A minha Lista de blogues

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Palavras Cruzadas com História


 
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HORIZONTAIS: 1 – Pancada com o taco; Apoquenta. 2 – Desmoronar-se; Comezainas. 3 – Pequena argola; Conserva na memória. 4 – Pedra de amolar; Gostou; Díodo semicondutor que emite luz quando uma corrente eléctrica passa por ele. 5 – Sois pachorrentos; Isolado. 6 - Elemento de formação de palavras que exprime a ideia de ócio, lazer; Brilho. 7 – Ruim; Ambiciones. 8 – Pinote; Ociosidade; Artigo definido “o” (arc). 9 – Regato; Acrescentei. 10 - Danifique; Circulares. 11 – Combina; Aquosa.

VERTICAIS: 1 - Conjunto dos utensílios de cozinha; Água escura que escorre da tulha das azeitonas. 2 – Flautas; Princípio activo da semente da salsa. 3 - Manifestação do apetite sexual, nos animais, nas épocas próprias da reprodução; elemento de formação de palavras que exprime a ideia de ovo, óvulo; Desatei. 4 – Atmosfera; Baú; Existia. 5 – Perdoo. 6 – Aturde; Castas. 7 - Pertencente ou semelhante a águia. 8 – Gracejou; Cada um dos 114 capítulos do Alcorão; Circular. 9 - Substância azulada, usada como corante, que se obtém de algumas plantas; (…) Fernandes, personagem da Cidade e as Serras, de Eça de Queiroz; Anel. 10 – Regues; Securas. 11 – Alados; Macia.

Depois do problema resolvido encontre o nome de um escritor português (duas palavras).
 
Clique Aqui para ver e imprimir.

domingo, 18 de novembro de 2012

Partem tão tristes...

Passam hoje 40 anos. Logo, lá mais para a noite, por volta das 9 horas, eu vi, pela primeira, Lisboa lá do alto. As luzes das avenidas, dos barcos no rio, do Cristo-Rei. Eu subia cada vez mais para o alto e a cidade ficava cada vez mais para trás. Ia dentro de um avião, a caminho de Angola. Eu e os meus companheiros da 1ª Companhia do Batalhão de Infantaria nº 4611. O destino era a cidade de Luanda. Primeiro, no quartel do Grafanil, depois logo se saberia.

Foi uma partida difícil, a qual o tempo se encarregou de fazer esquecer. De tudo, a minha memória guarda aqueles breves segundos da subida do avião, deixando para trás a cidade de Lisboa. Não chorei porque um homem não chora (não chora mesmo?).

A tristeza não era tanto pela partida, mas sobretudo pelo regresso. Será que volto? Tive muita sorte, voltei. Outros companheiros, não.

Um dos que não voltou, foi o Alferes Sasso. Morreu, um dia, nas matas densas das terras de Dar es Salam, na Guiné. Quem conheceu o Alferes Sasso e conta a sua história é o Dr. Mendes Gomes, distinto Advogado na empresa onde trabalhei.

 
Poema em memória do Alferes Sasso

Estou a ver-te,
no regresso:
Alto, esguio,
óculos escuros.
Fato claro, de corte fino.
Tão vaidoso,
pelas tardinhas de Domingo,
calçada velha acima,
até ao quartel
da velha Évora.
De braço dado,
num corpo só,
com tua moça,
formosa companheira,
boa,
das noitadas do fado,
castiço,
de Lisboa...
de ambos vossa amante.
Que encanto!

Parecíeis mesmo
um casal americano,
tranquilo e tão ufano,
pelo meio do casario branco,
do coração alentejano!...

Que alegria!...
Que vontade de viver
de ti transparecia
pela semana inteira,
de olhos presos
à tua amada!...

Eras sempre o primeiro:
nas paradas,
secas, militares
e nos crosses atletas,
sem parar,
pelas estradas ermas,
e sem fim,
de sobreiros tristes,
através dos montes
do Alentejo...

Nos desafios permanentes,
pronto e voluntário,
prós exercícios
mais malucos....
Que pavor!...
da maluqueira militar.

Ora endiabrado trepador
daquele palanque,
alto e estreito,
de cimento...
ora dependurado,
na vertigem alucinante
da corda e da roldana...

Nas caminhadas nocturnas,
por aquele mundo,
de eremitério,
prás emboscadas perdidas,
nas veredas, ao luar,
prós golpes de mão,
temerosos, traiçoeiros,
mesmo a fingir,
tu levavas tão a sério...

Que exemplo vivo,
de vontade louca
de viver
o dia a dia,
tu me deste,
sem saberes!...

Quiseram as sortes
pra ti malvadas,
levar-nos a todos,
p'rá Guiné!...

Que romaria e arraial
havia sempre
à tua beira!...
Com a viola e o acordeão!

Tua voz rouca,
bem timbrada,
a retinir,
os fados todos
de Lisboa,
tão saudosa...
fazia dó!
Encantadora companheira
nas noitadas solitárias,
do Cachil e Catió...

Como lembro
tuas horas de desespero,
que vivias,
tão sincero,
em filosofia permanente,
à procura do sentido
da nossa dor,
e nossa vida, sobre a terra...

