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quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

"Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres", de Clarice Lispector


Li de supetão “Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres”, de Clarice Lispector. Curioso, dois títulos, ligados por uma conjunção, parece que anunciando uma tensão entre duas possibilidades: repetir ou inventar. Se calhar, foi justamente esta tensão, sempre permanente, que me fez correr. 

O romance, publicado em 1969, esmiúça as dúvidas e os anseios de Lóri, a personagem principal, que pela primeira vez experimenta o amor e o prazer, mas tem medo de perder a própria identidade. 

A obra baseia-se na história de Loreley, cujo apelido é Lóri, professora primária que passa a viver no Rio de Janeiro, após sair da casa de seus pais, em Campos. De família rica, com quatro irmãos homens, tinha suas regalias por ser a única filha mulher. 

Ela conhece Ulisses, professor de filosofia, numa noite em que esperava um táxi e ele lhe ofereceu uma boleia. A partir daí, após ter tido outras experiências amorosas, esta era realmente verdadeira. Ela amava pela primeira vez e tinha que passar por este processo de aprendizagem, o qual tinha de aceitar. 

Mas narra, sobretudo, o processo de amadurecimento de Lóri. Nesta medida, pode ser considerado como um romance de formação feminino, em que, para aprender, a personagem precisou desaprender a vergonha que tinha sobre o próprio corpo e sobre a proibição do prazer. 

A protagonista faz um esforço para conhecer o seu “eu” que estava perdido no meio de tanto preconceito no que respeita ao amor e ao prazer. Neste entretanto, Ulisses espera pacientemente que Lóri aprenda, por si, a felicidade e o amor. 

Finalmente, após uma longa, dolorida, solitária e angustiante espera, a protagonista sente-se capaz de procurar Ulisses na casa dele para se entregarem mutuamente um ao outro. 

É este o enredo. Simples, como convém. 

A narrativa é feita na terceira pessoa, que permite ao narrador expor os pensamentos e as angústias de Lóri. 

O tempo da narrativa é indeterminado, talvez, pelas subtis pistas deixadas, a possamos situar no final da década de sessenta no Brasil. 

O espaço que dá vida ao romance é a cidade do Rio de Janeiro, sem dúvida. 

As personagens da obra retomam a figura homérica de Ulisses, herói da Ilíada, e de Lóri (de “Loreley”), nome de uma sereia, nome que deriva de lendas germânicas sobre ninfas que viviam nas águas.

"Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres" começa com uma vírgula e acaba com dois pontos. Bem original! 

Há quem considere que esta inusitada introdução é uma indicação de que o romance deve ser lido como uma continuação das obras anteriores de Clarice Lispector, em especial de "A Paixão segundo G.H." (1964), o qual por sua vez termina com reticências. 

Segundo li, há fragmentos do texto já publicados, com variações, entre os anos de 1967 e 1969, sob a forma de crónicas que a romancista escrevia para o Jornal do Brasil.~

É verdade. Há um capitulo que é praticamente igual ao “Ritual-Trecho”, de 27/7/1968, que vem em “A Descoberta do Mundo”. Começa assim “Aí estava o mar, a mais ininteligível das existências não humanas. E ali estava a mulher de pé, o mais ininteligível dos seres vivos “ (pág. 62). Bonito!

Para quem gosta de ler Clarice Lispector, este romance, inimista, por vezes hermético, é imperdível!

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

O Ano da Morte de Ricardo Reis


Saramago escreveu o Ano da Morte de Ricardo Reis em 1994. Foi muito engenhoso na arquitectura da narrativa, assentando-a em dois pilares.

Primeiro, ele parte de um enigma. Fernando Pessoa escrevera em 13/1/1935 «Ricardo Reis nasceu em 1887 (não me lembro do dia e mês, mas tenho-os algures), no Porto, é médico e está presentemente no Brasil (…) Reis de um vago moreno mate (…) Ricardo Reis, educado num colégio de jesuítas, é, como disse, médico; vive no Brasil desde 1919, pois se expatriou espontaneamente por ser monárquico. É, um latinista por educação alheia, e um semi-helenista por educação própria.». O que aconteceu a Ricardo Reis? Saramago vai decifrar esse enigma.

