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sexta-feira, 4 de maio de 2012

Um Namoro Difícil

Para alguns estudiosos pessoanos (Teresa Rita Lopes, p.e.), Fernando Pessoa pensava mesmo em casar com Ophelia, ainda que nunca o diga explicitamente nas suas cartas. Mas devemos dizer que nem todos pensam assim. Questão controversa, discutindo-se muito a natureza deste namoro.

De todo o modo, para os que acham que Pessoa queria mesmo constituir um lar com a sua Ophelinha, um dos grandes problemas, a esse respeito, era evidentemente o económico. Então, sob o pseudónimo de A A Crosse, Pessoa intensificou as suas respostas a concursos ingleses de charadismo, esperando de uma vitória final a possibilidade de um grande prémio que tudo resolveria.
Um passo da carta de 22/03/1920 é perfeitamente claro a este respeito:
«Olha, Bébézinho ... Nas tuas promessas pede uma cousa que em tempos me pareceu duvidosa, por causa da minha fraca sorte, mas que agora me parece mais, muito mais possível. Pede que o snr. Crosse acerte no alvo de um dos prémios grandes — um dos prémios de mil libras a que concorreu. Não calculas a importância que para nós ambos teria se isso acontecesse!»

Pessoa teve o apoio da própria interessada, que rezou uma novena para Santa Helena e fez uma promessa ao Senhor dos Passos. «Não me esqueço do sr. Crosse», diz Ophelia numa carta; ou «são 11 horas, vou rezar pelo Sr. Crosse e vou-me deitar», diz ela noutra carta. Nem a santa, nem os suspiros casamenteiros, nem as novelas milagreiras, deram o resultado que Ophelia tanto ansiava. Estava escrito nas estrelas que o destino de Crosse era de perder. E o de Pessoa, também. Triste, triste, só Ophelia.

Palavras Cruzadas – Universo Fernando Pessoa

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HORIZONTAIS: 1- (…) Reis, heterónimo de Pessoa, educado num colégio de jesuítas, médico, latinista, que se expatriou para o Brasil em 1919 por ser monárquico; (…) Português, segunda parte do livro Mensagem, dedicada ao período áureo das navegações portuguesas. 2- Que tem olhos grandes; Prefixo latino que exprime a ideia de dois. 3- Aproxima-se; Forma reduzida de metropolitano. 4- Limpe; Bernardo (…), semi-heterónimo de FP, autor da célebre frase «A minha pátria é a língua portuguesa». 5- Reza; Puros [fig.]. 6- Símbolo de libra; Avenida [abrev.]. 7- Padre António (…), considerado, por Pessoa, o imperador da língua portuguesa; Elemento de formação de palavras que exprime a ideia de ovo. 8- Alberto (…), heterónimo de Pessoa, natural de Lisboa, mas viveu quase toda a sua vida no campo; Fronteira. 9- Faz zirra-zirra; Pejo 10- Alcoólicos Anónimos [sigla]; Pessoa sentia apetência por questões esotéricas: (…), misticismo, gnosticismo, astrologia, etc… 11- Regimento de Sapadores Bombeiros [sigla]; Peça de vestuário de tecido leve para tronco e braços, geralmente com colarinho e botões à frente [pl.].

VERTICAIS: 1-Antigo e pequeno capote de mangas que se abotoava na frente [pl.]; Título do soberano da Rússia, no tempo do Império. 2- Tornar incomunicável como uma ilha; Apupas. 3- (…) de Pas, primeiro heterónimo de Pessoa, quando tinha 6 anos de idade. 4- Apogeu; Margem. 5- (ant.) República Democrática Alemã [sigla]; Raiva. 6- Nota musical; Sagrado; Aqui. 7- Pedra de amolar [pl.]; Programa Alimentar Mundial [sigla]. 8- Ceia abundante; Rubim. 9- Uma das fobias de Pessoa, tinha horror às (…). 10- Estabeleces; Força (alguém) a ter relações sexuais. 11- Curso natural de água que nasce, em geral, nas montanhas e vai desaguar ao mar…[pl.]; Gemeras [pop.].



quarta-feira, 2 de maio de 2012

Um Encontro Improvável


Idade quarenta e oito anos, natural do Porto, estado civil solteiro, profissão médico, última residência Rio de Janeiro, donde procede. Parece o princípio de uma confissão, uma autobiografia, mas não. Estamos no dia 30 de Dezembro de 1935, no Hotel Bragança, em Lisboa. Fica na Rua do Alecrim, à direita de quem sobe. O quarto que lhe coube é o duzentos e um. O novo hóspede podia chamar-se Jacinto e ser dono de uma quinta em Tormes, mas não. Chama-se Ricardo Reis.


O quarto tem uma janela virada para o rio, o que deixou o hóspede agradado: «Mais vale estarmos sentados ao pé um do outro ouvindo correr o rio e vendo-o». Sobre a mesa estão alguns jornais e revistas já antigos. Causou dolorosa impressão nos círculos intelectuais a morte inesperada de Fernando Pessoa, o poeta do Orfeu, espírito admirável que cultivava não só a poesia mas também a crítica inteligente, morreu anteontem em silêncio, como sempre viveu. Não diz mais este jornal, outro diz de outra maneira. Fernando Pessoa, o poeta extraordinário da Mensagem, poema de exaltação nacionalista, dos mais belos que se têm escrito, foi ontem a enterrar, surpreendeu-o a morte num leito cristão do Hospital de S. Luís, no sábado à noite. Aqui está outro jornal que pôs a notícia na página certa, a de necrologia, e extensamente identifica o falecido. Realizou-se ontem o funeral do senhor Fernando António Nogueira Pessoa, solteiro, de quarenta e sete anos de idade, escritor e poeta muito conhecido no meio literário. A leitura dos jornais foi interrompida. Uma rajada súbita fez estremecer as vidraças, a chuva desabou como um dilúvio. Batem à porta do quarto.
A janela estava aberta e não dei por que a chuva entrasse, está o chão todo molhado - Disse Ricardo Reis - Agradecia pois que limpasse o soalho. Como se chama?
Lídia.
Lídia? Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Lídia sorri, faz o que tem a fazer e sai. Ricardo Reis vai sentar-se no sofá, recosta-se, fecha os olhos. Já sonolento levanta-se, abre o guarda-fato e retira um cobertor com que se cobre. Agora sim, dorme.


Ricardo Reis está encostado a um candeeiro na praça do Chiado. Enquanto espera o eléctrico 28, que o há-de levar aos Prazeres, pode observar, ao fundo, a estátua do Camões. Não se lembraram de pôr-lhe versos no pedestal, mas se um lhe pusessem qual poriam? Ricardo Reis vai agora no eléctrico. Entontece. Os bancos, de um entretecido de palha forte e pequena, levam-no a regiões distantes. Sai do carro exausto e sonâmbulo. Deixara de chover. Ricardo Reis foi à administração do cemitério, ao registo dos defuntos, saber onde estava sepultado Fernando António Nogueira Pessoa, falecido no dia 30 de Novembro de 1935, enterrado no dia 2 do mês que corre. Ricardo Reis agradece as explicações do funcionário e vai à procura do jazigo nº 4371. A assinalar o título de propriedade está o nome de D. Dionísia de Seabra Pessoa. Está ainda outro nome, não mais, Fernando Pessoa, com datas de nascimento e morte. Dentro do jazigo está uma velha tresloucada e está também guardado o corpo apodrecido de um fazedor de versos que deixou a sua parte de loucura no mundo. Caiu uma bátega forte, o que foi um bom motivo para Ricardo Reis se retirar.


Depois do jantar, Ricardo Reis instalou-se na sala de recepção do hotel, especialmente preparada, naquele dia, para o révellion. Estamos no último dia do ano de 1935. Ricardo Reis não fica para a festa, sobe devagar a escada até ao seu quarto. Vai descansar, mas na rua perpassa uma algazarra medonha. Já deram as onze horas, quando, bruscamente, Ricardo Reis levanta-se e sai. Sobe a Rua do Alecrim, pára diante da estátua de Eça de Queirós, ou Queiroz, por respeito da ortografia que o dono do nome usou. Sobre a nudez forte da verdade o manto diáfano da fantasia. Ou, sobre a nudez forte da fantasia o manto diáfano da verdade? Ricardo Reis sente-se confuso. Desce o Chiado e a Rua do Carmo. O Rossio está cheio de gente. Faltam 4 minutos para a meia-noite. Depois é a gritaria da multidão, as campainhas dos eléctricos, as buzinas dos automóveis, o barulho das sereias, abraçam-se uns aos outros, conhecidos e desconhecidos, beijam-se homens e mulheres ao acaso. Mas, ainda não passou um minuto, e já o som vai decrescendo. Ainda há grupos no Rossio, mas a animação é cada vez menos. A Rua do Ouro, que agora desce, está juncada de detritos e ainda se lançam pela janela fora trapos, caixas vazias, ferro-velho… Ricardo Reis, cansado, regressa ao hotel.


