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quarta-feira, 2 de maio de 2012

Um Encontro Improvável


Idade quarenta e oito anos, natural do Porto, estado civil solteiro, profissão médico, última residência Rio de Janeiro, donde procede. Parece o princípio de uma confissão, uma autobiografia, mas não. Estamos no dia 30 de Dezembro de 1935, no Hotel Bragança, em Lisboa. Fica na Rua do Alecrim, à direita de quem sobe. O quarto que lhe coube é o duzentos e um. O novo hóspede podia chamar-se Jacinto e ser dono de uma quinta em Tormes, mas não. Chama-se Ricardo Reis.


O quarto tem uma janela virada para o rio, o que deixou o hóspede agradado: «Mais vale estarmos sentados ao pé um do outro ouvindo correr o rio e vendo-o». Sobre a mesa estão alguns jornais e revistas já antigos. Causou dolorosa impressão nos círculos intelectuais a morte inesperada de Fernando Pessoa, o poeta do Orfeu, espírito admirável que cultivava não só a poesia mas também a crítica inteligente, morreu anteontem em silêncio, como sempre viveu. Não diz mais este jornal, outro diz de outra maneira. Fernando Pessoa, o poeta extraordinário da Mensagem, poema de exaltação nacionalista, dos mais belos que se têm escrito, foi ontem a enterrar, surpreendeu-o a morte num leito cristão do Hospital de S. Luís, no sábado à noite. Aqui está outro jornal que pôs a notícia na página certa, a de necrologia, e extensamente identifica o falecido. Realizou-se ontem o funeral do senhor Fernando António Nogueira Pessoa, solteiro, de quarenta e sete anos de idade, escritor e poeta muito conhecido no meio literário. A leitura dos jornais foi interrompida. Uma rajada súbita fez estremecer as vidraças, a chuva desabou como um dilúvio. Batem à porta do quarto.
A janela estava aberta e não dei por que a chuva entrasse, está o chão todo molhado - Disse Ricardo Reis - Agradecia pois que limpasse o soalho. Como se chama?
Lídia.
Lídia? Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Lídia sorri, faz o que tem a fazer e sai. Ricardo Reis vai sentar-se no sofá, recosta-se, fecha os olhos. Já sonolento levanta-se, abre o guarda-fato e retira um cobertor com que se cobre. Agora sim, dorme.


Ricardo Reis está encostado a um candeeiro na praça do Chiado. Enquanto espera o eléctrico 28, que o há-de levar aos Prazeres, pode observar, ao fundo, a estátua do Camões. Não se lembraram de pôr-lhe versos no pedestal, mas se um lhe pusessem qual poriam? Ricardo Reis vai agora no eléctrico. Entontece. Os bancos, de um entretecido de palha forte e pequena, levam-no a regiões distantes. Sai do carro exausto e sonâmbulo. Deixara de chover. Ricardo Reis foi à administração do cemitério, ao registo dos defuntos, saber onde estava sepultado Fernando António Nogueira Pessoa, falecido no dia 30 de Novembro de 1935, enterrado no dia 2 do mês que corre. Ricardo Reis agradece as explicações do funcionário e vai à procura do jazigo nº 4371. A assinalar o título de propriedade está o nome de D. Dionísia de Seabra Pessoa. Está ainda outro nome, não mais, Fernando Pessoa, com datas de nascimento e morte. Dentro do jazigo está uma velha tresloucada e está também guardado o corpo apodrecido de um fazedor de versos que deixou a sua parte de loucura no mundo. Caiu uma bátega forte, o que foi um bom motivo para Ricardo Reis se retirar.


Depois do jantar, Ricardo Reis instalou-se na sala de recepção do hotel, especialmente preparada, naquele dia, para o révellion. Estamos no último dia do ano de 1935. Ricardo Reis não fica para a festa, sobe devagar a escada até ao seu quarto. Vai descansar, mas na rua perpassa uma algazarra medonha. Já deram as onze horas, quando, bruscamente, Ricardo Reis levanta-se e sai. Sobe a Rua do Alecrim, pára diante da estátua de Eça de Queirós, ou Queiroz, por respeito da ortografia que o dono do nome usou. Sobre a nudez forte da verdade o manto diáfano da fantasia. Ou, sobre a nudez forte da fantasia o manto diáfano da verdade? Ricardo Reis sente-se confuso. Desce o Chiado e a Rua do Carmo. O Rossio está cheio de gente. Faltam 4 minutos para a meia-noite. Depois é a gritaria da multidão, as campainhas dos eléctricos, as buzinas dos automóveis, o barulho das sereias, abraçam-se uns aos outros, conhecidos e desconhecidos, beijam-se homens e mulheres ao acaso. Mas, ainda não passou um minuto, e já o som vai decrescendo. Ainda há grupos no Rossio, mas a animação é cada vez menos. A Rua do Ouro, que agora desce, está juncada de detritos e ainda se lançam pela janela fora trapos, caixas vazias, ferro-velho… Ricardo Reis, cansado, regressa ao hotel.


