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sexta-feira, 24 de maio de 2013

Palavras Cruzadas com História

A leitura do romance "A Hora da Estrela", de Clarice Lispector inspirou, claro, a composição de mais um problema de Palavras Cruzadas. 

Depois de resolvido, encontrará, na diagonal, o nome da personagem principal (1 palavra) do romance. É muito fácil. O desafio é resolver mesmo e descobrir onde está o nome.


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HORIZONTAIS: 1 – Prelado que governa uma diocese; Nome do personagem principal do conto “Homero”, de Sophia de Mello Breyner, em “Contos Exemplares2 – Cada uma das tábuas, geralmente encurvadas, que formam o corpo de uma pipa ou vasilha semelhante; Calculei. 3 – Elemento de formação de palavras que exprime a ideia de Deus; Período; Núcleo dos Impostos sobre o Rendimento [sigla]. 4 – Preposição que designa lugar; Elemento de formação de palavras que exprime a ideia de ruivo, cor de fogo; Lado do navio de onde vem o vento [náutica]. 5 – Tinja; Além disso. 6 – Brilhe; Fuga. 7 – Aguento; Assassina. 8 – Região Militar [sigla]; Tome nota de; Aqui. 9 - Nome vulgar do óxido de cálcio; Boletim do Trabalho e do Emprego [sigla]; Belo. 10 –Animal vertebrado, pulmonado e ovíparo, de sangue quente, com o corpo revestido de penas e bico córneo [plural]; Solfejai. 11 – Reluzir; Sulcara. 

VERTICAIS: 1 – Agridem; Suportar. 2 – O mesmo; Equipava. 3 – Transpiro; Código do Registo Comercial [sigla]; Regra. 4 – Pata; Foice ou tesoura de podar; Sociedade Anónima [sigla]. 5 – Mulher do dono de olaria; Nióbio [símbolo químico]. 6 – Interjeição que exprime impaciência, aborrecimento ou irritação; Tema. 7 – Atmosfera; Prato metálico onde o sacerdote coloca a hóstia quando celebra missa. 8 – A unidade; Não menciona; Taxa Referencial [sigla]. 9 – Ramo do budismo que privilegia a meditação sem objecto ou a pura concentração do espírito, insistindo em certas posturas corporais; Altar cristão; Saborosa. 10 – Fantasia [figurado]; Comer a ceia. 11 – Um dos quatro naipes das cartas de jogar; Falhava.

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terça-feira, 21 de maio de 2013

A história de Macabéa


Acabei, há dias, de ler "A Hora da Estrela", de Clarice Lispector. Conta-nos a história de Macabéa , uma dactilógrafa criada no Estado de Alagoas, que migra para o Rio de Janeiro e vai morar para uma pensão. A sua vida é narrada por um escritor fictício, curiosamente um homem, chamado Rodrigo S.M. O livro descreve a pobreza e a marginalização no Brasil, mas afasta-se dos chavões de um sofrimento simplesmente causado pela pobreza, assim como do estereótipo das questões existenciais. Coloca a sua principal personagem no lugar exacto e singular da sua (in) existência. 

A história de Macabéa foi publicada poucos meses antes da morte de Clarice. Se calhar, se quisermos entender bem a história de Macabéa, era bom olharmos para os últimos anos da vida de Clarice. Foram anos terríveis: a esquizofrenia do filho mais velho, as suas próprias depressões, as dificuldades matérias, sem a mão direita em condições para escrever e o cancro que a matou em menos de um ano. 

A história de Macabéa, uma rapariga “incompetente para a vida”, é talvez o retrato nítido de alguém que toda a vida dissimulou os recantos mais íntimos da sua personalidade, de alguém que fugia dos palcos, de alguém que deu uma única entrevista à televisão poucos meses antes da sua morte, na condição de só ser vista pelo público depois de morta!

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Parque dos Poetas em Oeiras (21)


Parque dos Poetas, em Oeiras, 21 de Março de 2013, no Dia Mundial da Poesia. 

A peregrinação está quase a chegar ao fim. Estamos agora junto à estátua do poeta David Mourão-Ferreira, daquele que, em conjunto com o escultor Francisco Simões, é responsável pelo projecto deste parque. A nossa amiga Júlia Malhoa diz o poema 

E por vezes… 

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se envolam tantos anos.

