José Saramago. Esse artigo teve duas respostas (31/1/92) e o padre Morão replicou (7/2/92). Recuperei esse acalorado debate para documento Word. Não se podia perder. Tenho uma grande admiração pelo padre António Morão. Quando passava férias na terra dos meus avós, foi da boca dele que eu, pobre inculto, com 15 anos, ouvi pela primeira vez falar da existência do PCP e do Álvaro Cunhal. Foi ele que me deu a conhecer a Vida e Morte Severina , de João Cabral de Melo Neto e, ainda, a música de Chico Buarque e o nome de escritores como Jorge Amado.

Bem, mas a razão desta minha missiva, hoje, é outra.

Quero falar do livro que foi mais vendido na última Feira do Livro de Lisboa. Venceu ainda, como se sabe, um dos principais prémios literários em Portugal. Quem sou eu para falar deste livro, reconhecidamente um grande livro, tanto mais tratando-se da primeira experiência literária dum jovem escritor.

Dois pequenos excertos do livro:

«…pequena aldeia com nome de mamífero, encalacrada num sopé da Serra da Gardunha, voltada para sul…» - pág. 12.

“O inspector perguntou-lhe: «Confirma que se deslocou à casa onde vive a sua avô, mãe de seu pai, Laura de Jesus Mendes, situada numa aldeia com nome de mamífero, concelho do Fundão». Duarte respondeu: «Sim.»”– pág. 177.

Não oferece dúvidas de que aldeia fala o autor nesta sua narrativa: ORCA.

E a questão que se coloca é (espero não estar a cometer nenhuma injustiça, caso já o tenham feito): quando é que o Jornal do Fundão nos fala deste livro e do seu autor com raízes familiares no concelho do Fundão?

Tenho a certeza que o padre Morão, lá onde está (rodeado de livros por todo o lado) já leu este romance do João Ricardo Pedro e divertiu-se imenso.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

quinta-feira, 24 de maio de 2012

A velha senhora que receitava poesias

A última revista LER-Livros & Leitores, da Bertrand, traz um artigo de José Eduardo Agualusa que conta a história de uma velha senhora que receitava poesias. 

Encantamentos

No primeiro dia de setembro de 2010 entrei na Livraria da Travessa, no Leblon, no momento em que o poeta Ferreira Gullar apresentava Em alguma parte alguma. As cadeiras estavam todas ocupadas. Havia dezenas de jovens sentados no chão. No momento em que me sentei, uma moça ergueu a mão:

- Para que serve a poesia?

Esta é uma daquelas questões que, cedo ou tarde, todos os poetas enfrentam. A resposta mais frequente, mais filha de imaginação e de verdade, assegura que a poesia não serve para nada. Alguns poetas, em especial os portugueses, acrescentam a seguir que também a vida não serve para nada, etc.
Felizmente, Ferreira Gullar tinha uma boa resposta. Muitos anos antes, exilado no Chile, durante o Governo de Salvador Allende, costumava almoçar, aos sábados, com um grupo de outros expatriados sul-americanos. Ao seu lado, sentava-se habitualmente um economista argentino, namorado de uma bela morena brasileira. O economista não tinha outro assunto que não fosse o da sua especialidade.

Até que um dia a morena o abandonou. No sábado seguinte o economista chegou triste e desmazelado. Sentou-se, e só falou de poesia. «Quando a morena vai embora», concluiu, triunfante, Ferreira Gullar, «a economia não serve para nada. Nenhuma ciência nos ajuda. Só a poesia nos pode salvar». Na origem, a poesia era uma disciplina da magia. Servia para encantar. Continua a ser assim, embora, no sentido literal, poucas pessoas ainda exercitem essa antiquíssima arte. Uma tarde, em Benguela, conheci uma das derradeiras praticantes. Almoçava com amigos, e amigos de amigos, num desses quintalões aniigos, carregados de frutos, e de boa sombra, da cidade das acácias rubras.

A determinada altura escutei um sujeito referir-se a uma tal Dona Aurora:

- A velha receita poesias.

- Recita - corrigi.

O homem, um oficial do exército, encarou-me, irritado:

- Não senhor! Receita! Dona Aurora receita poesias. Resolve problemas de amor, amarrações, mau-olhado, tudo com versinhos.