Entra no hotel e segue o corredor que o leva ao seu quarto, que é o duzentos e um. É então que repara que por baixo da porta passa uma réstia de luz. Ter-se-á esquecido de alguma coisa? Meteu a chave à fechadura, abriu, há alguém no quarto. Será Lídia? Não, sentado no sofá estava um homem. Reconheceu-o, imediatamente, apesar de não o ver há já 16 anos. À sua espera, estava Fernando Pessoa.
Olá! - disse Ricardo Reis, ainda que duvidando de que ele lhe responderia.
Como nem sempre o absurdo respeita a lógica, acontece que respondeu mesmo.
Viva! - respondeu Fernando Pessoa, estendendo a mão e dando-lhe um abraço.
- Então como tem passado? Um deles fez a pergunta, ou ambos, não importando saber, tão insignificante é a frase.
Ricardo Reis despiu a gabardina, pousou o chapéu e arrumou cuidadosamente o guarda-chuva no lavatório, não fosse pingar o oleado do chão. Puxou uma cadeira e sentou-se defronte do visitante. Olham-se com simpatia, vê-se que estão contentes por se terem reencontrado depois de longa ausência. É Fernando Pessoa quem primeiro fala.
Soube que me foi visitar, eu não estava, mas disseram-me quando cheguei.
Pensei que estivesse, pensei que nunca de lá saísse - respondeu Ricardo Reis.
Por enquanto saio, ainda tenho uns oito meses para circular à vontade - explicou Fernando Pessoa.
Oito meses porquê - perguntou Ricardo Reis.
Contas certas, no geral e em média, são nove meses, tantos quantos os que andamos na barriga das nossas mães, acho que é por uma questão de equilíbrio - esclareceu Fernando Pessoa.
-  E agora diga-me você que é que o trouxe a Portugal - perguntou Fernando Pessoa.
Ricardo Reis tirou a carteira do bolso interior do casaco, extraiu dela um papel dobrado, fez menção de o entregar a Fernando Pessoa, mas este recusou com um gesto.
Já não sei ler, leia você - disse Fernando Pessoa.
E Ricardo Reis leu: «Fernando Pessoa faleceu Stop Parto para Glasgow Stop Álvaro de Campos».
Quando recebi este telegrama decidi regressar, senti que era uma espécie de dever - acrescentou Ricardo Reis.
-  Houve ainda uma outra razão para este meu regresso, essa mais egoísta, é que em Novembro rebentou no Brasil uma revolução, estava indeciso, parto, não parto, mas depois chegou o telegrama, aí decidi-me - disse ainda Ricardo Reis.
Você, Reis, tem sina de andar a fugir das revoluções, em mil novecentos e dezanove foi para o Brasil por causa de outra que provavelmente falhou também - disse Fernando Pessoa.
Em rigor eu não fugi do Brasil e talvez que ainda lá estivesse se você não tem morrido - disse Ricardo Reis.
Você continua monárquico - sublinhou Fernando Pessoa.
Continuo. Sem rei. Pode-se ser monárquico e não querer um rei - confirmou Ricardo Reis.
Ricardo Reis puxou uma cadeira e sentou-se defronte do visitante e disparou:
Bem, Fernando, conte lá, se for capaz, a história do nascimento dos heterónimos.
Vou ver se consigo responder completamente – disse Fernando Pessoa, prosseguindo - Aí por 1912, salvo erro (que nunca pode ser grande), veio-me à ideia escrever uns poemas de índole pagã. Esbocei umas cousas em verso irregular (não no estilo Álvaro de Campos, mas num estilo de meia regularidade), e abandonei o caso. Esboçara-se-me, contudo, numa penumbra mal urdida, um vago retrato da pessoa que estava a fazer aquilo. Tinha nascido, sem que eu soubesse, você, Ricardo Reis.
Então, quer dizer, fui o princípio de tudo? – interrompeu o Ricardo Reis.
Sim, se fica contente. Ano e meio, ou dois anos depois – foi em 8 de Março de 1914 – acerquei-me de uma cómoda alta, e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triunfal da minha vida. Aparecido Alberto Caeiro, tratei logo de lhe descobrir – instintiva e subconscientemente – uns discípulos.
Está bem, não precisa de contar mais – disse Ricardo Reis.
Fernando Pessoa levantou-se do sofá, passeou um pouco pela saleta, no quarto parou diante do espelho, depois voltou. Tomou a sentar-se, cruzou a perna.
E agora, vai ficar para sempre em Portugal, ou regressa a casa? - perguntou Fernando Pessoa.
-  Ainda não sei, apenas trouxe o indispensável, pode ser que me resolva a ficar, abrir consultório, fazer clientela, também pode acontecer que regresse ao Rio - retorquiu Ricardo Reis.
Nenhum vivo pode substituir um morto - sentenciou Fernando Pessoa.
Nenhum de nós é verdadeiramente vivo nem verdadeiramente morto - concordou Ricardo Reis.
Bem dito, com essa faria você uma daquelas odes - observou, muito a propósito, Fernando Pessoa.
Ambos sorriram.
Diga-me como soube que eu estava hospedado neste hotel - perguntou Ricardo Reis.
Quando se está morto, sabe-se tudo, é uma das vantagens.
E entrar, como foi que entrou no meu quarto?
Como qualquer outra pessoa entraria.
Não veio pelos ares, não atravessou as paredes. Que absurda ideia, meu caro, isso só acontece nos livros de fantasma - contrapôs Ricardo Reis.
Os mortos servem-se dos caminhos dos vivos, aliás nem há outros, vim por aí fora desde os Prazeres como qualquer mortal. Subi a escada, abri aquela porta, sentei me neste sofá à sua espera - explicou Fernando Pessoa.
E ninguém deu pela entrada de um desconhecido, sim, que você aqui é um desconhecido - ironizou Ricardo Reis.
-  Essa é outra vantagem de estar morto, ninguém nos vê, querendo nós
- Disse Fernando Pessoa.
Mas eu vejo-o a si - logo contrapôs Ricardo Reis.
Porque eu quero que me veja, e, além disso, se reflectirmos bem, quem é você? - Perguntou, com grande ironia, Fernando Pessoa, não esperando, obviamente, a resposta.
Ricardo Reis não respondeu. Houve um silêncio arrastado, espesso. Ouviu-se como em outro mundo o relógio do patamar, duas horas. Fernando Pessoa levantou-se.
Vou-me chegando.
Já? - interrogou-se Ricardo Reis.
Bem, não julgue que tenho horas marcadas, sou livre, é verdade que a minha avó está lá, mas deixou de me maçar - disse Fernando Pessoa.
Fique um pouco mais - implorou Ricardo Reis.
Está a fazer-se tarde, você precisa de descansar - ripostou Fernando Pessoa.
Quando volta?
Quer que eu volte? - pergunta Fernando Pessoa.
Gostaria muito, podíamos conversar, restaurar a nossa amizade, não se esqueça de que, passados dezasseis anos, sou novo na terra - quase implorou Ricardo Reis.
Mas olhe que só vamos poder estar juntos oito meses, depois acabou-se, não terei mais tempo. Quando puder, aparecerei - respondeu Fernando Pessoa.
Não quer marcar um dia, hora, local? - insistiu Ricardo Reis.
Tudo menos isso, Então até breve - retorquiu Fernando Pessoa.
Fernando, gostei de o ver.
E eu a si, Ricardo.
Fernando Pessoa abriu a porta do quarto, saiu para o corredor. Não se ouviram os seus passos. Ricardo Reis foi à janela. Pela Rua do Alecrim acima afastava-se Fernando Pessoa.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Gideon Sundback, inventor do fecho de correr ou éclair, é recordado hoje pelo Google.