Entra no hotel e segue o corredor que o leva ao seu quarto, que é o duzentos e um. É então que repara que por baixo da porta passa uma réstia de luz. Ter-se-á esquecido de alguma coisa? Meteu a chave à fechadura, abriu, há alguém no quarto. Será Lídia? Não, sentado no sofá estava um homem. Reconheceu-o, imediatamente, apesar de não o ver há já 16 anos. À sua espera, estava Fernando Pessoa.
Olá! - disse Ricardo Reis, ainda que duvidando de que ele lhe responderia.
Como nem sempre o absurdo respeita a lógica, acontece que respondeu mesmo.
Viva! - respondeu Fernando Pessoa, estendendo a mão e dando-lhe um abraço.
- Então como tem passado? Um deles fez a pergunta, ou ambos, não importando saber, tão insignificante é a frase.
Ricardo Reis despiu a gabardina, pousou o chapéu e arrumou cuidadosamente o guarda-chuva no lavatório, não fosse pingar o oleado do chão. Puxou uma cadeira e sentou-se defronte do visitante. Olham-se com simpatia, vê-se que estão contentes por se terem reencontrado depois de longa ausência. É Fernando Pessoa quem primeiro fala.
Soube que me foi visitar, eu não estava, mas disseram-me quando cheguei.
Pensei que estivesse, pensei que nunca de lá saísse - respondeu Ricardo Reis.
Por enquanto saio, ainda tenho uns oito meses para circular à vontade - explicou Fernando Pessoa.
Oito meses porquê - perguntou Ricardo Reis.
Contas certas, no geral e em média, são nove meses, tantos quantos os que andamos na barriga das nossas mães, acho que é por uma questão de equilíbrio - esclareceu Fernando Pessoa.
-  E agora diga-me você que é que o trouxe a Portugal - perguntou Fernando Pessoa.
Ricardo Reis tirou a carteira do bolso interior do casaco, extraiu dela um papel dobrado, fez menção de o entregar a Fernando Pessoa, mas este recusou com um gesto.
Já não sei ler, leia você - disse Fernando Pessoa.
E Ricardo Reis leu: «Fernando Pessoa faleceu Stop Parto para Glasgow Stop Álvaro de Campos».
Quando recebi este telegrama decidi regressar, senti que era uma espécie de dever - acrescentou Ricardo Reis.
-  Houve ainda uma outra razão para este meu regresso, essa mais egoísta, é que em Novembro rebentou no Brasil uma revolução, estava indeciso, parto, não parto, mas depois chegou o telegrama, aí decidi-me - disse ainda Ricardo Reis.
Você, Reis, tem sina de andar a fugir das revoluções, em mil novecentos e dezanove foi para o Brasil por causa de outra que provavelmente falhou também - disse Fernando Pessoa.
Em rigor eu não fugi do Brasil e talvez que ainda lá estivesse se você não tem morrido - disse Ricardo Reis.
Você continua monárquico - sublinhou Fernando Pessoa.
Continuo. Sem rei. Pode-se ser monárquico e não querer um rei - confirmou Ricardo Reis.
Ricardo Reis puxou uma cadeira e sentou-se defronte do visitante e disparou:
Bem, Fernando, conte lá, se for capaz, a história do nascimento dos heterónimos.
Vou ver se consigo responder completamente – disse Fernando Pessoa, prosseguindo - Aí por 1912, salvo erro (que nunca pode ser grande), veio-me à ideia escrever uns poemas de índole pagã. Esbocei umas cousas em verso irregular (não no estilo Álvaro de Campos, mas num estilo de meia regularidade), e abandonei o caso. Esboçara-se-me, contudo, numa penumbra mal urdida, um vago retrato da pessoa que estava a fazer aquilo. Tinha nascido, sem que eu soubesse, você, Ricardo Reis.
Então, quer dizer, fui o princípio de tudo? – interrompeu o Ricardo Reis.
Sim, se fica contente. Ano e meio, ou dois anos depois – foi em 8 de Março de 1914 – acerquei-me de uma cómoda alta, e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triunfal da minha vida. Aparecido Alberto Caeiro, tratei logo de lhe descobrir – instintiva e subconscientemente – uns discípulos.
Está bem, não precisa de contar mais – disse Ricardo Reis.
Fernando Pessoa levantou-se do sofá, passeou um pouco pela saleta, no quarto parou diante do espelho, depois voltou. Tomou a sentar-se, cruzou a perna.
E agora, vai ficar para sempre em Portugal, ou regressa a casa? - perguntou Fernando Pessoa.
-  Ainda não sei, apenas trouxe o indispensável, pode ser que me resolva a ficar, abrir consultório, fazer clientela, também pode acontecer que regresse ao Rio - retorquiu Ricardo Reis.
Nenhum vivo pode substituir um morto - sentenciou Fernando Pessoa.
Nenhum de nós é verdadeiramente vivo nem verdadeiramente morto - concordou Ricardo Reis.
Bem dito, com essa faria você uma daquelas odes - observou, muito a propósito, Fernando Pessoa.
Ambos sorriram.
Diga-me como soube que eu estava hospedado neste hotel - perguntou Ricardo Reis.
Quando se está morto, sabe-se tudo, é uma das vantagens.
E entrar, como foi que entrou no meu quarto?
Como qualquer outra pessoa entraria.
Não veio pelos ares, não atravessou as paredes. Que absurda ideia, meu caro, isso só acontece nos livros de fantasma - contrapôs Ricardo Reis.
Os mortos servem-se dos caminhos dos vivos, aliás nem há outros, vim por aí fora desde os Prazeres como qualquer mortal. Subi a escada, abri aquela porta, sentei me neste sofá à sua espera - explicou Fernando Pessoa.
E ninguém deu pela entrada de um desconhecido, sim, que você aqui é um desconhecido - ironizou Ricardo Reis.
-  Essa é outra vantagem de estar morto, ninguém nos vê, querendo nós
- Disse Fernando Pessoa.
Mas eu vejo-o a si - logo contrapôs Ricardo Reis.
Porque eu quero que me veja, e, além disso, se reflectirmos bem, quem é você? - Perguntou, com grande ironia, Fernando Pessoa, não esperando, obviamente, a resposta.
Ricardo Reis não respondeu. Houve um silêncio arrastado, espesso. Ouviu-se como em outro mundo o relógio do patamar, duas horas. Fernando Pessoa levantou-se.
Vou-me chegando.
Já? - interrogou-se Ricardo Reis.
Bem, não julgue que tenho horas marcadas, sou livre, é verdade que a minha avó está lá, mas deixou de me maçar - disse Fernando Pessoa.
Fique um pouco mais - implorou Ricardo Reis.
Está a fazer-se tarde, você precisa de descansar - ripostou Fernando Pessoa.
Quando volta?
Quer que eu volte? - pergunta Fernando Pessoa.
Gostaria muito, podíamos conversar, restaurar a nossa amizade, não se esqueça de que, passados dezasseis anos, sou novo na terra - quase implorou Ricardo Reis.
Mas olhe que só vamos poder estar juntos oito meses, depois acabou-se, não terei mais tempo. Quando puder, aparecerei - respondeu Fernando Pessoa.
Não quer marcar um dia, hora, local? - insistiu Ricardo Reis.
Tudo menos isso, Então até breve - retorquiu Fernando Pessoa.
Fernando, gostei de o ver.
E eu a si, Ricardo.
Fernando Pessoa abriu a porta do quarto, saiu para o corredor. Não se ouviram os seus passos. Ricardo Reis foi à janela. Pela Rua do Alecrim acima afastava-se Fernando Pessoa.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Gideon Sundback, inventor do fecho de correr ou éclair, é recordado hoje pelo Google.

Não resisto a deixar aqui um poema do António Gedeão, que ele escreveu a propósito de objecto tão útil e que o Rei Filipe II, tão rico que era, não tinha.

 
Poema do Fecho éclair

Filipe II tinha um colar de oiro
tinha um colar de oiro com pedras
rubis.
Cingia a cintura com cinto de coiro,
com fivela de oiro,
olho de perdiz.
Comia num prato
de prata lavrada
girafa trufada,
rissóis de serpente.
O copo era um gomo
que em flor desabrocha,
de cristal de rocha
do mais transparente.

Andava nas salas
forradas de Arrás,
com panos por cima,
pela frente e por trás.
Tapetes flamengos,
combates de galos,
alões e podengos,
falcões e cavalos.

Dormia na cama
de prata maciça
com dossel de lhama
de franja roliça.
Na mesa do canto
vermelho damasco
a tíbia de um santo
guardada num frasco.

Foi dono da terra,
foi senhor do mundo,
nada lhe faltava,
Filipe Segundo.

Tinha oiro e prata,
pedras nunca vistas,
safira, topázios,
rubis, ametistas.

Tinha tudo, tudo
sem peso nem conta,
bragas de veludo,
peliças de lontra.

Um homem tão grande
tem tudo o que quer.

O que ele não tinha
era um fecho éclair.

