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sexta-feira, 12 de abril de 2013

Parque dos Poetas, em Oeiras (13)


Parque dos Poetas, em Oeiras, 21 de Março de 2013, no Dia Mundial da Poesia. 
A nossa querida Profª Feliciana Caleiro, junto à estátua de Vitorino Nemésio, diz um poema do poeta e do autor do “Mau Tempo no Canal” 


Prece 

Meu Deus, aqui me tens aflito e retirado,
Como quem deixa à porta o saco para o pão.
Enche-o do que quiseres. Estou firme e preparado.
O que for, assim seja, à tua mão.
Tua vontade se faça, a minha não.

Senhor, abre ainda mais meu lado ardente,
Do flanco de teu Filho copiado.
Corre água, tempo e pus no sangue quente:
Outro bem não me é dado.
Tudo e sempre assim seja,
E não o que a alma tíbia só deseja.

Se te pedir piedade, dá-me lume a comer,
Que com pontas de fogo o pobre se adormenta.
O teu perdão de Pai ainda não pode ser,

Mas lembra-te que é fraca a alma que aguenta.
Se é possível, desvia o fel do vaso.
Se não é, beberei. Não faças caso. 


Vitorino Nemésio (1901-1978)

António Gedeão e as palavras cruzadas


Cristina Carvalho, a filha do poeta António Gedeão, confidencia-nos que o pai gostava muito de fazer Palavras Cruzadas. Escreve ela: 

«Rómulo Vasco da Gama Carvalho gostava muito de fazer palavras cruzadas, daquelas sem quadradinhos pretos e também das outras. 

Gostava também de hieróglifos comprimidos. Deve ter sido das primeiras coisas que me ensinou. A fazer palavras cruzadas. 

Tinha sempre na carteira de bolso um ou dois recortes do jornal Diário de Notícias ou do Diário de Lisboa com as tais palavras cruzadas. Toda a vida vi-o a fazer isto. Era quase como um comprimido para o cérebro. Dizia ele que era um óptimo exercício cerebral!» 

Cristina Carvalho, in Rómulo de Carvalho/António Gedeão - Príncipe Perfeito

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Parque dos Poetas, em Oeiras (12)


Parque dos Poetas, em Oeiras, 21 de Março de 2013, no Dia Mundial da Poesia. 
A nossa querida Júlia Malhoa, junto à estátua de Camilo Pessanha, diz um poema do poeta da “Clepsidra”. 


Floriram por engano as rosas bravas

Floriram por engano as rosas bravas
No Inverno: veio o vento desfolhá-las...
Em que cismas, meu bem? Por que me calas
As vozes com que há pouco me enganavas?


Castelos doidos! Tão cedo caístes!...
Onde vamos, alheio pensamento,
De mãos dadas? Teus olhos, que um momento
Perscrutaram nos meus, como vão tristes!

E sobre nós cai nupcial a neve,
Surda, em triunfo, pétalas, de leve
Juncando o chão, na acrópole de gelos...

Em redor do teu vulto é como um véu!
Quem as esparze – quanta flor! – do céu
Sobre nós dois, sobre os nossos cabelos?


Camilo Pessanha (1867-1926)

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Um livro intermitente


Li as “As Intermitências da Morte”, de José Saramago, em 2005, ano da publicação deste romance. Revisitei-o, agora, por razões do plano de leituras do meu Grupo de Leitura. 

Não mudei muito a opinião com que ficara. Está aquém dos 3 livros do José Saramago (o que é uma honra que lhe concedo) que eu coloco no meu “Top Ten”: “Levantado do Chão”, “Memorial do Convento” e “O Ano da Morte de Ricardo Reis”. Já o afirmei várias vezes e não me canso de o dizer. 

Este “As Intermitências da Morte” fala-nos da vida, da morte, do amor e do sentido (ou da falta dele) na nossa existência. O estilo é o conhecido. Saramago privilegia a oralidade. É irónico e sarcástico. Como não podia deixar de ser, aproveita para atacar a Igreja Católica. “Sem morte não há ressurreição, e sem ressurreição não há igreja”, diz Saramago a pág. 20. 

A obra, para mim, tem duas partes muito distintas. 

