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segunda-feira, 13 de maio de 2013

Centenário do nascimento de João Villaret


No passado dia 10, João Villaret, se fosse vivo, teria feito justamente 100 anos. No Sábado passado, estive na Biblioteca Fernando Piteira Santos, na Amadora, onde teve lugar um evento, para comemorar esse centenário.

Os poemas (todos anteriormente declamados pelo João Villaret) foram agora ditos pelo Grupo de Jograis «U...Tópico». Foram 45 minutos de boa poesia (de Fernando Pessoa a José Régio). Deixei-me emocionar, não me envergonho de o dizer, por este poema:

Colegial

Em cima da minha mesa
Da minha mesa de estudo
Mesa da minha tristeza -
Em que de noite e de dia
Rasgo as folhas, leio tudo
Destes livros em que estudo,
E me estudo
(Eu já me estudo...)
E me estudo
A mim
Também
Em cima da minha mesa,
Tenho o teu retrato, Mãe!

À cabeceira do leito,
Dentro de um caixilho,
Tenho uma Nossa Senhora
Que venero a toda a hora...
Ai minha Nossa Senhora,
Que se parece contigo,
E que tem ao peito,
Um filho
(O que ainda é mais estranho)
Que se parece comigo,
Num retratinho,
Que Tenho,
De menino pequenino!...
No fundo da minha mala,

Mesmo lá no fundo a um canto,
Não lhes vá tocar alguém,
(Quem as lesse, o que entendia?
Só riria
Do que nos comove a nós...)
Já tenho três maços, Mãe,
Das cartas que tu me escreves
Desde que saí de casa...
Três maços - e nada leves! -
Atados com um retrós...

Se não fora eu ter-te assim,
A toda a hora,
Sempre à beirinha de mim,
(sei agora
Que isto de a gente ser grande
Não é como se nos pinta...)
Mãe!, já teria morrido,
Ou já teria fugido,
Ou já teria bebido
Algum tinteiro de tinta!

José Régio, in Encruzadas de Deus

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Quem nunca roubou uma rosa?


No ano em que passam 35 anos sobre a morte de Clarice Lispector, a Fundação Gulbenkian apresenta a exposição A Hora da Estrela com textos, fac-símiles, fotografias e documentos pessoais de uma das mais destacadas vozes da literatura brasileira. 
Esta crónica, que tem o nome “Cem anos de perdão”, foi escrita por Clarice Lispector no 25 de Julho de 1970. Faz parte de uma antologia apresentada no livro “A Descoberta do Mundo”.

«Cem anos de perdão 

Quem nunca roubou não vai me entender. E quem nunca roubou rosas, então é que jamais poderá me entender. Eu, em pequena, roubava rosas. 

Havia em Recife inúmeras ruas, as ruas dos ricos, ladeadas por palacetes que ficavam no centro de grandes jardins. Eu e uma amiguinha brincávamos muito de decidir a quem pertenciam os palacetes. «Aquele branco é meu.» «Não, eu já disse que os brancos são meus.» «Mas esse não é totalmente branco, tem janelas verdes.» Parávamos às vezes longo tempo, a cara imprensada nas grades, olhando. 

Começou assim. Numa das brincadeiras de “essa casa é minha”, parámos diante de uma que parecia um pequeno castelo. No fundo via-se o imenso pomar. E, à frente, em canteiros bem ajardinados, estavam plantadas as flores. 

Bem, mas isolada no seu canteiro estava uma rosa apenas entreaberta cor-de-rosa vivo. Fiquei feito boba, olhando com admiração aquela rosa altaneira que nem mulher feita ainda não era. E então aconteceu: do fundo de meu coração, eu queria aquela rosa para mim. Eu queria, ah como eu queria. E não havia jeito de obtê-la. Se o jardineiro estivesse por ali, pediria a rosa, mesmo sabendo que ele nos expulsaria como se expulsam moleques. Não havia jardineiro à vista, ninguém. E as janelas, por causa do sol, estavam de venezianas fechadas. Era uma rua onde não passavam bondes e raro era o carro que aparecia. No meio do meu silêncio e do silêncio da rosa, havia o meu desejo de possuí-la como coisa só minha. Eu queria poder pegar nela. Queria cheirá-la até sentir a vista escura de tanta tonteira de perfume. 