David Mourão-Ferreira (1927-1996)

quinta-feira, 16 de maio de 2013

A minha trisavó Rosa Joaquina Gonçalves

Há dias, o meu querido amigo e meu conterrâneo, o Prof. Joaquim Candeias, chamou-me a atenção para uma curiosidade: a prevalência, na nossa família (e, de certa forma, na nossa aldeia), do nome próprio feminino ROSA. E mais soube, agora, que tenho uma trisavó que se chamava ROSA, Rosa Joaquina Gonçalves. 

Gostaria de deixar aqui uma singela homenagem a todas as mulheres da minha terra natal, a Orca, de hoje e de ontem, de nome ROSA, especialmente à minha “recém-apresentada”, trisavó Rosa Joaquina Gonçalves. 

Para o efeito, roubei este poema ao poeta António Gedeão, cuja mãe se chamava Rosa, a Rosinha. O poeta António Gedeão, com o seu cunho matemático, vai restringindo o número de mulheres até chegar à mais importante: a sua Mãe! É um hino às nossas mães, mas, também, neste caso, às nossas avós, bisavós, trisavós…que tinham um lindo nome: Rosa! 


MÃEZINHA

A terra de meu pai era pequena
e os transportes difíceis.
Não havia comboios, nem automóveis, nem aviões, nem mísseis.
Corria branda a noite e a vida era serena.

Segundo informação, concreta e exacta,
dos boletins oficiais,
viviam lá na terra, a essa data,
3023 mulheres, das quais
45 por cento eram de tenra idade,
chamando tenra idade
à que vai desde o berço até a puberdade.
28 por cento das restantes
eram senhoras, daquelas senhoras que só havia dantes.
Umas, viúvas, que nunca mais (oh! nunca mais!) tinham sequer sorrido
desde o dia da morte do extremoso marido;
outras, senhoras casadas, mães de filhos...
(De resto, as senhoras casadas,
pelas suas próprias condições,
não têm que ser consideradas
nestas considerações.)

Das outras, 10 por cento,
eram meninas casadoiras, seriíssimas, discretas,
mas que, por temperamento,
ou por outras razões mais ou menos secretas,
não se inclinavam para o casamento.

Além destas meninas
havia, salvo erro, 32,
que à meiga luz das horas vespertinas
se punham a bordar por detrás das cortinas
espreitando, de revés, quem passava nas ruas.

Dessas havia 9 que moravam
em prédios baixos como então havia,
um aqui, outro além, mas que todos ficavam
no troço habitual que meu pai percorria,
tranquilamente, no maior sossego,
às horas em que entrava e saía do emprego.

Dessas 9 excelentes raparigas
uma fugiu com o criado da lavoura;
5 morreram novas, de bexigas;
outra, que veio a ser grande senhora,
teve as suas fraquezas mas casou-se
e foi condessa por real mercê;
outra suicidou-se
não se sabe porquê.

A que sobeja
chama-se Rosinha.
Foi essa que meu pai levou à igreja.
Foi a minha mãezinha.

António Gedeão

terça-feira, 14 de maio de 2013

Palavras Cruzadas com História

"Uma Abelha na Chuva", publicado em 1953, é um romance considerado, por muitos, uma das mais importantes obras da literatura neo-realista portuguesa. Este problema de Palavras Cruzadas esconde o nome de uma personagem do romance. Depois de resolvido, encontrará o nome dessa personagem (3 palavras). Fica o desafio!


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 HORIZONTAIS:  1 – (…) de Oliveira, nome de um escritor e poeta português do Séc. XX; Ruins. 2 – Estreiteis; Alisa. 3 – Satélite natural de qualquer planeta; Murar. 4 – Escudeiro. 5 – Caiação ligeira. 6 – Remoinho de água [regionalismo]; Reze; Disk Operating System [sigla]. 7 – Deleites. 8 – Suplica. 9 - Decorara; Governanta. 10 – Tabela; Derruba. 11 – Empreendo; Ardências. 