A primeira, é a intermitência da morte, quando ninguém mais morre naquele país. A morte entra em greve. O narrador aproveita para relatar as reacções do Governo, da Igreja Católica, dos repórteres, dos filósofos, dos economistas, das farmácias, dos lares de idosos, das Seguradoras, dos familiares com moribundos em casa. Esta parte termina com o fim da greve. Voltam os humanos a morrer, sendo que, agoara, o anúncio da morte é feito através de uma carta de cor violeta. 

A segunda, inicia-se com a devolução ao remetente (a morte) da carta enviada a um músico, um violoncelista. A partir daqui tudo se transforma. A narração ocupa-se somente com duas personagens (a morte e o músico). A morte é humanizada. A morte transfigura-se numa mulher! E esta mulher apaixona-se pelo músico! É deliciosa a forma como o narrador aborda a personificação da morte e a necessidade que esta sente de ser amada! A música e o amor vencem a morte!

A primeira parte é a sombra; a segunda, é a luz. Um livro intermitente. E todavia merece ser lido…

Parque dos Poetas, em Oeiras (11)

Parque dos Poetas, em Oeiras, 21 de Março de 2013, no Dia Mundial da Poesia. 
Ainda junto à estátua da poetisa Florbela Espanca, é a minha vez de dizer o poema 


ALMA PERDIDA 

Toda a noite o rouxinol chorou,
Gemeu, rezou, gritou perdidamente!
Alma de rouxinol, alma da gente,
Tu és talvez alguém que se finou!

Tu és, talvez, um sonho que passou,
Que se fundiu na dor, suavemente...
Talvez sejas a alma, a alma doente
Dalguém que quis amar e nunca amou!

Toda a noite choraste e eu chorei
Talvez porque, ao ouvir-te, adivinhei
Que ninguém é mais triste do que nós!

Contaste tanta coisa à noite calma,
Que eu pensei que tu eras a minh’alma
Que chorasse perdida em tua voz!...


Florbela Espanca (1894-1930)

terça-feira, 9 de abril de 2013

Parque dos Poetas, em Oeiras (10)


Parque dos Poetas, em Oeiras, 21 de Março de 2013, no Dia Mundial da Poesia. 
A nossa querida Noémia, junto à estátua da poetisa Florbela Espanca, diz o poema 

Ser poeta

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Áquem e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!



Florbela Espanca (1894-1930)

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Parque dos poetas, em Oeiras (9)

Parque dos Poetas, em Oeiras, 21 de Março de 2013, no Dia Mundial da Poesia. 
A nossa querida Maria Eugénia, a decano do Grupo, junto à estátua do poeta Teixeira de Pascoaes, diz um excerto do poema 


Elegia do Amor


Lembras-te, meu amor,
Das tardes outonais,
Em que íamos os dois,
Sozinhos, passear,
Para fora do povo
Alegre e dos casais,
Onde só Deus pudesse
Ouvir-nos conversar?
Tu levavas, na mão,
Um lírio enamorado,
E davas-me o teu braço;
E eu triste, meditava
Na vida, em Deus, em ti...
E, além, o sol doirado
Morria, conhecendo
A noite que deixava.
Harmonias astrais
Beijavam teus ouvidos;
Um crepúsculo terno
E doce diluía,
Na sombra, o teu perfil
E os montes doloridos...
Erravam, pelo Azul,
Canções do fim do dia.
Canções que, de tão longe,
O vento vagabundo
Trazia, na memória...
Assim o que partiu
Em frágil caravela,
E andou por todo o mundo,
Traz, no seu coração,
A imagem do que viu.
Olhavas para mim,
Às vezes, distraída,
Como quem olha o mar,
À tarde, dos rochedos...
E eu ficava a sonhar,
Qual névoa adormecida,
Quando o vento também
Dorme nos arvoredos.
Olhavas para mim...
Meu corpo rude e bruto
Vibrava, como a onda
A alar-se em nevoeiro.
Olhavas, descuidada
E triste...
Ainda hoje te escuto
A música ideal
Do teu olhar primeiro!
Ouço bem a tua voz,
Vejo melhor teu rosto
No silêncio sem fim,
N a escuridão completa!
Ouço-te em minha dor,
Ouço-te em meu desgosto
E na minha esperança
Eterna de poeta!