Fiquei interessado. Anotei o endereço da curandeira num guardanapo e na manhã seguinte bati-lhe à porta. Dona Aurora morava na Restinga, num casarão, em madeira, muito maltratado. A velha senhora, miúda, muito magra, vestia de cor de rosa. Toda a sua força parecia residir na cabeleira, a qual mantinha uma vigorosa rebeldia juvenil. Convidou-me a entrar. Móveis dos anos 50, muito gastos. Estantes carregadas de livros velhos. Aproximei-me. Poesia, e mais poesia: Florbela, Camões, Vinicus, José Régio, Sophia, Drummond, Manuel Bandeira, tudo misturado, num bem-aventurado desrespeito a fronteiras politicas, estéticas e ideológicas. «O meu marido sempre gostou de poesia», justificou-se: «Eu, menos. Foi só depois dele morrer, há 30 anos, que descobri o poder dos versos

Acontecera um pouco por acaso — contou. Uma tarde deu-se conta de que certos sonetos parnasianos (os mais trabalhosos) a ajudavam a vencer a insónia. Mais tarde, que João Cabral de Melo Neto, a partir de «O cão sem plumas», era muito eficaz no combate à cefaleia. Pouco a pouco foi desenvolvendo um método. Combatia a prisão de ventre lendo alto a Sagrada Esperança. Mantinha o quintal livre de ervas daninhas, percorrendo-o, ao crepúsculo, enquanto soprava devagar «O guardador de rebanhos».

Numa cidade pequena não tardou que tais excentricidades lhe trouxessem, primeiro inimigos, e depois devotos seguidores e pacientes. Hoje, ela recebe a todos, ricos e pobres, na sala onde me recebeu a mim. Ouve as suas queixas, levanta-se, percorre as estantes, e regressa com a solução. «Quem me procura mais são mulheres querendo reconquistar o coração dos maridos. Recomendo que lhes murmurem, enquanto dormem, algum Neruda, às vezes Camões, outras Bocage

Dona Aurora não aceita dinheiro pelos serviços prestados. «Não sou eu quem cura», explicou-me, «é a poesia». 

Igreja de Jesus em Setúbal

Hoje, uma ida a Setúbal, não programada, levou-me à Igreja de Jesus, com o convento ao lado, onde está instalado o Museu de Setúbal. Uma visita relâmpago. Estava apertado pelo tempo. Mas a visita ao Museu esteve quase para não acontecer. Difícil dar com ele. Funciona num edifício antigo, com entrada por um portão verde, como quem entra para um quintalejo. Tem 65 anos?. Não. Pois, então tem de pagar €1,50. Atenção, proibido tirar fotografias, mesmo com telemóvel. Muito bem. O Museu, que alberga diferentes núcleos, tem para mostrar, actualmente, apenas a Galeria de Pintura Quinhentista. Painéis que nos contam a vida da Virgem, presumível obra de Jorge Afonso, em que terão participado Cristóvão de Figueiredo e Gregório Lopes. Mas, o que de mais precioso lá se encontra é a Aparição de um Anjo a Santa Clara, Santa Inês e Santa Coleta, do ano de 1517, da autoria de Jorge Afonso. Um conjunto muito interessante para entender a pintura portuguesa de Quinhentos, para quem sabe da matéria...Mereceu atenção especial, ainda, uma cruz processional do século XV, de cristal de rocha e prata dourada, com um Cristo magnificamente modelado.

A Igreja de Jesus passa por ser o mais belo monumento da cidade. Uma igreja de estilo gótico, considerada como um dos primeiros exemplos do estilo manuelino. Foi desenhada, em 1494, pelo arquitecto Diogo Boitaca (o mesmo do Mosteiro dos Jerónimos em Lisboa), por voto de Justa Rodrigues Pereira, ama do rei D. Manuel I. Por fora, uma fachada simples e harmoniosa. Lá dentro, impressionam as colunas torsas feitas em brecha (uma pedra típica da Serra da Arrábida) que sustentam as abóbadas. No tecto nervuras espiraladas. Azulejos levantinos e mudéjares revestem o altar-mor e a cripta. Por último, um destaque para o portal, em brecha, e para o Cruzeiro erguido no largo fronteiro à Igreja.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

O Menino da sua mãe

(Quadro " O Menino da sua mãe" da autoria de Almada Negreiros - Pórtico de entrada da Faculdade de Letras de Lisboa)

O Menino da sua mãe

No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas trespassado-
Duas, de lado a lado-,
Jaz morto, e arrefece.

Raia-lhe a farda o sangue.
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.

