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terça-feira, 9 de outubro de 2012

Ascendência fundanense de Pessoa

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(...) estudar a ascendência pessoana é bem mais do que satisfazer uma curiosidade mundana ou bairrista – é perseguir pistas para o entendimento de um homem e de uma obra que hoje interessa a todo o mundo culto. De resto ninguém se atreverá a negar a importância por Pessoa concedida à hereditariedade, que invocou em diversas ocasiões para melhor se auto-analisar e se auto-definir. E sabe-se como ele próprio se esmerou a pintar o seu trisavô, e como ele próprio evidenciou o conhecimento da sua “ascendência geral – misto de fidalgos e judeus”.
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Hoje parece estar já suficientemente esclarecida a genealogia pessoana pelo lado materno, açoriano, dos “Nogueira” e dos “Pinheiro” – que segundo Gaspar Simões teria dado a Pessoa “o orgulho das fontes, a quietude das origens, a vanglória do passado” e segundo António Quadros lhe teria “transmitido a herança de solitude insulana e de paixão do mar e da viagem”. Mas continua a saber-se muito pouco da ascendência paterna, mau grado as referências frequentes à avó Dionísia, que enlouqueceu, e ao trisavô José António Pereira de Araújo e Sousa, o do brasão, que foi capitão de artilharia no Algarve, e que era neto e bisneto de capitães-mores, de procuradores régios e de juízes feitores.
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Curiosamente nem a avó Dionísia nem o capitão Araújo e Sousa eram “Pessoa”. Mas era “Pessoa” o marido da avó Dionísia, Joaquim António de Araújo Pessoa, que “faleceu no posto de general”, e que, neto pelo lado materno do capitão Araújo e Sousa, pelo lado paterno descendia dos “Pessoa” do Fundão.
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João Gaspar Simões referiu-se na sua Vida e Obra de Fernando Pessoa ao “mais remoto ascendente” (sic) paterno de Pessoa, Sancho Pessoa da Gama, que deu como “tetravô” do poeta, quando na realidade este era “quinto neto” daquele (Gaspar Simões também deu o capitão Araújo e Sousa como “tetravô” de Pessoa, quando era seu trisavô). De acordo com o mesmo Gaspar Simões, Sancho nascera em Montemor-o-Velho, mas mudara--se para o Fundão, onde casou em terceiras núpcias com uma fundanense, de quem teve um filho fundanense; e “cristão-novo que era”, dele “herdara” Fernando Pessoa o “nariz judaico e aquela inquietação de modos e feitio /.../ a que se aliava, aliás, de certo modo, a volubilidade do seu espírito, ou seja, a sua inaptidão a fixar-se fosse ao que fosse”.
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Gaspar Simões não indicou os documentos que usou para estudar a ascendência paterna de Pessoa. Mas Joaquim de Montezuma de Carvalho defendeu num artigo publicado em 1975 no “Comércio do Porto” que ele se fundara inteiramente num documento “arquivado por Pessoa nos seus baús” e que se devia a Mário Saa, investigador, poeta e amigo de Pessoa. Nesse documento, datado de Setembro de 1921, que Montezuma publicou pela primeira vez naquele jornal, e que lhe fora remetido pelo investigador Hubert D. Jennings pode encontrar-se o “processo de génese de Fernando Pessoa” por linha varonil. Por ele se vê que Pessoa era sexto neto de Custódio da Cunha e de Magdalena Pessoa, pais de Sancho Pessoa da Gama, “cristão-novo dos quatro costados, que foi tomado pela Inquisição de Coimbra e condenado em Auto de Fé no ano de 1706”.
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Numa data indeterminada, Sancho Pessoa veio a fixar-se no Fundão, onde em 26 de Setembro de 1697 casou em segundas núpcias com a fundanense e filha de fundanenses Beatriz Rodrigues, e em 20 de Agosto de 1703 casou em terceiras núpcias com a também fundanense e também filha de fundanenses Branca Nunes.
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Deste casamento nasceu, no Fundão, o tetravô de Fernando, Gabriel Tavares Pessoa, que veio a casar com Leocádia Pereira da Silva, natural de Penamacor (como os seus pais, que por certo eram judeus). E dessa união nasceu, em 20 de Janeiro de 1740, também no Fundão, o trisavô do poeta, Gaspar Pessoa e Cunha. O filho deste e de Perpétua Contença, Daniel Pessoa e Cunha – bisavô de Pessoa – já veio a nascer em Serpa, assim como nasceu em Tavira em 1813 o filho deste doutor e da farense Joana Xavier Pereira, Joaquim António de Araújo Pessoa – avô de Pessoa – e assim como nasceu em Lisboa em 28 de Maio de 1850 o filho desse general e de Dionísia Seabra, Joaquim de Seabra Pessoa, o pai do poeta.
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Não foi só no documento publicado por Montezuma de Carvalho que Mário Saa se referiu aos antepassados judeus e fundanenses de Fernando Pessoa. No seu famoso livro A Invasão dos Judeus, acrescenta até outras informações a saber: que Sancho Pessoa deu origem, no Fundão, “aos Pessoa d’Amorim” e “à família do jornalista Alfredo da Cunha”, e que foi “astrólogo, ocultista e psalmista”.
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Estas informações parecem preciosas, sobretudo quando se pensa no interesse que Pessoa sempre demonstrou pelo ocultismo e pela astrologia, e quando se conhece a fortuna de teses levianamente postas a circular por Gaspar Simões: que o pai de Pessoa pertencia a uma “família de militares”, de que no seu gosto pela música e pelas letras era uma excepção – como se o gosto intelectual e artístico de Pessoa lhe viesse quase exclusivamente pelo lado de D. Maria Madalena Pinheiro Nogueira.
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Ora a verdade é que tanto física como psicologicamente é o lado Pessoa que mais se afirma na personalidade do poeta. O próprio Gaspar Simões nota que Pessoa sob quase todos os aspectos “guardava uma inolvidável lembrança física daquele que o gerara”. E Mário Saa foi mais longe ao dizer de Pessoa quando ele ainda era vivo: “nós o vemos fisionomicamente hebreu, com tendências astrológicas e ocultistas, um verdadeiro sacerdote do Talmud, prudente, cauteloso, tímido, dissimulado em intenções, não desmentindo a agitação temerosa que deveria ter presidido àqueles seus antepassados do gheto. /.../ Deste mesmo pavor se ressente todo o seu pensar e literatura. Ele é cheio de pequeninos receios, e ora, pois, de pequeninas ousadias; é tímido, e daí, os arrojos naturais dos tímidos. Lança-se e oculta-se; esconde-se, e prepara novos lances”.
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Estranha ironia – a juntar a tantas que vêm da vida e da obra de Pessoa: se no seu corpo, na sua psique ou na sua produção – como no seu nome literário – se afirmam tão profundamente, tão nitidamente, as marcas dos Pessoas, a família Pessoa foi sempre uma grande ausência na sua vida social. Com o pai mal pôde conviver: a tuberculose separou--os ainda em vida, e ele morreu quando o poeta contava cinco anos. Nesta mesma idade viu Pessoa morrer o seu irmão Jorge, que tinha menos de um ano – pelo que se pode dizer que Pessoa foi filho único não da sua mãe, como o do seu célebre poema, mas do seu pai.
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Ora o pai também já era filho único; e o avô Araújo Pessoa, que não deu tios nem primos ao poeta, talvez nem se tenha cruzado com este (Pessoa ainda conviveu, isso sim, com a mulher dele, que faleceu em 1907 e que, curiosamente, foi acompanhada na sua doença não pelos Pessoa ou pelos Seabra mas pelos parentes de D. Maria Madalena Pinheiro Nogueira, a mãe do poeta). Acresce que os parentes vivos de Pessoa pelo lado paterno não eram só parentes afastados: eram parentes que na sua quase totalidade viveriam afastados de Lisboa. E acresce que Pessoa partiu para a África do Sul logo aos oito anos. Quando em 1901/1902 veio passar férias a Portugal sabemos que visitou os parentes dos Açores, mas não parece ter visitado os parentes continentais de linha varonil. E regressado a Lisboa em 1906 nunca se decidiu a ir visitá-los ou conhecê-los em Tavira (e no Fundão), tornando inúteis os apelos que nesse sentido lhe fazia a mãe.
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Curiosamente, a “mãe” esteve sempre presente na vida e na obra de Pessoa: ela comparece até na primeira quadra que ele compôs e num dos últimos poemas que escreveu, por sinal numa língua não materna, o francês. Mas o pai, ausente da cena de Pessoa, nome que evoca ausências (máscara, “personne”), e em que ecoa o qualificativo “só”, é também uma ausência da sua obra, marcada exactamente por ela tanto no plano literal como no plano simbólico. Se o corpo e a psique de Pessoa remetiam tão directamente para os Pessoa ausentes, também a sua obra torna a cada instante essa ausência presente. E nem é necessário lembrar o que já outros disseram: que é decerto a falta do pai (ou dos Pessoa) que determina o aparecimento da família heteronímica, da companhia heteronímica.
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Um dia falaremos das minas de volfrâmio que Pessoa pensou comprar e explorar. Mas, depois de tudo o que dissemos, quem duvidará da riqueza que ele soube tirar da mina herdada, funda, do Fundão?
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(Arnaldo Saraiva, Jornal do Fundão, 16.Dezembro.2005)

