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segunda-feira, 14 de maio de 2012

O Teu Rosto Será o Último, de João Ricardo Pedro


Claro que eu, desde o primeiro segundo, não tive quaisquer dúvidas quanto ao nome da aldeia do concelho do Fundão, com nome de mamífero: ORCA. Nasci nesta aldeia no longínquo ano de 1947.

Li o livro de supetão, que está recheio de referências a locais que eu reconheci. A narrativa oscila entre o meio rural (a pequena aldeia com nome de mamífero) e a cidade (o autor fala em Queluz, mas o que está lá bem retratado é outra freguesia do concelho de Sintra, cujo nome tem o nome de um profeta). Agora é a minha vez de deixar aqui um enigma.

A leitura foi compulsiva, cheguei ao fim exausto. E sem respostas. A narrativa assenta numa história de três gerações. Simples. Porém, o autor, sabiamente, entrecruza a história principal com outras narrativas incompletas (porque morreu Celestino? Porque é que Duarte achava que o Índio viria a ser um grande artista? Porque é que o barbeiro Alcino tremia das mãos? etc...).

Mas a vida é assim mesmo, incompleta. Histórias dentro de histórias, como se fossem muitos livros num só.

O que me intriga é como João Ricardo Pedro, logo no primeiro romance, ousou escrever tão bem, com uma imaginação tão extraordinária. A leitura de "Metamorfose," de Kafka, ainda adolescente, deixou sequelas.

Que grande primeiro romance!!!

Apetece-me dizer como Saramago disse a Gonçalo M.Tavares. João Ricardo Pedro “não tem o direito de escrever tão bem apenas aos 39 anos: dá vontade de lhe bater!

A Hora do Lanche


Li, não há ainda muito tempo, um texto de Eugénio de Andrade, no qual o poeta descreve uma visita que ele fez ao seu confrade Teixeira de Pascoaes, quando este se encontrava já muito doente. Eugénio de Andrade, além de escrever poesia de forma sublime, escreveu prosa igualmente bela.

Agora, veio-me parar às mãos um poema de Manuel António Pina, escrito no contexto de uma elegia dedicada aos cuidados prestados a Eugénio de Andrade no final da sua vida. Um poema triste, mas muito belo.

A Hora do Lanche

Na mão da Ana o iogurte não
iluminava, escurecia,
comunhão ajoelhada
no fundo do coração do dia

imemorial onde, desperto, ele dormia.
O movimento da colher embalava-o
como uma música que quase se ouvia
neste mundo ou como o colo que o adormecia.

A tarde declinava, as sombras,
como sombras, alongavam-se na almofada;
tudo fazia um sentido
literal e simples, onde não pode a poesia.


Se alguma coisa ficara
por dizer já não iria ser dita;
as palavras tinham-se sumido, transidas,
no interior da casa, o próprio silêncio emudecera.

Senhor, permite que adormeçamos
antes que feches a luz e desça
sobre nós a tua escuridão,
que os rebanhos estejam recolhidos
e os credores se tenham afastado da nossa porta,
mas que tenhamos pago as dívidas aos que nos serviram
e aos que nos amaram e aos que nos esperaram;
as tuas grandes mãos sustentarão o telhado e as paredes,
e moerão o grão e fermentarão o trigo,
apaga com as tuas mãos para sempre o rasto
da nossa vida
e que repousemos enfim
sem motivo para nos culparmos
por não termos sido felizes.


Foz do Douro, 26 de Janeiro de 2005
Manuel António Pina

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Conto "O Duende em Casa do Merceeiro"


Está patente, até 30 de Junho, a Exposição Hans Christian Andersen na Casa Roque Gameiro (uma parte), na Amadora.
A exposição pretende prestar homenagem a este escritor dinamarquês, bem como divulgar e contribuir para o conhecimento da sua obra, em áreas tão diversas como a literatura e as artes plásticas.
Entre os famosos contos de Andersen, destacam-se: O Patinho Feio, Os Sapatinhos Vermelhos, A Pequena Sereia, A Pequena Vendedora de Fósforos, O Duende em Casa do Merceeiro, O Soldadinho de Chumbo, dentre outros.
O meu Grupo de Leitura, que se reúne, quinzenalmente, na Casa Roque Gameiro, quis associar-se ao evento, contribuindo com alguns trabalhos para a exposição.
Na nossa reunião, de ontem, foi lido o seguinte conto:

O Duende em Casa do Merceeiro
«Era uma vez um estudante, um autêntico estudante; vivia num sótão e não possuía nada. E era uma vez um merceeiro, um autêntico merceeiro; vivia no rés-do-chão e era dono do prédio inteiro. E foi por isso que o duende decidiu morar com o merceeiro. Além disso, todos os Natais recebia uma tigela de papa de aveia com um grande pedaço de manteiga lá dentro. O merceeiro tinha posses para isso, de maneira que o duende continuava a morar na loja. Há por aqui algures uma moral, se a procurarem bem.
Uma noite, o estudante entrou na mercearia pela porta das traseiras para comprar um pedaço de queijo e velas. Fez as compras e depois pagou, e o merceeiro e a mulher acenaram-lhe com a cabeça e disseram «boa noite». A mulher, contudo, era bem capaz de fazer mais do que acenar; era muito faladora — falava, falava, falava. Tinha o que se chama o hábito de falar pelos cotovelos, disso não havia dúvida. O estudante também fez um aceno — e foi nessa altura que viu qualquer coisa escrita no papel que embrulhava o queijo e parou para ler. Era uma página de um velho livro de poemas, uma página que nunca devia ter sido arrancada.
— Tenho aqui mais desse livro, se quiser — disse o merceeiro. — Dei a uma velhota alguns grãos de café por ele. Pode ficar com o resto por seis dinheiros, se estiver interessado.
— Obrigado — respondeu o estudante. — Dê-mo em vez do queijo. Passo bem só com pão. É uma pena usar um livro destes para papel de embrulho! O senhor é muito boa pessoa e bastante prático, mas percebe tanto de poesia como aquela banheira ali ao canto.
Ora isto foi uma frase indelicada, especialmente aquela parte respeitante à banheira, mas o merceeiro riu-se, e o estudante também; afinal de contas, fora apenas uma brincadeira. Mas o duende ficou aborrecido por alguém se atrever a falar assim com o merceeiro — ainda por cima o senhorio, uma pessoa importante que era dono do prédio todo e vendia manteiga da melhor qualidade.
Nessa noite, quando a loja estava fechada e toda a gente, excepto o estudante, estava na cama, o duende entrou no quarto do merceeiro em bicos de pés e roubou à mulher do merceeiro o dom de falar pelos cotovelos, porque ela não precisava dele enquanto dormia. A seguir, fez com que cada objecto em que tocava ficasse capaz de exprimir as suas opiniões tão bem como a mulher do merceeiro. Mas só podia falar um de cada vez, o que era uma bênção, se não desatavam todos a falar ao mesmo tempo.
Primeiro, o duende deu o dom de falar pelos cotovelos à banheira onde se guardavam os jornais velhos.— É mesmo verdade que não percebes nada de poesia? — perguntou.
— Claro que percebo! — respondeu a banheira. — A poesia é uma coisa que vem no fim das folhas dos jornais e que as pessoas costumam recortar. Acho até que tenho mais poesia dentro de mim do que o estudante; e, apesar disso, sou apenas uma humilde banheira, comparada com o merceeiro.
Depois, o duende deu o dom de falar pelos cotovelos ao moinho de café. Meu Deus, que chinfrineira! Depois, deu-o ao pote de manteiga, e depois à caixa registadora. Todos eram da mesma opinião da banheira e as opiniões da maioria têm de ser respeitadas.
— Agora posso pôr o estudante no seu lugar! — exclamou o duende.
E lá foi em bicos de pés, pela escada das traseiras acima, até ao sótão onde morava o estudante. Havia luz lá dentro. O duende espreitou pelo buraco da fechadura e viu o estudante a ler o velho livro da loja.
Que grande claridade havia no quarto! Do livro saía um brilhante raio de luz, que se tornou num tronco de árvore, de uma nobre árvore que subiu e espalhou os seus ramos por cima do estudante. As folhas eram novas e verdes, e cada flor tinha o rosto de uma linda rapariga, algumas com olhos escuros e misteriosos e outras com olhos azuis cintilantes. Cada fruto era uma estrela luminosa e o ar estava impregnado de um belo som de canções.