II 
O sol morria, ao longe;
E a sombra da tristeza
Velava, com amor,
Nossas doridas frontes.
Hora em que a flor medita
E a pedra chora e reza,
E desmaiam de mágoa
As cristalinas fontes.
Hora santa e perfeita,
Em que íamos, sozinhos,
Felizes, através
Da aldeia muda e calma,
Mãos dadas, a sonhar,
Ao longo dos caminhos...
Tudo, em volta de nós,
Tinha um aspecto de alma.
Tudo era sentimento,
Amor e piedade.
A folha que tombava
Era alma que subia...
E, sob os nossos pés,
A terra era saudade,
A pedra comoção
E o pó melancolia.
Falavas duma estrela
E deste bosque em flor;
Dos ceguinhos sem pão,
Dos pobres sem um manto.
Em cada tua palavra,
Havia etérea dor;
Por isso, a tua voz
Me impressionava tanto!
E punha-me a cismar
Que eras tão boa e pura,
Que, muito em breve - sim! -,
Te chamaria o céu!
E soluçava, ao ver-te
Alguma sombra escura,
Na fronte, que o luar
Cobria, como um véu.
A tua palidez
Que medo me causava!
Teu corpo fino
E leve (oh meu desgosto!)
Que eu tremia, ao sentir
O vento que passava!
Caía-me, na alma,
A neve do teu rosto.
Como eu ficava mudo
E triste, sobre a terra!
E uma vez, quando a noite
Amortalhava a aldeia,
Tu gritaste, de susto,
Olhando para a serra:-
Que incêndio! -
E eu, a rir,
Disse-te: - É a lua cheia!...

III 
E sorriste também
Do teu engano.
A lua
Ergueu a branca fronte,
Acima dos pinhais,
Tão ébria de esplendor,
Tão casta e irmã da tua,
Que eu beijei, sem querer,
Seus raios virginais.
E a lua, para nós,
Os braços estendeu.
Uniu-nos num abraço,
Espiritual, profundo;
E levou-nos assim,
Com ela, até ao céu...
Mas, ai, tu não voltaste
E eu regressei ao mundo. (...) 


Teixeira de Pascoaes

domingo, 7 de abril de 2013

Parque dos Poetas, em Oeiras (8)


Parque dos Poetas, em Oeiras, 21 de Março de 2013, no Dia Mundial da Poesia. 
A minha amiga Isabel Soromenho, junto à estátua do poeta Jorge de Sena, diz o poema 

Uma pequenina luz bruxuleante

Uma pequenina luz bruxuleante
não na distância brilhando no extremo da estrada
aqui no meio de nós e a multidão em volta
une toute petite lumiére
just a little light
una piccola…em todas as línguas do mundo
uma pequena luz bruxuleante
brilhando incerta mas brilhando
aqui no meio de nós
entre o bafo quente da multidão
a ventania dos cerros e a brisa dos mares
e o sopro azedo dos que a não vêem
só a advinham e raivosamente assopram.
Uma pequena luz
que vacila exacta
que bruxuleia firme
que não ilumina apenas brilha.
Chamaram-lhe voz ouviram-na e é muda.
Muda como a exactidão como a firmeza
como a justiça
Brilhando indefectível.
Silenciosa não crepita
não consome não custa dinheiro.
Não aquece também os que de frio se juntam.
Não ilumina também os rostos que se curvam.
Apenas brilha bruxuleia ondeia
Indefectível próxima dourada.
Tudo é incerto ou falso ou violento: brilha.
Tudo é terror vaidade orgulho teimosia: brilha.
Tudo é pensamento realidade sensação saber: brilha.
Tudo é treva ou claridade contra a mesma treva: brilha.
Desde sempre ou desde nunca para sempre ou não:
brilha.
Uma pequenina luz bruxuleante e muda
Como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Apenas como elas.
Mas brilha.
Não na distância. Aqui
No meio de nós.
Brilha.


Jorge de Sena, in FIDELIDADE, 1958

sábado, 6 de abril de 2013

Parque dos Poetas, em Oeiras (7)



Parque dos Poetas, em Oeiras, dia 21 de Março de 2013, Dia Mundial da Poesia. 
O meu amigo José Carlos Beltrão, junto à estátua da poetisa Sophia de Mello Breyner, diz o poema 

Ausência 

Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua

Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.