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Sopa de Letras com Literatura

Eça de Queirós (1845-1900) é um dos mais importantes escritores lusitanos. Foi autor de uma vasta obra, destacando-se, sobre todos os romances que escreveu, Os Maias. É considerado por muitos o melhor escritor realista português do Século XIX.

26 Personagens da sua obra estão neste quadro.
As 8 letras sobrantes formam o nome de um dos seus contos.
Qual é?

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sábado, 6 de outubro de 2012

Um País virado do avesso...


No dia em que parece que tudo ficou de pernas para o ar, fui às páginas do Eça para ver como ele, há muito mais de um século, olhava para o País.

(…) O País perdeu a inteligência e a consciência moral. Os costumes estão dissolvidos e os caracteres corrompidos. A prática da vida tem por única direcção a conveniência. Não há princípio que não seja desmentido, nem instituição que não seja escarnecida. Ninguém se respeita. Não existe nenhuma solidariedade entre os cidadãos. Já se não crê na honestidade dos homens públicos. A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia. O povo está na miséria. Os serviços públicos vão abandonados a uma rotina dormente. O desprezo pelas ideias aumenta em cada dia. Vivemos todos ao acaso. Perfeita, absoluta indiferença de cima a baixo! Todo o viver espiritual, intelectual, parado. O tédio invadiu as almas. A mocidade arrasta-se, envelhecida, das mesas das secretarias para as mesas dos cafés. A ruína económica cresce, cresce, cresce... O comércio definha, A indústria enfraquece. O salário diminui. A renda diminui. O Estado é considerado na sua acção fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo. (…)

Eça de Queirós, in Uma Campanha Alegre (1890-1891)

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

José Hermano Saraiva

Se fosse vivo, o Prof. José Hermano Saraiva faria hoje 93 anos. É uma figura controversa.

Foi deputado entre 1957 e 1961, procurador à Câmara Corporativa e Ministro da Educação. A sua passagem pelo Governo do Prof. Marcelo Caetano ficou muito marcada pela Crise Académica de 1969.

Em tempo de Democracia, José Hermano Saraiva tornou-se numa figura apreciada em Portugal, pelos seus inúmeros programas televisivos sobre História de Portugal. Por esse mesmo motivo, tornou-se igualmente numa figura polémica, porque a sua visão da História tem sido, por vezes, questionada pelo meio académico.

Devo confessar aqui uma coisa. Só recentemente, que disponho agora de mais tempo, tenho tido oportunidade de ver muitos dos programas do Prof. José Hermano Saraiva, que passam agora na RTP Memória. Antes, eu, como penso a generalidade das pessoas, achava tão só um dos grandes comunicadores da Televisão.

Convém lembrar que o saudoso e implacável Mário Castrim, crítico televisivo no Diário de Lisboa, fazia, amiúde, referências elogiosas que constituíam à época uma espécie de salvo conduto que quase permitia a José Hermano Saraiva apresentar-se ao público sem a “mancha” do seu passado recente.