VERTICAIS:  1 – Neste lugar; Vazio; Cume. 2 Actividades de Tempos Livres [sigla]; Fila; Regimento do Arrendamento Urbano [sigla]. 3 – Unia de novo; Encargo. 4 - Adivinhava; Manjar. 5 – Aqueles; Amara apaixonadamente. 6 – Período. 7 – Família real; Atmosfera. 8 – Variedade de pêra [botânica]; Margem. 9 – Nojo; Desgraças. 10 – Pinote; Ecoe; Liga. 11 – Cura; Su-sudoeste [símbolo]; Existes.

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segunda-feira, 13 de maio de 2013

Centenário do nascimento de João Villaret


No passado dia 10, João Villaret, se fosse vivo, teria feito justamente 100 anos. No Sábado passado, estive na Biblioteca Fernando Piteira Santos, na Amadora, onde teve lugar um evento, para comemorar esse centenário.

Os poemas (todos anteriormente declamados pelo João Villaret) foram agora ditos pelo Grupo de Jograis «U...Tópico». Foram 45 minutos de boa poesia (de Fernando Pessoa a José Régio). Deixei-me emocionar, não me envergonho de o dizer, por este poema:

Colegial

Em cima da minha mesa
Da minha mesa de estudo
Mesa da minha tristeza -
Em que de noite e de dia
Rasgo as folhas, leio tudo
Destes livros em que estudo,
E me estudo
(Eu já me estudo...)
E me estudo
A mim
Também
Em cima da minha mesa,
Tenho o teu retrato, Mãe!

À cabeceira do leito,
Dentro de um caixilho,
Tenho uma Nossa Senhora
Que venero a toda a hora...
Ai minha Nossa Senhora,
Que se parece contigo,
E que tem ao peito,
Um filho
(O que ainda é mais estranho)
Que se parece comigo,
Num retratinho,
Que Tenho,
De menino pequenino!...
No fundo da minha mala,

Mesmo lá no fundo a um canto,
Não lhes vá tocar alguém,
(Quem as lesse, o que entendia?
Só riria
Do que nos comove a nós...)
Já tenho três maços, Mãe,
Das cartas que tu me escreves
Desde que saí de casa...
Três maços - e nada leves! -
Atados com um retrós...

Se não fora eu ter-te assim,
A toda a hora,
Sempre à beirinha de mim,
(sei agora
Que isto de a gente ser grande
Não é como se nos pinta...)
Mãe!, já teria morrido,
Ou já teria fugido,
Ou já teria bebido
Algum tinteiro de tinta!

José Régio, in Encruzadas de Deus

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Quem nunca roubou uma rosa?


No ano em que passam 35 anos sobre a morte de Clarice Lispector, a Fundação Gulbenkian apresenta a exposição A Hora da Estrela com textos, fac-símiles, fotografias e documentos pessoais de uma das mais destacadas vozes da literatura brasileira. 
Esta crónica, que tem o nome “Cem anos de perdão”, foi escrita por Clarice Lispector no 25 de Julho de 1970. Faz parte de uma antologia apresentada no livro “A Descoberta do Mundo”.

«Cem anos de perdão 

Quem nunca roubou não vai me entender. E quem nunca roubou rosas, então é que jamais poderá me entender. Eu, em pequena, roubava rosas. 

Havia em Recife inúmeras ruas, as ruas dos ricos, ladeadas por palacetes que ficavam no centro de grandes jardins. Eu e uma amiguinha brincávamos muito de decidir a quem pertenciam os palacetes. «Aquele branco é meu.» «Não, eu já disse que os brancos são meus.» «Mas esse não é totalmente branco, tem janelas verdes.» Parávamos às vezes longo tempo, a cara imprensada nas grades, olhando. 

Começou assim. Numa das brincadeiras de “essa casa é minha”, parámos diante de uma que parecia um pequeno castelo. No fundo via-se o imenso pomar. E, à frente, em canteiros bem ajardinados, estavam plantadas as flores. 

Bem, mas isolada no seu canteiro estava uma rosa apenas entreaberta cor-de-rosa vivo. Fiquei feito boba, olhando com admiração aquela rosa altaneira que nem mulher feita ainda não era. E então aconteceu: do fundo de meu coração, eu queria aquela rosa para mim. Eu queria, ah como eu queria. E não havia jeito de obtê-la. Se o jardineiro estivesse por ali, pediria a rosa, mesmo sabendo que ele nos expulsaria como se expulsam moleques. Não havia jardineiro à vista, ninguém. E as janelas, por causa do sol, estavam de venezianas fechadas. Era uma rua onde não passavam bondes e raro era o carro que aparecia. No meio do meu silêncio e do silêncio da rosa, havia o meu desejo de possuí-la como coisa só minha. Eu queria poder pegar nela. Queria cheirá-la até sentir a vista escura de tanta tonteira de perfume. 