Segundo, Saramago admirava muito Fernando Pessoa e era um grande leitor da sua poesia que muito apreciava. Porém, alguns poemas de Pessoa deixavam-no nervoso. E um deles era de Ricardo Reis: “Sábio é o que se contenta com o espectáculo do Mundo”. Saramago pergunta: Contemplar é sábio? O que dizes? Não percebe a personagem que é assim uma soma de passividade, silêncio sábio e puro espírito. Anda daí, Pessoa, que te vou mostrar o mundo, a ver se acabas mais sábio ou simplesmente acabas invadido de tristeza e de dor, se não quiseres reagir. 

Saramago cria a sua versão alternativa da história, a que poderia ter sido, fazendo uso de informações oficiais e misturando-as com fontes oficiosas. Era o que Saramago achava que se tinha de fazer. E, então, Saramago mostra-lhe o espectáculo do Mundo no ano de 1936, o ano em que se incuba o ovo da serpente, se gera o nazismo, o fascismo, começa a Guerra da Espanha, a Mocidade Portuguesa, a Legião Portuguesa, estão a começar todas essas ditaduras e tragédias que atravessaram o séc. XX.

Então, Saramago põe Ricardo Reis, não existente, existente. E põe o Fernando Pessoa, já morto, vivo. Aqui, Saramago “inventa” uma teoria que lhe dá jeito para a narrativa: nos 9 meses seguintes à morte, ainda não se está morto de todo. E, assim, fá-los dialogar e fá-los percorrer a cidade de Lisboa. Percorre a poesia de Pessoa ortónimo e de outros (João de Deus, Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, etc.. Fala de Pessoa, fala do Mundo, fala de nós. 

É um livro que reflecte a cidade de Lisboa. O escritor chileno José Danoso escreveu: "Lisboa e Dublin podiam ser reconstruídas com o espírito que habita em “Ulisses”, de Joyce, e em “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, de José Saramago". No caso português, confirma-se totalmente. Somos convidados a percorrer a cidade de Lisboa, por locais, sobretudo, do universo pessoano. 

O tempo da narrativa vai de 29/12/1935 (o dia em que Ricardo Reis chega ao cais de Alcântara) a 9/9/1936 (data do bombardeamento do navio Afonso de Albuquerque no rio Tejo e do dia em que Ricardo Reis acompanha Fernando Pessoa no regresso deste ao Cemitério dos Prazeres).

A narrativa decorre toda ela na cidade de Lisboa, à excepção da peregrinação a Fátima. 

Uma grande força do livro é a sua intertextualidade. Saramago fala de Camões, de João de Deus, de Alberto Caeiro, de Bernardim Ribeiro, de Cervantes, de Álvaro de Campos, de Carlos Queiroz, de Júlio Dantas e, sobretudo, da poesia de Ricardo Reis.

Anotei 26 páginas com referências a poemas de Ricardo Reis. E esses poemas (com citação de um ou dois versos) estão espalhados ao longo da narrativa. Só na pág. 255 (na edição do Círculo de leitores de 1984) há 14 citações de poemas! Até parece uma charada, mas não é. 

Os encontros entre F.P. e R.R. são 11, contando com o do último dia, com diálogos inteligentes e deliciosos. Ao fim dos 9 meses, Fernando Pessoa já não vai poder sair do Cemitério dos Prazeres. Então vamos, disse Fernando Pessoa. Vamos, disse Ricardo Reis. E lá foram os dois. Afinal, ficamos a saber que o ano da morte de Ricardo Reis é 1936. 

sábado, 4 de janeiro de 2014

Há uma Alfarrobeira na Coreia do Norte?


« […] O líder da Coreia do Norte, Kim Jung-un, referiu-se pela primeira vez à execução do tio, dizendo, na mensagem de Ano Novo, que o partido único no poder ficou mais forte depois do desaparecimento dos “facciosos -imundos”. 
“O nosso partido adoptou medidas firmes para se livrar dos facciosos imundos infiltrados”, disse Kim, na televisão. 
As palavras de Kim permitem que se comece a perceber o que levou à execução, em Dezembro, de Jang Song Thaek, que era o seu braço direito desde que sucedeu ao pai, Kim Jong-il. 