Pessoalmente, mudei de opinião ao ver José Hermano Saraiva tomar partido pelo povo no relato, por exemplo, das crises de 1245 e de 1383. A crise de 1245 não tem nenhum cronista de renome para a contar. Ao contrário, é conhecida a extraordinária descrição da Revolução de 1383-85 que consta da Crónica de El- Rei D. João I, de Fernão Lopes. Pois, José Hermano Saraiva juntou à empolgante narrativa do cronista Fernão Lopes um grande dramatismo que não era espectável. Aliás, José Hermano Saraiva não se cansa nunca, nos seus relatos, de enfatizar a tensão permanente entre as classes dominantes e o povo, tomando partido pelo último.

José Hermano Saraiva foi um homem que merece, por isso, o nosso respeito por maior que possa ser a discordância ideológica.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Pessoa brincou com a posteridade?

A Revista LER Livros & Leitores, de Setembro 2012, traz uma entrevista com o colombiano Jerónimo Pizarro, radicado em Portugal há cerca de 10 anos. Já é hoje considerado um dos mais notáveis investigadores pessoanos. Na dita entrevista, o investigador dá-nos uma perspectiva rigorosa sobre a real dimensão do espólio do poeta dos heterónimos, depois de décadas de trocas de opiniões e argumentos entre os pessoanos. E faz isso sempre a partir dos originais de Fernando Pessoa. O poeta só deixou organizado um livro: Mensagem. E uma arca com 30.000 papéis. A maior parte é prosa.

«Pessoa morreu em 1935, nós estamos em 2012. Não há qualquer coisa de incompreensível nisso», pergunta o entrevistador.

«Pois. Essa é a perplexidade que tive quando vivi a minha epifania. A minha relação com Pessoa começou em 2003 quando encontro um espólio trilingue amplamente inédito. Para mim, há quase uma década que é praticamente incompreensível termos tanto material por tratar e termos consciência, mesmo que seja uma consciência de poucas pessoas, de ainda termos trabalho para 40 ou 50 anos, ou muito mais». Responde o entrevistado.

Leram bem?. Trabalho para 40 ou 50 anos, ou muito mais!!!  

Para mim, o drama é que vou morrer sem, à data, se conhecer toda a obra do autor da Mensagem.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Caim segundo José Saramago

Por razões de agenda do meu Grupo de Leitura, revisitei o livro “Caim”, do José Saramago, que eu havia lido em Outubro de 2010, aquando da sua publicação.

Para já, deixo aqui um resumo dos 13 capítulos e voltarei a falar dele, após a discussão a realizar brevemente no seio do Grupo de Leitura.

Capitulo 1. Jardim do Éden. Adão e Eva. O pecado original. Expulsão de Adão e Eva do jardim do éden (Gn.3) Fora do jardim, a terra era árida e inóspita. Filhos: Caim, primeiro, Abel, depois. Set, o terceiro filho, só virá ao mundo 130 anos depois. Caim foi lavrador, Abel pastor (Gn 4).

Capítulo 2. Adão e Eva estão agora fora do paraíso. A primeira casa é uma caverna. Eva tenta entrar no Éden, para buscar comida. O anjo Azael simpatiza com Eva e dá-lhe comida. Adão e Eva encontram uma caravana, na qual se integram.

Capítulo 3. Adão e Eva, integrados na caravana, iniciam-se no cultivo da terra. A distribuição da mão-de-obra doméstica era harmoniosa, até ao dia das oferendas a Deus. Abel ofereceu um cordeiro, Caim produtos da terra. Deus aceitou a oferenda de Caim, mas rejeitou a de Abel. Despeitado, Caim mata Abel com golpes de uma queixada de jumento. Que fizeste com teu irmão Abel? Perguntou o Senhor. Pagarás pelo que fizeste, Andarás errante e perdido. Porei um sinal na tua testa, ninguém te fará mal. Este é o sinal da tua condenação (Gn.4).

Capítulo 4. Caim inicia a sua viagem errática pelo mundo. Encontra um velho que leva duas ovelhas atadas por um baraço. Chega à região de Nod. Arranja emprego como pisador de barro. A senhora desta terra é Lilith, que é casada com Noah. Caim é conduzido ao palácio. Lilith seduz Caim.

Capítulo 5. Caim passa os dias na cama de Litlth, insaciável. Noah projecta matá-los, por vingança. Num passeio, Caim é atacado. No instante do ataque, a arma transforma-se em cobra. Lilith quer que Caim mate Noah, mas recusa. Lilith fica grávida. São mortos os potenciais (frustrados) assassinos de Caim. Lilith e Caim dormem juntos pela última vez.

Capítulo 6. Caim deixa o palácio de LIlith. Encontrará Caim, de novo, o velho com as duas ovelhas? Quem é esta personagem? Interroga-se Caim, em cima do seu jumento. Caim encontra agora uma paisagem cheia de árvores e água, bem diferente da árida Terra de Nod. Sacrifício de Isaac (Gn 22). Caim que segura o braço de Abraão quando este se preparava para imolar o filho. Um Senhor tão cruel como Baal, que devora os filhos? Prosseguindo a sua viagem errática, Caim avista ao longe uma torre altíssima com a forma de um cone. Torre de Babel (Gn 11). O objecto daquela gente era construir uma torre que chegasse ao céu. Para que? Ficarem famosos, respondeu um deles. Porém, a construção estava parada. Porquê? O Senhor não gostou. Trocou todas as línguas e eles deixaram de se entender. E assim a obra não vai avante. A torre veio desmoronar-se como um castelo de cartas, após um sopro do Senhor. O Senhor é egoísta ao ponto de fazer desaparecer a torre? “A história dos homens é a história dos seus desentendimentos com Deus, nem ele nos entende, nem nós o entendemos a ele”.

