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segunda-feira, 1 de maio de 2023

O Cavador


"O Cavador", escultura de pedra concebida por António Augusto da Costa Mota (tio, 1862-1930), inaugurada em 1913 no Jardim Guerra Junqueiro (Jardim da Estrela), em Lisboa. Foi a primeira escultura a ser colocada naquele jardim após a implantação da República.

O Cavador

Dezembro, noite, canta o galo...
Rouco na treva canta o galo...
— Oh, dor! oh, dor! —
Aldeão não durmas!... Vai chamá-lo,
Miséria negra, vai chamá-lo!...
— Oh, dor! oh, dor! —
Bate-lhe à porta, é teu vassalo,
Que traga a enxada, é teu vassalo,
Fantasma negro, o cavador!

O vento ulula... Tremem ninhos...
Na noite aziaga tremem ninhos...
— Oh, dor! oh, dor! —
A neve cai, fria d'arminhos...
Na escuridão, fria d'arminhos...
— Oh, dor! oh, dor! —
Passa maldito nos caminhos,
D'enxada ao ombro nos caminhos,
Fantasma negro, o cavador!

Vem roxa a estrela d'alvorada...
Vem morta a estrela d'alvorada —
— Oh, dor! oh, dor! —
Montanhas nuas sob a geada!...
Hirtas, de bronze, sob a geada!...
— Oh, dor! oh, dor! —
Torvo, inclinado sobre a enxada,
Rasga as montanhas com a enxada,
Fantasma negro, o cavador!

Cavou, cavou desde que é dia...
Cavou, cavou... Bateu meio-dia...
— Oh, dor! oh, dor! —
De pé na encosta erma e bravia,
Triste na encosta erma e bravia,
— Oh, dor! oh, dor! —
Largando a enxada, «Ave-Maria!...»
Reza em silêncio... «Ave-Maria!...»
Fantasma negro, o cavador!

Cavou, cavou na serra agreste,
D'alva à noitinha, em serra agreste...
— Oh, dor! oh, dor! —
E um caldo em prémio tu lhe deste,
Meu Deus!... seis filhos tu lhe deste...
— Oh, dor! oh, dor! —
Batem trindades... «Pai Celeste!...
Bendito sejas, Pai Celeste!...»
Reza, fantasma, o cavador!

Cavou cem montes... que é do trigo?
Gerou seis bocas... que é do trigo?
— Oh, dor! oh, dor! —
Bateu a Fome ao seu postigo...
Bateu a Morte ao seu postigo...
— Oh, dor! oh, dor! —
«Que a paz de Deus seja comigo!...
Que a paz de Deus seja comigo!...»
Disse, expirando, o cavador!

Guerra Junqueiro, in "Os Simples", Junho 91.

Devaneios cruzadísticos │ Eduardo Lourenço (Revisitado)

Comemora-se neste ano de 2023 o 𝐂𝐞𝐧𝐭𝐞𝐧𝐚́𝐫𝐢𝐨 𝐝𝐞 𝐄𝐝𝐮𝐚𝐫𝐝𝐨 𝐋𝐨𝐮𝐫𝐞𝐧𝐜̧𝐨, professor, filósofo e pensador português, motivo mais que suficiente para o AlegriaBreve se juntar, ainda que modestamente, à celebração desta figura ímpar da cultura portuguesa, revisitando a sua vida e obra.

Nascido em S. Pedro de Rio Seco, concelho de Almeida, distrito da Guarda, a 23 de Maio de 1923, lecionou em diversas universidades, de Coimbra a Brasília, passando por Hamburgo, Heidelberg, Montpellier, Grenoble e Nice. Colaborador de longa data da Fundação Calouste Gulbenkian, foi seu administrador não executivo entre 2002 e 2012. De 2016 a 2020 foi Conselheiro de Estado, por nomeação presidencial. Faleceu em Lisboa no dia 1 de Dezembro de 2020.

Autor de mais de 40 títulos, possuiu desde sempre “um olhar inquietante sobre a realidade”, como destacaram os seus pares. 

