A minha Lista de blogues

terça-feira, 31 de março de 2026

Um avião para a Mongólia

Um texto lido por jornalista Fernando Alves na FSF no passado dia 27 de Março. Vale a pena ler.

Um avião para a Mongólia

«Por que nos perdemos da volúpia da palavra volúpia, do sulco aberto na página pela palavra navio? Nunca seremos suficientemente gratos a Capicua pela frondosa alegria com que acendeu na voz de Aldina Duarte a palavra araucária que uma lei omissa fechara aos domínios do fado. Abraçando-a com a curiosidade dos dias estranhamente longínquos, redescobrimos que, afinal, a copa da palavra é "um palácio".

Comecei a ler "O Louco de Deus no Fim do Mundo", o livro que serviu ao ateu, "laicista militante" e "ímpio inveterado" Javier Cercas para partilhar a viagem com o Papa Francisco até à Mongólia. Ele conta o modo como lhe foi permitido fazer ao Papa uma pergunta cuja resposta era destinada à sua mãe. "Para isso embarquei neste avião", explica Javier Cercas. "Para perguntar ao Papa Francisco se a minha mãe verá o meu pai depois da morte." Pergunta tremenda feita por alguém que confessa ser escritor porque perdeu a fé. Eis alguém que ousa o limite, a palavra inexpugnada, abdicando do poder de a instaurar, ficcionando. Afinal esse é o caminho das pedras que talvez lhe permita tactear a palavra que o Papa talvez lhe revele, durante um voo para a Mongólia. Haverá um fim do mundo das palavras?

O homem que conhece todas as palavras de todas as Babéis - ou, ao menos, a arte de lançar a rede que as contém - demora-se nas palavras de Francisco e, a dado passo, sublinha a palavra misericórdia. Ela terá sido, ainda mais do que a palavra alegria, uma das mais usadas por Francisco. Ele o disse certa vez: "Não tenhais medo da misericórdia. A misericórdia é a carícia de Deus. É o nome de Deus."

O autor de "Terra Alta" recorda que, em 2016, num encontro com jovens argentinos em Santa Fé, o Papa Francisco defendeu que "a misericórdia existe quando o coração se une à miséria do outro, quando a miséria do outro entra no nosso coração".

Como nos teremos perdido da palavra misericórdia?

Já a palavra miséria, esta palavra que o Papa usa quando diz "a miséria do outro", foi ganhando sentidos e usos avulsos. Dizemos "fulano ganha uma miséria" e queremos significar o insignificante. Miséria pode remeter para a degradação física ou para a indigência.

Mas tomemos, neste contexto, a miséria das palavras, o nosso vocabulário indigente e depauperado. A miséria das palavras foi o mote para uma recolha de "versos e alguma prosa" de Jorge de Sena, organizada por Eugénio Lisboa, logo após a morte do poeta, no final dos anos 70. Atentai nestes versos de "A miséria das palavras": "A miséria é isso: não imaginar o nome que transforma a ideia em coisa, / a coisa que transforma o ser em vida, / a vida que transforma a língua em algo mais / que o falar por falar."

Em busca desse nome transformador e da palavra que é a carícia de Deus, o ateu Javier Cercas apanhou um avião para a Mongólia.»

Sem comentários:

Enviar um comentário