Então não pude mais. O plano se formou em mim instantaneamente, cheio de paixão. Mas, como boa realizadora que eu era, raciocinei friamente com minha amiguinha, explicando-lhe qual seria o seu papel: vigiar as janelas da casa ou a aproximação ainda possível do jardineiro, vigiar os transeuntes raros na rua. Enquanto isso, entreabri lentamente o portão de grades um pouco enferrujadas, contando já com o leve rangido. Entreabri somente o bastante para que meu esguio corpo de menina pudesse passar. E, pé-ante-pé, mais veloz, andava pelos pedregulhos que rodeavam os canteiros. Até chegar à rosa foi um século de coração batendo. 

Eis-me afinal diante dela. Paro um instante, perigosamente, porque de perto ela ainda é mais linda. Finalmente começo a lhe quebrar o talo, arranhando-me com os espinhos, e chupando o sangue dos dedos. 

E, de repente - ei-la toda na minha mão. A corrida de volta ao portão tinha também de ser sem barulho. Pelo portão que deixara entreaberto, passei segurando a rosa. E então nós duas pálidas, eu e a rosa, corremos literalmente para longe da casa. 

O que é que fazia eu com a rosa? Fazia isso: ela era minha. 

Levei-a para casa, coloquei-a num copo d’água, onde ficou soberana, de pétalas grossas e aveludadas, com vários entretons de rosa-chá. No centro dela a cor se concentrava mais e seu coração quase parecia vermelho. 

Foi tão bom. 

Foi tão bom que simplesmente passei a roubar rosas. O processo era sempre o mesmo: a menina vigiando, eu entrando, eu quebrando o talo e fugindo com a rosa na mão. Sempre com o coração batendo e sempre com aquela glória que ninguém me tirava. 

Também roubava pitangas. Havia uma igreja presbiteriana perto de casa, rodeada por uma sebe verde, alta e tão densa que impossibilitava a visão da igreja. Nunca cheguei a vê-la, além de uma ponta de telhado. A sebe era de pitangueira. Mas pitangas são frutas que se escondem: eu não via nenhuma. Então, olhando antes para os lados para ver se ninguém vinha, eu metia a mão por entre as grades, mergulhava-as dentro da sebe e começava a apalpar até meus dedos sentirem o húmido da frutinha. Muitas vezes, na minha pressa, eu esmagava uma pitanga madura de mais com os dedos que ficavam como ensanguentados. Colhia várias que ia comendo ali mesmo, umas até verdes de mais, que eu jogava fora. 

Nunca ninguém soube. Não me arrependo: ladrão de rosas e de pitangas tem cem anos de perdão. As pitangas, por exemplo, são elas mesmas que pedem para ser colhidas, em vez de amadurecer e morrer no galho, virgens» 

Clarice Lispector

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Uma abelha na chuva


«[…] Meu pai era médico de aldeia, uma aldeia pobríssima: Nossa Senhora das Febres. Lagoas pantanosas, desolação, calcário, areia. Cresci cercado pela grande pobreza dos camponeses, por uma mortalidade infantil enorme, uma emigração espantosa. Natural portanto que tudo isso me tenha tocado (melhor, tatuado). O lado social e o outro, porque há outro também, das minhas narrativas ou poemas publicados […] nasceu desse ambiente quase lunar habitado por homens […]», em “O Aprendiz de Feiticeiro”. 

Deve haver vários caminhos para escrever um livro. Carlos de Oliveira teve, certamente, razões fortes para escrever "Uma Abelha na Chuva", publicado em 1953. Este romance é considerado, por muitos, uma das mais importantes obras da literatura neo-realista portuguesa. E como chegou Carlos de Oliveira ao Neo-Realismo? 

Importa olhar o seu percurso. Nasceu no Brasil, em Belém do Pará, em 1921. Veio, aos dois anos, para Portugal. A família fixou-se em Cantanhede, mais precisamente na freguesia de Febres, onde o pai exerceu medicina, durante muitos anos. Em 1933, Carlos de Oliveira mudou-se para Coimbra, onde permaneceu durante quinze anos, a fim de prosseguir os estudos. Em 1941,  ingressou na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, onde estabeleceu amizade com Joaquim Namorado, João Cochofel e Fernando Namora. Em 1947, licenciou-se em Ciências Histórico-Filosóficas, instalando-se definitivamente em  Lisboa, no ano seguinte. Todavia, sempre que podia, visitava Febres.