Em Dezembro, os analistas escreveram que Jang Song Thaek era o único homem que poderia ameaçar o poder de Kim, estando a ganhar relevo ao ser o negociador do programa económico com que Pyongyang tenta abrir um caminho para sair da profunda crise em que o país vive. Casado com uma irmã de Kim Jong ii, Jang começou a ser referido, em alguns sectores (e nos media) como um reformador. Era o protagonista do diálogo com Pequim e após a sua execução todos os “homens de negócios” norte-coreanos que estavam em trabalho na China foram mandados regressar a casa. Jang foi acusado de vários crimes, entre eles o de estar a conspirar para dar um golpe anti-revolucionário e o de corrupção. […]»

Jornal “Público”, de 2 de Janeiro de 2014

Confesso que pouco sei da Coreia do Norte. Aliás, ela também não faz nada para se dar a conhecer, pelo menos, nos dias de hoje. Da sua História conheço muito pouco, isso já não tão desculpável. Não sei, por exemplo, o que era a Coreia do Norte no ano longínquo de 1449, mais precisamente no dia 20 de Maio. Mas em Portugal, sei o que aconteceu nesse dia e até parece que o actual líder da Coreia do Norte, Kim Jung-un se inspirou nessa página negra da História de Portugal.

Afinal, sei agora que na Coreia do Norte também há um lugar a que podemos chamar Alfarrobeira. Cá como lá, temos um sobrinho que mata um tio, porque a mediocridade não sabe conviver com a inteligência. O tio do líder coreano era, porventura, “claro em pensar, claro no sentir”, assim como Pessoa definiu o Infante das Sete Partidas na Mensagem, o Infante mais sábio da Ínclita Geração. 

E o que aconteceu com o corpo da malogrado tio do líder coreano? O mesmo que ao Infante D. Pedro? Será como conta Gedeão, “Lá em baixo, na margem do ribeiro,/estendido sobre a erva,/jaz o infante./Do seu coração ergue-se a haste de um virote/erecta como um junco,/e já nenhuma voz o acordará.”?.

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Então vamos, disse Fernando Pessoa



« […] Então bateram à porta. Ricardo Reis correu, foi abrir, já prontos os braços para recolher a lacrimosa mulher, afinal era Fernando Pessoa, Ah, é você, Esperava outra pessoa, Se sabe o que aconteceu, deve calcular que sim, creio ter-lhe dito um dia que a Lídia tinha um irmão na Marinha, Morreu, Morreu. Estavam no quarto, Fernando Pessoa sentado aos pés da cama, Ricardo Reis numa cadeira. Anoitecera por completo. Meia hora passou assim, ouviram-se as pancadas de um relógio no andar de cima, E estranho, pensou Ricardo Reis, não me lembrava deste relógio, ou esqueci-me dele depois de o ter ouvido pela primeira vez. Fernando Pessoa tinha as mãos sobre o joelho, os dedos entrelaçados, estava de cabeça baixa. Sem se mexer, disse, Vim cá para lhe dizer que não tornaremos a ver-nos, Porquê, O meu tempo chegou ao fim, lembra-se de eu lhe ter dito que só tinha para uns meses, Lembro-me, Pois é isso, acabaram-se. Ricardo Reis subiu o nó da gravata, levantou-se, vestiu o casaco. Foi à mesa-de-cabeceira buscar The God of the Labyrinth, meteu-o debaixo do braço, Então vamos, disse, Para onde é que você vai, Vou consigo, Devia ficar aqui, à espera da Lídia, Eu sei que devia, Para a consolar do desgosto de ter ficado sem o irmão, Não lhe posso valer, E esse livro, para que é, Apesar do tempo que tive, não cheguei a acabar de lê-lo, Não irá ter tempo, Terei o tempo todo, Engana-se, a leitura é a primeira virtude que se perde, lembra-se. Ricardo Reis abriu o livro, viu uns sinais incompreensíveis, uns riscos pretos, uma página suja, Já me custa ler, disse, mas mesmo assim vou levá-lo, Para quê, Deixo o mundo aliviado de um enigma. Saíram de casa, Fernando Pessoa ainda observou, Você não trouxe chapéu, Melhor do que eu sabe que não se usa lá. Estavam no passeio do jardim, olhavam as luzes pálidas do rio, a sombra ameaçadora dos montes. Então vamos, disse Fernando Pessoa, Vamos, disse Ricardo Reis. O Adamastor não se voltou para ver, parecia-lhe que desta vez ia ser capaz de dar o grande grito. Aqui, onde o mar se acabou e a terra espera. »

É assim que acaba “O Ano da Morte de Ricardo Reis” Quando faltavam duas páginas, tive de o fechar, porque pensei: “O que vou fazer para o resto da minha vida, quando este livro se acabar”.