Capítulo 7. Caim reencontra Abraão. Ele tem o condão de viajar no tempo (ir ao futuro e ao passado). Neste tempo, Abraão só tem ainda um filho, de nome Ismael, gerado pela escrava Agar. Um dos convidados para a tenda de Abraão comunica a este que para que vem a sua mulher Sara, não obstante a sua idade avançada, terá um filho. E teve, e chamar-se o já nosso conhecido Isaac (Gn. 18). Prosseguindo a sua viagem errática. Caim assiste ao diálogo entre Deus e Abraão. Este pede ao Senhor para poupar as cidades de Sodoma e Gomorra (Gn. 19) à destruição, que tinham caído em pecado. O leilão terminou nos 10 justos. Abraão voltou para a sua tenda, mas volta à cidade para se encontrar com o seu sobrinho Lot. Na manhã do dia seguinte, aconselham Lot a levar dali para fora a sua mulher e as duas filhas, para não serem apanhadas pelo castigo da cidade. Porém, Lot pediu para ficar numa aldeia perto, chamada Zoar, em vez de irem para a montanha. Foram autorizados a fazê-lo, mas com a condição de não olharem para trás. Então, caiu enxofre e fogo sobre Sodoma e sobre Gomorra, só restando cinzas e corpos carbonizados. Na retirada da família de Lot, a mulher deste olhou para trás, desobedecendo à ordem recebida, ficou transformada numa estátua de sal. E as crianças Senhor?

Capítulo 8. Caim caminha agora no deserto do Sinai. Encontra um acampamento no sopé de uma montanha. Moisés, que comandava o êxodo, ausentou-se durante 40 dias e 40 noites para falar com o Senhor. O irmão, Aarão, que no Egipto havia sido nomeado sumo sacerdote, aproveitando a ausência do irmão, acedeu ao pedido dos companheiros de caminhada, para lhes apresentar um Deus na figura de um bezerro de ouro (Ex 32 ). Josué, chefe militar dos israelitas, e ajudante de Moisés, esperou este à entrada do acampamento, alertando-o para o alarido existente acampamento. Regressado ao acampamento, Moisés destruiu o bezerro, reduzindo-o a pó. De seguida, Moisés “convidou” aqueles que eram pelo Senhor a vingarem os que haviam prevaricado. Morreram 3.000 homens, uma grande sangria. Profunda maldade do Senhor ?!. Em mais uma mudança de presente, Caim presencia agora a história de Lot e as Filhas (Gn 20). Lot, após se ter refugiado em Zoar, entendeu estar melhor defendido nas grutas da montanha. As filhas, na falta de homens para assegurar a continuidade da raça humana, acharam por bem ficar grávidas do próprio pai. E assim fizeram e tiveram descendência. Crescei e multiplicai-vos. E o Senhor o que diz? E Caim pode confirmar a multiplicação que logo aconteceu. Eram precisos mais humanos, mais combatentes para a guerra. É o que Caim, depois, assiste à guerra entre Israelitas e os medianitas (Nm 31). À primeira, caso raro, os Israelitas perderam, mas o Senhor logo tratou de mudar o rumo dos acontecimentos. Instruiu Josué com que devia fazer. O resultado final foi uma vitória dos Israelitas e os despojos foram enormes. E foi feita a divisão, cabendo uma boa parte ao Senhor. O que comprova que a guerra é um negócio.

Capítulo 9. Caim chega à cidade de Jericó, ao tempo que se prepara o assalto pelo exército de Josué. Ao sétimo dia, concretiza-se a tomada da cidade de Jericó (Js 6), com êxito. Há muitos mortos, de humanos e animais. Josué marchou sobre a cidade de Ai, mas é derrotado (Js 7). Perde 36 soldados. Fica muito zangado com o Senhor e interpela-o, que farás tu para defender o nosso prestígio. O Senhor, pedagogicamente, explicou que a derrota foi castigo por os Israelitas se terem apoderado de coisas que se destinavam a ser destruídas. Josué vai então investigar o que se passou e chega a Acan, o responsável pelo desvio de tais coisas. Confirmado o crime, Josué castiga Acan (Js 7). Sepultado sobre um monte de pedras, fica conhecido por Vale de Acor. Assim, se acalmou a ira do Senhor. De seguida, Josué junta 30.000 homens e delineia a Emboscada contra Ai (Js 8). Josué sai vencedor. O rei de Ai é enforcado numa árvore. Não houve um só sobrevivente. Foi esta a última vitória de Caim. Deixa o exército de Josué. O exército deste prossegue a tomada de várias cidades. Caim não assistiu, porém, ao maior prestígio de todos os tempos, a paragem do sol (Js 10, 12-15). Para que pudesse vencer, ainda com a luz do dia, a batalha contra os cinco reis amorreus, Josué pediu ao Senhor que detivesse o sol e ele assim fez. Os amorreus foram vencidos, porque, durante quase um dia inteiro, o sol esteve imóvel, ali no meio do céu.

Capitulo 10. Caim continua a sua viagem errática pelo mundo. Foi agricultor e pisador de barro, agora é rastraedor. Volta a encontra o velho com as mesmas ovelhas atadas por um baraço. Retorna à cidade onde vive Lilith, que tinha ficado grávida. Caim tem assim oportunidade de ver o filho entretanto nascido. Deve ter 9 ou 10 anos. Chama-se Enoch. Caim volta para a cama de Lilith. Conta o que viu (embora se trate de acontecimentos futuros). Caim interroga-se se alguma vez irá ser dono da sua pessoa. Passadas duas semanas, deixa a cidade e parte. Sem jumento, desta vez.

Capítulo 11. Caim chega a terra de Us, terra de Job (Jb 1, 1-9). Este era um homem imensamente rico. Para além disso, era um homem justo, como não há outro no mundo. O Senhor, desfiado por Satã, vai pô-lo à prova. São-lhe retirados todos os bens. Vai ser posto à prova. Caim vê nisso um jogo de apostas entre o Senhor e Satã, o que é inadmissível. Não obstante, os anjos, que o aguardavam à entrada da cidade, ajudaram-no a arranjar emprego na casa de Job. Num instante, Job é despojado de todos os seus bens. Ele e a sua família ficaram sem nada. E para aumento de prova, ficou cheio de chagas, da cabeça aos pés. Job tudo aceita resignado. Caim, que havia conseguido um emprego a cuidar de burros, pensou que melhor seria encontrar trabalho noutro local. Para o efeito, compra um burro ao seu dono. Antes de partir, foi ainda ver o seu dono, Job, que continua sentado no chão, à porta de casa, raspando as feridas das pernas com um caco de barro. Caim parte, deixando, sem despedir, Job em grande miséria e leproso.

