A minha Lista de blogues

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Um soneto inédito de Fernando Pessoa


[Mãe de Deus]

Mãe de Deus, porque tu a Deus creaste,
Filha de Deus, pois Elle te creou,
Irmã de Deus, pois Elle te enviou,
Sposa de Deus, pois virgem tu ficaste,

Eterna, transcendente e fragil haste
Que abre ao alto em Mulher, na que baixou
Á terra, a dar á Eva que peccou
A seiva do carinho que lhe achaste.

És tu que dás ás mães o - afago
És tu -
Tu és a alma da Mulher -

E se o que penso é com amor affim,
E em minha inspiração sinto o teu beijo,
Mãe, mãe de Deus, mãe do Divino em mim.

Fernando Pessoa

Soneto inédito até 2000
Edição: Jerónimo Pizarro, Carlos Pittella-Leite
In Granta (Portugal), n. 1

quinta-feira, 6 de junho de 2013

A aventura de Ferreira de Castro na Amazónia


Acabei de ler o romance “A Selva”, do escritor Ferreira de Castro. Confesso que me atirei ao livro um bocadinho a contragosto. Mas o compromisso com o Grupo de Leitura, assim me obrigou. Afinal, eu não tinha razão nesse meu receio. Estamos perante um romance magnífico, um belo romance, em que o social ganha uma grande importância e no qual os Neo-Realistas, anos mais tarde, encontraram forte inspiração.

Ferreira de Castro escreveu o livro em 1926, quinze anos depois de ter abandonado o Seringal, lá bem no interior da Amazónia. É verdade, o autor esteve mesmo naquele inferno verde, durante cerca de 4 anos. 

Podemos assim afirmar que estamos perante um romance com carácter auto-biográfico, escrito como se fosse um diário. 

Ferreira de Castro escreve com uma grande profusão descritiva e minúcia dos detalhes, relativos ao clima e à variedade da flora local. Mostra como, naquele cenário, ao mesmo tempo fantástico e tenebroso, vigora a lei do mais forte. Na selva, só os seres mais fortes e mais aptos sobrevivem. 

Ele sobreviveu, mas arriscou muito. Arriscou-se a não sair de lá nunca, como acontecia a muitos. O patrão, o Juca Tristão, montou um esquema através do qual os trabalhadores estavam sempre em dívida. Era o famoso “saldo”, que estava sempre a negativo para os seringueiros. A dívida começava logo com o custeio das despesas da viagem e prosseguia, quase eternamente, com o consumo de géneros na "venda". O saldo que se mantinha por anos e anos, impedindo a libertação, o resgate.

Alberto, a personagem principal do romance, o alter-ego do autor, consegue sobreviver, graças, primeiro, à amizade do companheiro Firmino e, depois, à ajuda do Sr. Guerreiro, o guarda-livros do armazém, para onde, por sorte, Alberto fora transferido ao fim de algum tempo.

Ao fim de 4 anos, uma carta libertadora da mãe dá-lhe condições para deixar aquele inferno. Mas, antes de partir, vê o negro Tiago vingar os seus camaradas que, por tentarem uma fuga, foram duramente castigados pelo patrão Juca Tristão. O velho Tiago, que sempre respeitara o patrão, desta vez não perdoou. Deitou fogo à habitação do patrão e, ao mesmo tempo, libertou os camaradas presos.

«(….) quando chegasse a manhã, derramando da sua inesgotável cornucópia a luz dos trópicos, haveria apenas um montão de cinzas, que o vento, em breve, dispersaria…». Termina, assim, a aventura de Alberto na Amazónia: com um incêndio redentor.

Ferreira de Castro emigrara para o Brasil em 1911. Pouco tempo esteve em Belém do Pará, na casa do tio Macedo, irmão da mãe. Desempregado, aceitou ir para o interior da selva, por orgulho talvez, para não estar dependente desse tio. Regressou a Belém do Pará em 1916, passados os 4 anos. Esteve aqui, nesta cidade, mais 3 anos, fazendo jornalismo para sobreviver. Todavia, o contacto com compatriotas ter-lhe-á feito renascer as saudades da pátria. 

Regressou a Portugal em 1919 com apenas quatrocentos escudos no bolso, mas com ricas memórias, as quais, anos mais tarde, o levaram a escrever este belo romance!

terça-feira, 4 de junho de 2013

Mia Couto, o desobediente da língua portuguesa


O Prémio Camões, criado por Portugal e pelo Brasil, em 1989, é o principal prémio destinado à literatura em língua portuguesa e consagra, anualmente, um autor que, pelo valor intrínseco da sua obra, tenha contribuído para o enriquecimento do património literário e cultural da língua comum. 