Há livros que me acontece isto. “O Ano da Morte de Ricardo Reis” é um deles.

domingo, 29 de dezembro de 2013

O Ano da Morte de Ricardo Reis (respigo)


«[…] E pronto, a não ser que queira que lhe leia as desordens e agressões, o jornal está lido, Que horas são, Quase meia-noite, ih, como o tempo passa, Vai-se embora, Vou, Quer que o acompanhe, Para si ainda é cedo, Por isso mesmo, Não me compreendeu o que eu disse é que ainda é cedo para me acompanhar lá para onde eu vou, Sou apenas um ano mais velho que você, pela ordem natural das coisas, Que é a ordem natural das coisas, Costuma-se dizer assim, pela ordem natural das coisas eu até deveria ter morrido primeiro, Como vê, as coisas não têm uma ordem natural. Fernando Pessoa levantou-se do sofá, depois abotoou o casaco, ajustou o nó da gravata, pela ordem natural teria feito ao contrário, Então cá vou, até um dia destes, e obrigado pela sua paciência, o mundo ainda está pior do que quando o deixei, e essa Espanha, de certeza, acaba em guerra civil, Acha, Se os bons profetas são os que já morreram, pelo menos essa condição está do meu lado, Evite fazer barulho quando descer a escada, por causa da vizinhança, Descerei como uma pena, E não bata com a porta, Fique descansado, não ecoará o som cavo da tampa do sepulcro, Boas noites, Fernando, Durma bem, Ricardo. […]»

José Saramago, in "O Ano da Morte de Ricardo Reis"

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Diálogos Poéticos: Camões & Pessoa

Eis aqui se descobre a nobre Espanha, 
Como cabeça ali de Europa toda,
Em cujo senhorio o glória estranha
Muitas voltas tem dado a fatal roda;
Mas nunca poderá, com força ou manha,
A fortuna inquieta pôr-lhe noda,
Que lhe não tire o esforço e ousadia
Dos belicosos peitos que em si cria.

Com Tingitânia entesta, e ali parece
Que quer fechar o mar Mediterrano,
Onde o sabido Estreito se enobrece
Co'o extremo trabalho do Tebano.
Com nações diferentes se engrandece,
Cercadas com as ondas do Oceano;
Todas de tal nobreza e tal valor,
Que qualquer delas cuida que é melhor.

Tem o Tarragonês, que se fez claro
Sujeitando Parténope inquieta;
O Navarro, as Astúrias, que reparo
Já foram contra a gente Mahometa;
Tem o Galego cauto, e o grande e raro
Castelhano, a quem fez o seu Planeta
Restituidor de Espanha e senhor dela,
Bétis, Lião, Granada, com Castela.

Eis aqui, quase cume da cabeça
De Europa toda, o Reino Lusitano,
Onde a terra se acaba e o mar começa,
E onde Febo repousa no Oceano.
Este quis o Céu justo que floresça
Nas armas contra o torpe Mauritano,
Deitando-o de si fora, e lá na ardente
África estar quieto o não consente.

Esta é a ditosa pátria minha amada,
A qual se o Céu me dá que eu sem perigo
Torne, com esta empresa já acabada,
Acabe-se esta luz ali comigo.
Esta foi Lusitânia, derivada
De Luso, ou Lisa, que de Baco antigo
Filhos foram, parece, ou companheiros,
E nela então os Íncolas primeiros

Luís de Camões, “Os Lusíadas", Canto III, estrofes 17-21

















A Europa jaz, posta nos cotovelos:
De Oriente a Ocidente jaz, fitando,
E toldam-lhe românticos cabelos
Olhos gregos, lembrando.

O cotovelo esquerdo é recuado;
O direito é em ângulo disposto.
Aquele diz Itália onde é pousado;
Este diz Inglaterra onde, afastado,
A mão sustenta, em que se apoia o rosto.

Fita, com olhar sphyngico e fatal,
O Ocidente, futuro do passado.

O rosto com que fita é Portugal


Fernando Pessoa, “Mensagem”.

É curiosa a forma antropomórfica a que os dois poetas recorrem para falar da Europa. Simbolicamente, põem-na a olhar em determinada direcção. A dúvida que se coloca é se eles olham na mesma direcção.

Pessoa devia conhecer bem estes versos do Camões. Embora não se saiba quando foi escrito o poema "O dos Castelos”, assim se chama, ele só ficou conhecido em 1934, quando Pessoa o escolheu para encabeçar o conjunto de poemas históricos a que veio a dar o nome de Mensagem.

