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terça-feira, 4 de março de 2014

Palavras cruzadas com História - Mia Couto

Solução do passatempo de Palavras Cruzadas de 23 de Fevereiro.

“KINDZU” e “FARIDA” são personagens do romance “Terra Sonâmbula”, de Mia Couto e eram estes os nomes pedidos. Eis a solução:


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Recebi respostas, por email e no Facebook, de: Aleme, Anjerod, António Rodrigues Amaro, Arnaldo Sarmento, Bárbara Marçal, Elizabeth Sá, Emanuel Magno, João Alberto Bentes, Manuel Amaro, Manuel Caleiro, Mister Miguel, Olidino, Pedro Varandas e Russo. 

Obrigado a todos e até ao próximo passatempo!

segunda-feira, 3 de março de 2014

Um festim de sangue...


Acabei de ler “A Noite Sangrenta”, de José Brandão. Li, de supetão, as primeiras 100 páginas. As restantes 130, mais serenamente. O livro pretende relatar os trágicos acontecimentos de 19 de Outubro de 1921. Estamos em plena 1ª República e o que aconteceu na noite daquele dia é uma página negra da nossa História. 

António Granjo, Machado dos Santos e Carlos da Maia são as principais figuras ligadas à história do regime saído da Revolução de 5 de Outubro de 1910 que foram apanhadas nas iras de uma turba alucinada.

No Arsenal da Marinha, local principal desta tragédia, passaram-se momentos de arrepiante pavor. Foi para aqui que a célebre Camioneta Fantasma trouxe as principais vítimas. O primeiro a chegar foi António Granjo, o chefe do Governo recentemente eleito. Foi cravejado de balas. “Venham ver de cor é o sangue do porco”. Gritou ululante a corja de facínoras.

Machado dos Santos, o grande símbolo do 5º de Outubro de 1910, foi arrancado, altas horas da noite, do aconchego da família e levado na Camioneta Fantasma. O destino era o Arsenal da Marinha. Todavia, uma avaria súbita no motor da camioneta, junto ao largo do Intendente, impediu a marcha até ao Arsenal. Os facínoras não perderam tempo, “ E se a gente o matasse já aqui?”. E assim fizeram. 

Como foi possível este festim de sangue?

A 19 de Outubro de 1921, quer o chefe do governo, quer o presidente da República eram adversários declarados de Afonso Costa e tinham sido eleitos à custa da derrota do Partido Democrático.

O país estava no rescaldo do Sidonismo e da Monarquia do Norte. Na chefia do Governo, estava António Granjo, do Partido Liberal. Era já o 34º Governo da I República! Na presidência da República estava António José de Almeida. Era o 6º presidente em 11 anos de República!

Por essa altura, a GNR era seguramente a força militarizada que dispunha de melhor armamento e de efectivos em número suficiente para tomar conta da cidade num abrir e fechar de olhos.

Por outro lado, os marinheiros sublevados ocuparam o Arsenal, contando com o apoio dos mais poderosos vasos de guerra concentrados no estuário do Tejo.

Na primeira parte do livro, o autor apresenta uma descrição dos factos. Decorridos dois anos, foi feito o julgamento dos crimes de homicídio praticados durante a noite sangrenta. Os autores materiais dos crimes foram julgados. Ao todo foram acusados 22. A 1 de Junho de 1923, o Tribunal Militar Extraordinário de Santa Clara proferiu a sentença condenatória, sendo 13 condenados com penas de prisão e degredo e 9 absolvidos.

Na segunda, o autor do livro faz um levantamento opinativo de muitas interpretações dos acontecimentos acerca dos trágicos acontecimentos. Para muitos, o Tribunal apenas condenou soldados e marujos (o peixe miúdo), os que não puderam lavar das mãos e das fardas o sangue derramado, deixando de fora os que prepararam o festim de terror e de sangue.

Especular com aos autores morais do crime? Não, não vou por aí. Dependendo da posição ideológica, há muitas interpretações para o sucedido naquela noite sangrenta. É um caminho que eu não quero percorrer. 

Socorro-me de Raul Brandão. Para ele, foi uma “noite infame”, para a qual só encontra as seguintes palavras: “assombro”, “horror”, “indignação”, “vergonha”, “loucura”, “crime”!

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Mia Couto, a palavra em filigrama


De um amigo poeta, que esteve comigo na leitura do romance "Terra Sonâmbula", este poema:


Terra Sonâmbula

A palavra em filigrana;
A frase bem trabalhada
Com ternura e vida humana.

Cinzela o pensamento
Em africano animismo
Num viver tenso e lento
Suspenso sobre o abismo

Rubro e estranho da guerra
Civil, cruel, fratricida,
Numa sonâmbula terra
Suspensa… indecidida

António Amaro Rodrigues (18-2-2014)

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Palavras cruzadas com História - Mia Couto


"Terra Sonâmbula", do escritor Mia Couto, é um dos relatos mais surpreendentes acerca de conflitos armados. Uma narrativa que conta a história de homens e mulheres à deriva, durante a guerra civil de Moçambique. Um cenário de pesadelo por onde desfilam personagens de uma dimensão mágica e mítica, por caminhos onde só as hienas se arrastavam… 

Mia Couto, interrogado se “sofreu” ao escrever "Terra Sonâmbula", respondeu assim: «O que me custou escrever Terra Sonâmbula fez parte do próprio processo de catarse, de afastamento dos fantasmas que a violência da guerra instalara em mim. Precisava de percorrer esse caminho, fui essa personagem do livro que caminhava pela berma do mundo, onde se misturam as fronteiras do mar e da terra».