António Gedeão

sábado, 21 de abril de 2012

A minha peregrinação a Évora

Na Quarta-Feira passada (dia 18) peregrinei até Évora, com os meus amigos dos livros, para fazer o percurso da Aparição do Vergílio Ferreira. Fomos acompanhados por um guia que o Turismo de Évora disponibilizou.
A peregrinação começou na praça famosa do Giraldo, aquele cavaleiro salteador ou salteador cavaleiro que, para Afonso Henriques lhe perdoar os crimes, se determinou a conquistar esta cidade. Entrámos no Café Arcada, mas o Dr. Moura faltou ao encontro marcado. Certamente, tomava conta dos seus doentes. Tem um Deus para lhe tomar conta da vida e da morte. Logo ali ao lado, à esquina, parada no tempo, a montra da livraria do Nazareth. Depois, penetrámos na cidade, enredada de ruas, semeada de ruínas, de arcos partidos, nichos de santos, janelas góticas. Subimos a Rua da Selaria, agora sem a praga das carroças atroando a cidade. Perto do nicho do Senhor dos Terramotos, ao alto, o cão cansou-se da espera do osso da janela lá de cima. Depois, o Largo do Templo de Diana. Nas colunas solitárias pareceu-me ouvir um murmúrio antigo de uma floresta imóvel. O zimbório da Sé lá estava, mas não brilhava. À direita, ao chegar ao Largo, está o Museu. Espreitei mas a Sofia e o Alberto Soares já haviam saído. Ao pé do Templo de Diana, está a Biblioteca, mas, nesse dia, não havia aula de português. Não entrámos na Sé. Ana, estás aí dentro, tenho a certeza, encontraste finalmente o caminho que dá sentido à tua vida. Ergui os olhos para a massa escura da catedral, o alinhamento dos contrafortes, a renda da corda, lavrada a mãos grossas, pelas rosáceas, pelas ameias, a ascensão, até às flechas, de uma força entroncada, vinda do fundo da terra, escorrendo ainda o negrume de raízes…e os Apóstolos da Sé, à entrada, são magníficos. Depois, descemos as ruas apressadas e oblíquas, descobrindo, finalmente, o edifício da Universidade de Évora, o antigo liceu.
Procurei o bom reitor do liceu, que não encontrei. Também não dei pela presença do cão. Sobre um pequeno lago, ergue-se uma taça de mármore, onde os pombos vêm (ou vinham?) beber água. Aí tirámos a fotografia da praxe.

Saímos e vamos pela Rua do Colégio. Há uma casa à direita, ao alto de um jardim, com uma fachada de azulejos azuis. Uma outra casa adiante, com um brasão, abre-se de arcarias, num jardim traçado pela curva da rua. A guia levou-nos até ao Largo das Portas de Moura, mas não me levou à Rua da Mesquita, à casa onde viveu Vergílio Ferreira. Vimos a janela de Garcia de Resende e percorremos a Rua dos Infantes, que, desta vez, não estava embaraçada de peões. Do alto de uma janela, vem um som do princípio do mundo. Cristina toca uma música celestial. É para mim uma aparição. Oh, Cristina! E que estarás tu tocando? Bach? Beethoven? Mozart? Chopin? Não sei. Descemos agora pela Travessa da Caraça. À igreja de São Francisco chegámos quase sem forças. Passeámos pela grande nave, admirámos as pinturas atribuídas a Garcia Fernandes. Embora não fazendo parte do percurso vergiliano, entrámos na Capela dos Ossos. Visita mais apropriada para uma Quarta-Feira de Cinzas. Saímos deprimidos. Estes franciscanos, tanta canseira, para nos obrigarem a pensar por breves momentos. O milagre da vida, em face da inverossimilhança da morte. Perto, fica a casa do Chico, um tipo com um ar dominador de pugilista, com quem tenho um combate a travar, mas hoje não. O último local da viagem é o Jardim Público, junto ao busto da Florbela Espanca, ali desde 1949, da autoria do escultor Diogo de Macedo.
Através dos túneis de sombra, entrevejo Alberto Soares: «Sento-me, reconciliado, nos bancos de azulejos, fechados em recantos clandestinos, vou visitar Florbela, olho-a de um banco de madeira que lhe fica em frente, medito com ela. É uma cabeça calma, triste e majestosa. Banha-se de grandeza e gravidade desde a fronte cansada, que verga sobre as mãos em repouso, até às espáduas largas, em que o pescoço se espraia. Sinto que ela prevaleceu sobre a melancolia dos séculos e que chegou até nós para nos dar testemunho. Não está bem ali, rodeada de lirismo. E imagino-a num limite da cidade, frente à planície deserta, num alto pedestal tocando os astros…»
Finalmente, o encontro com Florbela. Interrompemos a sua meditação com a nossa poesia. Até eu, coitado, ousei dizer o poema “Alma Perdida”.  Momento há muito esperado.

Por sugestão do guia, fomos terminar a peregrinação numa pastelaria afamada na cidade. Havia que descansar e retemperar forças antes de iniciar o regresso. Então, ao aproximar-me da pastelaria, vi, ao longe, o antigo edifício do Regimento de Infantaria 16 de Évora. Larguei os meus companheiros de jornada e aproximei-me com os mesmos medos de há 40 anos. Lentamente, o casarão foi rodando com a curva da rua, espiando-me do alto da sua quietude lôbrega. Entrei de supetão e veio ao meu encontro um missionário. Contei a minha história. O comandante, o louco Zé Pinheiro, não estava. Estará em nova comissão de serviço? Posso tirar uma fotografia? Só lá fora, respondeu o missionário do quartel. Eu pedi uma história quente, mas serviram-me uma recordação fria.
Juntei-me aos meus amigos, para iniciar o regresso a casa. Tinha encontro marcado com tanta gente, mas faltaram todos. No regresso, nas algibeiras, só recordações. Raiva. No tempo, há 40 anos, quando vim a esta cidade branca pela primeira vez, eu era feliz e ninguém estava morto.

quarta-feira, 18 de abril de 2012


Nasceu há 170 anos e merece ser recordado.

O PALÁCIO DA VENTURA

Sonho que sou um cavaleiro andante.
Por desertos, por sóis, por noite escura,
Paladino do amor, busco anelante
O palácio encantado da Ventura!

Mas já desmaio, exausto e vacilante,
Quebrada a espada já, rota a armadura...
E eis que súbito o avisto, fulgurante
Na sua pompa e aérea formosura!

Com grandes golpes bato à porta e brado:
Eu sou o Vagabundo, O deserdado...
Abri-vos, portas d’ouro, ante meus ais!

Abrem-se as portas d’ouro, com fragor...
Mas dentro encontro só, cheio de dor,
Silêncio e escuridão – e nada mais!

Antero de Quental

sábado, 14 de abril de 2012

"O senhorito do Monte da Ribeira da Orca"


Eugénio de Andrade fez da mãe a presença central da sua poesia, de onde o pai está quase ausente, esse pai a quem em entrevistas apenas se refere como "o senhorito do Monte da Ribeira da Orca". Ora, Orca é justamente a terra onde eu nasci. Por isso, sinto-me, para sempre, em falta em relação ao poeta que muito admiro.  É sabido que o seu nascimento foi fruto de um amor juvenil e que o casamento, celebrado mais tarde, durou muito pouco tempo. 
Há um único poema em que o poeta se refere, necessariamente de forma crítica, ao pai. É assim em

Harmónio
Como ladrão ou mulher
pública: vens de noite.
Trazes o harmónio
a masculina
música roubada às fontes.
Não te esperava;só uma vez
te esperei tremendo de amor:
eu era tão pequeno
que não me viste.
Nem uma palavra ousas;
só os olhos suplicam que te roube
à morte,que devolva ao sol
a modesta desordem dos teus dias.
Que escute ao menos a pobre
e rouca e desamparada
música do teu pequeno harmónio.

Eugénio de Andrade

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Lisboa Revisitada


Lisbon Revisited (1923)”, de Álvaro de Campos (heterónimo de Fernando Pessoa), é um poema repleto de frustração e sentimento de mágoa.
O poeta recusa tudo e todos à sua volta. Recusa tudo que se mostre como conclusivo e alega que a única certeza é morrer (“Não me venham com conclusões! A única conclusão é morrer.”). O poeta não quer saber de regras nem ideais de conduta ou moral a seguir. Recusa-se a encarar a verdade (“Se têm a verdade, guardem-na!”). Desta Lisboa, o poeta já não reconhece nada (“Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.”).

O poeta revisita a Lisboa da sua infância sem, porém, a reencontrar.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Quando nasceu Sebastião da Gama

No dia 10 de Abril de 1924 (se fosse vivo faria hoje 88 anos), nasceu o poeta Sebastião da Gama, em Vila Nogueira de Azeitão.

Quando nasceu, ficou tudo como estava. Nem homens cortaram veias, nem o Sol escureceu, nem houve Estrelas a mais … somente, esquecida das dores, a sua Mãe sorriu e agradeceu. Quando nasceu, não houve nada de novo, senão ele. As nuvens não se espantaram e não enlouqueceu ninguém … para que o dia fosse enorme, bastou ao poeta toda a ternura que olhava nos olhos de sua Mãe.

Foi assim o dia 10 de Abril de 1924. Como soube? É o meu querido poeta da Arrábida que o conta em “Pequeno Poema”. É um lindo poema e, ao mesmo tempo, um bela homenagem às nossas Mães. Obrigado, Sebastião da Gama.

domingo, 8 de abril de 2012

Domingo de Páscoa


Evangelho segundo S. João

(...) No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao túmulo logo de manhã, ainda escuro, e viu retirada a pedra que o tapava. Correndo, foi ter com Simão Pedro e com o outro discípulo, o que Jesus amava, e disse-lhes: «O Senhor foi levado do túmulo e não sabemos onde o puseram.» Pedro saiu com o outro discípulo e foram ao túmulo. Corriam os dois juntos, mas o outro discípulo correu mais do que Pedro e chegou primeiro ao túmulo. Inclinou-se para observar e reparou que os panos de linho estavam espalmados no chão, mas não entrou. Entretanto, chegou também Simão Pedro, que o seguira. Entrou no túmulo e ficou admirado ao ver os panos de linho espalmados no chão, ao passo que o lenço que tivera em volta da cabeça não estava espalmado no chão juntamente com os panos de linho, mas de outro modo, enrolado noutra posição. Então, entrou também o outro discípulo, o que tinha chegado primeiro ao túmulo. Viu e começou a crer, pois ainda não tinham entendido a Escritura, segundo a qual Jesus devia ressuscitar dos mortos.