Não resisto a deixar aqui um poema do António Gedeão, que ele escreveu a propósito de objecto tão útil e que o Rei Filipe II, tão rico que era, não tinha.

 
Poema do Fecho éclair

Filipe II tinha um colar de oiro
tinha um colar de oiro com pedras
rubis.
Cingia a cintura com cinto de coiro,
com fivela de oiro,
olho de perdiz.
Comia num prato
de prata lavrada
girafa trufada,
rissóis de serpente.
O copo era um gomo
que em flor desabrocha,
de cristal de rocha
do mais transparente.

Andava nas salas
forradas de Arrás,
com panos por cima,
pela frente e por trás.
Tapetes flamengos,
combates de galos,
alões e podengos,
falcões e cavalos.

Dormia na cama
de prata maciça
com dossel de lhama
de franja roliça.
Na mesa do canto
vermelho damasco
a tíbia de um santo
guardada num frasco.

Foi dono da terra,
foi senhor do mundo,
nada lhe faltava,
Filipe Segundo.

Tinha oiro e prata,
pedras nunca vistas,
safira, topázios,
rubis, ametistas.

Tinha tudo, tudo
sem peso nem conta,
bragas de veludo,
peliças de lontra.

Um homem tão grande
tem tudo o que quer.

O que ele não tinha
era um fecho éclair.