Capítulo 12. Caim caminha agora por uma terra verdejante. Até parecia o jardim do Éden de saudosa memória. Avista, entretanto, uma construção de madeira, que se assemelhava muito a um barco. Caim estava, tão só, perante a Arca de Noé (Gn 6). Noé está acompanhado de 4 fortes homens e pela sua família. O Senhor manifesta-se e entra em diálogo com Caim. Dá notícia da cura de Job, assim como da restituição dos bens (Js 42-IX). Senhor dá ordem a Noé para levar Caim na arca. Mais um homem para fazer filhos. Para quê a arca? A terra está corrompida e cheia de violência. Noé é escolhido para iniciar uma nova humanidade. Dilúvio purificante. Caim ajudava. Já havia dormido com duas das noras de Noé e preparava-se para dormir com a terceira. A arca levantará ferro no dia seguinte.

Capítulo 13. A arca é levada para o mar, provocando um tsunami. Agora voga à toa. Passados sete dias, irão abrir as comportas do céu. Irá chover durante 40 dias e quarenta noites. Só ao fim de 150 dias as águas começaram a baixar. A mulher de Cam morreu num acidente. Caim vai para a cama com a mulher de Noé. Há que procriar sem quaisquer limites. A ordem vem de Noé. Caim elimina um a um os seus companheiros de viagem. A vítima seguinte é a própria mulher de Noé. A forma é sempre a mesma: são atirados ao mar. O nível do mar continua a baixar. Sem e a mulher caíram ao mar no mesmo dia, assim como a viúva de jafet. Sem mulher, Noé desanima e deixa-se cair ao mar. No dia seguinte, a arca toca terra. O Senhor chama por Noé, mas ninguém responde. Silêncio. De dentro da Arca, apenas sai Caim e os animais. O Senhor pergunta-lhe pelos outros. Menos Noé, que se afogou, por sua livre vontade, aos outros matei-os eu, disse Caim. Não haverá nova humanidade. Recriminações recíprocas. Agora podes matar-me, disse Caim. Não posso, diz o Senhor. Morrerás de morte natural. As aves virão devorar-te a carne. Sim, depois de me terem devorado o espírito. Não se ouviu mais nada. Mas, provavelmente, terão argumentado mais vezes, a única coisa certa que se sabe é que continuaram a discutir e que a discutir estão ainda.


Entre parênteses, estão indicados, por abreviaturas, os livros do Antigo Testamento onde se relatam os episódios bíblicos referidos na narrativa.

sábado, 22 de setembro de 2012

O esplendor do Outono

 O equinócio do Outono de 2012 ocorre este Sábado, 22 de Setembro, às 15h30m. A estação prolonga-se durante 90 dias, até 21 de Dezembro, às 11h12m.

O equinócio é o instante em que o Sol, no seu movimento anual aparente, corta o equador celeste. A palavra de origem latina significa “noite igual ao dia”, pois, nestas datas, dia e noite têm igual duração.

Bem-vindo Outono, para viver e ser vivido.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Um acusador arrependido

Passam hoje 162 anos sobre o nascimento de Guerra Junqueiro. O poeta nasceu em Freixo de Espada à Cinta no dia 17 de Setembro de 1850. Foi alto funcionário administrativo, politico, deputado, jornalista, escritor e poeta. A sua poesia ajudou a criar o ambiente revolucionário que conduziu à implantação da República. Assustou padres, bispos, reis e barões.

Junqueiro tinha o gosto de "matar".  Começou com o homicídio de D. João, em A Morte de D. João (1874), passou depois ao deicídio de Jeová, em A Velhice do Padre Eterno (1885), finalizou no parricídio de Portugal e no regícídio de D. Carlos, em Pátria (1896).

Em 1890, publicou publicou A Marcha do Ódio e Finis Patriae. Com um poema de trinta versos - O Caçador Simão - Junqueiro  incendiou o coração dos republicanos.

Foi já do alto das fragas ásperas do Douro que, severo como um profeta antigo, vociferou este trovão: "Eu odeio o Sr. D. Carlos, não com ódio sangrento, com ódio de orgulho e de vingança. O meu ódio é bom; conforta-me e consola-me. Odeio o rei, porque amo a Verdade e a minha Pátria".

Conta, também, o filosofo espanhol Miguel Unamumo, em Portugal País de Suicidas, que encontrando-se Guerra Junqueiro em Salamanca e falando-lhe do Rei D. Carlos, bradou: «Não sei como isto vai acabar, mas acreditando, como acredito, que em Portugal há uma família a mais e que o Rei é um monstro de perversão, se eu daqui pudesse matá-lo com o pensamento, fá-lo-ia.». Poucos dias depois, estando ainda Guerra Junqueiro naquela cidade - diz ainda Miguel Unamuno - chegou a notícia do assassínio do Rei D. Carlos e do príncipe herdeiro D. Luís Filipe,  Bem, uma coisa é certa: o poeta Guerra Junqueiro, no dia do regicídio, não estava no Terreiro do Paço, nem por perto. Estava em Salamanca. Um excelente álibi!

Todavia, o regicídio de 1 de Fevereiro de 1908 foi o estrondo que apanhou desprevenido Junqueiro ingénuo e exaltado, quebrando-lhe o vigor das pernas e deixando-lhe na boca uma acérrima recordação de versos. Remordido pela paixão, dá ideia que Junqueiro, depois da fatalidade que fez tombar rei e príncipe numa esquina do Terreiro do Paço, se desiludiu dos versos, virando-lhes, amedrontado, as costas.

Pôs-se assim febril e inutilmente, a rever os versos, censurando e rasgando tudo o que lhe parecesse ofensivo à memória dos mortos. Atormentado por uma falta de consciência, a de ter metido lenha e pólvora no regicídio, não se importou de estéticas para limpar poemas. Junqueiro, que muitos acusaram de sarcástico gratuito, não se incomodou de rasgar, e para sempre, os seus melhores versos, se com isso pudesse fazer as pazes com a sua consciência.