Febres era terra de febres palustres. Sezões que matavam. Grandes charcos com mosquitos. Desolação e morte. E muita pobreza. E muita desigualdade social. “Cresci cercado de pobres camponeses”, escreveu Carlos de Oliveira. Um pedaço de terra amassado com suor e lágrimas. Só Carlos Oliveira, alimentado pelos ideais do Neo-Realismo, bebidos em Coimbra, podia escrever um livro como “Uma Abelha na Chuva”. 

O Neo-Realismo pretende descrever a realidade mas, ao mesmo tempo, quer transformá-la. Por isso, realça a luta daqueles que são o agente dessa transformação. Neste romance, Carlos de Oliveira, com originalidade,  estabelece uma similitude entre essa luta e o universo das abelhas. Os neo-realistas querem mudar a sociedade, lentamente, como as abelhas constroem as suas colmeias. 

O ódio que o casal Álvaro Silvestre/Maria dos Prazeres nutre entre si acaba por desabar sobre os criados e outros personagens secundários que esvoaçam ao redor. Jacinto e Clara, o jovem par de namorados que concebia um futuro, é atingido por esse mal. Jacinto é assassinado, vítima do ciúme doentio de um pretendente, da repulsa de um pai com aspirações sociais e de um Álvaro bêbado que fala sem pensar nas consequências. Clara escolhe a água, no fundo de um poço, para acabar a sua vida e a da esperança que transportava na barriga. 

Quem era, afinal, a abelha de “Uma Abelha na Chuva”? Clara, evidentemente. Foi apanhada por uma chuva forte, da qual não consegue sair ou abrigar-se. «[…] A abelha foi apanhada pela chuva: vergastadas, impu1sos, fios do aguaceiro a enredá-la, golpes de vento a ferirem-lhe o voo. Deu com as asas em terra e uma bátega mais forte espezinhou-a. Arrastou-se no saibro, debateu-se ainda, mas a voragem acabou por levá-la com as folhas mortas». 

Que concluir? O romance encerra com uma mensagem de pessimismo,  traduzida na eliminação de Clara. Tudo estava contra ela, pelo que não se conseguiu defender. Ou será que essa mensagem de pessimismo é só aparente?

terça-feira, 7 de maio de 2013

A mão que o poeta estende


A verdadeira mão

A verdadeira mão que o poeta estende
não tem dedos:
é um gesto que se perde
no próprio acto de dar-se

O poeta desaparece
na verdade da sua ausência
dissolve-se no biombo da escrita

O poema é
a única
a verdadeira mão que o poeta estende

E quando o poema é bom
não te aperta a mão:
aperta-te a garganta


Ana Hatherly
, em O Pavão Negro

domingo, 5 de maio de 2013

Mãe! Passa a tua mão pela minha cabeça!

MÃE 

Mãe! Vem ouvir a minha cabeça a contar histórias ricas que ainda não viajei!
Traz tinta encarnada para escrever estas coisas!
Tinta cor de sangue, sangue verdadeiro, encarnado!

Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça! Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!

Eu ainda não fiz viagens e a minha cabeça não se lembra senão de viagens!
Eu vou viajar. Tenho sede! Eu prometo saber viajar.

Quando voltar é para subir os degraus da tua casa, um por um.
Eu vou aprender de cor os degraus da nossa casa.
Depois venho sentar-me a teu lado.
Tu a coseres e eu a contar-te as minhas viagens, aquelas que eu viajei,
tão parecidas com as que não viajei, escritas ambas com as mesmas palavras.

Mãe! Ata as tuas mãos às minhas e dá um nó-cego muito apertado!
Eu quero ser qualquer coisa da nossa casa, como a mesa.
Eu também quero ter um feitio, um feitio que sirva exactamente para a nossa casa, como a mesa.

Mãe! Passa a tua mão pela minha cabeça!
Quando passas a tua mão na minha cabeça é tudo tão verdade!

Almada Negreiros (1893-1970)

sexta-feira, 3 de maio de 2013

D. João II, O Príncipe (In)Perfeito


O nosso rei D. João II, nasceu no dia 3 de Maio de 1455. Passam hoje 558 anos sobre o nascimento do rei que ficou na História com o cognome O Príncipe Perfeito. Sucedeu ao seu pai, o rei Afonso V, por uma forma, no mínimo, tortuosa. Concentrou o poder em si, retirando-o à aristocracia. Foi implacável. Matou muitos nobres, outros tiveram que fugir. 