Que sentidos
desabafos me fizeste,
nas vésperas
da tua hora derradeira,
tão a sós,
em noitada de cavaqueira,
tão fraterna,
num duelo filosófico
e porfia verdadeira...
olhos presos,
bem abertos,
às belezas de paraíso,
das escravizadas terras africanas
e ao futuro da vida
que tanto amavas!...

Como suspiravas
encontrar
o caminho certo,
iluminado
do viver...

Eis que
no alvorecer duma aurora,
de suave e fresca neblina,
quando o sol
nascia em liberdade,
a oferecer mais um dia
ao mundo
e à desavinda humanidade,

depois duma noite,
sem sentido,
inteirinha
a caminhar,
por entre matas densas
das terras de Dar es Salam...
adormeceste,
para sempre,
como herói...
no regaço
dos teus irmãos,
ali ao pé!...

Nunca mais te esqueceremos!...
Ó eterno amigo,
Ó companheiro
Sempre nosso!...

Até à vista!
Querido Sasso!...

 
J.L. Mendes Gomes

sábado, 17 de novembro de 2012

Diálogos poéticos:João Roiz & Saramago

Dois poemas que, embora separados por cinco séculos, têm um tema comum: A separação amorosa.

João Roiz de Castel-Branco foi um cavaleiro nobre português, fidalgo português, fidalgo da casa Real, cortesão, e poeta humanista. Nasceu presumivelmente em Castelo Branco em meados do Século XV e faleceu na mesma cidade depois de 1515. Celebrizou-se como poeta, encontrando-se algumas de suas composições integradas no Cancioneiro Geral, de Garcia de Resende, publicado em 1516.

José Saramango dispensa apresentações.Não sei o ano do poema do Saramago, mas não admira que ele tenha prestado esta homenagem a João Roiz de Castelo Branco, um homem, como ele diz em Viagem a Portugal (1981), «que, pouco mais tendo feito que estes sublimes versos, há-de ser lembrado e repetido enquanto houver língua portuguesa». Uma justa homenagem!


Cantiga sua partindo-se

Senhora, partem tam tristes
meus olhos por vós, meu bem,
que nunca tam tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.

Tam tristes, tam saudosos,
tam doentes da partida,
tam cansados, tam chorosos
da morte mais desejosos
cem mil vezes que da vida.

Partem tam tristes os tristes,
tam fora d'esperar bem,
que nunca tam tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.

João Roiz de Castelo-Branco (Séc. XV)



Lembrança de João Roiz de Castel´Branco

Não os meus olhos, senhora, mas os vossos,
Eles são que partem às terras que não sei,
Onde memória de mim nunca passou,
Onde é escondido meu nome de segredo.

Se de trevas se fazem as distâncias,
E com elas saudades e ausências,
Olhos cegos me fiquem, e não mais
Que esperar do regresso a luz que foi.

José Saramago (1922-2010)



sexta-feira, 16 de novembro de 2012

A trilogia de José Saramago


José Saramago, se fosse vivo, faria hoje 90 anos. Está entre os maiores escritores da Língua Portuguesa. E para tanto bastava-lhe ter escrito estes três livros: Levantado do Chão (1980), Memorial do Convento (1982) e O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984). E mais nada.

domingo, 11 de novembro de 2012

A solidariedade serviçal dos portugueses

Estou a ler, ou melhor, a revisitar A Correspondência de Fradique Mendes, de Eça de Queiroz, em que o narrador, que é o Eça, nos dá a conhecer “esse homem admirável”, Fradique Mendes, com quem partilhou momentos de intimidade e por quem nutria a mais viva admiração.

A primeira parte, a que chama “Notas e Memórias”, faz a apresentação biográfica de um suposto Fradique Mendes; (a mais pura heteronomia);  a segunda, dá-nos a conhecer as cartas de Fradique Mendes, através da qual este se correspondia com vários amigos e eminentes intelectuais da época (Antero de Quental, Oliveira Martins, etc..) e com personagens fictícias.

Entre as muitas cartas, apetece-me falar duma delas, hoje na véspera de recebermos, de joelhos, a Chanceler Ângela Merkel. Nessa carta, Fradique faz um retrato confrangedor e deprimente da sua chegada a Lisboa por via-férrea. Ao chegar ao hotel, o cocheiro que o transportou até ao hotel, não o tendo reconhecido, pediu a quantia de três mil réis. Depois, quando o reconheceu, logo baixou a cerviz e acabou a dizer “Lá para o Sr. D. Fradique é o que quiser”. Eça aproveita para criticar o profundo provincianismo, a relapsa fraqueza, a humildade aviltante, a bonacheirice e uma certa solidariedade serviçal dos portugueses.