Os versos do Pessoa são bem claros. É caso para dizer que ele, logo no primeiro poema da Mensagem, diz ao que vem. O papel de Portugal na Europa, O Quinto Império. 

A diferença que eu supostamente encontro entre os dois é a seguinte. Camões está concentrado, quase exclusivamente diria, na exaltação dos feitos dos portugueses no Oriente, portanto, virado a Sul. Pessoa, falando do que os portugueses foram capazes, constata que Portugal está num impasse, jaz (tal como a Europa). Todavia, há dentro dele forças que o podem tornar a cabeça de um novo império, O Quinto Império. Não através das armas, como antigamente, mas através da Cultura e da Língua. Camões fala-nos só do passado. Pessoa fala do passado a pensar no futuro. E pensando no futuro, mais virado para Ocidente.

Aliás, penso que a terceira estrofe do poema do Pessoa diz tudo: “Fita, com olhar esfíngico e fatal/o Ocidente, futuro do passado”. Olha para o Ocidente e constrói no futuro o passado (não o presente) que já  foi.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Votos de Bom Natal!...


Alegrem-se o céu e a terra
Cantemos com alegria
Já nasceu o Deus Menino
Filho da Virgem Maria.

Votos de Bom Natal!

domingo, 22 de dezembro de 2013

Vem aí o Natal!...

Natal de Quem? 

Mulheres atarefadas
Tratam do bacalhau,
Do peru, das rabanadas.

- Não esqueças o colorau,
O azeite e o bolo-rei!
- Está bem, eu sei!
- E as garrafas de vinho?
- Já vão a caminho!

- Oh mãe, estou pr'a ver
Que prendas vou ter.
Que prendas terei?
- Não sei, não sei...

Num qualquer lado,
Esquecido, abandonado,
O Deus-Menino
Murmura baixinho:
- Então e Eu,
Toda a gente Me esqueceu?

Senta-se a família
À volta da mesa.
Não há sinal da cruz,
Nem oração ou reza.

Tilintam copos e talheres.
Crianças, homens e mulheres
Em eufórico ambiente.
Lá fora tão frio,
Cá dentro tão quente!

Algures esquecido,
Ouve-se Jesus dorido:
- Então e Eu,
Toda a gente Me esqueceu?

Rasgam-se embrulhos,
Admiram-se as prendas,
Aumentam os barulhos
Com mais oferendas.
Amontoam-se sacos e papeis
Sem regras nem leis.

E Cristo Menino
A fazer beicinho:
- Então e Eu,
Toda a gente Me esqueceu?

O sono está a chegar.
Tantos restos por mesa e chão!
Cada um vai transportar
Bem-estar no coração.

A noite vai terminar
E o Menino, quase a chorar:
- Então e Eu,
Toda a gente Me esqueceu?
Foi a festa do Meu Natal
E, do princípio ao fim,
Quem se lembrou de Mim?
Não tive tecto nem afecto!

Em tudo, tudo, eu medito
E pergunto no fechar da luz:
- Foi este o Natal de Jesus?!!!

João Coelho dos Santos - in Lágrima do Mar - 1996

sábado, 21 de dezembro de 2013

Vem aí o Natal!...

Poema de Natal

O meu presépio não tem Estrela
nem pastores
nem Reis Magos
e não há musgos verdes e macios
sobre a rocha da gruta.
O meu Presépio não tem flores de papel
nem bonecos de barro
nem casinhas de cartolina.
E não há espelhos a fazer de lagos
nem farinha branca a traçar caminhos.
O meu Presépio não tem luzes de mil cores
nem Anjo de asas de renda
nem um Menino Jesus a sorrir para mim.
Assim era outrora
o meu Presépio na sala toda iluminada
no tempo em que eu usava bibe cor-de-rosa
e duas tranças morenas.

O meu Presépio
agora
tem o tamanho do mundo inteiro
e não tem luzes de mil cores
nem estrelas no azul
e não há bonecos de barro
nem anjos de asas de renda,
mas há noites de angústia
e manhãs sem esperança
em casas feitas de lata,
em casas feitas de caniço.
E há crianças sujas
com um sorriso triste
que me faz doer.
Pudesses voltar!,
Menino Jesus do meu Presépio de criança.

Leonilda Alfarrobinha, in Antologia de Poemas de Natal, de Paula Mateus

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Vem aí o Natal!...