Então não pude mais. O plano se formou em mim instantaneamente, cheio de paixão. Mas, como boa realizadora que eu era, raciocinei friamente com minha amiguinha, explicando-lhe qual seria o seu papel: vigiar as janelas da casa ou a aproximação ainda possível do jardineiro, vigiar os transeuntes raros na rua. Enquanto isso, entreabri lentamente o portão de grades um pouco enferrujadas, contando já com o leve rangido. Entreabri somente o bastante para que meu esguio corpo de menina pudesse passar. E, pé-ante-pé, mais veloz, andava pelos pedregulhos que rodeavam os canteiros. Até chegar à rosa foi um século de coração batendo. 

Eis-me afinal diante dela. Paro um instante, perigosamente, porque de perto ela ainda é mais linda. Finalmente começo a lhe quebrar o talo, arranhando-me com os espinhos, e chupando o sangue dos dedos. 

E, de repente - ei-la toda na minha mão. A corrida de volta ao portão tinha também de ser sem barulho. Pelo portão que deixara entreaberto, passei segurando a rosa. E então nós duas pálidas, eu e a rosa, corremos literalmente para longe da casa. 

O que é que fazia eu com a rosa? Fazia isso: ela era minha. 

Levei-a para casa, coloquei-a num copo d’água, onde ficou soberana, de pétalas grossas e aveludadas, com vários entretons de rosa-chá. No centro dela a cor se concentrava mais e seu coração quase parecia vermelho. 

Foi tão bom. 

Foi tão bom que simplesmente passei a roubar rosas. O processo era sempre o mesmo: a menina vigiando, eu entrando, eu quebrando o talo e fugindo com a rosa na mão. Sempre com o coração batendo e sempre com aquela glória que ninguém me tirava. 

Também roubava pitangas. Havia uma igreja presbiteriana perto de casa, rodeada por uma sebe verde, alta e tão densa que impossibilitava a visão da igreja. Nunca cheguei a vê-la, além de uma ponta de telhado. A sebe era de pitangueira. Mas pitangas são frutas que se escondem: eu não via nenhuma. Então, olhando antes para os lados para ver se ninguém vinha, eu metia a mão por entre as grades, mergulhava-as dentro da sebe e começava a apalpar até meus dedos sentirem o húmido da frutinha. Muitas vezes, na minha pressa, eu esmagava uma pitanga madura de mais com os dedos que ficavam como ensanguentados. Colhia várias que ia comendo ali mesmo, umas até verdes de mais, que eu jogava fora. 

Nunca ninguém soube. Não me arrependo: ladrão de rosas e de pitangas tem cem anos de perdão. As pitangas, por exemplo, são elas mesmas que pedem para ser colhidas, em vez de amadurecer e morrer no galho, virgens» 

Clarice Lispector

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Uma abelha na chuva


«[…] Meu pai era médico de aldeia, uma aldeia pobríssima: Nossa Senhora das Febres. Lagoas pantanosas, desolação, calcário, areia. Cresci cercado pela grande pobreza dos camponeses, por uma mortalidade infantil enorme, uma emigração espantosa. Natural portanto que tudo isso me tenha tocado (melhor, tatuado). O lado social e o outro, porque há outro também, das minhas narrativas ou poemas publicados […] nasceu desse ambiente quase lunar habitado por homens […]», em “O Aprendiz de Feiticeiro”. 

Deve haver vários caminhos para escrever um livro. Carlos de Oliveira teve, certamente, razões fortes para escrever "Uma Abelha na Chuva", publicado em 1953. Este romance é considerado, por muitos, uma das mais importantes obras da literatura neo-realista portuguesa. E como chegou Carlos de Oliveira ao Neo-Realismo? 