Mas, melhor mesmo é ler esta prosa deliciosa do Eça:

 
(…) Estamos enfim sob um tecto, no meio dos tapetes e estuques do Progresso, ao cabo de tão bárbara jornada. Restava pagar ao batedor. Vim para ele com acerba ironia:
— Então, são três mil réis?
À luz do vestíbulo, que me batia a face, o homem sorria.
E que há-de ele responder, o malandro sem par?
— Aquilo era por dizer... Eu não tinha conhecido o sr. D. Fradique... Lá para o sr. D. Fradique é o que quiser.
Humilhação incomparável! Senti logo não sei que torpe enternecimento que me amolecia o coração. Era a bonacheirice, a relassa fraqueza que nos enlaça a todos nós Portugueses, nos enche de culpada indulgência uns para os outros, e irremediàvelmente estraga entre nós toda a disciplina e toda a ordem, Sim, minha cara madrinha... Aquele bandido conhecia o sr. D. Fradique. Tinha um sorriso brejeiro e serviçal. Ambos éramos portugueses. Dei uma libra àquele bandido!
Fradique


sábado, 10 de novembro de 2012

O silêncio de uma catedral

Kierkegaard escreveu: «quando a minha oração se foi tornando cada vez mais devota, comecei a ter cada vez menos o que dizer. Por fim, fiquei em silêncio total. Tornei-me no que porventura ainda é um grande oponente à conversa, tornei-me em alguém que escuta. Inicialmente pensava que rezar era falar; aprendi, porém, que rezar não é apenas ficar em silêncio, mas escutar. Então é assim: rezar não é apenas ouvirmo-nos a falar. Rezar é ficar em silêncio e estar em silêncio, e esperar até que o Deus que reza escute».
 
Também Sophia nos fala do silêncio que ouve, no poema "O silêncio eloquente de uma catedral":

Escuto mas não sei
Se o que oiço é silêncio
Ou Deus (…)
Apenas sei que caminho como quem
É olhado amado e conhecido
E por isso em cada gesto ponho
Solenidade e risco.

Sophia de Mello Breyner

 

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Santa Ofélia

Cheguei ao fim da leitura das Cartas de Amor de Fernando Pessoa e Ofélia Queiroz. Sensação estranha. Um misto de cansaço, de revolta, de depressão mesmo. Custa-me entender como foi possível a esta mulher lutar tanto por um homem - porque o amava - sem nada receber, ou quase nada, em troca.

De tudo o que já conhecia acerca do universo pessoano, confesso que não fiquei surpreendido com o comportamento do poeta ao longo do tempo que durou o período epistolar: o primeiro de 28/2/1920 a 1/12/1920; depois, de 9/9/1929 a 29/3/1931.

Neste tempo, o poeta esteve muitas vezes ausente. A correspondência transformou-se, a partir de uma dada altura, num mero monólogo. Apenas Ofélia escrevia, escrevia muito, sempre na esperança de o conquistar. Mas esta relação não se assemelha a de outros namorados: O Pessoa nunca quis ir a casa dos pais de Ofélia. Evitava a apresentação de Ofélia aos seus amigos. Chega a fingir que não a vê. Vai a casa da irmã de Ofélia, Joaquina, mas apresenta-se como amigo de Carlos Queiroz, sobrinho de Ofélia. Não é uma convivência fácil. Pessoa falta aos encontros marcados, passa dias em silêncio. Passa grandes períodos sem escrever, sem telefonar. Mete o heterónimo Álvaro de Campos no meio da relação, o que desagrada profundamente a Ofélia.

As primeiras divergências surgem a propósito da família. Um dia ele descobre 4 ou 5 pessoas espreitando atrás das janelas da casa da irmã, quando ele está passar (o que fazia com frequência para a Ofélia o ver), mas, para ele, esse número passa para 148 e escreve, em seguida, uma carta muito dura. Para o poeta, o namoro tem que ser sigiloso. Com a chegada da mãe a Portugal e a instalação da família na Rua Coelho da Rocha, a presença maternal parece contribuir, ainda mais, para esse esfriamento. Outro motivo de discussão era a bebida. Ofélia bem procurava chamar-lhe a atenção para os malefícios da bebida. As idas frequentes ao Abel (a taberna de Abel Pereira da Fonseca, na Rua dos Fanqueiros) desesperavam a pobre da Ofélia. Não têm conta as vezes que ela aborda o assunto nas cartas. Sem nenhum sucesso, como se sabe. Pessoa vai ficando cada vez mais longe da relação, o seu adormecimento é cada vez maior. As razões para este inconsequente namoro são apresentadas já pelo poeta, curiosamente, na carta de 29/11/1920, que marca a primeira ruptura. Num texto, aliás, de grande elevação e de admirável sobriedade (temos de reconhecer), diz o poeta: “O meu destino pertence a outra Lei, de cuja obediência a Ofelinha nem sabe, e está subordinado cada vez mais à obediência de Mestres que não permitem nem perdoam”. Medo do amor?, sustentam uns. Falta de dinheiro para se casar? Dizem outros. O que sabemos é que desistiu.