Magnificat

Quando é que passará esta noite interna, o universo,
E eu, a minha alma, terei o meu dia?
Quando é que despertarei de estar acordado?
Não sei. O sol brilha alto,
Impossível de fitar.
As estrelas pestanejam frio,
Impossíveis de contar.
O coração pulsa alheio,
Impossível de escutar.
Quando é que passará este drama sem teatro,
Ou este teatro sem drama,
E recolherei a casa?
Onde? Como? Quando?
Gato que me fitas com olhos de vida, que tens lá no fundo?
É esse! É esse!
Esse mandará como Josué parar o sol e eu acordarei;
E então será dia.
Sorri, dormindo, minha alma!
Sorri, minha alma, será dia!

Álvaro de Campos, Antologia de “Poemas de Natal em Busca”, de Paula Mateus

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Vem aí o Natal!...


Natal… Na província neva.
Nos lares aconchegados,
Um sentimento conserva
Os sentimentos passados.

Coração oposto ao mundo,
Como a família é verdade !
Meu pensamento é profundo,
Estou só e sonho saudade.

E como é branca de graça
A paisagem que não sei,
Vista de trás da vidraça
Do lar que nunca terei !

Fernando Pessoa

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Vem aí o Natal!...


Natal

Mais uma vez, cá vimos
Festejar o teu novo nascimento,
Nós, que, parece, nos desiludimos
Do teu advento!

Cada vez o teu Reino é menos deste mundo!
Mas vimos, com as mãos cheias dos nossos pomos,
Festejar-te, ─ do fundo
Da miséria que somos.

Os que à chegada
Te vimos esperar com palmas, frutos, hinos,
Somos ─ não uma vez, mas cada ─
Teus assassinos.

À tua mesa nos sentamos:
Teu sangue e corpo é que nos mata a sede e a fome;
Mas por trinta moedas te entregamos;
E por temor, negamos o teu nome.

Sob escárnios e ultrajes,
Ao vulgo te exibimos, que te aclame;
Te rojamos nas lajes;
Te cravejamos numa cruz infame.

Depois, a mesma cruz, a erguemos,
Como um farol de salvação,
Sobre as cidades em que ferve extremos
A nossa corrupção.

Os que em leilão a arrematamos
Como sagrada peça única,
Somos os que jogamos,
Para comércio, a tua túnica.

Tais somos, os que, por costume,
Vimos, mais uma vez,
Aquecer-nos ao lume
Que do teu frio e solidão nos dês.

Como é que ainda tens a infinita paciência
De voltar, ─ e te esqueces
De que a nossa indigência
Recusa Tudo que lhe ofereces?

Mas, se um ano tu deixas de nascer,
Se de vez se nos cala a tua voz,
Se enfim por nós desistes de morrer,
Jesus recém-nascido!, o que será de nós?!


José Régio

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Vem aí o Natal!...


Natal… Na província neva.
Nos lares aconchegados,
Um sentimento conserva
Os sentimentos passados.

Coração oposto ao mundo,
Como a família é verdade !
Meu pensamento é profundo,
Estou só e sonho saudade.

E como é branca de graça
A paisagem que não sei,
Vista de trás da vidraça
Do lar que nunca terei !


Fernando Pessoa

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Anagramas com Literatura


As obras anagramadas pedidas no último passatempo são as seguintes:
“A Cidade e as Serras “, de Eça de Queiroz
“Para Sempre” de Vergílio Ferreira
“Em Nome da Terra”, de Vergílio Ferreira,
“ O Ano da Morte de Ricardo Reis”, de José Saramago


Agradeço as respostas que recebi, através do email e no Facebook, de: Manuel Amaro, António Monteiro, Arnaldo Sarmento, Emanuel Magno, Elizabeth Sá e Pedro Varandas, todos com respostas certíssimas, assim como de Manuel Caleiro (excepto à 3ª obra) . Uma palavra de agradecimento, também, para os que resolveram e não comentaram. Obrigado a todos! Não tenho prémios para atribuir. Deixo a minha amizade.

domingo, 15 de dezembro de 2013

Vem aí o Natal!...



Em tempo e memória

A um simples aceno
a vida nasce:
cobrem-se de orvalho
e de flores
nossos dedos.

Nós que nascemos
para a luz deste mundo,
para o voo subtil
dos pássaros mais altos,
de pálpebras abertas,
mudos, nos olhamos,
nos reconhecemos
e amamos
sobre a face da terra.

Albano Martins

sábado, 14 de dezembro de 2013

Porquê eu?