O vencedor do Prémio Camões 2013 foi Mia Couto, escritor moçambicano, aquele que é, justamente, o mais prestigiado, e também mais traduzido, dos escritores do seu país. 

O júri justificou a distinção de Mia Couto tendo em conta a “vasta obra ficcional caracterizada pela inovação estilística e a profunda humanidade”, segundo disse um dos jurados. 

É o segundo autor de Moçambique a ser distinguido com este prémio, depois de José Craveirinha em 1991. 

Estreou-se como poeta, em 1983, e talvez nunca tenha deixado de o ser ao longo de toda a sua obra ficcional. 

Em 1986, edita o seu primeiro livro de crónicas, Vozes Anoitecidas, que lhe valeu o prémio da Associação de Escritores Moçambicanos. 

Todavia, é com o romance Terra Sonâmbula (1992), que Mia Couto manifesta os primeiros sinais de “desobediência” ao padrão da língua portuguesa. É considerado um dos 12 melhores romances africanos de sempre. Muito justamente…. 

Em 1994, editou um livro de contos, com o título Estórias Abensonhadas. Escritas depois da guerra civil em Moçambique, como diz o autor, os textos surgiram-lhe entre as margens da mágoa e da esperança. 

Mais tarde, sucederam outros romances, sempre na Editora Caminho, como A Varanda do Frangipani (1996), Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra (2002, O Outro Pé da Sereia (2006), Jesusalém (2009), ou A Confissão da Leoa (2012). 

Mia Couto é conhecido pelo seu talento de renovar a língua portuguesa, inspirando-se na oralidade para lhe dar novos vocábulos e lhe subverter a norma. 

É, ainda, um contador de histórias. E, neste momento, ele está, justamente, a preparar o seu novo romance, que será sobre Gungunhana, personagem histórico de Moçambique. 

Disse Mia Couto, a este a propósito, quando confrontado com a atribuição deste galardão: "O prémio não me desvia. Estou a escrever uma coisa que já vai há algum tempo, um ano, mais ou menos, e é sobre um personagem histórico da nossa resistência nacionalista, digamos assim, o Gungunhana, que foi preso pelo Mouzinho de Albuquerque, depois foi reconduzido para Portugal e acabou por morrer nos Açores”. 

Mia Couto nasceu em 1955, na Beira, no seio de uma família de emigrantes portugueses. Vive, presentemente, em Maputo, antiga Lourenço Marques.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Ferreira de Castro, precursor do Neo-Realismo português?



«[…] Eu devia este livro a essa Amazónia longínqua e enigmática, pela muito que fez sofrer os primeiros anos da minha adolescência e pela coragem que me deu para o resto da vida. E devia-o, sobretudo, aos anónimos desbravadores, gente humilde que me antecedeu ou acompanhou na brenha, gente sem crónica definitiva, que à extracção da borracha entrega a sua fome, a sua liberdade e a sua existência. […]»
in “A Selva”, de Ferreira de Castro, 8ª edição (prefácio do autor), da “Guimarães & Cª Editores”, Lisboa 1943

Hoje, já ninguém lê Ferreira de Castro. É um autor injustamente esquecido… e, todavia, um dos melhores escritores portugueses do Séc. XX, considerado, por muitos, um precursor do romance social, do Neo-Realismo português. 

Convém não esquecer que Ferreira de Castro foi o escritor português mais traduzido no mundo em meados do século XX.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Se eu definisse o tempo como um rio...


Tempo fluvial

Se eu definisse o tempo como um rio,
a comparação levar-me-ia a tirar-te
de dentro da sua água, e a inventar-te
uma casa. Poria uma escada encostada
à parede, e sentar-te-ias num dos seus
degraus, lendo o livro da vida. Dir-te-ia:
«Não te apresses: também a água deste
rio é vagarosa, como o tempo que os
teus dedos suspendem, antes de virar
cada página.» Passam as nuvens no céu;
nascem e morrem as flores do campo;
partem e regressam as aves; e tu lês
o livro, como se o tempo tivesse parado,
e o rio não corresse pelos teus olhos.

Nuno Júdice



«Não te apresses: também a água deste rio é vagarosa, como o tempo que os teus dedos suspendem, antes de virar cada página», diz o poeta. 