O duende nunca tinha visto nem ouvido falar de tais maravilhas; e muito menos seria capaz de as imaginar. Portanto, ficou ali à porta, em bicos de pés, a espreitar, de olhos muito abertos, até que a luz se apagou. O estudante devia ter assoprado a vela e ido para a cama — mas o duende continuava sem ser capaz de arredar pé. Parecia-lhe ouvir a linda música, que ainda ecoava no ar, ajudando o estudante a adormecer.
— Isto custa a crer — murmurou o duende para consigo. — Nunca esperei nada do género. Acho que vou ficar no sótão com o estudante. — Depois pensou um bocado e suspirou: — Tenho de ser sensato; o estudante não tem papas de aveia.
E portanto, é claro, voltou para baixo, para a mercearia. Ainda bem que o fez, porque a banheira tinha quase esgotado o dom de falar pelos cotovelos, contando todas as notícias dos jornais que estavam guardados dentro dela. Tinha falado para um lado e estava prestes a virar-se para o outro e a continuar quando o duende devolveu o dom de falar pelos cotovelos à mulher do merceeiro adormecida. E, a partir dessa altura, todas as coisas da loja, desde a caixa registadora até à lenha, seguiram as opiniões da banheira; tinham-lhe tanto respeito que, depois daquilo, quando o merceeiro lia nos jornais críticas de peças ou de livros, pensavam que ele tinha aprendido tudo com a banheira.
Mas o duende já não aguentava ficar ali sentado a ouvir toda a sabedoria e bom senso pronunciados na loja; assim que via luz através das frinchas da porta do sótão, parecia ser atraído para lá por cordelinhos, e tinha de subir a escada e pôr-se a espreitar pelo buraco da fechadura. Sempre que o fazia, sentia-se invadido por uma sensação de indizível grandeza — a espécie de sensação que se tem quando se vê o mar encapelado com ondas tão fortes que o próprio Deus podia vir montado nelas! Que maravilha seria sentar-se debaixo da árvore com o estudante! Mas era impossível.
Entretanto, contentava-se com o buraco da fechadura. Olhava através dele todas as noites, ali parado no patamar deserto, mesmo quando o vento do Outono começou a soprar pela clarabóia, fazendo-o quase morrer de frio. Mas ele nem o sentia até a luz se apagar no quartinho do sótão e a música se calar a pouco e pouco, ficando apenas o uivar do vento. Brr! Então, sentia como estava gelado e descia sem fazer barulho para o seu canto secreto da loja, quente e confortável. Em breve viria a tigela de papas de aveia do Natal, com o seu grande pedaço de manteiga. Sim, o merceeiro era a escolha certa.
Mas uma noite, já bem tarde, o duende acordou com uma grande agitação à sua volta. Estavam pessoas a bater nos estores, o guarda-nocturno apitava: havia fogo, e toda a rua parecia estar em chamas. Que casa é que estava a arder? Aquela ou a do lado? Onde era o fogo? Que gritos! Que pânico! Que agitação! A mulher do merceeiro estava tão desorientada que tirou os brincos de ouro das orelhas e meteu-os num bolso, para salvar pelo menos alguma coisa... O merceeiro foi a correr buscar os seus valores, a criadita foi buscar o seu xaile de seda que tinha comprado com o ordenado. Toda a gente foi a correr buscar aquilo a que dava mais valor.
E o duende fez o mesmo. Num pulo ou dois subiu a escada e entrou no quarto do estudante, que estava calmamente à janela, vendo o incêndio na casa em frente. O duende pegou no livro maravilhoso, que estava em cima da mesa, meteu-o dentro do boné vermelho e agarrou-se a ele com os dois bracitos. A coisa mais preciosa da casa estava salva!
Depois, foi a correr para cima do telhado, mesmo para o alto da chaminé, e ficou ali sentado, iluminado pelas chamas da casa a arder do outro lado da rua, sempre firmemente agarrado ao boné vermelho com o tesouro lá dentro.
Agora sabia para onde o seu coração o puxava: estudante?, merceeiro? — a escolha era clara.
Mas, quando o fogo ficou extinto e o duende já tinha tido tempo para pensar com mais calma, bem...
— Divido o tempo entre eles — decidiu. — Não sou capaz de abandonar o merceeiro, por causa das papas de aveia.
Mesmo coisa de ser humano, francamente! Também nós gostamos de nos dar bem com o merceeiro por causa das papas de aveia»