Uma das vítimas foi o Duque de Viseu, seu primo e cunhado. Aconteceu em Setúbal, no dia 24/8/1484, no Palácio de Nuno da Cunha (hoje actual Governo Civil). Nesse dia, o Rei foi caçar até Alcácer. Vasco Coutinho, que soube, em segredo, de uma conspiração contra o rei por parte do seu irmão Guterres Coutinho, foi denunciar os conspiradores ao Rei. Este já não veio de barco, veio a cavalo. Chegado a Setúbal, mandou chamar o Duque ao Palácio. O nosso rei apunhalou-o pessoalmente, com a ajuda de 3 fidalgos (Pedro d´Eça, Diogo da Azambuja e o Almirante Lopo Mendes). O Duque ficou crivado de facas. Consta que, ainda na antecâmara, o rei lhe perguntou: 
- Primo, o que fazias se um tipo te quisesse matar? 
- Matava-o eu primeiro, primo, respondeu o Duque. 
- Pois, acabaste de lavrar a tua sentença!.

Parque dos Poetas em Oeiras (20)



Parque dos Poetas, em Oeiras, 21 de Março de 2013, no Dia Mundial da Poesia. 

A peregrinação aproxima-se do fim, mas o céu ameaça borrasca da grossa. Esperemos que o “vento que passa” a afaste para bem longe. A nossa Profª Feliciana Caleiro, junto à estátua do poeta Manuel Alegre, diz o poema 


Trova do Vento que Passa 

Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das águas
e os rios não me sossegam
levam sonhos deixam mágoas.

Levam sonhos deixam mágoas
ai rios do meu país
minha pátria à flor das águas
para onde vais? Ninguém diz.

Se o verde trevo desfolhas
pede notícias e diz
ao trevo de quatro folhas
que morro por meu país.

Pergunto à gente que passa
por que vai de olhos no chão.
Silêncio -- é tudo o que tem
quem vive na servidão.

Vi florir os verdes ramos
direitos e ao céu voltados.
E a quem gosta de ter amos
vi sempre os ombros curvados.

E o vento não me diz nada
ninguém diz nada de novo.
Vi minha pátria pregada
nos braços em cruz do povo.

Vi minha pátria na margem
dos rios que vão pró mar
como quem ama a viagem
mas tem sempre de ficar.

Vi navios a partir
(minha pátria à flor das águas)
vi minha pátria florir
(verdes folhas verdes mágoas).

Há quem te queira ignorada
e fale pátria em teu nome.
Eu vi-te crucificada
nos braços negros da fome.

E o vento não me diz nada
só o silêncio persiste.
Vi minha pátria parada
à beira de um rio triste.

Ninguém diz nada de novo
se notícias vou pedindo
nas mãos vazias do povo
vi minha pátria florindo.

E a noite cresce por dentro
dos homens do meu país.
Peço notícias ao vento
e o vento nada me diz.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.

Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.

Manuel Alegre (1936-

quarta-feira, 1 de maio de 2013

A vã esperança de ser contagiado...


Coimbra, 1 de Maio de 1974 — Colossal cortejo pelas ruas da cidade. Uma explosão gregária de alegria indutiva a desfilar diante das forças de repressão remetidas aos quartéis. 
- Mais bonito do que a Rainha Santa... dizia uma popular. 
Segui o caudal humano, calado, a ouvir vivas e morras, travado por não sei que incerteza, sem poder vibrar com o entusiasmo que me rodeava, na recôndita e vã esperança de ser contagiado. […]. 

Miguel Torga, Diário XII

terça-feira, 30 de abril de 2013

Pietá













Pietá 

É tragédia, é pranto, é ternura;
É esse filho morto no regaço
Duma mãe que pretende num abraço
Sonegar o seu filho à sepultura

Paradoxo de ver numa mortalha
O filho antes da mãe, que subverte
A ordem natural que a vida verte
E sem explicação que aqui valha.

O drama pessoal aqui vivido,
Que o génio verteu em pedra calma
E o drama espalhou por toda a parte

É esse deslimite sem sentido,
Esculpido na pedra e na alma,
Que faz da tragédia obra d’arte

António Amaro Rodrigues (18-4-2013)

Parque dos Poetas, em Oeiras (19)

Parque dos Poetas, em Oeiras, 21 de Março de 2013, no Dia Mundial da Poesia. 
A peregrinação (da parte da manhã) está quase a chegar ao fim. A minha amiga Júlia Malhoa, junto à estátua da poetisa Natália Correia, diz o poema 


A Defesa do Poeta

Senhores jurados sou um poeta
um multipétalo uivo um defeito
e ando com uma camisa de vento
ao contrário do esqueleto.