Ofélia, não. Nunca desiste. Optimista, acredita mesmo que se casará com o poeta da Mensagem. Reza novenas. Pede, insistentemente, ao Senhor dos Passos e a Santa Helena que ajudem o Sr. A.A.Crosse a ter sucesso na participação nos concursos ingleses de charadismo. Um prémio pecuniário resolveria a falta de dinheiro para o casamento. O Sr. A.A. Crosse participou em vários concursos, o último em Maio de 1920, mas o desventurado poeta não teve sucesso. É devota da Nossa Senhora de Fátima a quem pede protecção para ela e para o seu namorado. Tem em S. José um especialíssimo protector. Estando próximo o Natal, pede muito ao Menino Jesus para que em breve tenha a alegria da companhia do “seu” Fernando. Ofélia tem uma grande esperança de ser feliz junto do Fernandinho, com a ajuda de Deus. Reza muito, cada vez mais, à medida que vê o seu grande amor fugir. Reza ao Sagrado Coração de Jesus e pede, com devoção, ao seu Santo António protector, que lhe traga de volta o seu Nininho. Antes de se deitar, nunca se esquecia de fazer suas orações da noite, para que no dia seguinte tivesse, ao menos, uma carta ou um simples telefonema do seu Fernando. Já o namoro se desmoronava como um castelo de cartas, ainda ela pedia a intervenção divina para voltar a falar com o Nininho e o Nininho voltar a gostar dela.

Ofélia demonstra ter um comportamento admirável de fidelidade, um amor puríssimo ao desventurado poeta. “Fui-lhe fiel até à sua morte”, disse ela numa das pouquíssimas vezes que falou do seu namoro com o poeta. “Faz de conta que morri também”, disse ela ainda a propósito da morte do Pessoa.

Esta mulher lutou muito, acreditou sempre. Só desistiu de lutar no dia 30 de Novembro de 1935.
 

domingo, 4 de novembro de 2012

Os devotos de Vergílio Ferreira

Rita Ferro

A consagrada

Escritora associada a frivolidades ganha prémio PEN Narrativa

O preconceito não poupa as artes e, diz o júri do Prémio PEN Narrativa, Rita Ferro tem sido uma vítima especial desse vício. Claro que não se deve esperar que os devotos de Vergílio Ferreira apreciem uma escrita que “aborda o lado ligeiro e superficial das coisas”. Mas mesmo nessa “ligeireza” pode haver, digamos assim, literatura. No livro que está na génese da distinção, A Menina É Filha de Quem?, Rita Ferro revisita a história dos dois ramos da sua família, os Ferro e os Quadros, ambos próximos do sa1azarismo, e, diz o júri, chegou ao “embrião do que nós somos”. Assim sendo, mate-se o preconceito. Rita Ferro é, enfim, uma Escritora.

in jornal “Público”, de 4/11/2012


Esta pequena notícia vem, portanto, no “Público”, de hoje, na secção “Caras da Semana”. Para surpresa de muitos, incluindo da própria premiada, o Prémio PEN Narrativa foi atribuído à escritora Rita Ferro. O júri terá tentado, por esta forma, lutar contra o preconceito da “escrita ligeira”. Se o consegue, veremos...

O autor deste pequeno texto trazer aqui à colação o escritor Vergílio Ferreira. Podia ter escolhido, por exemplo, o José Saramago ou o António Lobo Antunes, que o argumento não perderia, certamente, força. Mas entendeu trazer o Vergílio Ferreira, a quem não agradava esta "escrita ligeira".
 
O mais curioso na notícia foi o autor deste pequeno texto falar dos devotos de Vergílio Ferreira.
Eu sou um deles!

sábado, 3 de novembro de 2012

Que nome se dá?

O DN, de hoje, traz um artigo escrito por Anselmo Borges, teólogo e filósofo, docente da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, com o título Luto (s). As Lágrimas de Deus.

Fala-nos do luto como expressão da dor pela morte de alguém a quem muito queremos. E dos vários tipos de luto.

A meio da narrativa, pergunta ele: «para a morte de um filho nem há nome: quem perde o pai ou a mãe fica órfão, o viúvo ou a viúva perderam a mulher ou o marido; mas que nome se dá ao pai ou à mãe que perderam um/a filho/a?» .

Não há nome. Por isso, se diz: Inominável. E quem mo ensinou foi Paulo Teixeira Pinto, num poema que ele escreveu no dia do vigésimo terceiro aniversário do seu filho. Diz assim:

Inominável

I
Sabes
Chegou hoje
Outra vez
O dia do teu nascimento
Quero dizer
Do teu nascimento
Para esta vida terrena
Aquela mesma que
Viveste
Plena
De preces
E pressas
E por isso
Hoje é
A primeira vez
Que não estás cá
Para te dizer
Parabéns filho

II
Sabes
Primeiro
Veio
A dor do desgosto
Sem qualquer aviso
E depois
Com ela ficou
O inominável
Anunciando-se
Para sempre

III
Sabes
O inominável dói
Dói mais do que a dor
E o inominável
Nem nada é
Porque até
O nada
Pelo menos
Nome tem
Mas nome
Não há
Para um pai
Que perde um filho

IV
Sabes
De um homem
A quem falte
A mulher diz-se que viúvo é
Como a um filho
Que fica
Sem pai
Órfão
lhe chamam
Mas sabes
Nome ou palavra
Não há
Nem verbo
Nem substantivo
Nem adjectivo
Nem advérbio
Nem proposição
Nem conjunção
Nome ou palavra
Não há
Para chamar
O pai
Que não mais
Pode chamar
O filho.