O Labirinto da Saudade” é, porventura, a sua obra mais citada. Aproximou-se da modernidade na obra de Fernando Pessoa, através dos livros “Pessoa Revisitado” (1973), “Infinito Pessoa” (1975), “Pessoa, Rei da Nossa Baviera” (1986). Abrange muitos outros textos fundamentais, uns publicados, outros inéditos, e ainda outros cortados pela censura. Revelam a atenção e o interesse de Eduardo Lourenço, a partir de 1949, pela obra conhecida, na altura, de Fernando Pessoa.

Recebeu, ao longo da sua vida, numerosas distinções, entre as quais o Prémio Europeu de Ensaio Charles Veillon (1988), o Prémio Camões (1996)o Prémio Pessoa (2011) e o Prémio da Academia Francesa (2016). 

Entre outras condecorações, foi agraciado com as Grã-Cruz da Ordem de Sant’Iago da Espada da Ordem do Infante D. Henrique e da Ordem da Liberdade. Foi ainda nomeado Officier de la Légion d’Honneur e consagrado Doutor Honoris Causa pelas Universidades do Rio de Janeiro (1995), Universidade de Coimbra (1996), Universidade Nova de Lisboa (1998) e Universidade de Bolonha (2006).

Foi amigo e manteve correspondência com grandes nomes da literatura portuguesa, caso de Jorge de Sena e Vergílio Ferreira.

Homem de enorme cultura, e todavia humilde, um dia confessou: «Sei que adquiri uma vasta sabedoria que não me serve para nada».

Convido os meus amigos a solucionar este passatempo de palavras-cruzadas e encontrar a final, nas horizontais, as 4 primeiras palavras de um título (11 palavras) de uma obra do professor e filósofo português Eduardo Lourenço (1923-2020).


HORIZONTAIS: 1 – Séries [figurado]; Fixa. 2 – Desgosta; Adivinhar. 3 – Tripulação; Está [figurado]; Preposição que designa meio. 4 – Torre; Descanso. 5 – Interjeição que exprime admiração [Moçambique]; Pequena caixa-clara que se percute com duas baquetas [Música]. 6 – Descompostura [figurado]. 7 – Indivíduo que foi vítima da sua própria ambição; Único. 8 – Interjeição indicativa de saudação [Brasil]; Murcha. 9 – Pertences; Imite; Graça [figurado]. 10 – Elemento de formação de palavras que exprime a ideia de cauda; Rezas. 11- Molha; Penoso.

VERTICAIS: 1 – Apetite; Pobre. 2 – Ala [Arquitectura]; Vilar. 3 – Imorais; Pátria; Interjeição que exprime espanto [Angola]. 4 – Gume; Lavras. 5 – Preposição que designa privação; Afastada. 6 – Pesar; Intervim. 7 – Máscaras; Causa. 8 – Tímidos [figurado]; Preposição que designa estado. 9 – Mais [antiquado]; Indigna; Catafalco. 10 – Sebe; Fútil [figurado]. 11 – Areeiro; Finório.

Clique  Aqui para abrir e imprimir o PDF com o passatempo.


Aceito respostas até dia 25 de Maio, inclusive, por mensagem particular no Facebook ou para o meu endereço electrónico, boavida.joaquim@gmail.com. Em data posterior, apresentarei a solução, assim como os nomes dos participantes. 

Vemo-nos por aqui?

sexta-feira, 28 de abril de 2023

José Malhoa (1855-1933)


Quadro “Festejando o São Martinho”, segundo José Malhoa. Porém, “Os bêbados” segundo o povo. Pintado em 1907 mostra bem a forma como o pintor via o povo português?  Passam, hoje, 168 anos que nasceu o pintor José Malhoa, nas Caldas da Rainha. Morreu em Figueiró dos Vinhos, em 26 de Outubro de 1933.  