O desafio que aqui deixo é resolver este problema de Palavras Cruzadas e, no final, descobrir, na diagonal, o nome de dois personagens (um masculino e outro feminino) de que, poeticamente, Mia Couto nos fala neste belíssimo romance. “Terra Sonâmbula” é um livro imperdível!


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HORIZONTAIS: 1 – Levantam as abas; Método de combate e defesa pessoal, de origem japonesa, em que não se faz uso de arma, e que consiste sobretudo no emprego de golpes, rápidos e vigorosos, de mão e de pé, desferidos sobre pontos vitais do adversário. 2 – Medo; Espécie de sereia dos rios e dos lagos, na mitologia dos índios do Brasil [plural]. 3 – Graceja; Culpado; Partido Comunista [sigla]. 4 – Decoram; Mediano. 5 – Loteia; Ensejo. 6 – Observar. 7 Observatório das Actividades Culturais [sigla]; Interjeição que exprime irritação. 8 – Frequenta; Uma e outra. 9 – Ástato [símbolo químico]; Altar cristão; Aqui. 10 – Cada um dos tempos em que se divide um combate de boxe; Suportar. 11 – Equipara; Entusiasmo [figurado].

VERTICAIS: 1 – Negro; Fixara. 2 – (…), cidade onde nasceu o escritor moçambicano Mia Couto; Inventor. 3 – Amerício [símbolo químico]; Comissão de Coordenação Regional [sigla]; A unidade. 4 – Estado de espírito; Destino [popular]. 5 – Movia; Doutor [abreviatura]. 6 – Possuir. 7 – Nesse lugar; Decorara a(s) matéria(s) [gíria académica]. 8 – Indivíduo pertencente a uma casta nobre, na Índia; Estimara. 9 – Atmosfera; Conceder; Cloro [símbolo químico]. 10 – Tapete; Puxam por. 11 – Coou; Cura.

Para ver e imprimir, clique Aqui

Aceito respostas até ao dia 2 de Março, através do chat do Facebook ou no meu endereço electrónico: boavida.joaquim@gmail.com. No dia seguinte, apresentarei a solução, assim como os nomes dos decifradores.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Pelos caminhos só as hienas se arrastavam...


Mia Couto nasceu na cidade da Beira no dia 5 de Julho de 1955. É um biólogo e escritor moçambicano.

Em 1971, mudou-se para a cidade capital de Lourenço Marques (agora Maputo). Iniciou os estudos universitários em medicina, mas abandonou esta área no princípio do terceiro ano, passando a exercer a profissão de jornalista depois do 25 de Abril de 1974. Trabalhou em vários órgãos de imprensa, mas em 1855 demitiu-se da posição de director para continuar os estudos universitários na área de biologia.

Além de considerado um dos escritores mais importantes de Moçambique, é o escritor moçambicano mais traduzido. Em muitas das suas obras, Mia Couto tenta recriar a língua portuguesa com uma influência moçambicana, utilizando o léxico de várias regiões do país e produzindo um novo modelo de narrativa africana.

Em 2013 foi homenageado com o Prémio Camões.

Mia Couto tem uma obra literária extensa e diversificada, incluindo poesia, contos, romance e crónicas.

Terra Sonâmbula, o seu primeiro romance, foi publicado em 1992. Foi considerado um dos dez melhores livros africanos do século XX por um júri criado pela Feira do Livro do Zimbabué. 

Terra Sonâmbula foi o livro que revisitei, agora, na companhia dos meus amigos do Grupo de Leitura, da Casa Roque Gameiro, na Amadora.

A narrativa decorre em Moçambique, ao tempo da Guerra Civil (1976-1992). País devastado pela guerra, “pelos caminhos só as hienas se arrastavam, focinhando entre cinzas e poeiras”.

Um machimbombo (autocarro) incendiado em uma estrada poeirenta serve de abrigo ao velho TUAHIR e ao menino MUIDINGA, em fuga da guerra civil, devastadora, que grassa por toda parte em Moçambique. O veículo está cheio de corpos carbonizados. Mas há também um outro corpo à beira da estrada, junto a uma mala que abriga os “cadernos de Kindzu”, o longo diário do morto em questão. A partir daí, duas histórias são narradas paralelamente: uma, a viagem de Tuahir e Muidinga; outra, em analepse, o percurso de Kindzu em busca dos naparamas, guerreiros tradicionais, abençoados pelos feiticeiros.

Quem é o “herói” da história, quem é o personagem principal da narrativa? Por mim, responderia KINDZU. É ele que deixa os cadernos nos quais está descrita a principal história. Ele é um jovem com sonhos e que, no final, passará o seu testemunho a outro jovem, ao miúdo MUIDINGA. Será mesmo este o nome deste miúdo? Veremos no fim.