Este poema tem fortes semelhanças com a poesia de Ricardo Reis, heterónimo de Fernando Pessoa: «Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio […].

O assunto deste poema do Nuno Júdice, como na obra poética de Ricardo Reis, parece poder concretizar-se no “Carpe diem” epicurista, isto é, no viver o dia de hoje, sem pensar no antes, nem no depois, viver o presente sem considerar o passado, nem o futuro.

Nuno Júdice e o prémio Rainha Sofia


O poeta Nuno Júdice foi, há poucos dias, galardoado com o XXII Prémio Reina Sofia de Poesia Ibero-Americana, atribuído pelo Património Nacional espanhol e pela Universidade de Salamanca.

É sabido que este prémio reconhece o conjunto da obra poética de um autor vivo que, pelo seu valor literário, constitua uma contribuição relevante para o património cultural partilhado pela comunidade ibero-americana.

Neste caso, o júri considerou o poeta, ensaísta e ficcionista português como autor de uma poesia "muito elaborada, de um classicismo depurado", mas, ao mesmo tempo, com um grande compromisso com a realidade, segundo veio dito na comunicação social.

Nuno Júdice nasceu na Mexilhoeira Grande, Algarve, em 1949. Formou-se em Filologia Românica pela Universidade Clássica de Lisboa. É professor associado da Universidade Nova de Lisboa, onde se doutorou em 1989 com uma tese sobre Literatura Medieval. 

A sua obra tem uma assinalável dimensão e abrange os géneros da poesia e da prosa. Recebeu já os mais importantes prémios de poesia portugueses. Agora, foi galardoado com o prestigiado prémio Rainha Sofia.

sábado, 25 de maio de 2013

Tu hás-de vir, filha, com a primavera

Poema para a Catarina

Hei-de levar-te filha a conhecer a neve
tu que sabes do sol e das marés
mas nunca repousaste os teus pequenos pés
na alvura que só longe e em ti houve

Tinha estado na morte e não pudera
aguentar tamanha solidão
mas depois tive a companhia do nevão
e tu hás-de vir filha com a primavera

E o deslumbrante resplendor da alegria
tua felicidade eterna à vida
já não permitirão tua partida
quando raiar fatal o novo dia

As barcas carregadas com as rosas
virão perto daquela pura voz
abandonada pelos meus longínquos avós
em lagoas profundas perigosas

Não me afecta o mínimo cuidado
sinto-me vertical sinto-me forte
embora leve em mim até à morte
a cabeça de um príncipe coitado

Naquelas madrugadas primitivas
eu segredava um secreto pranto
vizinho da alegria enquanto
pelos dois tu ias de mãos vivas

O costume da minha solidão
é ver pela janela as oliveiras
que de todas as árvores foram as primeiras
que tocaram meu jovem coração

Purificado pelo tempo estou
um tempo de feroz esquecimento
vem minha filha vem neste momento
em que eu liberto ao teu encontro vou

Recordo-me do teu cabelo de chuva
quando tu caminhavas ágil e ladina
pelos desfiladeiros da neblina
nessa distante região da uva

Minha paixão viril serena pelos ritos
deseja que na minha companhia
tu sejas imolada à alegria
na surda região alheia aos gritos

Não olhes o meu rosto devastado pela idade
a vida para mim é como se chovesse
mas se viesses seria como se me acontecesse
cantar contigo a perene mocidade

O tempo em que viesses sim seria
um tempo vertebrado um tempo inteiro
e não meras palavras arrancadas ao tinteiro
e alinhadas em fugaz caligrafia

Viesses tu que a tua vinda afastaria
todos os meus cuidados transeuntes
e para sempre alegre viveria
os meus dias infantes já distantes

A solução da solidão compartilhada
onde vejo o meu mais profundo mundo
seria a solução ampla e sem fundo
oposta sem resposta ao meu país do nada

Com a voracidade do olvido
seria só tu vires e lutares
e por mim de olhos enormes e crepusculares
serias ente querido recebido

Volta com as primeiros anjos de Dezembro
num vasto laranjal eu quero amar-te
e então a tua vida há-de ser a minha arte
e o teu vulto a única coisa que relembro

O passado é mentira digo eu
sensível ao esplendor do meio-dia
e sob a árvore plena de alegria
o mínimo cuidado esmoreceu

Ao grande peso de tanto passado
com a insónia da dúvida na testa
basta a tua presença que protesta
e todo eu me sinto renovado

Ruy Belo, in Despeço-me da terra da alegria

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Palavras Cruzadas com História

A leitura do romance "A Hora da Estrela", de Clarice Lispector inspirou, claro, a composição de mais um problema de Palavras Cruzadas. 