Da Bíblia Sagrada

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Semana Santa

(…) Depois disto, José de Arimateia, que era discípulo de Jesus, mas secretamente por medo das autoridades judaicas, pediu a Pilatos que lhe deixasse levar o corpo de Jesus. E Pilatos permitiu-lho. Veio, pois, e retirou o corpo.
Nicodemos, aquele que antes tinha ido ter com Jesus de noite, apareceu também trazendo uma mistura de perto de cem libras de mirra e aloés.
Tomaram então o corpo de Jesus e envolveram-no em panos de linho com os perfumes, segundo o costume dos judeus.
No sítio em que Ele tinha sido crucificado havia um horto e, no horto, um túmulo novo, onde ainda ninguém tinha sido sepultado.
Como para os judeus era o dia da Preparação da Páscoa e o túmulo estava perto, foi ali que puseram Jesus.

Evangelho segundo S. João

segunda-feira, 2 de abril de 2012

O Desejado


Rei D. Sebastião no seu nicho na frontaria da estação do Rossio. Se o lá puseram (confesso que eu só hoje reparei), teremos de reexaminar a importância e os caminhos do sebastianismo, com nevoeiro ou sem ele. É patente que, afinal, o Desejado virá de comboio, ainda que sujeito a atrasos…

quinta-feira, 22 de março de 2012

Deus

"como exigir que se saiba que Deus existe ou não existe? Sabê-lo é um milagre para raros, em raros instantes apenas. Eis porque se admite às vezes não estar ninguém certo de ser crente ou descrente."

Vergilio Ferreira, in Invocação ao Meu Corpo (1969)

quarta-feira, 21 de março de 2012

Dia Mundial da Poesia

No início do séc. XX, o insigne pensador espanhol Miguel de Unamuno comentou que Portugal era “um país de poetas e suicidas”, impressionado pelo rol de poetas portugueses que se suicidaram (Antero de Quental, Camilo, Trindade Coelho, etc…) ou se afastaram do mundo para se deixarem morrer (Alexandre Herculano, por ex.).

Hoje, Dia Mundial da Poesia, é dia de falar dos nossos poetas. Apetecia-me deixar aqui uma torrente de poemas que me desassossegam. Impossível.

Como tal, voz aos poetas. O “Cântico Negro” na voz do próprio José Régio.


 

terça-feira, 20 de março de 2012

Prémio Vida Literária 2012


A direcção da Associação Portuguesa de Escritores decidiu, por unanimidade, atribuir a João Rui de Sousa o Prémio Vida Literária 2012.

 José Manuel Mendes, presidente da APE, justificou a distinção por se tratar do autor de uma obra “que vem sendo editada há mais de meio século com grande notoriedade pública…” e de ser expressão de “uma relação intensa com a literatura, tanto na poesia como no ensaio”.

Apenas conheço, confesso,  um livro do escritor ora distinguido: Fernando Pessoa, empregado de escritório.

Recentemente, tive oportunidade de consultar este livro bastante ao pormenor. Dá-nos a conhecer, de uma forma competente e exaustiva, todos os prédios da cidade de Lisboa, em que se situaram os cerca de 20 escritórios, para quem Fernando Pessoa trabalhou como «correspondente comercial em línguas estrangeiras», assim como os prédios onde foram sediadas as firmas comerciais que o poeta ousou criar, em sociedade ou não.

Para quem quer conhecer a faceta do Pessoa, quer como trabalhador por conta de outrem, quer como empreendedor, a consulta daquele livro é incontornável.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Aos Nossos Pais


Não conheço muitos poemas, na poesia portuguesa, dedicados ao PAI. Mas, neste dia, lembrei-me deste poema, que eu acho muito bonito, que o Miguel Torga dedicou ao seu pai. Aqui fica.

A vida é feita de nadas:
De grandes serras paradas
À espera de movimento;
De searas onduladas
Pelo vento;

De casas de moradia
Caídas e com sinais
De ninhos que outrora havia
Nos beirais;

De poeira;
De sombra de uma figueira;
De ver esta maravilha:
Meu Pai a erguer uma videira
Como uma mãe que faz a trança à filha.
 

sábado, 10 de março de 2012

Florbela Espanca



Busto de Florbela Espanca, da autoria do escultor Diogo de Macedo, no Jardim Público de Évora 

(…) Sento-me, reconciliado, nos bancos de azulejos, fechados em recantos clandestinos, vou visitar Florbela, olho-a de um banco de madeira que lhe fica em frente, medito com ela. É uma cabeça calma, triste e majestosa. Banha-se de grandeza e gravidade desde a fronte cansada, que verga sobre as mãos em repouso, até ás espáduas largas, em que o pescoço se espraia. Sinto que ela prevaleceu sobre a melancolia dos séculos e que chegou até nós para nos dar testemunho. Não está bem ali, rodeada de lirismo. E imagino-a num limite da cidade, frente à planície deserta, num alto pedestal tocando os astros… (…)

Vergílio Ferreira, in Aparição

quinta-feira, 8 de março de 2012

Dia Internacional da Mulher


A Constituição da República Portuguesa assegura a igualdade no trabalho entre homens e mulheres mas estas continuam a ganhar menos, a ter menos acesso aos lugares de decisão nas empresas, a trabalhar mais horas não remuneradas e a ser as primeiras a perder o emprego.

Todavia, não é repetindo, ano após ano, este ritualismo do Dia Internacional da Mulher, que este estado de coisas se modifica.

Coincidência ou não, estreia-se hoje em Portugal o filme “Florbela”. Segundo li, o filme pretende ser um retrato íntimo de Florbela Espanca, uma mulher que viveu de forma intensa e não conseguiu amar docemente.

Sem olhar, especialmente,  para o dia que hoje se comemora, deixo aqui a minha homenagem a esta poetiza, que me desassossega. O poema Alma Perdida não é dos mais conhecidos, mas eu gosto muito.

Toda a noite o rouxinol chorou,
Gemeu, rezou, gritou perdidamente!
Alma de rouxinol, alma de gente,
Tu és talvez alguém que se finou!

Tu és, talvez, um sonho que passou,
Que se fundiu na dor, suavemente...
Talvez sejas a alma, a alma doente
Dalguém que quis amar e nunca amou!

Toda a noite choraste e eu chorei
Talvez porque, ao ouvir-te, adivinhei
Que ninguém é mais triste do que nós!

Cantaste tanta coisa à noite calma,
Que eu pensei que tu eras a minh’alma
Que chorasse perdida em tua voz!...

Florbela Espanca, in Livro de Mágoas





domingo, 26 de fevereiro de 2012

Revisitar Fausto

O livro Peregrinação de Fernão Mendes Pinto é considerado um “livro difícil”. No entanto, há quem defenda que pode ser lido ao jeito de folhetins. É bem possível encontrar histórias que podem ser contadas autonomamente.

Quem assim pensou e melhor o fez,  aliás de forma magnífica,  foi o Fausto em “POR ESTE RIO ACIMA - As viagens de Fernão Mendes Pinto”. Editado em 1982, é considerado, pela crítica em geral, um dos álbuns mais marcantes da música popular portuguesa das últimas décadas.

O álbum conta-nos histórias retiradas dos capítulos do livro. Um delas é “O Romance de Diogo Soares”, a partir, neste caso, do relato que FMP faz nos Capítulos 191 e 192. Conta a história do Diogo Soares, o grande general, por alcunha “O Galego”, que cometeu grandes atrocidades e acabou morto à pedrada por uma turba de indignados.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Sr. Verde, empregado no comércio

Assinala-se, hoje, o 157º aniversário do nascimento de Cesário Verde. O poeta nasceu no dia 25 de Fevereiro de 1855 em Lisboa, na Rua da Padaria, freguesia da Madalena. O pai, José Anastácio Verde, era comerciante e lavrador: além de se ocupar da sua loja de ferragens, na Rua dos Fanqueiros, dedicava-se também à lavoura numa quinta em Linda-a-Pastora, a cerca de dois quilómetros da capital, propriedade da família Verde desde 1797.

Cesário dividia-se entre a produção de poesias (publicadas em jornais) e as actividades de comerciante do pai, na loja de ferragens, na Rua dos Fanqueiros: escreve cartas para o estrangeiro, recebe caixeiros viajantes, pesa pregos e parafusos, monta e oleia fechaduras, experimenta ferramentas…
     Casa de Ferragens, na Rua dos Fanqueiros, nºs 2 a 8 (hoje uma instituição bancária)

De que me serve citar-me génio se resulto ajudante de guarda-livros? Quando Cesário Verde fez dizer ao médico que era, não o Sr. Verde empregado no comércio, mas o poeta Cesário Verde, usou de um daqueles verbalismos do orgulho inútil que suam o cheiro da vaidade. O que ele foi sempre, coitado, foi o Sr. Verde empregado no comércio. O poeta nasceu depois de ele morrer, porque foi depois de ele morrer que nasceu a apreciação do poeta”.
Bernardo Soares, Livro do Desassossego

É verdade, ninguém reparou na grandeza da poesia de Cesário. Andaram todos distraídos. Todos, menos um: Fernando Pessoa. Uma vez, pela pena de Bernardo Soares; outra,  levou Álvaro de Campos a bradar:
- Ó Cesário Verde, ó Mestre!