Paulo Teixeira Pinto (1/11/2009)

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Pessoa e Ofélia, um namoro difícil

Manuela Parreira da Silva é a autora do livro CARTAS DE AMOR DE FERNANDO PESSOA E OFÉLIA QUEIROZ. A autora é professora auxiliar do Departamento de Estudos Portugueses da Universidade Nova de Lisboa e há muito que voltou suas atenções para o estudo do espólio de Fernando Pessoa. Depois de ter publicado Realidade e Ficção - Biografia Epistolar de Fernando Pessoa (em 2005) reuniu agora num só volume a correspondência entre o poeta e a única namorada que se lhe conhece: Ofélia Queiroz. Publicado pela Assírio & Alvim, o livro é surpreendente, mesmo para quem julga saber quase tudo sobre o autor da Mensagem. Podemos ler, a seguir, a entrevista que esta estudiosa portuguesa concedeu, em Lisboa, a um jornal do Brasil.

Com que imagem a senhora fica da relação entre Pessoa e Ofélia após a reunião das cartas num só volume? É diferente da que tinha antes?
Ler as cartas em sequência cronológica permite ter uma ideia muito mais aproximada do que teria sido, de facto, a relação amorosa de Fernando Pessoa e Ofélia Queiroz. É como se tivéssemos nas mãos um romance epistolar, em que os dois protagonistas dialogam, combinam encontros, lamentam os desencontros, manifestam, sem pudor, a saudade, o desejo e confrontam dúvidas, expõem incompatibilidades, escondem e desvelam inquietações. A uma carta segue-se a resposta, mas, por vezes também, o silêncio do outro (quase sempre o dele). Outras vezes, a uma carta segue-se outra do mesmo remetente, escrita na pressa da paixão (sobretudo a dela) ou há duas cartas que se cruzam no tempo e criam equívocos. Enquanto leitores, podemos, de facto, acompanhar o dia a dia do casal de namorados, e imaginar mesmo, nas entrelinhas, aquilo que não é possível ser presenciado (lido) por se ter passado, por assim dizer, fora da cena epistolar.

O que a levou a fazer essa "reunião"?
A reunião das cartas teve em vista, por um lado, uma maior facilidade de manuseamento das que tinham sido publicadas em volumes separados e, por outro lado, ter uma melhor percepção do envolvimento de cada um dos interlocutores nessa relação de que a sua escrita dá conta. Reunindo as cartas, que se sucedem quase sempre em alternância, podem compreender-se melhor certas afirmações de um ou de outro, certas frases tidas por enigmáticas.

Com que retrato ficou da figura de Ofélia?
A ideia que eu tinha sobre Ofélia confirma-se: era, sem dúvida, uma jovem de feitio alegre e expansivo, carinhosa, insinuante e até um pouco atrevida nas suas manifestações amorosas. Se atendermos a que estamos em 1920-1929, numa época em que o feminino estava sujeito a uma grande pressão social, Ofélia surge como uma mulher de espírito aberto, trabalhando fora de casa e dispondo-se a sair sozinha (ainda que, às vezes, às escondidas) com um homem mais velho, seu namorado. Embora revele alguns preconceitos, vê-se que eles são mais fruto de uma imposição familiar do que do seu natural. Ofélia não estaria, obviamente, à altura intelectual de Fernando Pessoa, mas era, sem dúvida, uma mulher inteligente, capaz de entrar, por exemplo, no seu jogo heteronímico e de compreender e aceitar o fato de ele ser alguém fora do comum.


E no contexto da biografia de Fernando Pessoa, que "peso" ou importância teve este namoro?
Relevante é, acima de tudo, a obra. E a obra de Fernando Pessoa é tão diversificada e de tanta qualidade, tão estimulante e luminosa que poderíamos prescindir da sua biografia. Curiosamente, é quando a obra de um autor se impõe de uma forma tão intensa, que começa a tornar-se quase inevitável querer conhecê-lo de corpo inteiro. Quem se escondia ou esconde, afinal, por detrás deste autor múltiplo e paradoxal? É aí que entra a pesquisa sobre a vida "real" do autor empírico. Ora, no caso pessoano, esta relação amorosa, sendo a única que se lhe conhece (vagamente, sabe-se que a irmã terá tentado aproximá-lo de uma inglesa, cunhada de um dos irmãos de Fernando Pessoa, Madge Anderson, que esteve em Lisboa, nos anos 30. Ele não se terá manifestado muito interessado. No entanto, os dois correspondem-se. Existe, pelo menos um postal de Madge, referindo um livro que Pessoa lhe terá enviado e mostrando uma forte simpatia), não pode deixar de "pesar". Serve, certamente, para desmentir a ideia de que Fernando Pessoa carecia de uma grande sensibilidade e seria incapaz de se relacionar com uma mulher. Estas cartas demonstram o contrário. E este namoro terá sido uma lufada de ar fresco numa vida que o próprio, por vezes, confessa, ser marcada pela solidão.