Depois de resolvido, encontrará, na diagonal, o nome da personagem principal (1 palavra) do romance. É muito fácil. O desafio é resolver mesmo e descobrir onde está o nome.


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HORIZONTAIS: 1 – Prelado que governa uma diocese; Nome do personagem principal do conto “Homero”, de Sophia de Mello Breyner, em “Contos Exemplares2 – Cada uma das tábuas, geralmente encurvadas, que formam o corpo de uma pipa ou vasilha semelhante; Calculei. 3 – Elemento de formação de palavras que exprime a ideia de Deus; Período; Núcleo dos Impostos sobre o Rendimento [sigla]. 4 – Preposição que designa lugar; Elemento de formação de palavras que exprime a ideia de ruivo, cor de fogo; Lado do navio de onde vem o vento [náutica]. 5 – Tinja; Além disso. 6 – Brilhe; Fuga. 7 – Aguento; Assassina. 8 – Região Militar [sigla]; Tome nota de; Aqui. 9 - Nome vulgar do óxido de cálcio; Boletim do Trabalho e do Emprego [sigla]; Belo. 10 –Animal vertebrado, pulmonado e ovíparo, de sangue quente, com o corpo revestido de penas e bico córneo [plural]; Solfejai. 11 – Reluzir; Sulcara. 

VERTICAIS: 1 – Agridem; Suportar. 2 – O mesmo; Equipava. 3 – Transpiro; Código do Registo Comercial [sigla]; Regra. 4 – Pata; Foice ou tesoura de podar; Sociedade Anónima [sigla]. 5 – Mulher do dono de olaria; Nióbio [símbolo químico]. 6 – Interjeição que exprime impaciência, aborrecimento ou irritação; Tema. 7 – Atmosfera; Prato metálico onde o sacerdote coloca a hóstia quando celebra missa. 8 – A unidade; Não menciona; Taxa Referencial [sigla]. 9 – Ramo do budismo que privilegia a meditação sem objecto ou a pura concentração do espírito, insistindo em certas posturas corporais; Altar cristão; Saborosa. 10 – Fantasia [figurado]; Comer a ceia. 11 – Um dos quatro naipes das cartas de jogar; Falhava.

Clique Aqui para ver e imprimir.

terça-feira, 21 de maio de 2013

A história de Macabéa


Acabei, há dias, de ler "A Hora da Estrela", de Clarice Lispector. Conta-nos a história de Macabéa , uma dactilógrafa criada no Estado de Alagoas, que migra para o Rio de Janeiro e vai morar para uma pensão. A sua vida é narrada por um escritor fictício, curiosamente um homem, chamado Rodrigo S.M. O livro descreve a pobreza e a marginalização no Brasil, mas afasta-se dos chavões de um sofrimento simplesmente causado pela pobreza, assim como do estereótipo das questões existenciais. Coloca a sua principal personagem no lugar exacto e singular da sua (in) existência. 

A história de Macabéa foi publicada poucos meses antes da morte de Clarice. Se calhar, se quisermos entender bem a história de Macabéa, era bom olharmos para os últimos anos da vida de Clarice. Foram anos terríveis: a esquizofrenia do filho mais velho, as suas próprias depressões, as dificuldades matérias, sem a mão direita em condições para escrever e o cancro que a matou em menos de um ano. 

A história de Macabéa, uma rapariga “incompetente para a vida”, é talvez o retrato nítido de alguém que toda a vida dissimulou os recantos mais íntimos da sua personalidade, de alguém que fugia dos palcos, de alguém que deu uma única entrevista à televisão poucos meses antes da sua morte, na condição de só ser vista pelo público depois de morta!

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Parque dos Poetas em Oeiras (21)


Parque dos Poetas, em Oeiras, 21 de Março de 2013, no Dia Mundial da Poesia. 

A peregrinação está quase a chegar ao fim. Estamos agora junto à estátua do poeta David Mourão-Ferreira, daquele que, em conjunto com o escultor Francisco Simões, é responsável pelo projecto deste parque. A nossa amiga Júlia Malhoa diz o poema 

E por vezes… 

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se envolam tantos anos.