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

D. João V, o "Mãos-Largas"


Visitei, há dois dias, a Igreja de São Roque, assim como o Museu de São Roque, instalado no edifício contíguo. Ambos apresentam aos visitantes um acervo valiosíssimo.

A igreja de São Roque foi construída em conformidade com as orientações da Companhia de Jesus e com as recomendações litúrgicas do Concílio de Trento. De planta rectangular, é composta por uma só nave, uma capela-mor pouco profunda e oito capelas laterais.

Haveria muito para falar do que vi, mas gostaria de destacar apenas a Capela de São João Baptista, uma das oito capelas laterais da Igreja de São Roque, que o magnânimo D. João V encomendou em Itália.

Projectada pelos arquitectos italianos Luigi Vanvitelli e Nicola Solvi sob supervisão do arquitecto régio, Frederico Ludovice, foi inaugurada em 1752.

Destaca-se das restantes capelas da igreja pela utilização, na sua decoração, de materiais de jaspe e bronze, de mosaico e mármore.

Em frente, um quadro a óleo mostra-nos o baptismo de Cristo por São João Baptista, o santo que pregava no deserto e comia gafanhotos. Vida bem austera a deste santo, em oposição a tamanha riqueza que agora o rodeia.

D. João V tinha muito dinheiro para gastar, como se conclui da resposta que deu quando lhe foram dizer que um carrilhão para o Convento de Mafra custava a astronómica quantia de quatrocentos mil réis: «Não pensava que era tão barato; quero dois».

Mas vale mesmo a pena visitar. A Igreja de São Roque, considerada um monumento impar no contexto da arquitectura portuguesa, foi classificada como Monumento Nacional em 1910.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Fernando Pessoa, o indisciplinador de almas

Visitei, hoje, a exposição FERNANDO PESSOA, PLURAL COMO O UNIVERSO, que ontem foi inaugurada na Fundação Calouste Gulbenkian. Dedicada a Fernando Pessoa e aos seus heterónimos, esta exposição pretende mostrar a multiplicidade da obra do poeta. Esta exposição reúne poemas, textos, documentos, fotografias e pintura.

Gostei de ver a primeira edição do livro Mensagem, com uma dedicatória escrita pelo poeta.

Gostei de ver uma folha de papel branco, que pertence ao espólio do poeta na Biblioteca Nacional de Portugal (BNP), onde Fernando Pessoa escreveu a frase: “ Sê plural como o universo!” Foi a partir desse manuscrito que nasceu o título FERNANDO PESSOA, PLURAL COMO O UNIVERSO, que, segundo os criadores, remete para a multiplicidade que conhecemos em Pessoa.

Gostei de ver os muitos poemas que nos são mostrados e que, de imediato, nos vêm à memória. “Nunca conheci quem tivesse levado porrada / Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo (…)”.

Gostei de ver uma instalação (à entrada e pendurado no tecto) feita com a mesa, a cadeira, a chávena de café, o chapéu de Pessoa, em projecção de vários elementos do famoso quadro de Almada Negreiros, Fernando Pessoa lendo Orpheu.

Gostei de ver, na sala seguinte, o quadro original, que pertence à colecção da Fundação Gulbenkian. Como se sabe, em 1964, por encomenda da Fundação Calouste Gulbenkian, Almada Negreiros realizou uma réplica do Retrato de Fernando Pessoa executado em 1954 para o restaurante Irmãos Unidos, estabelecimento de que era sócio Alfredo Pedro Guisado, colaborador da Orpheu.
Gostei de ver as muitas cartas lá expostas, os últimos poemas escritos por Fernando Pessoa e pelos heterónimos Ricardo Reis e Álvaro de Campos, o primeiro dos jornais fictícios de Pessoa, O Palrador, com notícias reais e fictícias, do caderno mais antigo de Pessoa (datado de 1901), onde ele registou algumas notas do liceu de Durban.

Não gostei de ver escrito num painel “cotidiano”, “ortônimo” e “desassocego”. As grafias das duas primeiras entendem-se, sabendo que a exposição foi criada originalmente para o Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, no Brasil; a terceira parece querer reproduzir a grafia antiga que Fernando Pessoa utilizou num escrito em 1913. Não obstante, face à discussão que por aí vai a propósito do Novo Acordo Ortográfico, era de evitar mais esta confusão. Confesso que fiquei desassossegado. 

Gostei de ver a célebre arca. Está lá um segurança, ninguém pode mexer, claro. Mas garanto a quem me lê (se há quem o faça) que a arca está mesmo vazia.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Meu país desgraçado

Assinalam-se, hoje, os 60 anos do desaparecimento do poeta da Arrábida, com 27 anos de idade, vítima de uma tuberculose que se declarara desde criança. Sebastião da Gama foi um exemplo de superação da oposição entre necessidade de empenhamento / liberdade de criação em que se debatia a poesia, marcada ainda pela polémica entre presencistas e neo-realistas.

Assim, à primeira vista, o título do poema ("Meu País Desgraçado"), que escolhemos, até se pode estranhar. Não, o poeta não aderiu às hostes do neo-realismo, apenas nos exorta a não cruzar os braços.


Meu País Desgraçado

Meu país desgraçado!...
E no entanto há Sol a cada canto
e não há Mar tão lindo noutro lado.
Nem há Céu mais alegre do que o nosso,
nem pássaros, nem águas ...

Meu país desgraçado!...
Por que fatal engano?
Que malévolos crimes
teus direitos de berço violaram?

Meu Povo
de cabeça pendida, mãos caídas,
de olhos sem fé
— busca, dentro de ti, fora de ti, aonde
a causa da miséria se te esconde.

E em nome dos direitos
que te deram a terra, o Sol, o Mar,
fere-a sem dó
com o lume do teu antigo olhar.

Alevanta-te, Povo!
Ah!, visses tu, nos olhos das mulheres,
a calada censura
que te reclama filhos mais robustos!

Povo anémico e triste,
meu Pedro Sem sem forças, sem haveres!
— olha a censura muda das mulheres!
Vai-te de novo ao Mar!
Reganha tuas barcas, tuas forças
e o direito de amar e fecundar
as que só por Amor te não desprezam!


Sebastião da Gama
Cabo da Boa Esperança
Lisboa, Edições Ática, 2000

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Dom Quixote

Tanto quanto sei, o Novo Acordo Ortográfico (NAO) foi aprovado e começou a ser aplicado em todas as comunicações de serviços ligados ao aparelho de Estado. Não percebo a ordem do Vasco Graça Moura. É uma atitude prepotente e estéril. Confesso que tenho uma grande admiração pela estatura intelectual de VGM, apesar de não concordar com esta sua cruzada quixotesca contra o NAO. Uma desilusão! A medida pode não ser ilegal, mas que anda lá perto, anda. Fico agora à espera da resposta do Sr. Secretário da Cultura que, ainda há dias, o ouvi dizer que os escritores, na sua actividade profissional, não estavam obrigados a seguir o NAO, mas essa obrigação é absolutamente imperativa quando no desempenho de um cargo dentro do aparelho do Estado. E agora, Sr. Secretário de Estado?

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

A cómoda

                     (Foto tirada  hoje na Casa Fernando Pessoa)

Esta é a cómoda a que Fernando Pessoa se refere na sua carta a Adolfo Casais Monteiro, datada de 13/01/1935.
...
Ano e meio, ou dois anos depois, lembrei-me um dia de fazer uma partida ao Sá-Carneiro – de inventar um poeta bucólico, de espécie complicada, e apresentar-lho, já me não lembro como, em qualquer espécie de realidade. Levei uns dias a elaborar o poeta mas nada consegui. Num dia em que finalmente desistira – foi em 8 de Março de 1914 – acerquei-me de uma cómoda alta, e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim. Abri com um título, O Guardador de Rebanhos. E o que se seguiu foi o aparecimento de alguém em mim, a quem dei desde logo o nome de Alberto Caeiro. Desculpe-me o absurdo da frase: aparecera em mim o meu mestre.
...

sábado, 28 de janeiro de 2012

Aniversário

28-Janeiro de 1980 (segunda). Aqui estou, pois, no guetto, até se cumprir um mês sobre o acidente. E para não haver grandes intervalos de escrita, aqui estou a escrever. Dá-se o caso, aliás, de cumprir hoje 64 anos. Sem comentários. Perdi no dia 4 uma boa oportunidade de não ter de fazer mais contas. Como é nova e viva esta sensação de que tudo está feito, de que é perfeitamente aceitável que a vida, os outros, nos excluam. Mas fiz 64. E curioso. E já agora talvez que venha a reflectir um pouco no que fui nesses 64. E a ideia mais forte que se me impõe (qual a que se impõe aos outros?) é a de que fui uma espécie de «falso», como se diz dos «falsos» da pintura. De um lado está o nosso ser que é normalmente, bons deuses, péssimo; e do outro o parecer, que já não é mau de todo. Entre os dois nos corre mais ou menos a vida. Ela é assim quase sempre velhacóide. Quanto a mim, deu-me pouco; e o pouco que me deu foi extremamente regateado. Oh, que a comédia acabe depressa, quero lá saber. Mas sem muita maçada, se não é muita maçada. São os votos que me faço no dia do aniversário.(…)

Vergílio Ferreira, Conta-Corrente 3

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Está caladinho, se queres ter trabalhinho

Confesso que, actualmente, oiço muito pouco Rádio. Apenas quando viajo de carro. Às quartas e às sextas, entre as nove e meia e as dez, aproveito uma curta viagem para estar ligado à Antena 1, propositadamente para ouvir, nesses dias, o jornalista e autor Pedro Rosa Mendes e o jornalista-viajante Gonçalo Cadilhe.