Importa olhar o seu percurso. Nasceu no Brasil, em Belém do Pará, em 1921. Veio, aos dois anos, para Portugal. A família fixou-se em Cantanhede, mais precisamente na freguesia de Febres, onde o pai exerceu medicina, durante muitos anos. Em 1933, Carlos de Oliveira mudou-se para Coimbra, onde permaneceu durante quinze anos, a fim de prosseguir os estudos. Em 1941,  ingressou na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, onde estabeleceu amizade com Joaquim Namorado, João Cochofel e Fernando Namora. Em 1947, licenciou-se em Ciências Histórico-Filosóficas, instalando-se definitivamente em  Lisboa, no ano seguinte. Todavia, sempre que podia, visitava Febres.

Febres era terra de febres palustres. Sezões que matavam. Grandes charcos com mosquitos. Desolação e morte. E muita pobreza. E muita desigualdade social. “Cresci cercado de pobres camponeses”, escreveu Carlos de Oliveira. Um pedaço de terra amassado com suor e lágrimas. Só Carlos Oliveira, alimentado pelos ideais do Neo-Realismo, bebidos em Coimbra, podia escrever um livro como “Uma Abelha na Chuva”. 

O Neo-Realismo pretende descrever a realidade mas, ao mesmo tempo, quer transformá-la. Por isso, realça a luta daqueles que são o agente dessa transformação. Neste romance, Carlos de Oliveira, com originalidade,  estabelece uma similitude entre essa luta e o universo das abelhas. Os neo-realistas querem mudar a sociedade, lentamente, como as abelhas constroem as suas colmeias. 

O ódio que o casal Álvaro Silvestre/Maria dos Prazeres nutre entre si acaba por desabar sobre os criados e outros personagens secundários que esvoaçam ao redor. Jacinto e Clara, o jovem par de namorados que concebia um futuro, é atingido por esse mal. Jacinto é assassinado, vítima do ciúme doentio de um pretendente, da repulsa de um pai com aspirações sociais e de um Álvaro bêbado que fala sem pensar nas consequências. Clara escolhe a água, no fundo de um poço, para acabar a sua vida e a da esperança que transportava na barriga. 

Quem era, afinal, a abelha de “Uma Abelha na Chuva”? Clara, evidentemente. Foi apanhada por uma chuva forte, da qual não consegue sair ou abrigar-se. «[…] A abelha foi apanhada pela chuva: vergastadas, impu1sos, fios do aguaceiro a enredá-la, golpes de vento a ferirem-lhe o voo. Deu com as asas em terra e uma bátega mais forte espezinhou-a. Arrastou-se no saibro, debateu-se ainda, mas a voragem acabou por levá-la com as folhas mortas». 

Que concluir? O romance encerra com uma mensagem de pessimismo,  traduzida na eliminação de Clara. Tudo estava contra ela, pelo que não se conseguiu defender. Ou será que essa mensagem de pessimismo é só aparente?

terça-feira, 7 de maio de 2013

A mão que o poeta estende


A verdadeira mão

A verdadeira mão que o poeta estende
não tem dedos:
é um gesto que se perde
no próprio acto de dar-se

O poeta desaparece
na verdade da sua ausência
dissolve-se no biombo da escrita

O poema é
a única
a verdadeira mão que o poeta estende

E quando o poema é bom
não te aperta a mão:
aperta-te a garganta


Ana Hatherly
, em O Pavão Negro

domingo, 5 de maio de 2013

Mãe! Passa a tua mão pela minha cabeça!

MÃE 

Mãe! Vem ouvir a minha cabeça a contar histórias ricas que ainda não viajei!
Traz tinta encarnada para escrever estas coisas!
Tinta cor de sangue, sangue verdadeiro, encarnado!

Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça! Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!

Eu ainda não fiz viagens e a minha cabeça não se lembra senão de viagens!
Eu vou viajar. Tenho sede! Eu prometo saber viajar.

Quando voltar é para subir os degraus da tua casa, um por um.
Eu vou aprender de cor os degraus da nossa casa.
Depois venho sentar-me a teu lado.
Tu a coseres e eu a contar-te as minhas viagens, aquelas que eu viajei,
tão parecidas com as que não viajei, escritas ambas com as mesmas palavras.

Mãe! Ata as tuas mãos às minhas e dá um nó-cego muito apertado!
Eu quero ser qualquer coisa da nossa casa, como a mesa.
Eu também quero ter um feitio, um feitio que sirva exactamente para a nossa casa, como a mesa.