O Museu José Malhoa nas Caldas da Rainha foi o primeiro Museu em Portugal, construído de raiz. À frente está um busto, do escultor Leopoldo de Almeida. José Malhoa foi um vulto grande assim como Júlio Dantas nos princípios do século XX. Muito apreciados no seu tempo. No entanto, tiveram os seus detractores. Júlio Dantas de forma mais violenta, através do manifesto Anti-Dantas, do mestre José Almada Negreiros. José Malhoa não chegou a tanto. Foi um naturalista. Pintava o que achava que os seus olhos viam. 

Viveu numa época de grandes pintores: Columbano, Silva Porto, Condessa, Carlos Reis, Veloso Salgado, Henrique Poisão, João Vaz, António Ramalho, António Saúde….Mas Malhoa está num lugar à parte! 

O Desenho do Quadro “Os bêbados” foi comprado por Azeredo Perdigão. O Desenho é ainda mais brutal. A figura do ferrador (ainda com a bata do serviço). 


O Quadro “ Fado” está em Lisboa, no Museu do Fado, em Alfama. É um pouco como o pintor via o povo português. Ele era um homem do povo. A mulher do quadro é a Adelaide. A “Adelaide da Facada” (uma cicatriz de uma faca do próprio Amâncio?). A história do dinheiro, como versão que correu. Não, foi o companheiro, o célebre “Amâncio” (guitarrista, proxeneta), que não deixou que a alça descesse (há um desenho com ela em baixo). A veracidade desta versão é atestada num livro de António Montez, Director do Museu nas Caldas da Rainha. 

Amâncio era um rufia, que andava sempre com uma navalha de mola no bolso. Moravam numa casa na Rua do Capelão, que o pintor visitava com frequência. Por insistência do Amâncio, o pintor também lhe fez o retrato, que lho entregou. Todavia, nada se sabe acerca do paradeiro do quadro. Vendeu-o sem demora. O quadro é de 1910 e levou 2 anos a ser pintado.

Outros Retratos célebres: 

O retrato da jovem Laura Sauvignetti, pintado em 1888, que ela, já velha, doou ao Museu; 


O retrato do Príncipe Luís Filipe, pintado em 1908 e ficou incompleto, ele avisou que faltaria à próxima sessão porque ia a Vila Viçosa com o pai. José Malhoa que assinava os seus quadros de forma muito discreta neste caso assinou o seu nome, ao contrário do hábito, com uma grande força (é contra o assassinato do jovem príncipe que, por tão novo e sem responsabilidades na res pública, ainda não tinha contas a prestar). 


O retrato da Rainha D. Leonor, pintado em 1926, houve quem dissesse muito mal. Muito discutido (Rainha ou menina da Rua do Capelão?); na verdade, uma escultura existente em Beja é bem mais real.


Quadro “As Promessas”, pintado em 1933, ano da sua morte, inspirado numa procissão em Figueiró dos Vinhos; 


Quadro “ Meu Desalento”, inacabado, porque entretanto pintor morreu. Este último quadro dá que pensar. Como é que um homem tão admirado se deixou cair assim no desalento. Pois, a sua grande solidão! Vivia na companhia de uma sua irmã. 

A pintura ia já noutro caminho e ele sentia-se um tanto desalentado. Fialho de Almeida disse dele: “a sua pintura é uma odisseia rústica nacional”. José Malhoa pintou o povo como ele o via, um povo atrasado, amarrado por surperstições, misérias…pintou a vida real tal como ela é.

quarta-feira, 26 de abril de 2023

Devaneios cruzadísticos │ Almada Negreiros

"NOME DE GUERRA" é o título de uma obra do artista multidisciplinar português Almada Negreiros (1893-1970), pedido com a resolução do passatempo de palavras cruzadas, referente ao mês de Abril de 2023.