No passado dia 18 (quarta-feira), ouvi o Jornalista Pedro Rosa Mendes ler uma crónica muito dura contra o regime angolano e, de passagem, uma crítica feroz de subserviência a que se prestou a nossa RTP, o que aconteceu num programa de “Prós e Contras”.

Pensei, na altura, com os meus botões: que grande bomba! Não me admiro que a bomba rebente mesmo e alguém se aleije.

A bomba rebentou mesmo e fez vítimas, como tem sido abundantemente noticiado. Para além do jornalista Pedro Rosa Mendes, saem de cena os outros cronistas, incluindo o Gonçalo Cadilhe, que eu ouvia, com gosto, falar de viagens e livros.

Ontem, o Pedro Rosa Mendes falou ainda, no horário do costume, mas, penso, pela última vez. Falou de democracia e fez as necessárias despedidas.

A final, deixou um conselho: “Está caladinho, se queres ter trabalhinho”. Infelizmente, é verdade…

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

O centenário de Redol

Leio na Imprensa de hoje que as comemorações do centenário de nascimento de Alves Redol (1911-1969) culmina esta semana com a realização de um congresso internacional, que se inicia hoje na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e prossegue, amanhã e depois, no Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira, terra natal do autor de Gaibéus e Barranco de Cegos, livros que eu revisitei muito recentemente, sobretudo o segundo, do qual, curiosamente, falei aqui ontem.

Gaibéus foi o livro que lançou o neo-realismo na ficção portuguesa. «Este romance não pretende ficar na literatura como obra de arte», escreveu Alves Redol na primeira edição de 1939. «Quer ser, antes de tudo, um documentário humano fixado no Ribatejo».

Alves Redol procurou, depois, outro caminho para a sua narrativa, como forma de responder a críticos, inclusive, com os quais partilhava cumplicidades ideológicas, como Mário Dionísio ou Óscar Lopes, que censuraram a fragilidade estética das suas primeiras obras.

Nesta via, Barranco de Cegos, publicado em 1961, oito anos antes da sua morte, teve o reconhecimento unânime da crítica, como a sua melhor obra.

Esta evolução estilística deve ser creditada a favor do escritor. O compromisso pessoal de Redol com o PCP, de que se tornou militante nos anos 40, não impediu que “o seu projecto de vida tenha sido, desde o início, o de chegar à escrita, no sentido profundo do termo, o de chegar a literatura”, afirmou agora António Pedro Pita, director do Museu do Neo-Realismo.

Por mim, penso que o conseguiu, embora continue a julgar excessivo o destaque que o Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira, lhe dedica, como já tive oportunidade de o dizer aqui. É a minha opinião, mas Barranco de Cegos vale mesmo a pena ser lido.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Barranco de Cegos, de Alves Redol

Acabei de ler o Barranco de Cegos, de Alves Redol. As últimas 60 páginas do livro foram lidas, na madrugada do dia hoje, de supetão. O romance foi publicado em 1962, mas a história discorre sobre os últimos anos da Monarquia em Portugal. É considerada uma das melhores criações da carreira literária do autor, sendo também considerado um dos romances essenciais do Neo-Realismo português.

Narra a luta de um proprietário ribatejano, Diogo Relvas, contra a invasão das indústrias e dos interesses financeiros, num contexto de progressiva afirmação do capitalismo. O título do romance, Barranco de Cegos, retirado da epígrafe de S. Mateus ("Deixai-os; cegos são e condutores de cegos; e se um cego guia a outro cego, ambos vêm a cair no barranco") anuncia, no entanto, que esse combate se encontra, à partida, perdido.

O romance narra a caminhada inconsciente e irremediável da família Relvas e da Nação para o abismo de derrota e de morte, simbolizados, no último capítulo, no corpo embalsamado do velho Relvas que persiste em manter-se agarrado à vida. Cegos são os servos, criados e campinos oprimidos, comandados pelo cego, obstinado e autoritário, Diogo Relvas, ele também guiado por outros cegos, os políticos, o rei, correndo todos para um precipício. Vale a pena ler. Comparado com os Gaibéus, que li o ano passado, este é um livro bem mais consistente.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Pai-Nosso

Os moçárabes eram os cristãos que viviam na península ibérica durante o domínio árabe. Desenvolveram uma liturgia própria que prolongou a tradição suevo-visigótica.

Através deste vídeo, podemos aqui ouvir o canto do Pai-Nosso atribuído à tradição moçárabe, interpretado pelos monges de S. Domingo de Silos, Espanha.

sábado, 14 de janeiro de 2012

Um amigo de Pessoa

A propósito da génese dos heterónimos, foi o próprio Fernando Pessoa que, em carta de 13 de Janeiro de 1935, dirigida a Casais Monteiro, deixou escrito: “Ricardo Reis vive no Brasil desde 1919, pois se expatriou espontâneamente por ser monárquico”.

O poeta da Mensagem deixou-nos assim um enigma: o que aconteceu ao Ricardo Reis que partiu para o Brasil em 1919 e nunca mais voltou?

José Saramago veio ajudar na resolução deste enigma. O Ano da Morte de Ricardo Reis, de José Saramago, conta-nos a história de Ricardo Reis que regressa a Portugal depois de ser informado da morte de Fernando Pessoa. O livro começa em fins de 1935 e vai terminar nove meses depois com a “morte” de Ricardo Reis. No final do livro, Saramago põe na boca de Ricardo Reis: “deixo o mundo aliviado de um enigma”.

Faltava, porém, saber onde se havia Fernando Pessoa inspirado na criação do heterónimo Ricardo Reis.

O Jornal “Publico”, de ontem, trazia uma notícia curiosa sobre a existência de um amigo, até agora desconhecido, de Fernando Pessoa: Carlos Lobo de Oliveira (1895-1973), poeta e tradutor, cuja obra se iniciou em 1912, em revistas literárias como a “Águia”, estando a sua obra disponível no “site” dedicado ao seu espólio - http://www.carloslobooliveira.com/

Numa pasta deste arquivo foi encontrada uma carta de Pessoa, de 17 de Maio de 1928, para Carlos Lobo, que reza assim: “Meu querido Carlos: Só hoje recebi - hoje mesmo a haviam deixado no Café Arcada – a sua carta de 24 de Abril. Consegui arranjar-lhe 3 exemplares da “Athena” que contém o “Christmas Cake”….A minha morada perpetua é Apartado (ou Caixa Postal) 147, Lisboa. Um abraço do muito seu, Fernando Pessoa».

Sabe-se que Carlos Lobo, para fugir às sangrentas represálias decorrentes da sua participação no Movimento da Monarquia do Norte, emigrou para a Galiza e depois para o Brasil, onde viveu desde 1919 a 1924. Não deixa, assim, de ser curiosa, quiçá especulativa, a coincidência entre alguns aspectos da biografia de Carlos Lobo com o heterónimo de Fernando Pessoa, Ricardo Reis.

A relação de amizade entre Carlos Lobo e Fernando Pessoa pode muito bem ter inspirado a gestação de Ricardo Reis.

Se assim for, parece termos agora a história completa acerca deste heterónimo: Carlos Lobo foi a fonte inspiradora de Ricardo Reis; José Saramago marcou o ano e as circunstâncias da morte de Ricardo Reis.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Contos Tradicionais Portugueses: O caldo de pedra



O caldo de pedra

Um frade andava no peditório. Chegou à porta de um lavrador, mas não lhe quiseram aí dar nada.
O frade estava a cair de fome e disse:
- Vou ver se faço um caldinho de pedra.
E pegou numa pedra do chão, sacudiu-lhe a terra e pôs-se a olhar para ela, como para ver se era boa para um caldo.
A gente da casa pôs-se a rir do frade e daquela lembrança. Diz o frade:
- Então nunca comeram caldo de pedra? Só lhes digo que é uma coisa muito boa.
Responderam-lhe:
- Sempre queremos ver isso.
Foi o que o frade quis ouvir. Depois de ter lavado a pedra, pediu:
- Se me emprestassem aí um pucarinho...
Deram-lhe uma panela de barro. Ele encheu-a de água e deitou-lhe a pedra dentro.
- Agora, se me deixassem estar a panelinha aí, ao pé das brasas...
Deixaram. Assim que a panela começou a chiar, disse ele:
- Com um bocadinho de unto é que o caldo ficava a primor!
Foram-lhe buscar um pedaço de unto. Ferveu, ferveu, e a gente da casa pasmada com o que via.
O frade, provando o caldo:
- Está um nadinha insosso. Bem precisa duma pedrinha de sal.
Também lhe deram o sal. Temperou, provou e disse:
- Agora é que, com uns olhinhos de couve, ficava que até os anjos o comeriam.
A dona da casa foi à horta e trouxe-lhe duas couves. O frade limpou-as, ripou-as com os dedos e deitou as folhas na panela. Quando os olhos já estavam aferventados, arriscou:
- Ai! Um naquinho de chouriça é que lhe dava uma graça!...
Trouxeram-lhe um pedaço de chouriço. Ele pô-lo na panela e, enquanto se cozia, tirou do alforge pão e arranjou-se para comer com vagar. O caldo cheirava que era um regalo.
Comeu e lambeu o beiço.
Depois de despejada a panela, ficou a pedra no fundo.
A gente da casa, que estava com os olhos nele, perguntou-lhe:
- Ó senhor frade, então a pedra?
- A pedra... Lavo-a e levo-a comigo para outra vez.
E assim comeu onde não lhe queriam dar nada.