Sophia de Mello Breyner Andresen

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Parque dos Poetas, em Oeiras (6)


Parque dos Poetas, em Oeiras, dia 21 de Março de 2013, Dia Mundial da Poesia. 
A nossa estimada Profª Feliciana Caleiro, junto à estátua do poeta Carlos Oliveira, diz um excerto do poema (apenas nº 3) 


XÁCARA DAS BRUXAS DANÇANDO 

1. 

Era outrora um conde
que fez um país,
com sangue de moiro,
com laranjas de oiro,
como a sorte quis.

Há bruxas que dançam
quando a noite dança,
são unhas de nojo,
são bicos de tojo,
no tambor da esperança.

Ventos sem destino
que dizeis às ramas?
Desgraça bramindo
é a nós que chamas.

No país que outrora
um conde teceu
com laranjas de oiro,
com sangue de moiro,
tudo apodreceu.

Anda o sol de costas
e as bruxas dançando
e os ventos do norte
sobre nós espalhando
as tranças de morte.

As estrelas mortas
apagam-se aos molhos:
vem, lume perdido,
florir-nos os olhos.

2.
Ama, estarás ouvindo
a história que vou contando?
Ó ama pátria dormindo
desde quando?

Desde tempos e memórias,
desde lágrimas e histórias,
desde cóleras e glórias,
agora te estou chorando
e tu dormindo
até quando?

As bruxas andam lá fora
e eu chorando
versos do país de outrora.

Dançam bruxas a ganir
de mãos dadas com o vento.
Ama, acorda; sopra o lume;
e não me deixes dormir
na noite do pensamento.

3.
Ó castelos moiros
armas e tesoiros,
quem vos escondeu?
Ó laranjas de oiro,
que vento de agoiro
vos apodreceu?

Há choros, ganidos,
à luz da caverna
onde as bruxas moram,
onde as bruxas dançam
quando os mochos amam
e as pedras choram.

Caravelas, caravelas,
mortas sob as estrelas
como candeias sem luz;
e os padres da inquisição
fazendo dos vossos mastros
os braços da nossa cruz.

As bruxas dançam de roda
entre o visco dos morcegos,
dançam de roda, de rojo,
dançam voando, rasgando
a noite morta do povo
com as unhas, bicos de tojo.


4.
E o tempo murchando
a luz de idos loiros.
Ama, até quando
estaremos chorando
os castelos moiros?

Lá vão naus da Índia,
lá se vão tesoiros.
E as bruxas dançando
e os ventos secando
as laranjas de oiro.

Ama, até quando?

Na noite das bruxas
o lume no fim
e o vento ganindo.

Ama, estarás ouvindo?

O lume no fim
e os homens dispersos.

Ama, tens frio;
cinge-te a mim
e aquece-te ao lume
queimando os meus versos.


Carlos de Oliveira

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Parque dos Poetas, em Oeiras (5)


Parque dos Poetas, em Oeiras, dia 21 de Março de 2013, Dia Mundial da Poesia. 
Nesta peregrinação pelo parque, foi a minha vez, ainda junto à estátua do poeta Fernando Pessoa (ele merece), dizer o poema conhecido com o título


Poema em Linha Recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,

Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenha calado, tenho sido mais ridículo ainda;

Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenha agachado,
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?

Ó príncipes, meus irmãos,


Arre estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Arre estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?


Álvaro de Campos
(Heterónimo de Fernando Pessoa)

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Parque dos Poetas, em Oeiras (4)


Parque dos Poetas, em Oeiras, dia 21 de Março de 2013, Dia Mundial da Poesia. 
O meu amigo Carlos Malhoa, junto à estátua do poeta Fernando Pessoa, diz o poema 

Aniversário

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas
lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...


Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...


Fernando Pessoa
(Álvaro de Campos)

terça-feira, 2 de abril de 2013

Parque dos Poetas, em Oeiras (3)


Parque dos Poetas, em Oeiras, dia 21 de Março de 2013, Dia Mundial da Poesia. 

A D.Maria Eugénia, a nossa querida decano do Grupo de Leitura, junto à estátua do poeta Alexandre O´Neill, diz o poema 

A uma oliveira

Muito antes de Os Lusíadas diz-se que já aqui estavas.
Pré-camoniana,
sazão a sazão,
foste varejada séculos a fio.

O pinho viajou.
tu ficaste.

Ao som bárbaro de um rádio de pilhas,
desdobram toalhas
na tua sombra rala.



