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quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Palavras Cruzadas com História

Depois de terminada a leitura do romance A Queda dum Anjo, de Camilo Castelo Branco, é altura de descontrair um pouco, com a resolução de um problema de Palavras Cruzadas, inspirado neste livro.
 
Depois de resolvido, encontrará, obliquamente, o  primeiro nome do personagem principal deste romance.

 
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HORIZONTAIS: 1 - Desejara; Manha (figurado). 2 - Fogo; Omite. 3 - Agressor. 4 – Interjeição que exprime dor ou aflição; O que há de melhor numa sociedade ou num determinado grupo; Além. 5Laboratório Nacional de Engenharia Civil (sigla); Bromo (simb. químico); Essência. 6 - Plataforma redonda situada no cimo do mastro do navio; Ocidente. 7 – Estreita; Tálio (simb. químico); Formam em alas. 8 – Rádio (simb. químico); Assoreies; Ruim. 9 - Cheirosa. 10 - Erro; Folha-de-flandres (pl.). 11 - Gancho de ferro para aferrar embarcações; Digira.

VERTICAIS: 1 – Outra coisa (antiquado); Gruta; Entre nós. 2 - Muar; Inerente; Acontecer. 3 - Patrão; Nome de mulher; Orquestra Nacional do Porto (sigla). 4 - Vil; Edifique. 5 - Elo; Abalou. 6Número de Identificação Bancária (sigla); Adivinhar. 7 - Manha; Canoa estreita, de remos, leve e rápida, de uso nos desportos aquáticos. 8 – Azebre; Tornas sem efeito. 9 - Riso; Cloreto de sódio; Automated Teller Machine (sigla). 10 – Neodímio (simb. químico); Prejudicam; Contracção da preposição “a” com o artigo definido “o”. 11Associação de Estudantes (sigla); Fragrância; Sociedade Anónima (sigla).

Clique Aqui para imprimir.

A Queda dum Anjo


O plano de leituras acordado com os meus amigos do Grupo de Leitura levou-me a revisitar A Queda dum Anjo, de Camilo Castelo Branco. É um romance escrito em !866, o mesmo ano em que foi publicado o romance Crime e Castigo, de Fiódor Dostoiévski. Nesse ano, Camilo Castelo Branco vivia já em São Miguel de Seide na companhia de Ana Plácido. Politicamente, reinava em Portugal o Rei D. Luís. Estamos em plena regeneração. É o tempo do rotativismo bipartidário.  Literariamente, havia eclodido justamente no ano anterior a Questão Coimbrã que opôs Antero e Castilho, produzindo uma grande fractura entre a comunidade literária. Temos até o caso, algo caricato, do duelo, na cidade do Porto, entre Antero e Ramalho Ortigão. Camilo Castelo Branco andou por perto da disputa de confrades, não se envolvendo demasiado. Politicamente, Camilo, quando da revolta da Maria da Fonte, lutou ao lado dos Miguelistas e na escrita sempre demonstrou defender os ideais legitimistas e conservadores. 

A Queda dum Anjo é um romance satírico. Descreve-nos a corrupção de Calisto Elói, morgado da Agra de Freimas, do termo de Miranda, quando vem para Lisboa para exercer as funções de deputado. Descreve-nos ainda, de maneira caricatural, a vida social e politica portuguesa. O fidalgo deixa-se corromper pelo luxo e pelo prazer que imperavam em Lisboa. Politicamente, ele há-de transitar do partido Miguelista (conservador), para o Partido Liberal. Foi um parlamentar que se fez notar, ao inicio, pela sua indumentária e pelo seu discurso arcaico. Tinha, contudo, uma oralidade que impressionou. Não admira, ele havia-se exercitado na arte de dizer, qual Demóstenes, nas margens fragosas do Rio Douro. 

Enquanto parlamentar, Calisto Elói começou logo por atacar a forma de juramento dos deputados. Depois, reclamou equidade na distribuição territorial dos subsídios para o teatro. “Não vades pedir ao lavrador quebrado de trabalho os ratinhados cobres das suas economias para regalos da capital, enquanto ele se priva do apresigo de uma sardinha, porque não tem uma pojeia com que comprá-la”, exclamou Calisto perante a as risadas de vários sujeitos. O seu grande adversário de debate parlamentar foi o Dr. Libório de Meireles, cara honesta e posturas contemplativas. Com ele discutiu acesamente a reforma das prisões. Eram debates inflamados que enchiam as galerias da Câmara, sobretudo de damas ilustradas, atraídas pelo renome do deputado de Miranda. 