A biografia de Fernando Pessoa é um continente misterioso para o investigador? O que sabemos concretamente?
O que sabemos é pouco e é muito. Pouco, porque sempre sabemos tão só uma ínfima parte do que é uma pessoa. E muito, porque, sobretudo nos últimos anos, com o cada vez maior conhecimento do seu espólio, se têm desfeito alguns equívocos que a primeira biografia de João Gaspar Simões (feita numa altura em que ainda estava muito perto a data da morte do poeta, ocorrida em Lisboa, no mês de Novembro de 1935) tornou inevitáveis. Gaspar Simões introduziu a ideia de que Pessoa vivera com dificuldades económicas, entregue à bebida. Isso foi desmentido pouco tempo depois num livro escrito por um primo do escritor, Eduardo Freitas da Costa, que desmontou as "imaginações" do citado biógrafo. Mais recentemente, um volume de escritos autobiográficos, editado pelo norte-americano Richard Zenith, trouxe bastantes esclarecimentos sobre a vida verídica do poeta. Aliás, ficou a saber-se, por exemplo, que, como afirmara o primo, Fernando Pessoa tinha, à data da morte, uma empregada, espécie de governanta, a D. Emília a quem devotava grande estima, ao ponto de desejar obter o lugar de conservador da Biblioteca-Museu Conde de Castro Guimarães (em Cascais) para poder, entre outras coisas, prover às necessidades económicas dessa senhora e da filha. Eu própria tinha recenseado uma carta de Pessoa, de 1918, em que refere a D. Emília e a filha, Claudina, que terá conhecido numa casa onde viveu (pertencente a Manuel António Sengo), num quarto alugado. Também, a partir do trabalho de Richard Zenith, foi possível já corrigir datas, nomeadamente de empreendimentos pessoanos, como a sua tipografia Íbis (comprada em 1909 e não 1907). Recentemente, a polémica que tem visado uma obra (designada de "quase autobiografia") de José Paulo Cavalcanti Filho (publicada no ano passado no Brasil pela editora Record) tem demonstrado os graves erros que contém e que, infelizmente, leva a criar nos mais incautos uma imagem completamente deturpada de Pessoa. Este é um mau serviço prestado ao poeta. Espero que surja, em breve, uma verdadeira biografia (no sentido de ser feita a partir de uma verdadeira investigação), que lhe faça justiça e não caia na tentação de construir um Fernando António Nogueira Pessoa à imagem e semelhança do biógrafo.


E o seu espólio é, de facto, praticamente inesgotável?
Não diria inesgotável. Há um número limitado de documentos… O que pode ser inesgotável é, naturalmente, aquilo que se pode fazer com esses documentos, como aquilo que se pode fazer com a sua obra. Há ainda muito para fixar e decifrar nos seus papéis. A principal dificuldade, creio eu, é a de que é necessário que os investigadores estejam apetrechados de instrumentos de conhecimento adequados e não caiam no erro fácil de agarrar uma meia dúzia de documentos e editá-los descontextualizadamente, correndo o risco de confundir textos próprios e alheios, confundindo apontamentos ou citações de outrem com textos do próprio. Depois, há temas tratados por Pessoa de forma fragmentária que precisam de ser dominados também pelos investigadores, sem o que não se aperceberão do seu real valor ou da sua originalidade, ou sequer a que conjunto pertence. O aliciante, no entanto, para quem frequenta o espólio, é saber que é preciso nunca dar por adquirido aquilo que exige um contínuo estudo e entrega pessoal.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Indivíduo com ventas de contador de gás

Ando a ler as Cartas de Amor de Fernando Pessoa e Ofélia Queiroz, uma edição muito recente e que mostra uma originalidade: pela primeira vez, as cartas de amor entre Fernando Pessoa e Ofélia Queiroz são apresentadas em edição conjunta. Há aqui, portanto, uma sequência, o que pressupões um diálogo, uma interacção entre os interlocutores.

Muito há a dizer, há aqui muito pano para mangas. Pode ser que, no final, venha aqui debitar algumas conclusões que eu ache interessantes.

Eu, que raramente me rio, fui hoje traído por uma tímida casquinada, ao ler esta carta do poeta, com data de 9-10-1929:

«Terrível Bebé:

Gosto das suas cartas, que são meiguinhas, e também gosto de si, que é meiguinha também. E é bombom, e é vespa, e é mel, que é das abelhas e não das vespas, e tudo está certo, e o Bebé deve escrever-me sempre, mesmo que eu não escreva, que é sempre, e eu estou triste, e sou maluco, e ninguém gosta de mim, e também porque é que havia de gostar, e isso mesmo, e torna tudo ao princípio, e parece-me que ainda lhe telefono hoje, e gostava de lhe dar um beijo na boca, com exactidão e gulodice e comer-lhe a boca e comer os beijinhos que tivesse lá escondidos e encostar-me ao seu ombro e escorregar para a ternura dos pombinhos, e pedir-lhe desculpa, e a desculpa ser a fingir, e tornar muitas vezes, e ponto final até recomeçar, e porque é que a Ofelinha gosta de um meliante e de um cevado e de um javardo e de um indivíduo com ventas de contador de gás (sublinhado meu) e expressão geral de não estar ali mas na pia da casa ao lado, e exactamente, e enfim, e vou acabar porque estou doido, e estive sempre, e é de nascença, que é como quem diz desde que nasci, e eu gostava que a Bebé fosse uma boneca minha, e eu fazia como uma criança, despia-a, e o papel acaba aqui mesmo, e isto parece impossível ser escrito por um ente humano, mas é escrito por mim

Fernando»

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Palavras Cruzadas com História

Após a leitura e discussão do livro Caim, de José Saramago, com os meus amigos do Grupo de Leitura, aqui fica um Passatempo de Palavras Cruzadas sobre o livro.