David Mourão-Ferreira (1927-1996)

quinta-feira, 16 de maio de 2013

A minha trisavó Rosa Joaquina Gonçalves

Há dias, o meu querido amigo e meu conterrâneo, o Prof. Joaquim Candeias, chamou-me a atenção para uma curiosidade: a prevalência, na nossa família (e, de certa forma, na nossa aldeia), do nome próprio feminino ROSA. E mais soube, agora, que tenho uma trisavó que se chamava ROSA, Rosa Joaquina Gonçalves. 

Gostaria de deixar aqui uma singela homenagem a todas as mulheres da minha terra natal, a Orca, de hoje e de ontem, de nome ROSA, especialmente à minha “recém-apresentada”, trisavó Rosa Joaquina Gonçalves. 

Para o efeito, roubei este poema ao poeta António Gedeão, cuja mãe se chamava Rosa, a Rosinha. O poeta António Gedeão, com o seu cunho matemático, vai restringindo o número de mulheres até chegar à mais importante: a sua Mãe! É um hino às nossas mães, mas, também, neste caso, às nossas avós, bisavós, trisavós…que tinham um lindo nome: Rosa! 


MÃEZINHA

A terra de meu pai era pequena
e os transportes difíceis.
Não havia comboios, nem automóveis, nem aviões, nem mísseis.
Corria branda a noite e a vida era serena.

Segundo informação, concreta e exacta,
dos boletins oficiais,
viviam lá na terra, a essa data,
3023 mulheres, das quais
45 por cento eram de tenra idade,
chamando tenra idade
à que vai desde o berço até a puberdade.
28 por cento das restantes
eram senhoras, daquelas senhoras que só havia dantes.
Umas, viúvas, que nunca mais (oh! nunca mais!) tinham sequer sorrido
desde o dia da morte do extremoso marido;
outras, senhoras casadas, mães de filhos...
(De resto, as senhoras casadas,
pelas suas próprias condições,
não têm que ser consideradas
nestas considerações.)

Das outras, 10 por cento,
eram meninas casadoiras, seriíssimas, discretas,
mas que, por temperamento,
ou por outras razões mais ou menos secretas,
não se inclinavam para o casamento.

Além destas meninas
havia, salvo erro, 32,
que à meiga luz das horas vespertinas
se punham a bordar por detrás das cortinas
espreitando, de revés, quem passava nas ruas.

Dessas havia 9 que moravam
em prédios baixos como então havia,
um aqui, outro além, mas que todos ficavam
no troço habitual que meu pai percorria,
tranquilamente, no maior sossego,
às horas em que entrava e saía do emprego.

Dessas 9 excelentes raparigas
uma fugiu com o criado da lavoura;
5 morreram novas, de bexigas;
outra, que veio a ser grande senhora,
teve as suas fraquezas mas casou-se
e foi condessa por real mercê;
outra suicidou-se
não se sabe porquê.

A que sobeja
chama-se Rosinha.
Foi essa que meu pai levou à igreja.
Foi a minha mãezinha.

António Gedeão

terça-feira, 14 de maio de 2013

Palavras Cruzadas com História

"Uma Abelha na Chuva", publicado em 1953, é um romance considerado, por muitos, uma das mais importantes obras da literatura neo-realista portuguesa. Este problema de Palavras Cruzadas esconde o nome de uma personagem do romance. Depois de resolvido, encontrará o nome dessa personagem (3 palavras). Fica o desafio!


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 HORIZONTAIS:  1 – (…) de Oliveira, nome de um escritor e poeta português do Séc. XX; Ruins. 2 – Estreiteis; Alisa. 3 – Satélite natural de qualquer planeta; Murar. 4 – Escudeiro. 5 – Caiação ligeira. 6 – Remoinho de água [regionalismo]; Reze; Disk Operating System [sigla]. 7 – Deleites. 8 – Suplica. 9 - Decorara; Governanta. 10 – Tabela; Derruba. 11 – Empreendo; Ardências. 

VERTICAIS:  1 – Neste lugar; Vazio; Cume. 2 Actividades de Tempos Livres [sigla]; Fila; Regimento do Arrendamento Urbano [sigla]. 3 – Unia de novo; Encargo. 4 - Adivinhava; Manjar. 5 – Aqueles; Amara apaixonadamente. 6 – Período. 7 – Família real; Atmosfera. 8 – Variedade de pêra [botânica]; Margem. 9 – Nojo; Desgraças. 10 – Pinote; Ecoe; Liga. 11 – Cura; Su-sudoeste [símbolo]; Existes.

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