Mas, um dia, o anjo caiu. Há um momento em que o morgado da Agra de Freimas «sentiu no lado esquerdo do peito, entre a quarta e quinta costela, um calor de ventosa, acompanhado de vibrações eléctricas, e vaporações cálidas, que lhe passaram à espinha dorsal, e daqui ao cérebro, e pouco depois a toda a cabeça, purpureando-lhe as maçãs de ambas as faces com o rubor mais virginal». 

O anjo Calisto vai cair nos braços de Ifigénia Ponce de Leão, com quem acaba por viver maritalmente e de quem tem dois filhos. Um passeio à Europa limpou-lhe do espírito as teias. Começou um doce viver, rodeado dos maiores luxos. Releu o que havia escrito sobre o assunto e ordenou a um criado que queimasse o manuscrito. 

E até a esposa, Teodora, ignorante mais que o necessário para ter juízo, o imita sucumbindo ao prazer da modernidade. Abandonada pelo marido, vai também viver maritalmente com seu primo, Lopo de Gamboa, de quem tem um filho. 

Com este romance, Camilo pretendeu aproximar-se dos realistas, por sentir, talvez, que estava a ser ultrapassado por outros escritores da época, que percorriam já outros caminhos, deixando para trás o romantismo. 

Camilo quis demonstrar como uma pessoa pode ser influenciada pelo meio que a rodeia, mudando completamente a sua maneira de ser. Calisto Elói, aquele santo homem lá das serras, o anjo do Portugal velho, caiu!

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Port-Wine


A história do Vinho do Porto está muito ligada aos ingleses. Estes sempre gostaram muito de vinho. Bebiam vinhos franceses até que no Séc. XVIII, com a Guerra da Sucessão de Espanha, o comércio acabou. Então, eles procuraram o vinho português. Grandes pipas de vinho português, sobretudo da região do Rio Douro, passaram a chegar à cidade de Londres. Os elevados lucros obtidos com as exportações para a Inglaterra viriam a gerar situações de fraude e de adulteração da qualidade do vinho. Por isso, o Marquês de Pombal, em 1756, criou a Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro. Mais tarde, foi criada, em 1932, a Casa do Douro, para a defesa e legitimidade dos vinhos genuínos da Região Demarcada.

Em 1944, A Casa do Douro, situada em peso da Régua, abriu um concurso para colocação de vitrais alusivos à obra desenvolvida pela Instituição, sobretudo um hino à produção do Vinho do Porto. Houve dois concorrentes. Jorge Barradas, mais conhecido e Lino António, menos. Ganhou este último. São três vitrais muito bonitos, como se pode ver. 

A História do Vinho do Porto é uma história de sangue, suor e lágrimas. O pintor Lino António pôs o acento tónico nos trabalhadores e nas condições difíceis do trabalho da vinha e da produção do vinho. Transmitem uma mensagem tão forte que eu tenho quase a certeza que foi nestes vitrais que o poeta Joaquim Namorado se inspirou para escrever o poema:

Port-Wine

O Douro é um rio de vinho
que tem a foz em Liverpool e em Londres
e em Nova-York e no Rio e em Buenos Aires:
quando chega ao mar vai nos navios,
cria seus lodos em garrafeiras velhas,
desemboca nos clubes e nos bars.

O Douro é um rio de barcos
onde remam os barqueiros suas desgraças,
primeiro se afundam em terra as suas vidas
que no rio se afundam as barcaças.

Nas sobremesas finas, as garrafas
assemelham cristais cheios de rubis,
em Cape-Town, em Sidney, em Paris,
tem um sabor generoso e fino
o sangue que dos cais exportamos em barris.

As margens do Douro são penedos
fecundados de sangue e amarguras
onde cava o meu povo as vinhas
como quem abre as próprias sepulturas:
nos entrepostos dos cais, em armazéns,
comerciantes trocam por esterlino
o vinho que é o sangue dos seus corpos,
moeda pobre que são os seus destinos.