Amansou, desse modo, uma versão da Pátria, que veio ser publicada depois da sua morte (1925) e que quase nenhum valor poético apresenta, dizem os críticos. Mas quando lhe falaram de atentado estético contra um poema intocável, a que ele roubou centenas de versos, Junqueiro, enfiado no seu barretinho de lã, roído de remorsos, limitou-se a exclamar indignado:
- Não posso aparecer no outro mundo como acusador!!!
 

sábado, 15 de setembro de 2012

Bocage

Há 247 anos nasceu em Setúbal o poeta Manuel Maria Barbosa du Bocage. Nasceu em 15 de Setembro de 1765, na Rua Edmond Bartissol 12 (antiga Rua de São Domingos), onde hoje está um museu, desde 1965. Bocage foi sempre um revoltado. Contra tudo e todos. Como explicar? Infância terrível. Filho de bacharel, que foi preso por dívidas ao Estado quando ele tinha 3 anos. Reinava o Marquês de Pombal. E a mãe morreu quando ele tinha 10 anos. Aos 16 anos, assentou praça. Foi depois para Lisboa, frequentar a Escola da Marinha. Andou por lá 5 anos, mas não acabou o curso. Café Nicola em Lisboa. Bebia muito, sobretudo, bebidas alcoólicas. Face ao seu comportamento, foi enviado, em 1786, para a Índia. Passou pelo Brasil, Rio de Janeiro, Moçambique, finalmente, Goa. Mas Bocage, que detestou Goa, não se terá portado lá muito bem. O Governador despachou-o para Damão. Pior ainda. Desertou. Embarcou depois para Macau. Em 1790,  está de novo no Continente.
Adere à Nova Arcádia, onde adoptou o pseudónimo Elmano Sadino.  Vive do que os amigos lhe dão. Dominava então Lisboa o Intendente da Polícia Pina Manique que decidiu pôr ordem na cidade, tendo em 7 de Agosto de 1797 dado ordem de prisão a Bocage por ser “desordenado nos costumes”. Ficou preso no Limoeiro até 14 de Novembro de 1797, tendo depois dado entrada no calabouço da Inquisição, no Rossio. Ficou até 17 de Fevereiro de 1798, tendo ido depois para o Real Hospício das Necessidades. Durante este longo período de detenção, Bocage mudou o seu comportamento e começou a trabalhar seriamente como redactor e tradutor. Só saiu em liberdade no último dia de 1798. De 1799 a 1801 trabalhou sobretudo com Frei José Mariano da Conceição Veloso, um frade brasileiro, politicamente bem situado e nas boas graças de Pina Manique. A partir de 1801, até à morte em 1805, viveu em casa por ele arrendada no Bairro Alto, naquela que é hoje o n.º 25 da travessa André Valente.

Começou por militar no movimento literário denominado Arcádia. Os árcades eram poetas refinados, convencionais. Mais tarde, adere à Nova Arcádia. Mas depressa se zangou com os novos confrades. Em 1791, publicou o primeiro livro de rimas. Bocage tinha uma grande obsessão por Camões, procurando imitá-lo:

Camões, grande Camões, quão semelhante
Acho teu fado ao meu, quando os cotejo!
Igual causa nos fez, perdendo o Tejo,
Arrostar co' o sacrílego gigante;

Como tu, junto ao Ganges sussurrante,
Da penúria cruel no horror me vejo;
Como tu, gostos vãos, que em vão desejo,
Também carpindo estou, saudoso amante.

Ludíbrio, como tu, da Sorte dura
Meu fim demando ao Céu, pela certeza
De que só terei paz na sepultura.

Modelo meu tu és, mas... oh, tristeza!...
Se te imito nos transes da Ventura,
Não te imito nos dons da Natureza.


Aponta as semelhanças (o mesmo fado, a partida de Lisboa provocada por motivos parecidos, o encontro com o Adamastor, a estada e a miséria na Índia, as saudades da amada, o ludíbrio da sorte), mas reconhece, a final, que não tem o talento de Camões ("não te imito nos dons da natureza").

Bocage afirmou-se um seguidor de Camões: imitou-o na vida, entre Lisboa e a Índia, mas não conseguiu imitá-lo na capacidade de poetar.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Uma parte de mim...




Hoje é dia de aniversário do poeta brasileiro Ferreira Gullar, nascido em 1930. Foi agraciado com o Prémio Camões em 2010. É dele o poema “TRADUZIR-SE”:





Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte-
será arte?

Ferreira Gullar

domingo, 9 de setembro de 2012

O limite da tolerância


Como irão reagir os portugueses, após o anúncio do Primeiro-Ministro, de sexta feira, de mais medidas de austeridade? Irão os portugueses conservar a sua revolta na esfera da intimidade ou será, desta, que vão trazer para a praça pública o desespero e a descrença nas medidas que vêm sendo tomadas sem resultados à vista?

Já há cerca de 50 anos, Miguel Torga olhava para o país e escrevia (in Diário IX, Chaves 17 de Setembro de 1961):

«É um fenómeno curioso: o país ergue-se indignado, moureja o dia inteiro indignado, come, bebe e diverte-se indignado, mas não passa disto. Falta-lhe o romantismo cívico da agressão.
Somos, socialmente, uma colectividade pacífica de revoltados».

Apetece dizer que os portugueses continuam pacientes e resignados, pelo que, o mais certo, não vai acontecer nada.

Lá no fundo, somos, como disse Torga, uma colectividade pacífica de revoltados.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Fernando Pessoa, o fingidor


Esta lápide, que está na Boca do Inferno, em Cascais, alude a um episódio da vida do nosso poeta Fernando Pessoa.

Tem duas partes distintas: a primeira (em cima) reproduz o texto de uma carta escrita por um famoso mago e astrólogo britânico Aleister Crowley, para a sua companheira; a segunda (em baixo), é uma nota explicativa, para nos dizer que aquele texto pretendia simular o suicídio do mago, naquele lugar, com a conivência do poeta Fernando Pessoa (pasme-se!) e do jornalista e ocultista Augusto Ferreira Gomes.