Recebi respostas de: Aleme; António Amaro; Antoques; Arjacasa; Bábita Marçal; Baby; Caba; Candy; Corsário; El-Danny; Elvira Silva; Filomena Alves; Fumega; Gilda Marques; Homotaganus; Horácio; Jani; João Carlos Rodrigues; Joaquim Pombo; José Bento; José Bernardo; Juse; Mafirevi; Magno; Manuel Amaro; Manuel Carrancha; Manuel Ramos; Maria de Lourdes; My Lord; Neveiva; Olidino; PAR DE PARES; Reduto Pindorama (Agagê, Joquimas e Samuca); Ricardo Campos; Rui Gazela; Russo; Salete Saraiva; Sepol; Seven; Socrispim; Somar; TRIO SUL-MINAS (Crispim, Loanco e O. K.), Virgílio Atalaya e Zabeli.

A todos, obrigado.

Até ao próximo. 

terça-feira, 25 de abril de 2023

In memoriam

É bom a proveitar esta data para lembrar os que morreram no dia 25 de Abril de 1974.

Fernando Giesteira tinha 17 anos e era um vivaço. Chegara de Montalegre e em miúdo adorava os bailaricos em Chaves e correr até ao alto da Nevosa. Tinha boa pinta e fora para Lisboa puxado uns anos antes por um familiar. Trabalhava como empregado de mesa na Cova da Onça, boîte frequentada por artistas, malta da bola e Polícia Judiciária. Saíra do trabalho e fora para a rua sem passar pela Pensão Flor, no Areeiro, o quarto onde vivia. Já arranjara um cravo vermelho e prendera-o certamente à camisa a cheirar ao fumo da noite.

José Harteley Barneto era o mais velho. Tinha 38 anos, quatro filhos e uma vida estável. Escriturário no Grémio Nacional dos Industriais de Confeitaria, morava na Flamenga, perto de Loures, e nascera em Vendas Novas. O pai ou a mãe eram ingleses e ele estava entusiasmado e sentia que tudo passara novamente a ser possível, mesmo o impossível.

José Guilherme Arruda tinha 20 anos. Viera há pouco tempo dos Açores, era excelente aluno e matriculara-se no segundo ano de Filosofia. Morava na Avenida Casal Ribeiro, perto do Saldanha, no centro de Lisboa. José Guilherme não tinha como esconder o sorriso, afinal estava a viver a história e a revolução que só conhecia na teoria.

Fernando Luís dos Reis tinha 23 anos. Era o único dos quatro que nascera em Lisboa e também o único militar. O seu batalhão era de Penamacor, mas ele estava de férias. Também por isso saiu à rua e dirigiu-se ao lugar onde talvez mais precisassem dele. Casara-se há pouco tempo e tinha planos de ser pai.

sexta-feira, 7 de abril de 2023

Almada nasceu há 130 anos

José Sobral de Almada Negreiros nasceu no dia 7 de abril de 1893, em S. Tomé e Príncipe.
Quando eu nasci, as frases que hão-de salvar a humanidade já estavam todas escritas, só faltava uma coisa - salvar a humanidade.”
- José de Almada Negreiros, in ‘A Invenção do Dia Claro’
Artista multidisciplinar, dedicou-se especialmente às artes e à escrita, tendo sido artista plástico, poeta, ensaísta, romancista, dramaturgo e coreógrafo. Almada Negreiros ocupa uma posição de destaque na primeira geração de modernistas portugueses. Morreu em Lisboa, no dia 15 de junho de 1970, com 77 anos de idade.
Em outubro de 2018 foi assinado, entre o Camões, I.P e a Universidade de Göttingen, na Alemanha, o protocolo de criação da Cátedra José de Almada Negreiros naquela universidade alemã, com o objetivo de intensificar e melhorar as condições para estudar português no país.
Almada Negreiros na I Conferência Futurista, abril de 1917; Domínio Público

sábado, 1 de abril de 2023

Devaneios cruzadísticos │ Almada Negreiros

Meus amigos, desta vez, não há texto. Preparei este Vídeo onde procurei apresentar o essencial da vida e obra de Almada Negreiros, artista multidisciplinar português que se dedicou fundamentalmente às artes plásticas (desenho, pintura, etc...) e à escrita (romance, poesia, ensaio, dramaturgia), ocupando uma posição central na primeira geração de modernistas portugueses.