O conto, que do ponto de vista estilístico está muito longe de entusiasmar, apresenta, aqui e ali, curiosos ensinamentos (a cultura acima da barriga cheia, aproveitamento dos dotes disponíveis, falar um de cada vez, ouvir a opinião de todos, respeito pela opinião da maioria, a leitura ilumina, restituição do que não é nosso, salvar o mais importante em momentos de crise).
A figura do duende é a personagem principal do conto. O duende é o elemento surpresa na casa do merceeiro. Qual o papel dele? Um corruptor? Um moralista? Um politico? Um manipulador? Ou um ser imaginário que está ali para se comportar como um humano.
O duende comporta-se, desde o princípio, com muita ambiguidade. Hesita entre ficar com o estudante ou com o merceeiro. Por vezes, parece aproximar-se do estudante, fascinado pela luz que vem do velho livro de poesia, mas acaba por voltar para o merceeiro, por causa das papas.
Essa ambiguidade atinge o máximo quando é o duende, não o estudante, que salva o livro por ocasião do incêndio. O seu coração está dividido. Estudante? Merceeiro?. Não sou capaz de abandonar o merceeiro, por causa das papas, acaba ele por concluir. É absolutamente certo. Mesmo como um humano.

domingo, 6 de maio de 2012

Pequena aldeia com nome de mamífero


O romance 'O Teu Rosto será o Último', de João Ricardo Pedro, foi o primeiro romance de um autor português a conquistar o Prémio Leya.

Conta a história dos primeiros anos de vida de uma criança nascida nos tempos da Revolução de Abril.

Há curiosidade do autor, João Ricardo Pedro, ter escrito o seu primeiro romance numa altura em que ficou desempregado.

Hoje, ao folhear o livro na FNAC, dou conta que o autor coloca o início da narrativa numa «pequena aldeia com nome de mamífero, situada num sopé da Serra da Gardunha, voltado para Sul…».

Ora, esta pequena aldeia com nome de mamífero é, para mim, um sobressalto, um grande enigma. Alguém me ajuda? Eu tenho um palpite.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Na mão de Deus, na sua mão direita


A mulher de Miguel Esteves Cardoso foi operada no passado dia 2 a um tumor que se alojou no cérebro. Nesse dia,  na crónica que habitualmente escreve para o jornal “Público”, MEC colocava a sua Maria João nas mãos dos médicos e cirurgiões. Ontem, MEC confiou-a Deus, escrevendo-lhe uma carta: “Ajuda a Maria João, se puderes. Faz o que só um Deus pode fazer”. É uma carta ARREPIANTE.

Carta a Deus

Deus, Bem avisaste que eras um Deus invejoso e vingativo. Também sei que Job era um caso-limite: uma ameaça do que eras capaz. Nem eu nem a Maria João temos um milésimo da obediência e da resignação de Job. E castigaste-nos menos. Mas foi de mais.

De certeza absoluta que nos amamos mais um ao outro do que te amamos a Ti. Sabemos que isto não está certo. Mas foste Tu que nos fizeste assim. Admite: deste-nos liberdade de mais. Foste presunçoso: pensaste que Te escolheríamos sempre primeiro. Enganaste-Te. Quando inventaste o amor, esqueceste-te de que seria mais popular entre os seres humanos do que entre os seres humanos e Tu. Por uma questão de tangibilidade. E, desculpa lá, de feitio. Tu, Deus, tens o pior das arrogâncias feminina e masculina. Achas que só existes Tu. Como Deus, até é capaz de ser verdade. Mas, para quereres ser um Deus real e humanamente amado, tens de aprender a ser um amor secundário. Sabemos que és Tu que mandas e acreditamos que há uma razão para tudo o que fazes, mesmo quando toda a gente se lixa, porque não nos deste cabeça para Te compreender. Esta deficiência foi uma decisão tua: não quiseste dar-nos a inteligência necessária.

Mas deste-nos cabeça suficiente para Te dizer, cara a cara, que nos preocupamos mais com os entes amados do que contigo.