Teófilo Braga, in Contos Tradicionais Portugueses

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Foge, cão, que te fazem barão. Para onde? Se me fazem visconde

O Governo nomeou ontem o presidente da Câmara do Fundão, afecto ao PSD, Manuel Frexes, e o vice-presidente da Câmara do Porto, do CDS-PP, Álvaro Castello-Branco, para o conselho de administração das Águas de Portugal, situação que vem merecendo várias críticas, inclusive do PS (pasme-se!) que considera a situação «muito grave».

Recorde-se que, na semana passada, Eduardo Catroga, entre outros nomes, foram propostos para o conselho geral e de supervisão da EDP.

Se eu fosse militante de algum partido do Governo, saía da minha zona de conforto e emigrava o mais rapidamente possível, não fosse o Governo lembrar-se de mim para alguma cadeira dourada.

Almeida Garrett, se ainda fosse vivo, diria: “Foge, cão, que te fazem barão. Para onde? Se me fazem visconde”.

sábado, 7 de janeiro de 2012

Assumam-se!

Durante a minha vida, ouvi muitas vezes o seguinte diálogo:

- É católico?

- Sim, sou católico, mas não praticante.

Nos últimos dias, tenho ouvido, como nunca, este diálogo:

- É mação?

- Sim, sou mação, mas adormecido.

Assumam-se!

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

A estrela de Sophia de Mello Breyner Andresen

Quantas vezes procuramos fora de nós aquilo que está tão próximo! Quantas vezes procuramos longe o que está próximo!. Como também diz Sophia de Mello Breyner Andresen, neste lindo poema sobre a estrela que guiou os magos: “Quanto deserto / Atravessei para encontrar aquilo / que morava entre os homens e tão perto”.

A ESTRELA
Eu caminhei na noite
Entre silêncio e frio
Só uma estrela secreta me guiava

Grandes perigos na noite me apareceram
Da minha estrela julguei que eu a julgara
Verdadeira sendo ela só reflexo
De uma cidade a néon enfeitada

A minha solidão me pareceu coroa
Sinal de perfeição em minha fronte
Mas vi quando no vento me humilhava
Que a coroa que eu levava era de um ferro
Tão pesado que toda me dobrava

Do frio das montanhas eu pensei
«Minha pureza me cerca e me rodeia»
Porém meu pensamento apodreceu
E a pureza das coisas cintilava
E eu vi que a limpidez não era eu

E a fraqueza da carne e a miragem do espírito
Em monstruosa voz se transformaram
Disse às pedras do monte que falassem
Mas elas como pedras se calaram
Sozinha me vi delirante e perdida
E uma estrela serena me espantava

E eu caminhei na noite minha sombra
De desmedidos gestos me cercava
Silêncio e medo
Nos confins desolados caminhavam
Então eu vi chegar ao meu encontro
Aqueles que uma estrela iluminava

E assim eles disseram: «Vem connosco
Se também vens seguindo aquela estrela»
Então soube que a estrela que eu seguia
Era real e não imaginada

Grandes noites redondas nos cercaram
Grandes brumas miragens nos mostraram
Grandes silêncios de ecos vagabundos
Em direcções distantes nos chamaram

E a sombra dos três homens sobre a terra
Ao lado dos meus passos caminhava
E eu espantada vi que aquela estrela
Para a cidade dos homens nos guiava

E a estrela do céu parou em cima
De uma rua sem cor e sem beleza
Onde a luz tinha a cor que tem a cinza
Longe do verde azul da natureza

Ali não vi as coisas que eu amava
Nem o brilho do sol nem o da água

Ao lado do hospital e da prisão
Entre o agiota e o templo profanado
Onde a rua é mais triste e mais sozinha
E onde tudo parece abandonado
Um lugar pela estrela foi marcado

Nesse lugar pensei: «Quanto deserto
Atravessei para encontrar aquilo
Que morava entre os homens e tão perto
»


Sophia de Mello Breyner Andresen

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

As lojas maçonicas e as lojas do Pingo Doce

"— Todos somos réus - comentou o Pereira Saldanha, ao introduzir um pedaço de rapé nas ventas.
— Não estou de acordo — gritou Zé Botto, tentando desembaraçar o corpo pesado dos braços do cadeirão — Réus, como?!. Para mim, e há muito boa gente da mesma opinião, todo o mal comeu com a revolta do Porto. A revolta republicana meteu medo às pessoas de bem. Eu sei de alguns que puseram o seu dinheiro lá foraEm Paris e em Londres. Devem ter desaparecido fortunas nessa altura. E ainda estão a escapar-se...
— Esses são os cobardes de sempre! — observou João Vitorino - São os mesmos que põem o dinheiro a salvo e encetam conversas, às escondidas, com os mações e os carbonários.
—Mas será tudo?! —perguntou Diogo Relvas do fundo da sala… — Ao que julgo, há uma soma de acontecimentos. A independência do Brasil…
— As lutas liberais — objectou alguém.
— Eu insisto: a independência do Brasil, às aventuras coloniais, agora a implantação da república brasileira, o ultimato, a revolução do Porto... e a falência do Baring Brothers ou lá o que é".

Alves Redol, in Barranco de Cegos

Este romance foi escrito em 1962 e é considerado por muitos a melhor obra de Alves Redol. A narrativa começa à volta do ultimato britânico em 1890 e do colapso financeiro em 1891.

Nestes dias, tem-se falado muito em lojas maçónicas e nas lojas da família Alexandre Soares dos Santos.

Nem de propósito, este excerto do livro que comecei agora a ler...

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Jerusalém, de Gonçalo M.Tavares

Acabei de ler o romance Jerusalém, de Gonçalo M. Tavares. É um romance negro, como parece avisar, desde logo, a cor da capa do livro. O autor leva-nos a mergulhar no mais profundo da mente humana, no que ela tem de mais terrível. Mas, a cor da capa não é um mero acaso. É o próprio autor que o confessa: “São livros pretos, no sentido de uma certa dureza, e de um certo desencanto. Com certos livros tento interferir na existência das pessoas ou pelo menos na forma de se pensar sobre certos acontecimentos. O meu instinto primário foi escrever romances para tentar perceber o mal, como é que ele surge, em que situações se manifestam. Sou um escritor pós-Auschwitz. Tenho consciência do que aconteceu”.

A acção principal desenrola-se no dia 29 de Maio, de um qualquer ano, entre as 4 da manhã e até o dia parecer estar a amanhecer, algures em ruas sombrias perto de uma igreja de uma qualquer cidade alemã, para onde convergem, irresistivelmente, as personagens principais.

A restante narrativa serve apenas para, através de analepses, dar a conhecer ao leitor a história e o perfil das várias personagens. Falemos das principais.

Theodor Busbeck é um reputado médico e investigador, ex-marido de Mylia Busbeck. Theodor desenvolveu, ao longo dos anos, um estudo que permitisse estabelecer uma relação entre o horror e o tempo. Pretendia encontrar uma fórmula que permitisse não só prever, mas, sobretudo, agir. Ansiava, por essa via, salvar indivíduos que nunca chegaria a conhecer. Finalmente, publicou a investigação que preenchera a sua cabeça ao longo de décadas: cinco grossos volumes de mais de oitocentas páginas cada um. “O terror ainda não terminou”, repetia Theodor, “nos próximos séculos muitas populações serão massacradas”, vêm aí “vários milhões de mortos”, escreveu. Apresentou ainda, no seu estudo, uma tabela onde enunciava os povos que nos próximos séculos seriam alvo de massacres e os povos que seriam responsáveis por massacrar populações indefesas. O estudo não foi bem recebido. Houve até um crítico que o aconselhou a internar-se, seguindo, aliás, o conselho que ele próprio dava aos seus doentes. Só assim, dizia o crítico, recuperaria o bom senso e a boa racionalidade. Na noite do dia 29 de Maio, Theodor, pelas três da manhã,  saiu para a rua à procura de uma prostituta. Ganhara o vício de frequentar aquele tipo de locais. Encontrou Hanna, mulher que o fascinou fisicamente e lhe abriu a porta do quarto da pensão.

Mylia Busbeck foi casada com o médico Theodor. Começou por ser sua doente quando ela tinha apenas dezoito anos. “A nossa filha não tem saúde” foi a primeira frase que Theodor ouviu sobre Mylia. Com o agravar da doença, Theodor decidiu, no oitavo ano em que viviam juntos, internar a esposa no Hospício Georg Rosenberg, o mais conceituado na cidade. Aqui, Mýlia veio a conhecer Ernst Spengler, outro internado. Desta relação, vai nascer um rapaz a quem vai ser dado o nome de Kaas. O rapaz, porém, vai ser adoptado por Theodor, o qual, a seguir, pede o divórcio de Mylia. Mais tarde, os dois saem do hospício, mas vive cada um em sua casa. Na noite de 29 de Maio, Mylia, às quatro da manhã, estava na rua à procura da igreja, que encontra fechada. Sente-se muito mal e telefona a Ernst a pedir ajuda. Quando este atende, Mylia desmaia.