António Gedeão

sábado, 21 de abril de 2012

A minha peregrinação a Évora

Na Quarta-Feira passada (dia 18) peregrinei até Évora, com os meus amigos dos livros, para fazer o percurso da Aparição do Vergílio Ferreira. Fomos acompanhados por um guia que o Turismo de Évora disponibilizou.
A peregrinação começou na praça famosa do Giraldo, aquele cavaleiro salteador ou salteador cavaleiro que, para Afonso Henriques lhe perdoar os crimes, se determinou a conquistar esta cidade. Entrámos no Café Arcada, mas o Dr. Moura faltou ao encontro marcado. Certamente, tomava conta dos seus doentes. Tem um Deus para lhe tomar conta da vida e da morte. Logo ali ao lado, à esquina, parada no tempo, a montra da livraria do Nazareth. Depois, penetrámos na cidade, enredada de ruas, semeada de ruínas, de arcos partidos, nichos de santos, janelas góticas. Subimos a Rua da Selaria, agora sem a praga das carroças atroando a cidade. Perto do nicho do Senhor dos Terramotos, ao alto, o cão cansou-se da espera do osso da janela lá de cima. Depois, o Largo do Templo de Diana. Nas colunas solitárias pareceu-me ouvir um murmúrio antigo de uma floresta imóvel. O zimbório da Sé lá estava, mas não brilhava. À direita, ao chegar ao Largo, está o Museu. Espreitei mas a Sofia e o Alberto Soares já haviam saído. Ao pé do Templo de Diana, está a Biblioteca, mas, nesse dia, não havia aula de português. Não entrámos na Sé. Ana, estás aí dentro, tenho a certeza, encontraste finalmente o caminho que dá sentido à tua vida. Ergui os olhos para a massa escura da catedral, o alinhamento dos contrafortes, a renda da corda, lavrada a mãos grossas, pelas rosáceas, pelas ameias, a ascensão, até às flechas, de uma força entroncada, vinda do fundo da terra, escorrendo ainda o negrume de raízes…e os Apóstolos da Sé, à entrada, são magníficos. Depois, descemos as ruas apressadas e oblíquas, descobrindo, finalmente, o edifício da Universidade de Évora, o antigo liceu.
Procurei o bom reitor do liceu, que não encontrei. Também não dei pela presença do cão. Sobre um pequeno lago, ergue-se uma taça de mármore, onde os pombos vêm (ou vinham?) beber água. Aí tirámos a fotografia da praxe.

Saímos e vamos pela Rua do Colégio. Há uma casa à direita, ao alto de um jardim, com uma fachada de azulejos azuis. Uma outra casa adiante, com um brasão, abre-se de arcarias, num jardim traçado pela curva da rua. A guia levou-nos até ao Largo das Portas de Moura, mas não me levou à Rua da Mesquita, à casa onde viveu Vergílio Ferreira. Vimos a janela de Garcia de Resende e percorremos a Rua dos Infantes, que, desta vez, não estava embaraçada de peões. Do alto de uma janela, vem um som do princípio do mundo. Cristina toca uma música celestial. É para mim uma aparição. Oh, Cristina! E que estarás tu tocando? Bach? Beethoven? Mozart? Chopin? Não sei. Descemos agora pela Travessa da Caraça. À igreja de São Francisco chegámos quase sem forças. Passeámos pela grande nave, admirámos as pinturas atribuídas a Garcia Fernandes. Embora não fazendo parte do percurso vergiliano, entrámos na Capela dos Ossos. Visita mais apropriada para uma Quarta-Feira de Cinzas. Saímos deprimidos. Estes franciscanos, tanta canseira, para nos obrigarem a pensar por breves momentos. O milagre da vida, em face da inverossimilhança da morte. Perto, fica a casa do Chico, um tipo com um ar dominador de pugilista, com quem tenho um combate a travar, mas hoje não. O último local da viagem é o Jardim Público, junto ao busto da Florbela Espanca, ali desde 1949, da autoria do escultor Diogo de Macedo.
Através dos túneis de sombra, entrevejo Alberto Soares: «Sento-me, reconciliado, nos bancos de azulejos, fechados em recantos clandestinos, vou visitar Florbela, olho-a de um banco de madeira que lhe fica em frente, medito com ela. É uma cabeça calma, triste e majestosa. Banha-se de grandeza e gravidade desde a fronte cansada, que verga sobre as mãos em repouso, até às espáduas largas, em que o pescoço se espraia. Sinto que ela prevaleceu sobre a melancolia dos séculos e que chegou até nós para nos dar testemunho. Não está bem ali, rodeada de lirismo. E imagino-a num limite da cidade, frente à planície deserta, num alto pedestal tocando os astros…»
Finalmente, o encontro com Florbela. Interrompemos a sua meditação com a nossa poesia. Até eu, coitado, ousei dizer o poema “Alma Perdida”.  Momento há muito esperado.