Ajuda a Maria João, se puderes. Se não puderes, não dificultes a vida a quem pode ajudar. Faz o que só um Deus pode fazer: reduz-te à tua significância. Que é tão grande.


Miguel Esteves Cardoso, in jornal Público de 3 de Maio de 2012

Um Namoro Difícil

Para alguns estudiosos pessoanos (Teresa Rita Lopes, p.e.), Fernando Pessoa pensava mesmo em casar com Ophelia, ainda que nunca o diga explicitamente nas suas cartas. Mas devemos dizer que nem todos pensam assim. Questão controversa, discutindo-se muito a natureza deste namoro.

De todo o modo, para os que acham que Pessoa queria mesmo constituir um lar com a sua Ophelinha, um dos grandes problemas, a esse respeito, era evidentemente o económico. Então, sob o pseudónimo de A A Crosse, Pessoa intensificou as suas respostas a concursos ingleses de charadismo, esperando de uma vitória final a possibilidade de um grande prémio que tudo resolveria.
Um passo da carta de 22/03/1920 é perfeitamente claro a este respeito:
«Olha, Bébézinho ... Nas tuas promessas pede uma cousa que em tempos me pareceu duvidosa, por causa da minha fraca sorte, mas que agora me parece mais, muito mais possível. Pede que o snr. Crosse acerte no alvo de um dos prémios grandes — um dos prémios de mil libras a que concorreu. Não calculas a importância que para nós ambos teria se isso acontecesse!»

Pessoa teve o apoio da própria interessada, que rezou uma novena para Santa Helena e fez uma promessa ao Senhor dos Passos. «Não me esqueço do sr. Crosse», diz Ophelia numa carta; ou «são 11 horas, vou rezar pelo Sr. Crosse e vou-me deitar», diz ela noutra carta. Nem a santa, nem os suspiros casamenteiros, nem as novelas milagreiras, deram o resultado que Ophelia tanto ansiava. Estava escrito nas estrelas que o destino de Crosse era de perder. E o de Pessoa, também. Triste, triste, só Ophelia.

Palavras Cruzadas – Universo Fernando Pessoa

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HORIZONTAIS: 1- (…) Reis, heterónimo de Pessoa, educado num colégio de jesuítas, médico, latinista, que se expatriou para o Brasil em 1919 por ser monárquico; (…) Português, segunda parte do livro Mensagem, dedicada ao período áureo das navegações portuguesas. 2- Que tem olhos grandes; Prefixo latino que exprime a ideia de dois. 3- Aproxima-se; Forma reduzida de metropolitano. 4- Limpe; Bernardo (…), semi-heterónimo de FP, autor da célebre frase «A minha pátria é a língua portuguesa». 5- Reza; Puros [fig.]. 6- Símbolo de libra; Avenida [abrev.]. 7- Padre António (…), considerado, por Pessoa, o imperador da língua portuguesa; Elemento de formação de palavras que exprime a ideia de ovo. 8- Alberto (…), heterónimo de Pessoa, natural de Lisboa, mas viveu quase toda a sua vida no campo; Fronteira. 9- Faz zirra-zirra; Pejo 10- Alcoólicos Anónimos [sigla]; Pessoa sentia apetência por questões esotéricas: (…), misticismo, gnosticismo, astrologia, etc… 11- Regimento de Sapadores Bombeiros [sigla]; Peça de vestuário de tecido leve para tronco e braços, geralmente com colarinho e botões à frente [pl.].

VERTICAIS: 1-Antigo e pequeno capote de mangas que se abotoava na frente [pl.]; Título do soberano da Rússia, no tempo do Império. 2- Tornar incomunicável como uma ilha; Apupas. 3- (…) de Pas, primeiro heterónimo de Pessoa, quando tinha 6 anos de idade. 4- Apogeu; Margem. 5- (ant.) República Democrática Alemã [sigla]; Raiva. 6- Nota musical; Sagrado; Aqui. 7- Pedra de amolar [pl.]; Programa Alimentar Mundial [sigla]. 8- Ceia abundante; Rubim. 9- Uma das fobias de Pessoa, tinha horror às (…). 10- Estabeleces; Força (alguém) a ter relações sexuais. 11- Curso natural de água que nasce, em geral, nas montanhas e vai desaguar ao mar…[pl.]; Gemeras [pop.].