Tão jovem! que jovem era!
(Agora que idade tem?)
Filho unico, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
«O menino da sua mãe».

Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lhe a mão. Está inteira
E boa a cigarreira.
Ele é que já não serve.

De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço... deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.

Lá longe, em casa, há a prece:
«Que volte cedo, e bem!»
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto e apodrece,
O menino da sua mãe.


Fernando Pessoa

terça-feira, 22 de maio de 2012

Revista Joaquim

O Prémio Camões 2012 foi concedido, ontem, ao escritor brasileiro Dalton Trevisan, ouvi eu, na televisão, pela boca do nosso Secretário de Estado da Cultura, Francisco José Viegas.

Corri para o google para saber quem era este Dalton Trevisan, brasileiro, para mim, coitado, um ilustre desconhecido.

Dalton Jérson Trevisan, nascido em 1925, é um escritor famoso por seus livros de contos, especialmente O Vampiro de Curitiba (1965).

Parece que o homem é avesso a entrevistas e exposições em órgãos de comunicação social, criando uma atmosfera de mistério em torno de seu nome.

Liderou o grupo literário que publicou, entre 1946 e 1948, a revista Joaquim. O nome, segundo ele, era "uma homenagem a todos os Joaquins do Brasil".

Revista com o nome Joaquim? É mesmo nome de revista? Bem, desconhecia que eu era assim tão importante no Brasil. Por cá, só já nos restaurantes, pequeninos, comidos com arroz de grelos.

Como diria o nosso saudoso Fernando Pessa, e esta hein?  Obrigado, Dalton Trevisan.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Orca mágica e mítica


De repente, a Orca (a aldeia onde eu nasci) explodiu-me em literatura. Primeiro, foi a surpresa do livro O Teu Rosto Será o Último, de João Ricardo Pedro; agora, outro livro surpreendente Orca Terra, de Rosa Salvado Mesquita.

 “Orca mágica e mítica”, diz o Prof. Arnaldo Saraiva, no prefácio ao livro. Rosa Mesquita faz-nos regressar, de forma doce e bela, aos tempos primordiais da nossa infância. Um regresso ao universo da nossa aldeia (a casa dos nossos avós, os trabalhos do campo, as ruas a cheirar a queijo, as burras de tira água, os bolos de leite e o arroz doce, a Festa da Nossa Senhora de Oliveira, o fogo de artifício, o acordeonista Alziro, o Regato, a Intinha, o Olival, a recta do Barbado, a Feira de Setembro, o candeeiro a petróleo, a Fonte da Amoreira, o Gaiguei, a Fadagosa, o padre Morão (que foi lá colocado por falar muito de política), o santoro pelos Santos).

No tempo em que eu passava férias com os meus avós, eu era feliz e ninguém estava morto…

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Dois Amigos

Miguel Torga começou a escrever o seu Diário no dia 3 de Janeiro de 1932. Depois, foi uma longa caminhada diaristica, distribuídos por 16 livrinhos, da Editora Coimbra. Inconfundíveis. O último escrito aconteceu em 10 de Dezembro de 1993.
A morte de Fernando Pessoa, em 30 de Novembro de 1935, não passou despercebida a Miguel Torga. No dia 3 de Dezembro de 1935, Torga escreveu:
«Morreu Fernando Pessoa. Mal acabei de ler a notícia no jornal, fechei a porta do consultório e meti-me pelos montes a cabo. Fui chorar com os pinheiros e com as fragas a morte do nosso maior poeta de hoje, que Portugal viu passar num caixão para a eternidade sem ao menos perguntar quem era».

É verdade. No funeral de Pessoa não estiveram mais que 30 amigos. O génio veio depois. O poeta nasceu depois de ele morrer, porque foi depois de ele morrer que nasceu a apreciação do poeta. Tal como ele dissera de Cesário Verde.