Por sugestão do guia, fomos terminar a peregrinação numa pastelaria afamada na cidade. Havia que descansar e retemperar forças antes de iniciar o regresso. Então, ao aproximar-me da pastelaria, vi, ao longe, o antigo edifício do Regimento de Infantaria 16 de Évora. Larguei os meus companheiros de jornada e aproximei-me com os mesmos medos de há 40 anos. Lentamente, o casarão foi rodando com a curva da rua, espiando-me do alto da sua quietude lôbrega. Entrei de supetão e veio ao meu encontro um missionário. Contei a minha história. O comandante, o louco Zé Pinheiro, não estava. Estará em nova comissão de serviço? Posso tirar uma fotografia? Só lá fora, respondeu o missionário do quartel. Eu pedi uma história quente, mas serviram-me uma recordação fria.
Juntei-me aos meus amigos, para iniciar o regresso a casa. Tinha encontro marcado com tanta gente, mas faltaram todos. No regresso, nas algibeiras, só recordações. Raiva. No tempo, há 40 anos, quando vim a esta cidade branca pela primeira vez, eu era feliz e ninguém estava morto.

quarta-feira, 18 de abril de 2012


Nasceu há 170 anos e merece ser recordado.

O PALÁCIO DA VENTURA

Sonho que sou um cavaleiro andante.
Por desertos, por sóis, por noite escura,
Paladino do amor, busco anelante
O palácio encantado da Ventura!

Mas já desmaio, exausto e vacilante,
Quebrada a espada já, rota a armadura...
E eis que súbito o avisto, fulgurante
Na sua pompa e aérea formosura!

Com grandes golpes bato à porta e brado:
Eu sou o Vagabundo, O deserdado...
Abri-vos, portas d’ouro, ante meus ais!

Abrem-se as portas d’ouro, com fragor...
Mas dentro encontro só, cheio de dor,
Silêncio e escuridão – e nada mais!

Antero de Quental

sábado, 14 de abril de 2012

"O senhorito do Monte da Ribeira da Orca"


Eugénio de Andrade fez da mãe a presença central da sua poesia, de onde o pai está quase ausente, esse pai a quem em entrevistas apenas se refere como "o senhorito do Monte da Ribeira da Orca". Ora, Orca é justamente a terra onde eu nasci. Por isso, sinto-me, para sempre, em falta em relação ao poeta que muito admiro.  É sabido que o seu nascimento foi fruto de um amor juvenil e que o casamento, celebrado mais tarde, durou muito pouco tempo. 
Há um único poema em que o poeta se refere, necessariamente de forma crítica, ao pai. É assim em

Harmónio
Como ladrão ou mulher
pública: vens de noite.
Trazes o harmónio
a masculina
música roubada às fontes.
Não te esperava;só uma vez
te esperei tremendo de amor:
eu era tão pequeno
que não me viste.
Nem uma palavra ousas;
só os olhos suplicam que te roube
à morte,que devolva ao sol
a modesta desordem dos teus dias.
Que escute ao menos a pobre
e rouca e desamparada
música do teu pequeno harmónio.

Eugénio de Andrade

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Lisboa Revisitada


Lisbon Revisited (1923)”, de Álvaro de Campos (heterónimo de Fernando Pessoa), é um poema repleto de frustração e sentimento de mágoa.
O poeta recusa tudo e todos à sua volta. Recusa tudo que se mostre como conclusivo e alega que a única certeza é morrer (“Não me venham com conclusões! A única conclusão é morrer.”). O poeta não quer saber de regras nem ideais de conduta ou moral a seguir. Recusa-se a encarar a verdade (“Se têm a verdade, guardem-na!”). Desta Lisboa, o poeta já não reconhece nada (“Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.”).

O poeta revisita a Lisboa da sua infância sem, porém, a reencontrar.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Quando nasceu Sebastião da Gama

No dia 10 de Abril de 1924 (se fosse vivo faria hoje 88 anos), nasceu o poeta Sebastião da Gama, em Vila Nogueira de Azeitão.

Quando nasceu, ficou tudo como estava. Nem homens cortaram veias, nem o Sol escureceu, nem houve Estrelas a mais … somente, esquecida das dores, a sua Mãe sorriu e agradeceu. Quando nasceu, não houve nada de novo, senão ele. As nuvens não se espantaram e não enlouqueceu ninguém … para que o dia fosse enorme, bastou ao poeta toda a ternura que olhava nos olhos de sua Mãe.

Foi assim o dia 10 de Abril de 1924. Como soube? É o meu querido poeta da Arrábida que o conta em “Pequeno Poema”. É um lindo poema e, ao mesmo tempo, um bela homenagem às nossas Mães. Obrigado, Sebastião da Gama.

domingo, 8 de abril de 2012

Domingo de Páscoa


Evangelho segundo S. João

(...) No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao túmulo logo de manhã, ainda escuro, e viu retirada a pedra que o tapava. Correndo, foi ter com Simão Pedro e com o outro discípulo, o que Jesus amava, e disse-lhes: «O Senhor foi levado do túmulo e não sabemos onde o puseram.» Pedro saiu com o outro discípulo e foram ao túmulo. Corriam os dois juntos, mas o outro discípulo correu mais do que Pedro e chegou primeiro ao túmulo. Inclinou-se para observar e reparou que os panos de linho estavam espalmados no chão, mas não entrou. Entretanto, chegou também Simão Pedro, que o seguira. Entrou no túmulo e ficou admirado ao ver os panos de linho espalmados no chão, ao passo que o lenço que tivera em volta da cabeça não estava espalmado no chão juntamente com os panos de linho, mas de outro modo, enrolado noutra posição. Então, entrou também o outro discípulo, o que tinha chegado primeiro ao túmulo. Viu e começou a crer, pois ainda não tinham entendido a Escritura, segundo a qual Jesus devia ressuscitar dos mortos.