quarta-feira, 2 de maio de 2012

Um Encontro Improvável


Idade quarenta e oito anos, natural do Porto, estado civil solteiro, profissão médico, última residência Rio de Janeiro, donde procede. Parece o princípio de uma confissão, uma autobiografia, mas não. Estamos no dia 30 de Dezembro de 1935, no Hotel Bragança, em Lisboa. Fica na Rua do Alecrim, à direita de quem sobe. O quarto que lhe coube é o duzentos e um. O novo hóspede podia chamar-se Jacinto e ser dono de uma quinta em Tormes, mas não. Chama-se Ricardo Reis.


O quarto tem uma janela virada para o rio, o que deixou o hóspede agradado: «Mais vale estarmos sentados ao pé um do outro ouvindo correr o rio e vendo-o». Sobre a mesa estão alguns jornais e revistas já antigos. Causou dolorosa impressão nos círculos intelectuais a morte inesperada de Fernando Pessoa, o poeta do Orfeu, espírito admirável que cultivava não só a poesia mas também a crítica inteligente, morreu anteontem em silêncio, como sempre viveu. Não diz mais este jornal, outro diz de outra maneira. Fernando Pessoa, o poeta extraordinário da Mensagem, poema de exaltação nacionalista, dos mais belos que se têm escrito, foi ontem a enterrar, surpreendeu-o a morte num leito cristão do Hospital de S. Luís, no sábado à noite. Aqui está outro jornal que pôs a notícia na página certa, a de necrologia, e extensamente identifica o falecido. Realizou-se ontem o funeral do senhor Fernando António Nogueira Pessoa, solteiro, de quarenta e sete anos de idade, escritor e poeta muito conhecido no meio literário. A leitura dos jornais foi interrompida. Uma rajada súbita fez estremecer as vidraças, a chuva desabou como um dilúvio. Batem à porta do quarto.
A janela estava aberta e não dei por que a chuva entrasse, está o chão todo molhado - Disse Ricardo Reis - Agradecia pois que limpasse o soalho. Como se chama?
Lídia.
Lídia? Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Lídia sorri, faz o que tem a fazer e sai. Ricardo Reis vai sentar-se no sofá, recosta-se, fecha os olhos. Já sonolento levanta-se, abre o guarda-fato e retira um cobertor com que se cobre. Agora sim, dorme.


Ricardo Reis está encostado a um candeeiro na praça do Chiado. Enquanto espera o eléctrico 28, que o há-de levar aos Prazeres, pode observar, ao fundo, a estátua do Camões. Não se lembraram de pôr-lhe versos no pedestal, mas se um lhe pusessem qual poriam? Ricardo Reis vai agora no eléctrico. Entontece. Os bancos, de um entretecido de palha forte e pequena, levam-no a regiões distantes. Sai do carro exausto e sonâmbulo. Deixara de chover. Ricardo Reis foi à administração do cemitério, ao registo dos defuntos, saber onde estava sepultado Fernando António Nogueira Pessoa, falecido no dia 30 de Novembro de 1935, enterrado no dia 2 do mês que corre. Ricardo Reis agradece as explicações do funcionário e vai à procura do jazigo nº 4371. A assinalar o título de propriedade está o nome de D. Dionísia de Seabra Pessoa. Está ainda outro nome, não mais, Fernando Pessoa, com datas de nascimento e morte. Dentro do jazigo está uma velha tresloucada e está também guardado o corpo apodrecido de um fazedor de versos que deixou a sua parte de loucura no mundo. Caiu uma bátega forte, o que foi um bom motivo para Ricardo Reis se retirar.