Clique Aqui para abrir e visualizar o Vídeo

Esperando que tenham gostado, convido-vos a solucionar este passatempo de palavras-cruzadas e encontrar, a final, o título (3 palavras nas horizontais) do artista multidisciplinar português Almada Negreiros (1893-1970).


HORIZONTAIS: 1 – Desponte; Seca. 2 – Trolha; Anéis. 3 – Sufixo nominal que exprime a ideia de rocha; História. 4 – Família; Instante; Preposição que designa tempo. 5 – Lavra; Falha. 6 – Mama. 7 – Senhora (forma de tratamento) [Cabo Verde]; Aspira. 8 – Toma; Interjeição que exprime enfado [Angola]; Apuro. 9 – Afaga; Entidade Reguladora da Saúde [sigla]. 10 – Matraca; Luta [figurado]. 11 – Tolo [Brasil, coloquial]; Ligas.

VERTICAIS: 1 – Acha; Carne [Moçambique]. 2 – Ingénuo [popular]; trouxer. 3 – Dinheiro [coloquial]; Ala. 4 – Responsável; Diabo [popular]; Quiser. 5 – Interjeição que exprime surpresa; Chega. 6 – Corro. 7 – Segura; Simples. 8 – Indivíduo pertencente a uma casta nobre, na Índia; Junta; O [arcaico]. 9 – Indigna; Medi. 10 – Exaltadas; Interjeição que exprime impaciência. 11 – Torres; Alegria [figurado, plural].

Clique Aqui para abrir e imprimir o PDF com o passatempo.


Aceito respostas até dia 25 de Abril, inclusive, por mensagem particular no Facebook ou para o meu endereço electrónico, boavida.joaquim@gmail.com. Em data posterior, apresentarei a solução, assim como os nomes dos participantes. 

Vemo-nos por aqui?

domingo, 26 de março de 2023

Devaneios cruzadísticos │ Natália Correia

"O VINHO E A LIRA" é o título de uma obra da poetisa portuguesa Natália Correia (1923-1993), pedido com a resolução do passatempo de palavras cruzadas, referente ao mês de Março de 2023.


Recebi respostas de: Aleme; António Amaro; Antoques; Arjacasa; Bábita Marçal; Baby; Caba; Candy; Corsário; El-Danny;Fumega; Gilda Marques; Homotaganus; Horácio; Jani; João Carlos Rodrigues; Joaquim Pombo; José Bento; José Bernardo; Juse; Mafirevi; Magno; Manuel Amaro; Manuel Carrancha; Manuel Ramos; Maria de Lourdes; My Lord; Neveiva; Olidino; PAR DE PARES; Reduto Pindorama (Agagê, Joquimas e Samuca); Ricardo Campos; Rui Gazela; Russo; Salete Saraiva; Seven; Socrispim; Somar; TRIO SUL-MINAS (Crispim, Loanco e O. K.), Virgílio Atalaya e Zabeli.

A todos, obrigado.

Até ao próximo. 

sexta-feira, 24 de março de 2023

Os pescadores de Sesimbra

[...Este homem é de instinto comunista. Se um adoece, os outros ganham-lhe o pão: recebe o seu quinhão inteiro. Se morre, sustentam-lhe a viúva e os filhos, entregando-lhe o ganho que ele tinha em vida. Dão ao hospital e ao asilo uma parte do pescado. Toda a gente tem direito a ir ao mar – toda a gente tem direito à vida. Vai quem aparece, desde que seja marítimo. Acontece que o barco leva hoje quarenta homens e leva vinte amanhã... O produto das artes é dividido em quinhões iguais pela companha. A pesca do anzol é uma espécie de cooperativa, e a barca quase sempre dos pescadores [...