Sou um vestíbulo do impossível um lápis
de armazenado espanto e por fim
com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim.

Sou em código o azul de todos
(curtido couro de cicatrizes)
uma avaria cantante
na maquineta dos felizes.

Senhores banqueiros sois a cidade
o vosso enfarte serei
não há cidade sem o parque
do sono que vos roubei.

Senhores professores que puseste
a prémio minha rara edição
de raptar-me em crianças que salvo
do incêndio da vossa lição.

Senhores tiranos que do baralho
de em pó volverdes sois os reis
sou um poeta jogo-me aos dados
ganho as paisagens que não vereis.

Senhores heróis até aos dentes
puro exercício de ninguém
minha cobardia é esperar-vos
umas estrofes mais além.

Senhores três quatro cinco e sete
que medo vos pôs na ordem ?
que pavor fechou o leque
da vossa diferença enquanto homem ?

Senhores juízes que não molhais
a pena na tinta da natureza
não apedrejeis meu pássaro
sem que ele cante minha defesa.
Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever
ó subalimentados do sonho !
a poesia é para comer.

Natália Correia (1923-1993)

domingo, 28 de abril de 2013

Parque dos Poetas, em Oeiras (18)



Parque dos Poetas, em Oeiras, 21 de Março de 2013, no Dia Mundial da Poesia. 

Continuando a nossa peregrinação (que já vai longa), a minha amiga Noémia, ainda junto à estátua do poeta Eugénio de Andrade, diz o poema 


POEMA À MÃE

No mais fundo de ti
Eu sei que te traí, mãe.

Tudo porque já não sou
O menino adormecido
No fundo dos teus olhos.

Tudo porque ignoras
Que há leitos onde o frio não se demora
E noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
São duras, mãe,
E o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
Que apertava junto ao coração
No retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,
Talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa;
Esqueceste que as minhas pernas cresceram,
Que todo o meu corpo cresceu,
E até o meu coração
Ficou enorme, mãe!

Olha - queres ouvir-me? -
Às vezes ainda sou o menino
Que adormeceu nos teus olhos;

Ainda aperto contra o coração
Rosas tão brancas
Como as que tens na moldura;

Ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
No meio do laranjal...

Mas - tu sabes - a noite é enorme,
E todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
Dei às aves os meus olhos a beber.

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.

Eugénio de Andrade, Os Amantes sem Dinheiro

sábado, 27 de abril de 2013

O Fecho Éclair


Hoje é Dia Mundial do Design. Se me pedissem para escolher um ícone, não tinha a menor dúvida: O Fecho Éclair. O rei Filipe II foi o dono da terra; comia num prato de prata lavrada; tinha um colar de oiro com pedras rubis; andava nas salas forradas de Arrás; dormia em cama de prata maciça. Um homem tão grande teve tudo o que quis. Só não teve um fecho éclair. Quem o diz é o poeta António Gedeão. 


Poema do Fecho Éclair 

Filipe II tinha um colar de oiro,
tinha um colar de oiro com pedras rubis.
Cingia a cintura com cinto de coiro,
com fivela de oiro,
olho de perdiz.

Comia num prato
de prata lavrada
girafa trufada,
rissóis de serpente.
O copo era um gomo
que em flor desabrocha,
de cristal de rocha
do mais transparente.

Andava nas salas
forradas de Arrás,
com panos por cima,
pela frente e por trás.
Tapetes flamengos,
combates de galos,
alões e podengos,
falcões e cavalos.

Dormia na cama
de prata maciça
com dossel de lhama
de franja roliça.
Na mesa do canto
vermelho damasco
a tíbia de um santo
guardada num frasco.

Foi dono da terra, 
foi senhor do Mundo,
nada lhe faltava,
Filipe Segundo.
Tinha oiro e prata,
pedras nunca vistas,
safira, topázios,
rubis, ametistas.
Tinha tudo, tudo 
sem peso nem conta,
bragas de veludo,
peliças de lontra.
Um homem tão grande
tem tudo o que quer.

O que ele não tinha
era um fecho éclair.