Da Bíblia Sagrada

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Semana Santa

(…) Depois disto, José de Arimateia, que era discípulo de Jesus, mas secretamente por medo das autoridades judaicas, pediu a Pilatos que lhe deixasse levar o corpo de Jesus. E Pilatos permitiu-lho. Veio, pois, e retirou o corpo.
Nicodemos, aquele que antes tinha ido ter com Jesus de noite, apareceu também trazendo uma mistura de perto de cem libras de mirra e aloés.
Tomaram então o corpo de Jesus e envolveram-no em panos de linho com os perfumes, segundo o costume dos judeus.
No sítio em que Ele tinha sido crucificado havia um horto e, no horto, um túmulo novo, onde ainda ninguém tinha sido sepultado.
Como para os judeus era o dia da Preparação da Páscoa e o túmulo estava perto, foi ali que puseram Jesus.

Evangelho segundo S. João

segunda-feira, 2 de abril de 2012

O Desejado


Rei D. Sebastião no seu nicho na frontaria da estação do Rossio. Se o lá puseram (confesso que eu só hoje reparei), teremos de reexaminar a importância e os caminhos do sebastianismo, com nevoeiro ou sem ele. É patente que, afinal, o Desejado virá de comboio, ainda que sujeito a atrasos…

quinta-feira, 22 de março de 2012

Deus

"como exigir que se saiba que Deus existe ou não existe? Sabê-lo é um milagre para raros, em raros instantes apenas. Eis porque se admite às vezes não estar ninguém certo de ser crente ou descrente."

Vergilio Ferreira, in Invocação ao Meu Corpo (1969)

quarta-feira, 21 de março de 2012

Dia Mundial da Poesia

No início do séc. XX, o insigne pensador espanhol Miguel de Unamuno comentou que Portugal era “um país de poetas e suicidas”, impressionado pelo rol de poetas portugueses que se suicidaram (Antero de Quental, Camilo, Trindade Coelho, etc…) ou se afastaram do mundo para se deixarem morrer (Alexandre Herculano, por ex.).

Hoje, Dia Mundial da Poesia, é dia de falar dos nossos poetas. Apetecia-me deixar aqui uma torrente de poemas que me desassossegam. Impossível.

Como tal, voz aos poetas. O “Cântico Negro” na voz do próprio José Régio.


 

terça-feira, 20 de março de 2012

Prémio Vida Literária 2012


A direcção da Associação Portuguesa de Escritores decidiu, por unanimidade, atribuir a João Rui de Sousa o Prémio Vida Literária 2012.

 José Manuel Mendes, presidente da APE, justificou a distinção por se tratar do autor de uma obra “que vem sendo editada há mais de meio século com grande notoriedade pública…” e de ser expressão de “uma relação intensa com a literatura, tanto na poesia como no ensaio”.

Apenas conheço, confesso,  um livro do escritor ora distinguido: Fernando Pessoa, empregado de escritório.

Recentemente, tive oportunidade de consultar este livro bastante ao pormenor. Dá-nos a conhecer, de uma forma competente e exaustiva, todos os prédios da cidade de Lisboa, em que se situaram os cerca de 20 escritórios, para quem Fernando Pessoa trabalhou como «correspondente comercial em línguas estrangeiras», assim como os prédios onde foram sediadas as firmas comerciais que o poeta ousou criar, em sociedade ou não.

Para quem quer conhecer a faceta do Pessoa, quer como trabalhador por conta de outrem, quer como empreendedor, a consulta daquele livro é incontornável.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Aos Nossos Pais


Não conheço muitos poemas, na poesia portuguesa, dedicados ao PAI. Mas, neste dia, lembrei-me deste poema, que eu acho muito bonito, que o Miguel Torga dedicou ao seu pai. Aqui fica.