Clique Aqui para ver e imprimir.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Os Malaquias

Acabei de ler, de rajada, Os Malaquias, de Andréa Del Fuego, uma jovem escritora brasileira natural de São Paulo. O livro ganhou Prémio José Saramago 2011, que é atribuido, de dois em dois anos,  a jovens escritores da Língua Portuguesa, com menos de 35 anos.

O livro é apresentado com a seguinte Sinopse:
«Serra Morena. Um raio esturrica o casal, em luz e carne. Os filhos ficam órfãos, com destinos diferentes. António, o menino que não cresce. Nico, o patriarca engolido por um bule de café. Júlia, a menina em fuga permanente. Um lugar onde as sombras da terra e da água convivem. Onde a morte e a vida são o mesmo mundo. Um poema seco à humanidade de cada um de nós. Uma escrita áspera mas poética, desenhada com a vertigem das memórias da família Malaquias, e que evolui como tributo pessoal da autora aos seus antepassados.  Transcendental e mágico, este romance do insólito revela-se uma leitura para o coração. Um livro forte, aclamado, invulgar».

O livro tem cerca de 250 páginas, o espaço das entrelinhas é enorme, os capítulos curtos e o tamanho da letra generoso. Conta a história de uma família desgraçada, apagada e vil (como diria Camões). Escrita coloquial, enxuta, sóbria, breve. Situações inverosímeis, fantasistas. Como a própria Andrea del Fuego explica neste vídeo - Clique aqui - o romance é uma homenagem aos seus antepassados.

domingo, 21 de outubro de 2012

Caim segundo José Saramago

A par do Evangelho Segundo Jesus Cristo, Caim é um livro em que Saramago, nos seus trabalhos, aborda a Bíblia, através de uma interpretação irreverente e mordaz.

Se, em O Evangelho segundo Jesus Cristo, José Saramago deu a sua visão do Novo Testamento, em Caim, José Saramago foca-se no Antigo Testamento, mais concretamente nos primeiros livros da Bíblia, do Éden ao dilúvio.

Como o faz?

A meu ver, de uma forma muito engenhosa. Saramago parte de um dado objectivo para depois, a partir dele, desenvolver toda a narrativa. Havia-o feito já, de forma genial, no Ano da Morte de Ricardo Reis (Fernando Pessoa havia dito que Ricardo Reis “vive no Brasil desde 1919, pois se expatriou espontâneamente por ser monárquico”, para o José Saramago o fazer desembarcar em Lisboa no último dia de Dezembro de 1935, um mês após a morte do poeta da Mensagem).

Agora, em Caim, o ponto de partida é o episódio bíblico Caim e Abel, que é conhecido, narrado nos primeiros versículos do Génesis. Aliás, “uma história do princípio do mundo”, como já havia dito Sophia no conto O Jantar do Bispo.

E que pretende José Saramago provar com este livro, qual é a sua tese?

Saramago tem o propósito de redimir Caim do assassinato do seu irmão Abel, acusando Deus (o senhor, escrito sempre em minúsculas para Saramago) como autor moral e intelectual do crime, ao desprezar o sacrifício que Caim lhe havia oferecido.

Segue-se então a narrativa, através da qual Saramago vai demonstrar que é verdade o que ele enuncia como problema.

E, em mais um golpe de génio, vai ser o próprio Caim a fazer a sua defesa, estando “presente” em vários episódios bíblicos, para apontar o dedo ao Senhor, chamando-lhe cego (pág 15), soberbo (pág 37), filho da puta (pág 82), ciumento (pág 89), orgulhoso (pág 91), pouco inteligente (101), malvado (pág 106), comissionista (pág 112), fomentador de guerras (pág 112), vingativo (pág 121), parcial (pág 127), pactuante com o diabo (pág 143) e infame (pág 180).

E de que forma o faz?

Na Bíblia, disse o Senhor a Caim “Serás vagabundo e fugitivo sobre a Terra”. Pois Saramago, mais uma vez de uma forma brilhante, recorre ao artifício das mudanças do presente. Caim viaja no tempo, ora está no futuro, ora regressa ao passado.