Ernst Spengler, esquizofrénico, fez um filho a Mylia quando ambos estiveram internados no Hospício Georg Rosenberg. Na noite de 29 de Maio, Ernest estava sozinho no seu sótão, já com a janela aberta, preparado para se atirar quando, subitamente, o telefone tocou. Era Mylia a pedir auxílio. Saiu de casa, seriam talvez quatro, cinco da manhã. À medida que corria, gritava alto por Mylia. Mas, não obstante o seu andar desajeitado, chegou ao pé do corpo deitado. Agarrou-se a ele. Era o corpo de Mylia.

Kaas Busbeck é o filho de Mylia e Ernest, mas vive na casa de Theodor que o adoptou e se encarregou da sua educação. A sua perna direita arrastava-se cada vez mais pelo chão. Era a sua parte fraca, juntamente a sua forma de falar enrolada. Na noite de 29 de Maio, Kaas acordou e olhou para o relógio: três e cinquenta. Aproximou-se do quarto do seu pai, mas surpresa: estava vazio. O pai tinha saído. Kaas não gostou, ficou mesmo zangado com o pai. Uma cobardia, pensou. Resolveu ir à cidade à procura do pai. Deambulou pela noite e estava já a abrandar, ainda longe das ruas centrais da cidade, quando com ele se cruzou um homem. Esse homem era Hinnerk.

Hanna, a prostituta, não pintava as pálpebras de cor roxas para ser amada, mas sim para que a solidão de um homem visse ali uma interrupção exuberante. Hanna tinha um amigo, Hinnerk, ex-combatente. Na noite de 29 de Maio, Hanna estava na pensão com mais seis mulheres. “Vou sair”, disse, “São três da manhã, se não chegar até às seis é porque alguém me matou”. E dando uma risada, bateu com a porta. Saiu para passar por casa de Hinnerk, antes de ir procurar um cliente. Não encontrou Hinnerk em casa, mas Theodor veio ao seu encontro, cheio de excitação.

Hinnerk, ex-combatente, guardava para si dois objectos: uma arma e uma sensação constante de medo. “Tem cara de assassino” e “vem aí o homem” era o murmúrio que ouvia com frequência ao passar na rua. Baixava a cabeça para não ouvir. A única mulher que frequentava a sua casa era Hanna. Esta levava-lhe parte do dinheiro que ganhava na prostituição. Na noite de 29 de Maio, passava um pouco das três e meia da manhã quando Hanna tocou à porta de Hinnerk (este nunca lhe passara a chave para a mão). Tocou várias vezes, ninguém atendeu. Hinnerk havia saído, com a sua arma colocada, como sempre, entre as calças e a barriga. Naquela noite, Hinnerk procurava algo e não tinha medo. Avançava já nas imediações da igreja, sob os candeeiros da cidade, quando se cruzou com Kaas. O rapaz de doze anos, deficiente, que procurava o pai, assustou-se com a figura de Hinnerk. Este agarrou-o com força e atirou-o ao chão. Kaas ainda tentou gritar.

Noite de 29 de Maio, quatro e meia da manhã: Hinnerk acaba de sair de uma pequena ruela onde agora esta estendido o corpo de um rapaz, Kaas Busbeck. Hinnerk encontra Ernst que ajuda Mylia que desmaiara junto a uma cabine telefónica. Hinnerk oferece ajuda aos pais do rapazinho que acabara de matar. Com a ajuda, sobretudo, de Hinnerk, Mylia é levada para um banco do jardim. Hinnerk levantou a camisa e tirou a arma das calças que exibiu num tom nada agressivo. Apesar disso, Ernest e Mylia assustaram-se. Mýlia pega na arma, virou-se na direcção de Hinnerk e perguntou: “E se eu disparar?”.Dispare!”, respondeu Hinnerk, divertido. Passado algum tempo, Mylia está fechada na cela de um hopistal-prisão. Ela fora condenada por “assassínio de um indivíduo adulto de nome Hinnerk Obst na noite de 28 de Maio do ano…”. Na mesma noite o seu filho, Kaas, havia sido assassinado de forma violenta. O assassino nunca fora identificado.

Mas, o autor, a final, surpreende-nos: a história da morte de Hinnerk precisa de ser mais bem contada. Voltando um pouco atrás, Mýlia, que havia sido incentivada a disparar, riu-se e baixou a arma. Ernest, a seu lado, pegou nela. Brinque com ela, disse Hinnerk. A conversa prosseguiu, até que, de repente, um estrondo rebenta com a cabeça de Hinnerk. Ernest está com a pistola na mão, a tremer: a bala saiu. “Que fizeste estúpido!”, diz Mylia. Mataste o homem. Mylia grita. Ernst foge o mais rápido possível daquele local. Mylia cala-se, a arma está no chão. Ernst já desapareceu. Mylia fica na mesma posição durante largos minutos até que se dobra e pega na arma. Caminha em direcção à porta da igreja. Ainda é noite, mas uma breve claridade começa, algures, a surgir. O dia parece estar a amanhecer, Mylia sente-se desmaiar, mas resiste. Finalmente, alguém se aproxima, vindo de dentro da igreja. Mýlia tem de falar para quem está dentro da igreja. Ganha forças e grita: “Matei um homem. Deixam-me entrar?” .

Jerusalém apresenta-nos personagens dilaceradas que se cruzam, se entrelaçam, se movimentam, por vezes se amam e, quase sempre, se magoam na noite de uma fria e emblemática cidade, supostamente, alemã.

A personagem do médico Theodor afigura-se-nos a mais complexa de todas. Ele próprio se considera uma espécie de Deus.Sob a capa do altruísmo e da dedicação para com a humanidade, Theodor mal disfarça seus sentimentos mais obscuros. Ele procura sempre separar com clareza os loucos e "doentes da cabeça" dos "homens saudáveis", os normais. Gaba-se da capacidade de "perceber os loucos". Donde, acha que a melhor solução é interná-los. Foi o que fez com a sua mulher.

Esta filosofia de que em mundo insano quem é são é louco remonta à clássica novela de Machado de Assis, O Alienista. Gonçalo M. Tavares não traz em si, porém, o sarcasmo aberto e corrosivo de Machado. Seu humor lembra mais o de Kafka: lúgubre e melancólico. Gonçalo assemelha-se ao autor checo também pela sua prosa lacónica e enxuta.

No final da leitura, restam dois enigmas para mim indecifráveis:
O primeiro, a data de 29 de Maio tem algum significado? A “Noite dos Cristais” é uma data conhecida pelos actos de violência que ocorreram em diversos locais da Alemanha e da Áustria, então sob o domínio nazi, com destruição de sinagogas, de lojas, de habitações e de agressões contra as pessoas identificadas como judias. Mas, isso aconteceu na noite de 9 de Novembro (de 1938);
o segundo, o título do livro. “Jerusalém” porquê?. «Jerusalém» é nome da cidade símbolo da encruzilhada de civilizações e de religiões. Será que o autor nos apresenta essa mítica cidade como símbolo dos caminhos obscuros que a mente humana pode percorrer?

Aqui ficam estes dois enigmas. Pode ser que, algum dia, eu venha a conhecer a resposta.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Lamego


Uma voz amiga faz o favor de me lembrar datas “importantes” da nossa vida militar em comum. Passam hoje 40 anos sobre a minha ida para Lamego, para frequentar o 2º Ciclo do C.O.M.. Os meus camaradas ficaram em Mafra, mas a mim (lá viram que tinha bom corpo para amochar), deram-me guia de marcha para os Rangers, em Lamego.
A minha viagem até Lamego, há quarenta anos, é inesquecível. Nesse longínquo dia 3 de Janeiro de 1971, apanhei um comboio às 7h, 30m com destino à cidade da Guarda, onde era suposto apanhar um autocarro por volta das 15h,30m, para chegar a Lamego às 17h. Este era o plano de viagem estabelecido, em face dos transportes disponíveis ao tempo. Acontece que na noite anterior caiu um grande nevão em toda a zona centro do país. Chegado à Guarda, os autocarros estavam impedidos de circular, donde a solução foi prosseguir a viagem de comboio até à Régua (estação mais próxima de Lamego), com passagem por Coimbra e Porto. Cheguei a Lamego por volta das 22h, pelo que, face ao adiantado da hora, já não me apresentei no quartel. Procurei, eu e mais uns tantos camaradas que haviam passado pelos mesmos contratempos, uma pensão para passar a noite. Já não me lembro da ementa do jantar, mas lembro-me que comi, nessa noite, uns pedacinhos de presunto como nunca comera na minha vida. Hoje, à distância de 40 anos, não sei se o presunto seria assim tão bom. Eu sentia-me o homem mais desgraçado,  mas o sabor dele encheu-me a alma e fez com que houvesse ainda mundo à minha volta...

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Há dois dias, o jornal “Público” trazia a notícia da adaptação cinematográfica, por Luchino Visconti, de dois livros de Fiódor Dostoiévski. Um deles é “Noites Brancas”, escrito em 1848, um ano antes da sua prisão na Sibéria.

Li este livro há já alguns anos. Narra a história de um homem, sem nome, que vagueia pela noite branca (um fenómeno comum na Europa quando o Sol não chega a pôr-se completamente à noite) de São Petersburgo. A sua solidão é preenchida quando se apaixona por Nastrienka, uma mulher que espera por um antigo amor.

O filme existe agora em DVD, o que aguça a minha curiosidade. Por regra, nem sempre um bom livro dá um bom filme. Vamos ver, mas palpita-me que sim.