A vida é feita de nadas:
De grandes serras paradas
À espera de movimento;
De searas onduladas
Pelo vento;

De casas de moradia
Caídas e com sinais
De ninhos que outrora havia
Nos beirais;

De poeira;
De sombra de uma figueira;
De ver esta maravilha:
Meu Pai a erguer uma videira
Como uma mãe que faz a trança à filha.
 

sábado, 10 de março de 2012

Florbela Espanca



Busto de Florbela Espanca, da autoria do escultor Diogo de Macedo, no Jardim Público de Évora 

(…) Sento-me, reconciliado, nos bancos de azulejos, fechados em recantos clandestinos, vou visitar Florbela, olho-a de um banco de madeira que lhe fica em frente, medito com ela. É uma cabeça calma, triste e majestosa. Banha-se de grandeza e gravidade desde a fronte cansada, que verga sobre as mãos em repouso, até ás espáduas largas, em que o pescoço se espraia. Sinto que ela prevaleceu sobre a melancolia dos séculos e que chegou até nós para nos dar testemunho. Não está bem ali, rodeada de lirismo. E imagino-a num limite da cidade, frente à planície deserta, num alto pedestal tocando os astros… (…)

Vergílio Ferreira, in Aparição

quinta-feira, 8 de março de 2012

Dia Internacional da Mulher


A Constituição da República Portuguesa assegura a igualdade no trabalho entre homens e mulheres mas estas continuam a ganhar menos, a ter menos acesso aos lugares de decisão nas empresas, a trabalhar mais horas não remuneradas e a ser as primeiras a perder o emprego.

Todavia, não é repetindo, ano após ano, este ritualismo do Dia Internacional da Mulher, que este estado de coisas se modifica.

Coincidência ou não, estreia-se hoje em Portugal o filme “Florbela”. Segundo li, o filme pretende ser um retrato íntimo de Florbela Espanca, uma mulher que viveu de forma intensa e não conseguiu amar docemente.

Sem olhar, especialmente,  para o dia que hoje se comemora, deixo aqui a minha homenagem a esta poetiza, que me desassossega. O poema Alma Perdida não é dos mais conhecidos, mas eu gosto muito.

Toda a noite o rouxinol chorou,
Gemeu, rezou, gritou perdidamente!
Alma de rouxinol, alma de gente,
Tu és talvez alguém que se finou!

Tu és, talvez, um sonho que passou,
Que se fundiu na dor, suavemente...
Talvez sejas a alma, a alma doente
Dalguém que quis amar e nunca amou!

Toda a noite choraste e eu chorei
Talvez porque, ao ouvir-te, adivinhei
Que ninguém é mais triste do que nós!

Cantaste tanta coisa à noite calma,
Que eu pensei que tu eras a minh’alma
Que chorasse perdida em tua voz!...

Florbela Espanca, in Livro de Mágoas





domingo, 26 de fevereiro de 2012

Revisitar Fausto

O livro Peregrinação de Fernão Mendes Pinto é considerado um “livro difícil”. No entanto, há quem defenda que pode ser lido ao jeito de folhetins. É bem possível encontrar histórias que podem ser contadas autonomamente.

Quem assim pensou e melhor o fez,  aliás de forma magnífica,  foi o Fausto em “POR ESTE RIO ACIMA - As viagens de Fernão Mendes Pinto”. Editado em 1982, é considerado, pela crítica em geral, um dos álbuns mais marcantes da música popular portuguesa das últimas décadas.

O álbum conta-nos histórias retiradas dos capítulos do livro. Um delas é “O Romance de Diogo Soares”, a partir, neste caso, do relato que FMP faz nos Capítulos 191 e 192. Conta a história do Diogo Soares, o grande general, por alcunha “O Galego”, que cometeu grandes atrocidades e acabou morto à pedrada por uma turba de indignados.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Sr. Verde, empregado no comércio

Assinala-se, hoje, o 157º aniversário do nascimento de Cesário Verde. O poeta nasceu no dia 25 de Fevereiro de 1855 em Lisboa, na Rua da Padaria, freguesia da Madalena. O pai, José Anastácio Verde, era comerciante e lavrador: além de se ocupar da sua loja de ferragens, na Rua dos Fanqueiros, dedicava-se também à lavoura numa quinta em Linda-a-Pastora, a cerca de dois quilómetros da capital, propriedade da família Verde desde 1797.

Cesário dividia-se entre a produção de poesias (publicadas em jornais) e as actividades de comerciante do pai, na loja de ferragens, na Rua dos Fanqueiros: escreve cartas para o estrangeiro, recebe caixeiros viajantes, pesa pregos e parafusos, monta e oleia fechaduras, experimenta ferramentas…
     Casa de Ferragens, na Rua dos Fanqueiros, nºs 2 a 8 (hoje uma instituição bancária)

De que me serve citar-me génio se resulto ajudante de guarda-livros? Quando Cesário Verde fez dizer ao médico que era, não o Sr. Verde empregado no comércio, mas o poeta Cesário Verde, usou de um daqueles verbalismos do orgulho inútil que suam o cheiro da vaidade. O que ele foi sempre, coitado, foi o Sr. Verde empregado no comércio. O poeta nasceu depois de ele morrer, porque foi depois de ele morrer que nasceu a apreciação do poeta”.
Bernardo Soares, Livro do Desassossego

É verdade, ninguém reparou na grandeza da poesia de Cesário. Andaram todos distraídos. Todos, menos um: Fernando Pessoa. Uma vez, pela pena de Bernardo Soares; outra,  levou Álvaro de Campos a bradar:
- Ó Cesário Verde, ó Mestre!