É caso para perguntar como é que nosso poeta, tão sossegado (embora desassossegasse os outros), e discreto, se envolveu em situação tão bizarra.

João Gaspar Simões, considerado o primeiro biógrafo do poeta, relata este episódio, com pormenores, em Vida e Obra de Fernando Pessoa.

Fernando Pessoa entendeu manter o ritual da blague com que colaborou no «desaparecimento» do atrevido e louco mago, deixando pairar, sempre, sobre o assunto, mesmo quando interrogado pela Polícia, um manto de mistério, por causa, talvez, do seu culto pelo mágico.

De verdade, sabe-se que Crowley desembarcou no dia 2/9/1930 na Gare de Alcântara e que no dia 25/10/1930 se eclipsou. Como? Não se sabe.

Sabe-se, no entanto, que o ocultista britânico veio acompanhado, nesta sua viagem a Lisboa, por uma jovem alemã, Anni L. Jaeger, muito bonita, que terá impressionado profundamente o nosso poeta, ao ponto de este lhe dedicar o seguinte poema:

Dá a surpresa de ser.
É alta, de um louro escuro.
Faz bem só pensar em ver
Seu corpo meio maduro.

Seus seios altos parecem
(Se ela tivesse deitada)
Dois montinhos que amanhecem
Sem ter que haver madrugada.

E a mão do seu braço branco
Assenta em palmo espalhado
Sobre a saliência do flanco
Do seu relevo tapado. 

Apetece como um barco.
Tem qualquer coisa de gomo.
Meu Deus, quando é que eu embarco?
Ó fome, quando é que eu como ?

Fernando Pessoa, in Cancioneiro


Estamos perante um poema erótico? Há discussão. Por mim, penso que não. Tanto que será impossível a um poeta um poema erótico, sem conhecer o erotismo. A menos que faça da sua poesia um fingimento completo, um fingimento triste, como este. Então, e só então, este poema poderá ser um poema erótico, mas nunca deixando de ser um poema fingido.

Mas, não foi ele que disse? “O poeta é um fingidor / Finge tão completamente /
Que chega a fingir que é dor / A dor que deveras sente”.

terça-feira, 31 de julho de 2012

O maratonista Lázaro


Estão a decorrer, na cidade de Londres, os Jogos Olímpicos 2012. Dentro de dias, irá correr-se a maratona, prova em que Portugal já ganhou uma medalha de ouro, através do nosso grande campeão Carlos Lopes.

Um outro português, Francisco Lázaro, conquistou igualmente nesta prova, a imortalidade, tanto ou mais perene que a alcançada por Carlos Lopes.

Francisco Lázaro fez parte da primeira equipa olímpica portuguesa nos Jogos Olímpicos de 1912, em Estocolmo, na Suécia, onde participou na prova da maratona. Francisco Lázaro desfaleceu durante a prova e veio a morrer poucas horas depois. Tal infeliz desenlace aconteceu no dia 14 de Julho de 1912. Assinalaram-se, portanto, há poucos dias, 100 anos sobre o seu falecimento.

Lázaro, como vem nos dicionários, é sinónimo de “pessoa desastrada”, “pessoa pouco habilidosa”. Terrível presságio. Contrariando colegas da comitiva olímpica, Francisco Lázaro correu a maratona besuntado de sebo, para contrariar, supostamente, a perda de líquidos. Foi fatal. Ao km 29, Lázaro cambaleou, caiu por várias vezes, e por várias vezes se levantou para continuar a prova, até que caiu para não mais se levantar. Com os poros da pele tapados, a transpiração cutânea era impossível. A causa da morte foi uma desidratação irreversível.

A sua aventura conta-se no romance Cemitério de Pianos, do escritor José Luís Peixoto, que recuperou, magnificamente, para as páginas da literatura portuguesa, a corrida louca do maratonista.

A personagem central do romance chama-se Francisco Lázaro. À medida que percorre as ruas de Estocolmo, Lázaro evoca o seu quotidiano na carpintaria (era carpinteiro de uma fábrica de carroçarias de automóveis no Bairro Alto em Lisboa), a vida com a mulher, Marta, os pais, o bairro de Benfica onde treinava. Ao quilómetro 28, “o céu desfaz-se sobre Estocolmo”. Lázaro sente os braços mais leves, “porque deixam de existir”. Cai, mas levanta-se. “As sapatilhas assentam tortas sobre a estrada”. Até que cai, mas já não se levanta.

O romance de José Luís Peixoto é denso, mas, ao mesmo tempo, ágil e envolvente. Já li e recomendo. Um livro rigorosamente a não perder!

sábado, 30 de junho de 2012

Os Livros do Senhor Júlio Dinis

Regras de funcionamento do meu Grupo de Leitura, levaram-me a voltar a ler As Pupilas do Senhor Reitor, do Júlio Dinis. Julgo ter lido este livro por volta dos meus quinze anos, graças às bibliotecas itinerantes da Gulbenkian. Eu era leitor assíduo da carrinha que estacionava no terreiro (agora parque de estacionamento) ao cimo da avenida principal do Fundão, em frente da Câmara.

Digo, desde já, para não haver dúvidas, que não estou nada arrependido de ter revisitado este livro, que Alexandre Herculano considerou «o primeiro romance do século».

Júlio Dinis acabou curso de Medicina em 1861. Veio a morrer precocemente em 1871, apenas com 32 anos de idade, vitimado por tuberculose. Escreveu toda a sua obra, portanto, durante a década de 60. Intensa, quer do ponto de vista literário, quer do ponto de vista político. Parece interessante tentar perceber a opção literária do escritor.

Naquele ano de 1861, Eça de Queirós foi estudar para Coimbra, onde já estava Antero de Quental que, nesse ano, publicou As Odes Modernas. Nesse mesmo ano, morreu D. Pedro V, sucedendo-lhe o irmão D. Luís.

A primeira metade do Século XIX havia sido muito complicada. A fuga da corte real para o Brasil em 1807. As invasões francesas que desencadearam uma guerra violenta, durante sete anos, com efeitos devastadores. A Revolução liberal de 1820. A Guerra Civil de 1828 a 1834. A Revolta Setembrista de 1836. O Massacre do Rossio em 1838. O Golpe de Estado no Porto em 1842, Em 1846, a Maria da Fonte (Abril) e a Patuleia (Outubro). Finalmente, a paz em 1847, com o Acto Constitucional (Adenda à Carta Constitucional).