Raul Brandão │Os Pescadores

quarta-feira, 22 de março de 2023

Natália Correia - Auto retrato


"Auto-Retrato", 1956, Óleo sobre tela, 92,5 x 72,5 cm, Museu Carlos Machado, Ponta Delgada [MCM 6930]

Natália Correia viveu quase toda a sua vida em Lisboa, cidade angular de toda a sua existência. Na capital escolheu a sua residência numa zona de confluência de várias camadas sociais. À distância ficava-lhe o Rato (espaço aristocrático), ao cimo o Marquês de Pombal (área burguesa) e, defronte, a Avenida da Liberdade (zona cosmopolita).

Corriam os anos 50, quando a escritora, então em início da sua fulgurante carreira, descobriu, casualmente, um 5.º andar na Rua Rodrigues Sampaio. «Um dia vim aqui visitar uns amigos e a atmosfera da casa atraiu-me logo. Eles mudaram-se e este apartamento esteve muito tempo devoluto, como que à espera que eu casasse e o alugasse».

Situava-se num edifício sólido e elegante, discreto e requintado com, no rés-do-chão, uma das melhores pastelarias-restaurantes da cidade. Natália Correia passou a habitar o último piso após o seu casamento, em 1953, com Alfredo Lage Machado. «Ele foi o grande amor da sua vida», confidencia-nos Helena Cantos (protagonista feminina do filme "Santo Antero"), e amiga íntima durante décadas.

Com invulgar bom gosto, a poetisa decorou-o. Na entrada, dispôs sobre numa credência um busto seu da autoria de Martins Correia. No salão principal instalou a biblioteca composta por milhares de volumes, um auto-retrato [imagem supra], um óleo de Cesariny, uma escultura de Júlio de Sousa e uma máscara de Eça de Queiroz. Em posição de destaque, uma gigantesca mesa-secretária, estilo império, com tampo de mármore escuro e pés dourados, cadeiras Luís XVI, porcelanas chinesas (herdadas da mãe), peças de artesanato e um tabuleiro de xadrez; numa sala anexa, vários quadros contemporâneos, um canapé, um par de 'bergeres' e um bar de estilo renascença.

Durante duas décadas, a casa tornou-se um dos mais pujantes salões literários de Lisboa, onde se reuniam, pelas noites fora, escritores, pintores e políticos.

«Natália Correia e o seu marido cederam a sua elegante residência», descreve um jornal da época, «para a representação da peça de Jean-Paul Sartre, "Huis Clos", inédita entre nós. Foi interpretada por Natália Correia, Maria Ferreira, Castro Freire e Manuel Lima».

O espectáculo, encenado por Carlos Wallenstein (açoriano), teve entre a assistência Isabel da Nóbrega, Urbano Tavares Rodrigues, Sophia de Mello Breyner, Francisco Sousa Tavares, João Gaspar Simões, Fernando Amado e Almada Negreiros.

Numa noite, em 1960, Henry Miller bate à porta de Natália que fica espantada. Ele entra, senta-se e discute com os presentes, entre os quais David Mourão-Ferreira e Delfim Santos, o tema do amor. Ao sair, o romancista norte-americano exclamará: «Aqui sentimo-nos ou no século XVIII ou no ano 2000. Foi preciso vir a Portugal para encontrar uma verdadeira pitonisa».

Entre outros vultos universais que a frequentaram, destacam-se Ionesco, Claude Roi e Michaux.

ANTÓNIO BRÁS (in https://www.modaemoda.pt/)

quarta-feira, 1 de março de 2023

Devaneios cruzadísticos │ Natália Correia

Celebra-se, neste ano de 2023, o centenário do nascimento de Natália Correia, portuguesa, poetisa, ficcionista, autora dramática e ensaísta. Nascida em 1923 e falecida em 1993, natural dos Açores, facto que levou a insularidade a tornar-se uma linha de força presente em todo o seu percurso literário. O AlegriaBreve assinala o evento, dedicando-lhe o passatempo de Palavras-Cruzadas, referente ao mês de Março.