E é assim que Caim, na sua viagem errática:
- Evita a punhalada de Abraão ao seu filho Isaac;
- Presencia o desacordo linguístico entre vários povos à volta da Torre de Babel;
- Está presente quando o Senhor promete a Abraão que sua mulher Sara vai ter um filho;
- Horroriza-se com a destruição das cidades de Sodoma e Gomorra;
- Todavia, não chega a tempo de evitar que a mulher de Lot se transforme numa estátua de sal;
- Está no Sinai quando os Israelitas, aproveitando a ausência de Moisés, adoram um bezerro;
- Espanta-se quando lhe contam a história das filhas de Lot, que ficaram grávidas do próprio pai;
- Fica estupefacto com a queda de Jericó;
- Assiste à destruição dos Israelitas na cidade de Ai e ao castigo de um homem chamado Acam, considerado culpado de tal revés;
- Participa na reconquista da cidade de Ai, e, em seguida, olha para Josué que manda enforcar numa árvore o rei desta cidade;
- Não assistiu, porém, ao maior prodígio de todos os tempos, aquele em o Senhor fez parar o Sol, para Josué poder vencer, ainda com a luz do dia, a batalha contra os cinco reis amorreus;
- Testemunha as desgraças que atingem o crente Job, o homem mais justo à face da Terra; e
- Por último, participa na viagem da Arca de Noé, conseguindo, desta vez de forma decisiva e surpreendente, contrariar o projecto do Senhor!

Este final não deixa, porém,  de ser surpreendente. É um final abrupto. Parece que o Saramago tinha pressa em acabar rapidamente o livro. Caim é um livro breve, não tem mais 180 páginas. É talvez o seu mais pequeno romance. Por ser o último?

Saramago achava que Deus devia assumir os males que a narrativa bíblica imputa à desobediência humana e que um bom Deus devia ter impedido.É, no fundo, a sua tese.

Formalmente, estamos perante mais um livro bem resolvido, embora, em minha opinião, longe do Memorial do Convento e, sobretudo, do Ano da Morte de Ricardo Reis. Relativamente ao conteúdo, é claramente um livro discutível. Eduardo Lourenço, na sua extrema bondade, chamou a José Saramago um “teólogo espontâneo”. Ele acha que Saramago “paradoxalmente, necessita daquele Deus em que não crê, como utopicamente se diz…”.

É verdade que Saramago, fazendo inveja a muitos cristãos, nos quais eu me incluo, estudou muito bem a Bíblia. Mas não concordo com ele quando diz que “A Bíblia é um Manual de Maus Costumes”. O seu companheiro de militância política, Bernardino Soares, chefe da bancada comunista do nosso Parlamento, deve-o ter espantado quando naquela casa citou, perante a estupefacção dos outros deputados, um excerto do Levitico:
«Quando o teu irmão empobrecer e as suas forças decaírem, então sustentá-lo-ás, como estrangeiro e peregrino viverá contigo. Não tomarás dele juros, nem ganho; mas do teu deus terás temor, para que o teu irmão viva contigo. Não lhe darás o teu dinheiro, nem darás o teu alimento por interesse» (Levítico / versículo 25).

José, e os livros Eclesiastes e Cântico dos Cânticos, para só citar estes, também se incluem no tal Manual de Maus Costumes?

Saramago construiu uma narrativa que, em parte, se pode considerar um panfleto camuflado em vistosa roupagem de um muito competente profissional de letras.  Saramago, como outros intelectuais e ateus, encara as religiões como uma perigosa fonte de obscurantismo que ameaça a busca da verdade.

Apesar de tudo, eu tenho de confessar que considero Saramago um dos melhores escritores da Língua Portuguesa e que a sua escrita, algo original, me seduz.
 
E, se Deus quiser (quer Saramago queira ou não), vou continuar a ler, ou antes revisitar, a sua escrita (sem mais), cuja beleza é um bálsamo para a minha alma.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

À hora do lanche

De supetão, leio no televisor, na legenda que está a correr em baixo: morreu o poeta Manuel António Pina. O poeta nasceu no Sabugal, era jornalista e escritor, com uma obra mais vasta na área da poesia e literatura infanto-juvenil. Conquistou o Prémio Camões 2011.Veio-me à memória o poema que ele escreveu quando visitou o seu amigo Eugénio de Andrade quando este estava já muito doente. O poema chama-se

A Hora do Lanche

Na mão da Ana o iogurte não
iluminava, escurecia,
comunhão ajoelhada
no fundo do coração do dia

imemorial onde, desperto, ele dormia.
O movimento da colher embalava-o
como uma música que quase se ouvia
neste mundo ou como o colo que o adormecia.


A tarde declinava, as sombras,
como sombras, alongavam-se na almofada;
tudo fazia um sentido
literal e simples, onde não pode a poesia.


Se alguma coisa ficara
por dizer já não iria ser dita;
as palavras tinham-se sumido, transidas,
no interior da casa, o próprio silêncio emudecera.


Senhor, permite que adormeçamos
antes que feches a luz e desça
sobre nós a tua escuridão,
que os rebanhos estejam recolhidos
e os credores se tenham afastado da nossa porta,
mas que tenhamos pago as dívidas aos que nos serviram
e aos que nos amaram e aos que nos esperaram;
as tuas grandes mãos sustentarão o telhado e as paredes,
e moerão o grão e fermentarão o trigo,
apaga com as tuas mãos para sempre o rasto
da nossa vida

e que repousemos enfim
sem motivo para nos culparmos
por não termos sido felizes.


Foz do Douro, 26 de Janeiro de 2005
Manuel António Pina