KINDZU é um narrador na 1ª pessoa. Conta-nos a sua história desde o início. Filho de Taímo, pescador. Na família, o último a nascer é Junhito, que se há-de transformar num galo. KINDZU, sem família, despedaçada pela guerra, decide-se ir à procura dos naparamas, guerreiros tradicionais. No fundo,  é o sonho dele. 

Vai, umas vezes por terra, outras por mar, até que encontra, num barco abandonado, FARIDA, mulher bonita, “ beleza era de fugir o nome das coisas”. Também esta fugira da sua aldeia por causa da guerra. FARIDA conta a sua história e, no fim, pede a KINDZU para este ir à procura do filho, GASPAR.

KINDZU larga o seu sonho (temporariamente) e parte à procura de GASPAR. Corre Ceca e Meca, interroga este e aquele, deposita totalmente a sua esperança em QUINTINO, em VIRGÍNIA e, ainda, na tia EUZINHA. Mas nada...

Resultam infrutíferas todas as diligências. Está tudo escrito nos cadernos.

Desanimado, tem ainda a noticia que FARIDA morreu. Sente-se desobrigado de procurar GASPAR e retoma o seu sonho de ser um naparama. Decide que, no dia seguinte, embarcará no machimbombo.

Porém, antes de partir, quer deixar escrito nos cadernos o sonho da última noite. Aqui, é um golpe genial de Mia Couto, guardando, para o final, um desfecho fantástico. KINDZU vai morrer, mas ninguém é capaz de escrever a sua morte. Como tal, é o sonho que diz ao leitor como ele vai morrer. O Machimbomo espalma-se contra uma árvore e incendeia-se. KINDZU cai na berma da estrada, vacila, deixa cair a mala onde leva os cadernos. Consegue ainda andar com a força que o pai lhe dá. Ao longe vê um miúdo com os seus cadernos na mão e chama, com o peito sufocado: GASPAR!!!.

Voltamos ao inicio da narrativa. Afinal, ficamos a saber que o miúdo que tomou os papéis, o seu verdadeiro nome é GASPAR, não MUIDINGA!

O nome MUIDINGA tinha sido dado pelo velho TUHIR, que o salvara da morte, por piedade, e que o adoptou e lhe pôs o nome de MUIDINGA, por ser este o nome do seu filho mais velho, já morto. 

Mia Couto, interrogado se “sofreu” ao escrever Terra Sonâmbula, respondeu assim: 

«O que me custou escrever Terra Sonâmbula fez parte do próprio processo de catarse, de afastamento dos fantasmas que a violência da guerra instalara em mim. Precisava de percorrer esse caminho, fui essa personagem do livro que caminhava pela berma do mundo, onde se misturam as fronteiras do mar e da terra. Os livros devem permitir isso: que o autor seja autorizado pelas outras personagens a ser mais uma das personagens».

Lá está! Mia Couto identifica-se com KINDZU, aquele que caminhou pela berma do mundo, umas vezes em terra, outras por mar; aquele atravessou as terras devastadas da guerra em procura de GASPAR; o único (todos os outros assistentes se transformaram em bicharada) que recebeu do feiticeiro a mensagem final, «…Aceitemos morrer como gente que já não somos. Deixai que morra o animal em que esta guerra nos converteu»; aquele que há-de ser o porta-estandarte da mensagem sentenciada pelo feiticeiro, escrevendo-a no último caderno; aquele que “entrega” o testemunho ao miúdo MUIDINGA, afinal a GASPAR, quem ele procurava!

O sonho é a porta por onde nos chegam as memórias. É assim que sucede nas nossas vidas. Livro absolutamente imperdível!

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

"A Porta" de Mia Couto


A Porta

Era uma vez uma porta que, em Moçambique, abria para Moçambique. Junto da porta havia um porteiro.

Chegou um indiano moçambicano e pediu para passar. O porteiro escutou vozes dizendo:
- Não abras! Essa gente tem mania que passa à frente!

E a porta não foi aberta. Chegou um mulato moçambicano, querendo entrar. De novo, se escutaram protestos:
- Não deixa entrar, esses não são a maioria.

Apareceu um moçambicano branco e o porteiro foi assaltado por protestos:
-Não abre! Esses não são originários!

E a porta não se abriu. Apareceu um negro moçambicano solicitando passagem. E logo surgiram protestos:
- Esse aí é do Sul! Estamos cansados dessas preferências...

E o porteiro negou passagem. Apareceu outro moçambicano de raça negra, reclamando passagem:
- Se você deixar passar esse aí, nós vamos-te acusar de tribalismo!

O porteiro voltou a guardar a chave, negando aceder ao pedido. Foi então que surgiu um estrangeiro, mandando em inglês, com a carteira cheia de dinheiro. Comprou a porta, comprou o porteiro e meteu a chave no bolso. Depois, nunca mais nenhum moçambicano passou por aquela porta que, em tempos, se abria de Moçambique para Moçambique.


Mia Couto
in "O País do Queixa Andar"