Figura marcante da cultura e da literatura portuguesas contemporâneas, Natália Correia distinguiu-se também pela sua atividade política, tendo exercido, com a mesma irreverência que pauta toda a sua existência, o cargo de deputada.

Escritora que manteve uma posição de independência relativamente a modelos e movimentos literários, embora seja, mesmo aceitando que são poucos os "exemplos que podemos colher na sua poesia de uma aproximação da sua parte a procedimentos estilísticos típicos dos surrealistas", frequentemente associada ao Surrealismo. Por isso, amiga dos Surrealistas, do poeta Mário Casariny, curiosamente também nascido em 1923. Por isso, o AlegriaBreve promete evocar aqui, no próximo mês de Agosto, tal efeméride.

Natália Correia simbolizou, como poucos, as inquietações do século XX português. Precoce e radical no pensamento feminino, incompreendida e amada, lançou um olhar oracular sobre o seu tempo. Em tertúlias, que eram verdadeiras olimpíadas da confraternização lisboeta, o seu traço aglutinador envolvia, juntamente com o fumo dos cigarros, intelectuais e admiradores. A partir de 1971, essas reuniões passaram a ter lugar no famoso bar "Botequim".

Natália Correia foi agraciada com vários prémios, com destaque para o Prémio La Fleur de Laure (1977) e o Grande Prémio de Poesia APE (1990), este pelo livro “Sonetos Românticos”.

Convido os meus amigos a solucionar este passatempo de palavras-cruzadas e encontrar, a final, o título (5 palavras nas horizontais) de uma obra da poetisa portuguesa Natália Correia (1923-1993).



HORIZONTAIS: 1 – Censura; Perspicaz [figurado]. 2 – Namorado [popular]; Ninho [regionalismo]. 3 – Interjeição usada como saudação [Brasil]; Pinga; Então. 4 – Rotineiro; Soluçar. 5 – Alcunhar [figurado]. 6 – Interjeição usada para chamamento; Custas. 7 – Demandas. 8 – Suam [Guiné]; Repetiu. 9 – Elemento de formação de palavras que exprime a ideia de um só; Inspiração [figurado]; Acontecer. 10 – Poesia [figurado]; Classe. 11 – Pulo; Tagarelas.

VERTICAIS: 1 – Partida; Ferva. 2 – Baixas; Índigo. 3 – Uno; Fogueiras; Troça. 4 – Calcar; Pesquisas. 5 – Espúrio. 6 – Elemento de formação de palavras que exprime a ideia de burro; Quociente de inteligência [sigla]. 7 – Casamento. 8 – Máxima; Estimula. 9 – Interjeição que exprime dor; Atado; Mais [antiquado]. 10 – Espécie de calha que dá vazão à água e a outros despejos do navio; Perceba. 11 – Interjeição que exprime satisfação [popular]; Famas.


Clique Aqui para abrir e imprimir o PDF.


Aceito respostas até dia 25 de Março, inclusive, por mensagem particular no Facebook ou para o meu endereço electrónico, boavida.joaquim@gmail.com. Em data posterior, apresentarei a solução, assim como os nomes dos participantes. 

Vemo-nos por aqui?

domingo, 26 de fevereiro de 2023

Devaneios cruzadísticos │ Eugénio de Andrade

"OS SULCOS DA SEDE" é o título de uma obra do poeta português Eugénio de Andrade pedido com a resolução do passatempo de palavras cruzadas, referente ao mês de Fevereiro de 2023.

Tirado do citado livro "OS SULCOS DA SEDE, este poema "AOS JACARANDÁS DE LISBOA", esperando que seja do vosso agrado, tanto como do meu.

São eles que anunciam o verão.
Não sei doutra glória, doutro
paraíso: à sua entrada os jacarandás
estão em flor, um de cada lado.
E um sorriso, tranquila morada,
à minha espera.
O espaço a toda a roda
multiplica os seus espelhos, abre
varandas para o mar.
É como nos sonhos mais pueris:
posso voar quase rente
às nuvens altas – irmão dos pássaros –,
perder-me no ar.