Depois do jantar, Ricardo Reis instalou-se na sala de recepção do hotel, especialmente preparada, naquele dia, para o révellion. Estamos no último dia do ano de 1935. Ricardo Reis não fica para a festa, sobe devagar a escada até ao seu quarto. Vai descansar, mas na rua perpassa uma algazarra medonha. Já deram as onze horas, quando, bruscamente, Ricardo Reis levanta-se e sai. Sobe a Rua do Alecrim, pára diante da estátua de Eça de Queirós, ou Queiroz, por respeito da ortografia que o dono do nome usou. Sobre a nudez forte da verdade o manto diáfano da fantasia. Ou, sobre a nudez forte da fantasia o manto diáfano da verdade? Ricardo Reis sente-se confuso. Desce o Chiado e a Rua do Carmo. O Rossio está cheio de gente. Faltam 4 minutos para a meia-noite. Depois é a gritaria da multidão, as campainhas dos eléctricos, as buzinas dos automóveis, o barulho das sereias, abraçam-se uns aos outros, conhecidos e desconhecidos, beijam-se homens e mulheres ao acaso. Mas, ainda não passou um minuto, e já o som vai decrescendo. Ainda há grupos no Rossio, mas a animação é cada vez menos. A Rua do Ouro, que agora desce, está juncada de detritos e ainda se lançam pela janela fora trapos, caixas vazias, ferro-velho… Ricardo Reis, cansado, regressa ao hotel.