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

D. João V, o "Mãos-Largas"


Visitei, há dois dias, a Igreja de São Roque, assim como o Museu de São Roque, instalado no edifício contíguo. Ambos apresentam aos visitantes um acervo valiosíssimo.

A igreja de São Roque foi construída em conformidade com as orientações da Companhia de Jesus e com as recomendações litúrgicas do Concílio de Trento. De planta rectangular, é composta por uma só nave, uma capela-mor pouco profunda e oito capelas laterais.

Haveria muito para falar do que vi, mas gostaria de destacar apenas a Capela de São João Baptista, uma das oito capelas laterais da Igreja de São Roque, que o magnânimo D. João V encomendou em Itália.

Projectada pelos arquitectos italianos Luigi Vanvitelli e Nicola Solvi sob supervisão do arquitecto régio, Frederico Ludovice, foi inaugurada em 1752.

Destaca-se das restantes capelas da igreja pela utilização, na sua decoração, de materiais de jaspe e bronze, de mosaico e mármore.

Em frente, um quadro a óleo mostra-nos o baptismo de Cristo por São João Baptista, o santo que pregava no deserto e comia gafanhotos. Vida bem austera a deste santo, em oposição a tamanha riqueza que agora o rodeia.

D. João V tinha muito dinheiro para gastar, como se conclui da resposta que deu quando lhe foram dizer que um carrilhão para o Convento de Mafra custava a astronómica quantia de quatrocentos mil réis: «Não pensava que era tão barato; quero dois».

Mas vale mesmo a pena visitar. A Igreja de São Roque, considerada um monumento impar no contexto da arquitectura portuguesa, foi classificada como Monumento Nacional em 1910.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Fernando Pessoa, o indisciplinador de almas

Visitei, hoje, a exposição FERNANDO PESSOA, PLURAL COMO O UNIVERSO, que ontem foi inaugurada na Fundação Calouste Gulbenkian. Dedicada a Fernando Pessoa e aos seus heterónimos, esta exposição pretende mostrar a multiplicidade da obra do poeta. Esta exposição reúne poemas, textos, documentos, fotografias e pintura.

Gostei de ver a primeira edição do livro Mensagem, com uma dedicatória escrita pelo poeta.

Gostei de ver uma folha de papel branco, que pertence ao espólio do poeta na Biblioteca Nacional de Portugal (BNP), onde Fernando Pessoa escreveu a frase: “ Sê plural como o universo!” Foi a partir desse manuscrito que nasceu o título FERNANDO PESSOA, PLURAL COMO O UNIVERSO, que, segundo os criadores, remete para a multiplicidade que conhecemos em Pessoa.

Gostei de ver os muitos poemas que nos são mostrados e que, de imediato, nos vêm à memória. “Nunca conheci quem tivesse levado porrada / Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo (…)”.

Gostei de ver uma instalação (à entrada e pendurado no tecto) feita com a mesa, a cadeira, a chávena de café, o chapéu de Pessoa, em projecção de vários elementos do famoso quadro de Almada Negreiros, Fernando Pessoa lendo Orpheu.

Gostei de ver, na sala seguinte, o quadro original, que pertence à colecção da Fundação Gulbenkian. Como se sabe, em 1964, por encomenda da Fundação Calouste Gulbenkian, Almada Negreiros realizou uma réplica do Retrato de Fernando Pessoa executado em 1954 para o restaurante Irmãos Unidos, estabelecimento de que era sócio Alfredo Pedro Guisado, colaborador da Orpheu.
Gostei de ver as muitas cartas lá expostas, os últimos poemas escritos por Fernando Pessoa e pelos heterónimos Ricardo Reis e Álvaro de Campos, o primeiro dos jornais fictícios de Pessoa, O Palrador, com notícias reais e fictícias, do caderno mais antigo de Pessoa (datado de 1901), onde ele registou algumas notas do liceu de Durban.

Não gostei de ver escrito num painel “cotidiano”, “ortônimo” e “desassocego”. As grafias das duas primeiras entendem-se, sabendo que a exposição foi criada originalmente para o Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, no Brasil; a terceira parece querer reproduzir a grafia antiga que Fernando Pessoa utilizou num escrito em 1913. Não obstante, face à discussão que por aí vai a propósito do Novo Acordo Ortográfico, era de evitar mais esta confusão. Confesso que fiquei desassossegado. 

Gostei de ver a célebre arca. Está lá um segurança, ninguém pode mexer, claro. Mas garanto a quem me lê (se há quem o faça) que a arca está mesmo vazia.