Em Londres os lords e em Paris os snobs,
no Cabo e no Rio os fazendeiros ricos
acham no Porto um sabor divino,
mas a nós só nos sabe, só nos sabe,
à tristeza infinita de um destino.

O rio Douro é um rio de sangue,
por onde o sangue do meu povo corre.
Meu povo, liberta-te, liberta-te!,
Liberta-te, meu povo! – ou morre.

Sinceramente não consigo dizer o que é mais bonito, se os vitrais do pintor Lino António, se o poema do poeta neo-realista, Joaquim Namorado. Tudo é pura arte. Os vitrais são poesia e o poema dava uma bela aguarela. As margens do Douro são penedos fecundados de sangue e amarguras onde o povo cava as vinhas como quem abre as próprias sepulturas.

domingo, 6 de janeiro de 2013

A estrela

A estrela

Eu caminhei na noite
E entre o silêncio e frio
Só uma estrela secreta me guiava.

Grandes perigos na noite me apareceram:
Da minha estrela julguei que eu a julgara
Verdadeira sendo ela só reflexo
Duma cidade a néon enfeitada.

A minha solidão me pareceu coroa.
Sinal de perfeição em minha fronte.
Mas vi quando no vento me humilhava
Que a coroa que eu levava era dum ferro
Tão pesado, que toda me dobrava.

Do frio das montanhas eu pensei:
“Minha pureza me cerca e me rodeia”.
Porém meu pensamento apodreceu
E a pureza as coisas cintilava
E eu vi que a limpidez não era eu.

E a fraqueza da carne e a miragem do espírito
Em monstruosa voz se transformaram:
Pedi ás pedras do monte que falassem
Mas elas como pedras se calaram.
Sozinha me vi, delirante e perdida.

E eu caminhei na noite; minha sombra
De gestos desmedidos me cercava
Silêncio e medo
Nos confins dos desertos caminhavam:
Então vi chegar ao meu encontro
Aqueles que uma estrela iluminava
E assim me disseram: “Vem connosco
Se também vens seguindo aquela estrela”.
Então soube que a estrela me seguia.

Era real e não imaginada.
Grandes e humanas miragens nos mostraram
Em direcções distantes nos chamaram
E a sombra dos três homens sobre a terra
Ao lado dos meus passos caminhava.
E eu espantada vi que aquela estrela
Para cidade dos homens nos guiava.

E a estrela do céu parou em cima
duma rua sem cor e sem beleza
Onde a luz tinha o mesmo tom que a cinza
Longe do verde-azul da Natureza.

Ali não vi as coisas que eu amava
Nem o brilho do sol nem o da água.
Ao lado do hospital e da prisão
Entre o agiota e o templo profanado
Onde a rua é mais negra e mais sem luz
E onde tudo parece abandonado
Um lugar pela estrela foi marcado.

Nesse lugar pensei: Quando deserto
Atravessei para encontrar aquilo
Que morava entre os homens tão perto.

Sophia de Mello Breyner Andresen

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

D. Fernando, Infante de Portugal

A tentativa da conquista da cidade de Tânger, no Norte de África, não correu bem aos portugueses. A expedição foi comandada pelo Infante D. Henrique que não era um bom estratega militar. Desembarcou em Ceuta e depois foi até Tânger durante um mês em penosa jornada. Chegando lá, foi cercado. Resistiu durante um mês, mas depois rendeu-se para não morrerem ali todos. Comprometeu-se a entregar Ceuta, deixando como penhor o Infante D. Fernando, seu irmão. Porém, chegado a Portugal, foi decidido (em Cortes) não entregar Ceuta, sacrificando-se, assim, o Infante D. Fernando aos interesses do país.


D. Fernando, Infante de Portugal

Deu-me Deus o seu gládio, porque eu faça
A sua santa guerra.
Sagrou-me seu em honra e em desgraça,
Às horas em que um frio vento passa
Por sobre a fria terra.

Pôs-me as mãos sobre os ombros e doirou-me
A fronte com o olhar;
E esta febre de Além, que me consome,
E este querer grandeza são seu nome
Dentro em mim a vibrar.