Alexandre O'Neill (1924-1986)

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Palavras Cruzadas com História

Como já disse aqui, abundantemente, eu e os meus amigos do Grupo de Leitura estivemos no Parque dos Poetas, em Oeiras, no dia 21 de Março de 2013, Dia Mundial da Poesia.

A visita aos nossos poetas obriga-nos, agora,  a resolução deste problema de Palavras Cruzadas.  No final, descobrimos, na oblíqua, o nome de um poeta do Século XX. Quem é?  

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HORIZONTAIS: 1 – Momice; Lutar pela vida. 2 – Acredita; Parte do pão recoberta pela côdea. 3 – Anel de metal ou madeira; Existes. 4 – Espécie de sapo existente na região do Amazonas; Pata; Corroa. 5 – Governanta; Impregnais. 6 – Apêndice filiforme. 7 – Negro; Contracção do pronome pessoal “me” + o pronome demonstrativo “o”. 8Open-Buying on the Internet [sigla]; Observatório Astronómico de Lisboa [sigla]; Região Autónoma [sigla]. 9 – Nota musical; Mecanismo automático, por vezes com a configuração de um ser humano, capaz de fazer movimentos e executar certos trabalhos em substituição do homem [pl.]. 10 – Untar com óleo; Instituto das Estradas de Portugal [sigla]. 11 – Cavalo de pequena estatura e/ou magro [pl.]; Sensação de azedume no estômago.

VERTICAIS: 1 Movimento das Forças Armadas [sigla]; (…) Violante do Céu, nome de uma poetisa portuguesa do Séc. XVII. 2 – Muito ouro; Ruy (…), poeta português do Séc. XX. 3 – Descarnada; Grito de dor ou alegria; European Community [sigla]. 4 – Conjunção que exprime alternativa; Foot [abrev.]; Desaba. 5 – Artigo definido “o” [arcaico]; Peixe teleósteo, comestível, de corpo fino, longo e cilíndrico, da família dos Murenídeos, muito frequente em Portugal, também conhecido por eiró; Rádon [simb. químico]. 6 – Bater com pilão. 7 – A unidade; Eternidade; Logaritmo [simb.]. 8 – Escarneço; Patrão. 9 - Contracção da preposição “de” + o artigo definido “o”; Graceje; João (…) de Castel-Branco, poeta português do Séc. XV. 10 - Parte do intestino delgado que se segue ao jejuno e termina no cego [pl.]; Assassinei. 11- António Ramos (…), poeta português do Séc. XX; Isolado; Sociedade Portuguesa de Autores [sigla].

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Parque dos Poetas, em Oeiras (2)



Parque dos Poetas, em Oeiras, dia 21 de Março de 2013, Dia Mundial da Poesia. 
O meu amigo Carlos Malhoa, junto à estátua do poeta António Ramos Rosa, diz o poema:


Não posso adiar o amor para outro século 

Não posso adiar o amor para outro século 
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob as montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este braço
que é uma arma de dois gumes amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração.

António Ramos Rosa, in Viagem através de uma Nebulosa

domingo, 31 de março de 2013

Cristo ressuscitou, Aleluia!, Aleluia!


No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao túmulo logo de manhã, ainda escuro, e viu retirada a pedra que o tapava. Correndo, foi ter com Simão Pedro e com o outro discípulo, o que Jesus amava, e disse-lhes: «O Senhor foi levado do túmulo e não sabemos onde o puseram.» 
Pedro saiu com o outro discípulo e foram ao túmulo. Corriam os dois juntos, mas o outro discípulo correu mais do que Pedro e chegou primeiro ao túmulo. Inclinou-se para observar e reparou que os panos de linho estavam espalmados no chão, mas não entrou. Entretanto, chegou também Simão Pedro, que o seguira. Entrou no túmulo e ficou admirado ao ver os panos de linho espalmados no chão, ao passo que o lenço que tivera em volta da cabeça não estava espalmado no chão juntamente com os panos de linho, mas de outro modo, enrolado noutra posição. Então, entrou também o outro discípulo, o que tinha chegado primeiro ao túmulo. Viu e começou a crer, pois ainda não tinham entendido a Escritura, segundo a qual Jesus devia ressuscitar dos mortos. 
 
(Evangelho segundo S. João 20,1-9)