António Gedeão

sexta-feira, 26 de abril de 2013

António Paulouro à mesa do pão da fraternidade


António Paulouro nasceu no Fundão em 1915. Em 1946, com um grupo de amigos, criou o «Jornal do Fundão», o mais lido e respeitado semanário de província português. Em 1950 foi nomeado vice-presidente da Câmara Municipal do Fundão, mas, em 1958, bateu com a porta, por divergências profundas com o regime salazarista. 

Por essa razão, o «Jornal do Fundão» foi alvo de vigilância apertada tendo sido proibida a sua publicação durante seis meses, em 1965. 

António Paulouro esteve sempre ligado à cultura e aos livros. Em 1985, o Presidente da República condecorou-o com a Ordem da Liberdade.

Referiu, um dia, aquilo que bem pode ser a perfeita síntese da sua biografia: «Dizem que eu fiz um jornal, eu digo que foi o jornal que me fez a mim».

António Paulouro morreu em 2002. A cidade do Fundão, através da CM, decidiu homenagear este ilustre fundanense, inaugurando, em 2010, um monumento em granito, em sua honra, na Praça Velha. A escultura é da autoria do escultor Francisco Simões. 


Há duas semanas, passei pelo Fundão e de lá trouxe esta fotografia, que partilhei depois com o Professor Francisco Simões. Recebi dele, em resposta, esta bonita mensagem: 

«Obrigado Joaquim Boavida,
Gosto muito dessa escultura, simbolicamente representa a mesa da
redacção, mas também a mesa do pão da fraternidade.
Por outro lado é o retrato de um grande e saudoso amigo.
Bem haja.
Francisco Simões
»

Afinal, a escultura não mostra só o jornalista António Paulouro à mesa da redacção do seu jornal, como eu a vi e interpretei, mas também, e sobretudo, a mesa do pão da fraternidade! Muito bonito. Obrigado, Professor Francisco Simões.


quinta-feira, 25 de abril de 2013

Qual a cor da liberdade?


CANTIGA DE ABRIL 

Às Forças Armadas e ao povo de Portugal
«Não hei-de morrer sem saber qual a cor da liberdade»
J. de S.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Quase, quase cinquenta anos
reinaram neste pais,
e conta de tantos danos,
de tantos crimes e enganos,
chegava até à raiz.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Tantos morreram sem ver
o dia do despertar!
Tantos sem poder saber
com que letras escrever,
com que palavras gritar!

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Essa paz de cemitério
toda prisão ou censura,
e o poder feito galdério.
sem limite e sem cautério,
todo embófia e sinecura.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Esses ricos sem vergonha,
esses pobres sem futuro,
essa emigração medonha,
e a tristeza uma peçonha
envenenando o ar puro.

Qual a cor da liberdade?
É verde. verde e vermelha.

Essas guerras de além-mar
gastando as armas e a gente,
esse morrer e matar
sem sinal de se acabar
por politica demente.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Esse perder-se no mundo
o nome de Portugal,
essa amargura sem fundo,
só miséria sem segundo,
só desespero fatal.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Quase, quase cinquenta anos
durou esta eternidade,
numa sombra de gusanos
e em negócios de ciganos,
entre mentira e maldade.

Qual a cor da liberdade?
E verde, verde e vermelha.

Saem tanques para a rua,
sai o povo logo atrás:
estala enfim altiva e nua,
com força que não recua,
a verdade mais veraz.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

26-28(?)/4/1974
Obras de Jorge de Sena
"40 anos de servidão"



quarta-feira, 24 de abril de 2013

Parque dos Poetas, em Oeiras (17)



Parque dos Poetas, em Oeiras, 21 de Março de 2013, no Dia Mundial da Poesia. 
Chegou novamente a minha vez. Agora, junto à estátua do poeta Eugénio de Andrade, para dizer o poema "Adeus". Citando Valter Hugo Mãe, "ler a poesia de Eugénio de Andrade é passar a alma por água limpa". Eu conselho sábio que eu sigo muitas vezes.


Adeus

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

Eugénio de Andrade


terça-feira, 23 de abril de 2013

Os alfarrabistas são amigos dos livros


No dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor Alfarrabistas devemos uma palavra de louvor aos Alfarrabistas pela acção que desenvolvem na preservação de um conjunto documental (manuscritos, livros, etc…) 

E, a este propósito, qual a origem da palavra alfarrabista? 