Porquê? Eu, que não procuro palco. Eu, que gosto de estar no meu cantinho. Eu, que sempre fugi dos holofotes. Eu, que sempre me tenho agachado no momento de subir. Eu, que tantas vezes fui ridículo em público. Eu, que sei que nisto não tenho par neste mundo. Porquê eu? 

Então, era eu, entre tanta gente sábia, o iluminado, o eleito para o discurso? Porquê eu? 

Vem aí o Natal!...

Último poema

É Natal, nunca estive tão só.
Nem sequer neva como nos versos
do Pessoa ou nos bosques
da Nova Inglaterra.
Deixo os olhos correr
entre o fulgor dos cravos
e os dióspiros ardendo na sombra.
Quem assim tem o verão
dentro de casa
não devia queixar-se de estar só,
não devia.

Eugénio de Andrade

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Vem aí o Natal!...


«[…] A criança, com duas longas lágrimas na face magrinha, murmurou:
— Oh mãe! Jesus ama todos os pequenos. E eu ainda tão pequeno, e com um mal tão pesado, e que tanto queria sarar!
E a mãe, em soluços:
— Oh meu filho, como te posso deixar? Longas são as estradas da Galileia, e curta a piedade dos homens. Tão rota, tão trôpega, tão triste, até os cães me ladrariam da porta dos casais. Ninguém atenderia o meu recado, e me apontaria a morada do doce rabi. Oh filho! Talvez Jesus morresse... Nem mesmo os ricos e os fortes o encontram. O Céu o trouxe, o Céu o levou. E com ele para sempre morreu a esperança dos tristes.
De entre os negros trapos, erguendo as suas pobres mãozinhas que tremiam, a criança murmurou:
— Mãe, eu queria Ver Jesus...
E logo, abrindo devagar a porta e sorrindo, Jesus disse à criança:
— Aqui estou.»

Eça de Queiroz, “O Suave Milagre” (excerto), in Contos

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Vem aí o Natal!...

«[…] E sobre o mundo do sono, sobre a sombra intrincada dos sonhos onde os homens se perdiam tacteando, como num labirinto espesso, húmido e movediço, a estrela acendia, jovem, trémula e deslumbrada, a sua alegria.
E Melchior deixou o seu palácio nessa noite.»


Sophia de Mello Breyner, “Os Três Reis do Oriente” (excerto), in “Contos Exemplares”

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Vem aí o Natal!...

NATAL 

De sacola e bordão, o velho Garrinchas fazia os possíveis por se aproximar da terra. A necessidade levara-o longe de mais. Pedir é um triste ofício, e pedir em Lourosa, pior. Ninguém dá nada. Tenha paciência, Deus o favoreça, hoje não pode ser - e beba um desgraçado água dos ribeiros e coma pedras! Por isso, que remédio senão alargar os horizontes, e estender a mão à caridade de gente desconhecida, que ao menos se envergonhasse de negar uma côdea a um homem a meio do padre-nosso. Sim, rezava quando batia a qualquer porta. Gostavam... Lá se tinha fé na oração, isso era outra conversa. As boas acções é que nos salvam. Não se entra no céu com ladainhas, tirasse daí o sentido. A coisa fia mais fino! Mas, enfim... Segue-se que só dando ao canelo por muito largo conseguia viver. 

E ali vinha de mais uma dessas romarias, bem escusadas se o mundo fosse doutra maneira. Muito embora trouxesse dez réis no bolso e o bornal cheio, o certo é que já lhe custava arrastar as pernas. Derreadinho! Podia, realmente, ter ficado em Loivos. Dormia, e no dia seguinte, de manhãzinha, punha-se a caminho. Mas quê! Metera-se-lhe em cabeça consoar à manjedoira nativa... E a verdade é que nem casa nem família o esperavam. Todo o calor possível seria o do forno do povo, permanentemente escancarado à pobreza. Em todo o caso sempre era passar a noite santa debaixo de telhas conhecidas, na modorra dum borralho de estevas e giestas familiares, a respirar o perfume a pão fresco da última cozedura... Essa regalia ao menos dava-a Lourosa aos desamparados. Encher-lhes a barriga, não. Agora albergar o corpo e matar o sono naquele santuário colectivo da fome, podiam. O problema estava em chegar lá. O raio da serra nuncamais acabava, e sentia-se cansado. Setenta e cinco anos, parecendo que não, é um grande carrego. Ainda por cima atrasara-se na jornada em Feitais. Dera uma volta ao lugarejo, as bichas pegaram, a coisa começou a render, e esqueceu-se das horas. Quando foi a dar conta, passava das quatro. E, como anoitecia cedo, não havia outro remédio senão ir agora a mata-cavalos, a correr contra o tempo e contra a idade, com o coração a refilar. Aflito, batia-lhe na taipa do peito, a pedir misericórdia. Tivesse paciência. O remédio era andar para diante. E o pior de tudo é que começava a nevar! Pela amostra, parecia coisa ligeira. Mas vamos ao caso que pegasse a valer? Bem, um pobre já está acostumado a quantas tropelias a sorte quer. Ele então, se fosse a queixar-se! Cada desconsideração do destino! Valia-lhe o bom feitio. Viesse o que viesse, recebia tudo com a mesma cara. Aborrecer-se para quê?! Não lucrava nada! Chamavam-lhe filósofo... Areias, queriam dizer.Importava-lhe lá