Entra no hotel e segue o corredor que o leva ao seu quarto, que é o duzentos e um. É então que repara que por baixo da porta passa uma réstia de luz. Ter-se-á esquecido de alguma coisa? Meteu a chave à fechadura, abriu, há alguém no quarto. Será Lídia? Não, sentado no sofá estava um homem. Reconheceu-o, imediatamente, apesar de não o ver há já 16 anos. À sua espera, estava Fernando Pessoa.
Olá! - disse Ricardo Reis, ainda que duvidando de que ele lhe responderia.
Como nem sempre o absurdo respeita a lógica, acontece que respondeu mesmo.
Viva! - respondeu Fernando Pessoa, estendendo a mão e dando-lhe um abraço.
- Então como tem passado? Um deles fez a pergunta, ou ambos, não importando saber, tão insignificante é a frase.
Ricardo Reis despiu a gabardina, pousou o chapéu e arrumou cuidadosamente o guarda-chuva no lavatório, não fosse pingar o oleado do chão. Puxou uma cadeira e sentou-se defronte do visitante. Olham-se com simpatia, vê-se que estão contentes por se terem reencontrado depois de longa ausência. É Fernando Pessoa quem primeiro fala.
Soube que me foi visitar, eu não estava, mas disseram-me quando cheguei.
Pensei que estivesse, pensei que nunca de lá saísse - respondeu Ricardo Reis.
Por enquanto saio, ainda tenho uns oito meses para circular à vontade - explicou Fernando Pessoa.
Oito meses porquê - perguntou Ricardo Reis.
Contas certas, no geral e em média, são nove meses, tantos quantos os que andamos na barriga das nossas mães, acho que é por uma questão de equilíbrio - esclareceu Fernando Pessoa.
-  E agora diga-me você que é que o trouxe a Portugal - perguntou Fernando Pessoa.
Ricardo Reis tirou a carteira do bolso interior do casaco, extraiu dela um papel dobrado, fez menção de o entregar a Fernando Pessoa, mas este recusou com um gesto.
Já não sei ler, leia você - disse Fernando Pessoa.
E Ricardo Reis leu: «Fernando Pessoa faleceu Stop Parto para Glasgow Stop Álvaro de Campos».
Quando recebi este telegrama decidi regressar, senti que era uma espécie de dever - acrescentou Ricardo Reis.
-  Houve ainda uma outra razão para este meu regresso, essa mais egoísta, é que em Novembro rebentou no Brasil uma revolução, estava indeciso, parto, não parto, mas depois chegou o telegrama, aí decidi-me - disse ainda Ricardo Reis.
Você, Reis, tem sina de andar a fugir das revoluções, em mil novecentos e dezanove foi para o Brasil por causa de outra que provavelmente falhou também - disse Fernando Pessoa.
Em rigor eu não fugi do Brasil e talvez que ainda lá estivesse se você não tem morrido - disse Ricardo Reis.
Você continua monárquico - sublinhou Fernando Pessoa.
Continuo. Sem rei. Pode-se ser monárquico e não querer um rei - confirmou Ricardo Reis.
Ricardo Reis puxou uma cadeira e sentou-se defronte do visitante e disparou:
Bem, Fernando, conte lá, se for capaz, a história do nascimento dos heterónimos.
Vou ver se consigo responder completamente – disse Fernando Pessoa, prosseguindo - Aí por 1912, salvo erro (que nunca pode ser grande), veio-me à ideia escrever uns poemas de índole pagã. Esbocei umas cousas em verso irregular (não no estilo Álvaro de Campos, mas num estilo de meia regularidade), e abandonei o caso. Esboçara-se-me, contudo, numa penumbra mal urdida, um vago retrato da pessoa que estava a fazer aquilo. Tinha nascido, sem que eu soubesse, você, Ricardo Reis.
Então, quer dizer, fui o princípio de tudo? – interrompeu o Ricardo Reis.
Sim, se fica contente. Ano e meio, ou dois anos depois – foi em 8 de Março de 1914 – acerquei-me de uma cómoda alta, e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triunfal da minha vida. Aparecido Alberto Caeiro, tratei logo de lhe descobrir – instintiva e subconscientemente – uns discípulos.
Está bem, não precisa de contar mais – disse Ricardo Reis.
Fernando Pessoa levantou-se do sofá, passeou um pouco pela saleta, no quarto parou diante do espelho, depois voltou. Tomou a sentar-se, cruzou a perna.
E agora, vai ficar para sempre em Portugal, ou regressa a casa? - perguntou Fernando Pessoa.
-  Ainda não sei, apenas trouxe o indispensável, pode ser que me resolva a ficar, abrir consultório, fazer clientela, também pode acontecer que regresse ao Rio - retorquiu Ricardo Reis.
Nenhum vivo pode substituir um morto - sentenciou Fernando Pessoa.
Nenhum de nós é verdadeiramente vivo nem verdadeiramente morto - concordou Ricardo Reis.
Bem dito, com essa faria você uma daquelas odes - observou, muito a propósito, Fernando Pessoa.
Ambos sorriram.
Diga-me como soube que eu estava hospedado neste hotel - perguntou Ricardo Reis.
Quando se está morto, sabe-se tudo, é uma das vantagens.
E entrar, como foi que entrou no meu quarto?
Como qualquer outra pessoa entraria.
Não veio pelos ares, não atravessou as paredes. Que absurda ideia, meu caro, isso só acontece nos livros de fantasma - contrapôs Ricardo Reis.
Os mortos servem-se dos caminhos dos vivos, aliás nem há outros, vim por aí fora desde os Prazeres como qualquer mortal. Subi a escada, abri aquela porta, sentei me neste sofá à sua espera - explicou Fernando Pessoa.
E ninguém deu pela entrada de um desconhecido, sim, que você aqui é um desconhecido - ironizou Ricardo Reis.
-  Essa é outra vantagem de estar morto, ninguém nos vê, querendo nós
- Disse Fernando Pessoa.
Mas eu vejo-o a si - logo contrapôs Ricardo Reis.
Porque eu quero que me veja, e, além disso, se reflectirmos bem, quem é você? - Perguntou, com grande ironia, Fernando Pessoa, não esperando, obviamente, a resposta.
Ricardo Reis não respondeu. Houve um silêncio arrastado, espesso. Ouviu-se como em outro mundo o relógio do patamar, duas horas. Fernando Pessoa levantou-se.
Vou-me chegando.
Já? - interrogou-se Ricardo Reis.
Bem, não julgue que tenho horas marcadas, sou livre, é verdade que a minha avó está lá, mas deixou de me maçar - disse Fernando Pessoa.
Fique um pouco mais - implorou Ricardo Reis.
Está a fazer-se tarde, você precisa de descansar - ripostou Fernando Pessoa.
Quando volta?
Quer que eu volte? - pergunta Fernando Pessoa.
Gostaria muito, podíamos conversar, restaurar a nossa amizade, não se esqueça de que, passados dezasseis anos, sou novo na terra - quase implorou Ricardo Reis.
Mas olhe que só vamos poder estar juntos oito meses, depois acabou-se, não terei mais tempo. Quando puder, aparecerei - respondeu Fernando Pessoa.
Não quer marcar um dia, hora, local? - insistiu Ricardo Reis.
Tudo menos isso, Então até breve - retorquiu Fernando Pessoa.
Fernando, gostei de o ver.
E eu a si, Ricardo.
Fernando Pessoa abriu a porta do quarto, saiu para o corredor. Não se ouviram os seus passos. Ricardo Reis foi à janela. Pela Rua do Alecrim acima afastava-se Fernando Pessoa.