E eu vou, e a luz do gládio erguido dá
Em minha face calma.
Cheio de Deus, não temo o que virá,
Pois, venha o que vier, nunca será
Maior do que a minha alma.

Fernando Pessoa, in Mensagem

Neste lindo poema de Pessoa, ouvimos a voz do Infante Santo, assim apelidado por ter morrido nos cárceres de Fez, na maior escravatura que é possível imaginar.
Na versão inicial de Mensagem, este poema intitulava-se Gládio e alguns críticos literários consideram que este herói mártir se identifica com o próprio poeta, investido de uma dimensão messiânica, um eleito de Deus para conduzir uma santa guerra contra a morte do sonho, sacrificando-se desse modo, pela sua pátria.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Receita de Ano Novo


Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação como todo o tempo já vivido
(mal vivido ou talvez sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?).
Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano-novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo
,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Carlos Drummond de Andrade


 

domingo, 30 de dezembro de 2012

Ler, sem pecar

Coimbra, 28 de Dezembro de 1990Visita do pároco de S. Martinho. Telefonou-me a dar as boas festas, adivinhou pelo tom da minha voz o meu estado de saúde, e meteu-se a caminho. Almoçou, bebeu do melhor vinho da garrafeira, e regressou agora, rijo e fero como sempre, depois de uma longa conversa. Meu vizinho de porta, é ele que me olha pelo quintal. Contou-me do acasalamento dos melros que ritualmente fazem ninho na sebe de avelaneiras que nos estrema, da recuperação da eira arruinada de que somos consortes, das páginas que escrevi sobre a nossa escola, que tem sempre na memória, dos enxames novos que acrescentou ao colmeal. Quatro horas de paz bucólica. Da paz rural em que vive e que não lhe invejo, mas gostava de ter merecido também da vida. De todos os da nossa criação é ele o único que me lê. Sobe, de livro na mão, os montes onde caçámos juntos, e saboreia no alto, sem pecar, as minhas heresias. Preguei-lhe neles, incansavelmente, durante anos, a santidade da poesia. E ficou convertido.

Miguel Torga, in Diário XVI

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

É Natal!...


Eu sou do tempo em que se cantava ao Menino. Do tempo em que não havia Pai Natal. Do tempo em que o sapatinho se colocava a um canto da chaminé, pronto a receber a prenda habitual. Bombons em prata colorida, a mais das vezes. Do tempo em que as mulheres na igreja e os homens na rua à volta do madeiro entoavam louvores ao Menino. “Oh meu manino Jasusi/Oh meu Manino tão belo/logo vieste nascer/na noite do cramelo / Entrai pastores entrai/por estes portais adentro/vinde adorar o Manino/no seu santo nascemento”. Sou do tempo em que a minha aldeia tinha a dimensão do mundo. Do tempo em que poucos sabiam qual era o rio da minha aldeia. Do tempo em que o presépio se construía pelas nossas mãos com musgo arrancado às penedias ao redor da minha aldeia.

Do tempo das filhós e das azevias polvilhadas de açúcar e canela. Do tempo do cheiro do azeite quente a ferver, na véspera de Natal. Do tempo do jantar com couves da leira, que se desfaziam na boca e se misturavam ao sabor do bacalhau cozido.

Do tempo em que só um dia era Natal!

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Vem aí o Natal!...

Neste tempo, esforçamo-nos todos para encontrar aquela fotografia, aquela mensagem de Natal mais bonita, mais luminosa, mais apelativa. Na Internet há muito por escolher. Não vou por aí!
Este é o meu Postal de Natal. Pode não ser tão bonito, mas é o meu.

 
Procurei centrar na fotografia o presépio, o nascimento de Jesus. O Natal, hoje, deixou de ser uma zona afectiva para se tornar uma zona cultural e folclórica das organizações sociais. Se calhar, as pessoas já não sabem o que quer dizer a palavra Natal. Sabem apenas o que são as festas. Perdeu-se muito esse sentido de uma vida nova, de um ser humano que nasce e que nos vai trazer alguma coisa.

Natal é essencialmente Esperança, é acreditar que vale a pena viver mais um Novo Ano, iniciar mais um ciclo da nossa vida. Renascer para uma vida nova.

Oh, meus amigos, Feliz Natal!