Alfarrabista quer dizer pessoa que negoceia em alfarrábios, sendo que alfarrábio quer dizer livro antigo ou usado. Estas são as definições que vêm no Dicionário da Porto Editora. E, agora, qual a origem da palavra alfarrábio? Vem do árabe Al-Farābi. Existiu um sábio árabe, chamado Al-Farabi, também conhecido como Alfarábi ou simplesmente Farabi, nascido no Turquestão, no século X. O seu Grande Livro, ainda que velho, mesmo assim foi servindo, ao longo de séculos, muitas gerações de estudantes. Donde, a identificação que se estabeleceu entre Livro Velho e Alfarrábio. 

A palavra portuguesa alfarrábio não é mais que a aceitação, na etimologia da língua portuguesa, dessa identificação entre o nome do tal sábio turco e o livro velho.

Há casas de alfarrabistas que são autênticos sacrários de tesouros literários, que importa preservar.

domingo, 21 de abril de 2013

Parque dos Poetas, em Oeiras (16)



Parque dos Poetas, em Oeiras, 21 de Março de 2013, no Dia Mundial da Poesia. 
O nosso amigo José Beltrão, junto à estátua do poeta Miguel Torga, diz aquele poema que muitos consideram uma homenagem ao pai 


Bucólica 

A vida é feita de nadas:
De grandes serras paradas
À espera de movimento;
De searas onduladas
Pelo vento;

De casas de moradia
Caídas e com sinais
De ninhos que outrora havia
Nos beirais;

De poeira;
De sombra de uma figueira;
De ver esta maravilha:
Meu Pai a erguer uma videira
Como uma mãe que faz a trança à filha.

Miguel Torga

sábado, 20 de abril de 2013

Palavras Cruzadas com História

Temos já em agenda, eu e alguns amigos do CUTLA, uma visita ao Museu Calouste Gulbenkian, para ver a exposição Clarice Lispector – A Hora da Estrela, da qual falei aqui, ontem. 

Devo confessar que sei pouco desta escritora. Como a visita é só no dia 17 de Maio, vou ter de fazer um esforço adicional. Isto é, temos de fazer trabalho de casa...

Para já, vou deixar aqui, para os meus amigos, um problema de Palavras Cruzadas, a propósito da obra desta escritora. 

O desafio é, resolvido o problema, encontrar o título de um livro da escritora Clarice Lispector (4 palavras). Qual é? 
 
 









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HORIZONTAIS: 1 – Próximo; Moço. 2 – Globo; União Europeia [sigla]. 3 – Isolado; Lazer; Procede. 4 – Fila; Calculei. 5 – Tomba; Nota da Redacção [sigla]. 6 – Cobalto [símbolo químico]; Festa cristã que se realiza todos os anos e que comemora o nascimento de Jesus Cristo; Caminhava para lá. 7 – Atmosfera; Viagem pelo ar. 8 – Assassinai; Nome vulgar do óxido de cálcio. 9 - Levanta; Mistura de nevoeiro e fumo e/ou outros poluentes atmosféricos que cobre determinadas concentrações urbanas; Contracção da preposição “de” + o artigo definido “o”. 10 – Saudável; Manuel (…), escritor português, autor do livro de poesia “Praça da Canção”. 11 – Grande artéria que, nos vertebrados superiores, sai do ventrículo esquerdo, conduzindo, pelas suas numerosas ramificações, sangue arterial às diversas partes do corpo; Dividir ao meio.

VERTICAIS: 1 – Carga; Folhelho da espiga do milho. 2 – Elemento de formação de palavras que exprime a ideia de dentro, no interior; Órgão que movimenta o sangue ou outro líquido vital no corpo de certos animais. 3 Radiofrequência [sigla]; Alcoólicos Anónimos [sigla]; Tântalo [símbolo químico]. 4 – (…) Gersão, escritora portuguesa, autora do livro “A Cidade de Ulisses”; Ástato [símbolo químico]. 5 – Aldeia situada na vertente sul da Serra da Gardunha e que tem nome de mamífero; Imposto de Selo [sigla]. 6 – Grito de dor ou alegria; Liga; Ruim. 7Orçamento de Estado [sigla]; Pega. 8 – Conjunção que designa alternativa; Inculto. 9Assembleia Municipal [sigla]; Sufixo nominal que traduz a ideia de semelhança ou origem; Germânio [símbolo químico]. 10 – (…) de Andrade, escritor português, autor do livro de poesia “Os amantes sem dinheiro”; Doutora [abreviatura]. 11 – Que faz meias com alguém; Magoar.

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