Inicia-se, então, em Portugal, um período que fica conhecido pela Regeneração e que irá até 1890. Foi um período de acalmia na sociedade. Os partidos guerreavam-se no Parlamento, mas os portugueses deixaram de se matar uns aos outros. Nos anos 60, a juventude republicana concordava que era preciso parar com a luta entre partidos para se cuidar da Economia e da Educação. Mas outros jovens, não menos democratas, citavam Proudhon (socialismo), Comte (positivismo), Darwin (evolucionismo) e Hegel (idealismo) para declararem a Regeneração uma fraude. Antero de Quental, Teófilo Braga, Eça de Queirós, Guerra Junqueiro, Ramalho Ortigão e Oliveira Martins são os principais expoentes das novas ideias, vindas do estrangeiro, e que entraram em confronto com a escola romântica, por vezes até de forma violenta. A discussão irá culminar na Questão Coimbrã, em 1865, e, mais tarde, nas Conferências Democráticas do Casino, em 1871. Estava em marcha um novo movimento literário, o Realismo.

Neste contexto, como entender a opção de Júlio Dinis?
Ortega y Casset disse que «O Homem é o homem e as suas circunstâncias». Embora me pareça uma afirmação por demais evidente, ela aplica-se totalmente ao escritor Júlio Dinis.
Três razões. Primeiro, o escritor nasceu no seio de uma família burguesa; segundo, estudou no Porto e não em Coimbra; terceiro, a doença obrigou-o a uma certa reclusão rural.

Tivesse ele estudado em Coimbra, podia muito bem acontecer que ele fosse contaminado pelas novas ideias, fazendo escola ao lado de Antero e dos restantes companheiros. A vida no campo, por motivo de saúde, em Ovar e na Ilha da Madeira, explicam, também, a opção pelo romance campesino, com as suas personagens tiradas a partir das pessoas com quem conviveu de perto. Preconiza, por isso, o regresso ao campo e à vida simples. Procura uma aliança entre a ciência e a ingenuidade. O que não é fácil. Curiosamente, Eça de Queirós que havia falado de Júlio Dinis, de forma irónica, «J.D. viveu de leve, escreveu de leve, morreu de leve», retomou este tema, em A Cidade e as Serras, ainda que com outra intenção. 

As Pupilas do Senhor Reitor é um romance lançado ao público em formato de folhetim em 1863 e, posteriormente, editado e publicado como livro em 1867.

Até apetece dizer que o primeiro formato de As Pupilas do Senhor Reitor foi uma das inspirações para as telenovelas como as conhecemos hoje. A sua escrita segue uma cuidada e elegante captação de ambientes e retrata, em boa verdade, um certo Portugal social, político e religioso. 

Há uns tempos atrás, a RTP1 passou um documentário com o intelectual Eduardo Lourenço, por altura da atribuição do Prémio Pessoa 2011. Um documentário interessante que dá para ver o humor do Professor, ao contar episódios com muita graça. Um deles foi a propósito do escritor Júlio Dinis. Contou ele: O pai do escritor, intrigado com as leituras do filho, interpelou-o: «Joaquim, que andas tu a ler? Bem, se ainda lesses o Senhor Júlio Dinis, que escreve romances muito bonitos».

quinta-feira, 28 de junho de 2012

A que propósito, José?

Aproveitando a borla existente até final do mês, fui ontem, com os meus amigos do CUTLA (Clube Universitário Tempos Livres da Amadora), à Fundação José Saramago, aberta ao público no passado dia 18, no dia em que passavam 2 anos sobre a morte do escritor.

Está instalada na Casa dos Bicos, edifício que Brás de Albuquerque, filho do vice-rei da Índia Afonso de Albuquerque, mandou construir em 1523, após uma viagem a Itália, e que teve como modelo o Palácio dos Diamantes, em Ferrara. A guia, que nos acompanhou durante a visita, teve oportunidade de, justamente, falar um pouco da história deste edifício que, ao longo do tempo, serviu a distintas funções, tanto privadas como públicas.

É importante saber que o edifício continua propriedade municipal, cedido à Fundação por um período de 10 anos, mediante protocolo assinado em Julho de 2008.

É ainda importante saber que a Fundação se rege, como não podia deixar de ser, por uns Estatutos.

Acontece que, no final da visita, fui assaltado por uma série de dúvidas, porque não vi, no espaço percorrido, nenhuma iniciativa em relação: ao apoio ao surgimento de novos autores de língua portuguesa (cfr. alínea b) dos Estatutos); ao apoio e estímulo a iniciativas e acções culturais em defesa da difusão da Literatura Portuguesa (cfr. al. d) dos Estatutos); a promoção e estímulo a intercâmbios entre as diversas literaturas nacionais que se expressam em português (cfr. al. e) dos Estatutos).

O que eu vi, sem mais, foi a divulgação da obra do escritor José Saramago, por todo o lado. São os livros (em muitas línguas), os objectos pessoais, os diplomas, as medalhas, as distinções e, ainda, o merchandising. Onde estão as outras iniciativas previstas nos Estatutos (novos autores portugueses, acções de defesa de divulgação da literatura portuguesa, promoção e intercâmbio das diversas literaturas nacionais)?. Apenas contesto a presença, em regime de exclusividade, da obra do José Saramago.

Mas há ainda, para terminar, uma coisa perfeitamente incompreensível! O edifício é público, mas o amigo do José Saramago, Vasco Gonçalves, tem um lugar privilegiado no terceiro andar. O escritor reservou um espaço, bem razoável, para ali instalar, definitivamente (não, não se trata de uma exposição temporária), a biblioteca do Vasco Gonçalves. A que propósito, José?

quarta-feira, 13 de junho de 2012

O dia dos meus anos


Se o Fernando Pessoa fosse hoje ainda vivo, era dia de festejar o "dia dos meus anos".


Aniversário


No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas
lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

Fernando Pessoa
(Álvaro de Campos)