Mãe! Passa a tua mão pela minha cabeça!
Quando passas a tua mão na minha cabeça é tudo tão verdade!

Almada Negreiros (1893-1970)

sexta-feira, 3 de maio de 2013

D. João II, O Príncipe (In)Perfeito


O nosso rei D. João II, nasceu no dia 3 de Maio de 1455. Passam hoje 558 anos sobre o nascimento do rei que ficou na História com o cognome O Príncipe Perfeito. Sucedeu ao seu pai, o rei Afonso V, por uma forma, no mínimo, tortuosa. Concentrou o poder em si, retirando-o à aristocracia. Foi implacável. Matou muitos nobres, outros tiveram que fugir. 

Uma das vítimas foi o Duque de Viseu, seu primo e cunhado. Aconteceu em Setúbal, no dia 24/8/1484, no Palácio de Nuno da Cunha (hoje actual Governo Civil). Nesse dia, o Rei foi caçar até Alcácer. Vasco Coutinho, que soube, em segredo, de uma conspiração contra o rei por parte do seu irmão Guterres Coutinho, foi denunciar os conspiradores ao Rei. Este já não veio de barco, veio a cavalo. Chegado a Setúbal, mandou chamar o Duque ao Palácio. O nosso rei apunhalou-o pessoalmente, com a ajuda de 3 fidalgos (Pedro d´Eça, Diogo da Azambuja e o Almirante Lopo Mendes). O Duque ficou crivado de facas. Consta que, ainda na antecâmara, o rei lhe perguntou: 
- Primo, o que fazias se um tipo te quisesse matar? 
- Matava-o eu primeiro, primo, respondeu o Duque. 
- Pois, acabaste de lavrar a tua sentença!.

Parque dos Poetas em Oeiras (20)



Parque dos Poetas, em Oeiras, 21 de Março de 2013, no Dia Mundial da Poesia. 

A peregrinação aproxima-se do fim, mas o céu ameaça borrasca da grossa. Esperemos que o “vento que passa” a afaste para bem longe. A nossa Profª Feliciana Caleiro, junto à estátua do poeta Manuel Alegre, diz o poema 


Trova do Vento que Passa 

Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das águas
e os rios não me sossegam
levam sonhos deixam mágoas.

Levam sonhos deixam mágoas
ai rios do meu país
minha pátria à flor das águas
para onde vais? Ninguém diz.

Se o verde trevo desfolhas
pede notícias e diz
ao trevo de quatro folhas
que morro por meu país.

Pergunto à gente que passa
por que vai de olhos no chão.
Silêncio -- é tudo o que tem
quem vive na servidão.

Vi florir os verdes ramos
direitos e ao céu voltados.
E a quem gosta de ter amos
vi sempre os ombros curvados.

E o vento não me diz nada
ninguém diz nada de novo.
Vi minha pátria pregada
nos braços em cruz do povo.

Vi minha pátria na margem
dos rios que vão pró mar
como quem ama a viagem
mas tem sempre de ficar.

Vi navios a partir
(minha pátria à flor das águas)
vi minha pátria florir
(verdes folhas verdes mágoas).

Há quem te queira ignorada
e fale pátria em teu nome.
Eu vi-te crucificada
nos braços negros da fome.

E o vento não me diz nada
só o silêncio persiste.
Vi minha pátria parada
à beira de um rio triste.

Ninguém diz nada de novo
se notícias vou pedindo
nas mãos vazias do povo
vi minha pátria florindo.

E a noite cresce por dentro
dos homens do meu país.
Peço notícias ao vento
e o vento nada me diz.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.

Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.

Manuel Alegre (1936-

quarta-feira, 1 de maio de 2013

A vã esperança de ser contagiado...


Coimbra, 1 de Maio de 1974 — Colossal cortejo pelas ruas da cidade. Uma explosão gregária de alegria indutiva a desfilar diante das forças de repressão remetidas aos quartéis. 
- Mais bonito do que a Rainha Santa... dizia uma popular. 
Segui o caudal humano, calado, a ouvir vivas e morras, travado por não sei que incerteza, sem poder vibrar com o entusiasmo que me rodeava, na recôndita e vã esperança de ser contagiado. […]. 

Miguel Torga, Diário XII