Já conhecia este texto de Torga, há muito tempo. O que eu não sabia era que Pessoa e Torga se relacionaram por carta. Pessoa tem com ele longas e acesas querelas, nas quais o chama sempre pelo seu nome verdadeiro de Adolfo (Correia da) Rocha. Pessoa terá aconselhado Torga em algum pormenor, não tendo este apreciado o gesto e respondido à letra. Em carta de 28/6/1930, dirigida a Gaspar Simões (curiosamente um amigo comum), Pessoa tenta explicar uma daquelas querelas:
«Recebi uma carta do Adolfo Rocha. A carta é de alguém que se ofendeu na quarta dimensão. Não é bem áspera, nem é propriamente insolente, mas intima-me a explicar a minha carta anterior, diz que a minha opinião é a mais desinteressante que ele recebeu a respeito do livro dele, explica, em diversos ângulos obtusos, que os intelectuais são ridículos e que a era dos Mestres já passou. Achei pois melhor não responder. Que diabo responderia? Em primeiro lugar é indecente aceitar intimações em matéria extrajudicial. Em segundo lugar, eu não pretendera entrar num concurso de opiniões interessantes. Em terceiro lugar, eu só poderia responder desdobrando em raciocínios as imagens de que, na minha pressa, o sr. engenheiro Álvaro de Campos se servira em meu nome. Desisti».

Querelas de pequena monta, que não causaram qualquer dano na amizade que se havia estabelecido entre os dois. Torga registou a morte do amigo, reconhecendo ser o nosso maior porta de hoje. Torga teve o mérito de ver o génio de Pessoa muito tempo antes dos outros.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

O Teu Rosto Será o Último, de João Ricardo Pedro


Claro que eu, desde o primeiro segundo, não tive quaisquer dúvidas quanto ao nome da aldeia do concelho do Fundão, com nome de mamífero: ORCA. Nasci nesta aldeia no longínquo ano de 1947.

Li o livro de supetão, que está recheio de referências a locais que eu reconheci. A narrativa oscila entre o meio rural (a pequena aldeia com nome de mamífero) e a cidade (o autor fala em Queluz, mas o que está lá bem retratado é outra freguesia do concelho de Sintra, cujo nome tem o nome de um profeta). Agora é a minha vez de deixar aqui um enigma.

A leitura foi compulsiva, cheguei ao fim exausto. E sem respostas. A narrativa assenta numa história de três gerações. Simples. Porém, o autor, sabiamente, entrecruza a história principal com outras narrativas incompletas (porque morreu Celestino? Porque é que Duarte achava que o Índio viria a ser um grande artista? Porque é que o barbeiro Alcino tremia das mãos? etc...).

Mas a vida é assim mesmo, incompleta. Histórias dentro de histórias, como se fossem muitos livros num só.

O que me intriga é como João Ricardo Pedro, logo no primeiro romance, ousou escrever tão bem, com uma imaginação tão extraordinária. A leitura de "Metamorfose," de Kafka, ainda adolescente, deixou sequelas.

Que grande primeiro romance!!!

Apetece-me dizer como Saramago disse a Gonçalo M.Tavares. João Ricardo Pedro “não tem o direito de escrever tão bem apenas aos 39 anos: dá vontade de lhe bater!

A Hora do Lanche


Li, não há ainda muito tempo, um texto de Eugénio de Andrade, no qual o poeta descreve uma visita que ele fez ao seu confrade Teixeira de Pascoaes, quando este se encontrava já muito doente. Eugénio de Andrade, além de escrever poesia de forma sublime, escreveu prosa igualmente bela.

Agora, veio-me parar às mãos um poema de Manuel António Pina, escrito no contexto de uma elegia dedicada aos cuidados prestados a Eugénio de Andrade no final da sua vida. Um poema triste, mas muito belo.

A Hora do Lanche

Na mão da Ana o iogurte não
iluminava, escurecia,
comunhão ajoelhada
no fundo do coração do dia

imemorial onde, desperto, ele dormia.
O movimento da colher embalava-o
como uma música que quase se ouvia
neste mundo ou como o colo que o adormecia.

A tarde declinava, as sombras,
como sombras, alongavam-se na almofada;
tudo fazia um sentido
literal e simples, onde não pode a poesia.


Se alguma coisa ficara
por dizer já não iria ser dita;
as palavras tinham-se sumido, transidas,
no interior da casa, o próprio silêncio emudecera.

Senhor, permite que adormeçamos
antes que feches a luz e desça
sobre nós a tua escuridão,
que os rebanhos estejam recolhidos
e os credores se tenham afastado da nossa porta,
mas que tenhamos pago as dívidas aos que nos serviram
e aos que nos amaram e aos que nos esperaram;
as tuas grandes mãos sustentarão o telhado e as paredes,
e moerão o grão e fermentarão o trigo,
apaga com as tuas mãos para sempre o rasto
da nossa vida
e que repousemos enfim
sem motivo para nos culparmos
por não termos sido felizes.


Foz do Douro, 26 de Janeiro de 2005
Manuel António Pina