E caía, o algodão em rama! Caía, sim senhor! Bonito! Felizmente que a Senhora dos Prazeres ficava perto. Se a brincadeira continuasse, olha, dormia no cabido! O que é, sendo assim, adeus noite de Natal em Lourosa... 

Apressou mais o passo, fez ouvidos de mercador à fadiga, e foi rompendo a chuva de pétalas. Rico panorama! 

Com patorras de elefante e branco como um moleiro, ao cabo de meia hora de caminho chegou ao adro da ermida. À volta não se enxergava um palmo sequer de chão descoberto. caiados, os penedos lembravam penitentes. 

Não havia que ver: nem pensar noutro pouso. E dar graças! 

Entrou no alpendre, encostou o pau à parede, arreou o alforge, sacudiu-se, e só então reparou que a porta da capela estava apenas encostada. Ou fora esquecimento, ou alguma alma pecadora forçara a fechadura.

Vá lá! Do mal o menos. Em caso de necessidade, podia entrar e abrigar-se dentro. Assunto a resolver em ocasião devida... Para já, a fogueira que ia fazer tinha de ser cá fora. O diabo era arranjar lenha.

Saiu, apanhou um braçado de urgueiras, voltou, e tentou acendê-las. Mas estavam verdes e húmidas, e o lume, depois dum clarão animador, apagou-se. Recomeçou três vezes, e três vezes o mesmo insucesso. Mau! Gastar os fósforos todos, é que não. 

Num começo de angústia, porque o ar da montanha tolhia e começava e começava a escurecer, lembrou-se de ir à sacristia ver se encontrava um bocado de papel. 

Descobriu, realmente, um jornal a forrar um gavetão, e já mais sossegado, e também agradecido ao Céu por aquela ajuda, olhou o altar.

Quase invisível na penumbra, com o divino filho ao colo, a Mãe de Deus parecia sorrir-lhe. 

- Boas festas! - desejou-lhe então, a sorrir também. 

Contente daquela palavra que lhe saíra da boca sem saber como, voltou-se e deu com o andor da procissão arrumado a um canto. E teve outra ideia. Era um abuso, evidentemente, mas paciência. Lá morrer de frio, isso vírgula! Ia escavacar o arcanho. Olarila! Na altura da romaria que arranjassem um novo. 

Daí a pouco, envolvido pela negrura da noite, o coberto, não desfazendo, desafiava qualquer lareira afortunada. A madeira seca do palanquim ardia que regalava; só de se cheirar o naco de presunto que recebera em Carvas crescia água na boca; que mais faltava?

Enxuto e quente, o Garrinchas dispôs-se então a cear. Tirou a navalha do bolso, cortou um pedaço de broa e uma fatia de febra, e sentou-se. Mas antes da primeira bocada a alma deu-lhe um rebate e, por descargo de consciência, ergueu-se e chegou-se à entrada da capela. O clarão do lume batia em cheio na talha dourada e enchia depois a casa toda. 

- É servida? 

A Santa pareceu sorrir-lhe outra vez, e o menino também. 

E o Garrinchas, diante daquele acolhimento cada vez mais cordial, não esteve com meias medidas: entrou, dirigiu-se ao altar, pegou na imagem e trouxe-a para junto da fogueira.

- Consoamos aqui os três - disse, com a pureza e a ironia dum patriarca. - A Senhora faz de quem é; o pequeno a mesma coisa; e eu, embora indigno, faço de S. José. 


Miguel Torga, in Novos Contos da Montanha