Recebi respostas de: Aleme; António Amaro; Antoques; Arjacasa; Bábita Marçal; Baby; Caba; Candy; Corsário; El-Danny; Elvira Silva; Filomena Alves; Fumega; Gilda Marques; Homotaganus; Horácio; Jani; João Carlos Rodrigues; Joaquim Pombo; José Bento; José Bernardo; Juse; Mafirevi; Magno; Manuel Amaro; Manuel Carrancha; Manuel Ramos; Maria de Lourdes; My Lord; Neveiva; Olidino; PAR DE PARES; Reduto Pindorama (Agagê, Joquimas e Samuca); Ricardo Campos; Rui Gazela; Russo; Salete Saraiva; Sepol; Seven; Socrispim; Solitário; Somar; TRIO SUL-MINAS (Crispim, Loanco e O. K.), Virgílio Atalaya e Zabeli.

A todos, obrigado.

Até ao próximo. 

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2023

Os gatos de Eugénio de Andrade

Acerca de Gatos

Em Abril chegam os gatos: à frente
o mais antigo, eu tinha
dez anos ou nem isso,
um pequeno tigre que nunca se habituou
às areias do caixote, mas foi quem
primeiro me tomou o coração de assalto.
Veio depois, já em Coimbra, uma gata
que não parava em casa: fornicava
e paria no pinhal, não lhe tive
afeição que durasse, nem ela a merecia,
de tão puta. Só muitos anos
depois entrou em casa, para ser
senhora dela, o pequeno persa
azul. A beleza vira-nos a alma
do avesso e vai-se embora.
Por isso, quem me lambe a ferida
aberta que me deixou a sua morte
é agora uma gatita rafeira e negra
com três ou quatro borradelas de cal
na barriga. É ao sol dos seus olhos
que talvez aqueça as mãos, e partilhe
a leitura do Público ao domingo.

Eugénio de Andrade, in Sal da Língua

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023

Devaneios cruzadísticos │ Eugénio de Andrade

Várias iniciativas estão previstas para celebrar o centenário de nascimento de EUGÉNIO DE ANDRADE, que ocorreu no passado dia 19 de Janeiro. Por mera curiosidade, e a propósito da data de nascimento, segundo reza o seu registo civil, com base numa declaração apresentada a 1 de Março de 1923, por sua mãe, Maria dos Anjos, então solteira, doméstica, domiciliada na Póvoa de Atalaia,  foi às vinte horas do dia UM de FEVEREIRO DE 1923 que nasceu JOSÉ FONTINHAS (hoje poeta Eugénio de Andrade, o pseudónimo literário por ele adoptado).

Como é sabido, tal discrepância de datas, que por aqueles tempos ocorria com certa frequência, era um estratagema comum para escapar à multa do registo tardio, já que aos emolumentos e ao imposto de selo do "civil" ninguém podia eximir-se.

Eugénio de Andrade nasceu na Póvoa de Atalaia, vizinha da minha aldeia natal.  Aqui nasceu o poeta, fruto de um amor juvenil. A mãe, Maria dos Anjos, era filha de trabalhadores modestos. O pai, Alexandre Rato, de família proprietária e mais abastada, partiu para Lisboa, sem casar nem perfilhar o filho. Mais tarde,  o casamento veio a realizar-se, não durou muito, e quando o pai se dispôs a perfilhá-lo, o filho recusou. 

Eugénio de Andrade fez da mãe a presença central da sua poesia, de onde o pai está quase ausente, esse pai a quem em entrevistas apenas se refere como "o senhorito do Monte da Ribeira da Orca".

Apesar do seu enorme prestígio nacional e internacional, decorrente das inúmeras distinções e dos muitos prémios que recebeu, Eugénio de Andrade sempre viveu distanciado da chamada vida social, literária ou mundana. Recebeu inúmeras distinções e prémios, com destaque para o Prémio Camões (2001).

Morreu na cidade do Porto a 13 de Junho de 2005, após uma doença neurológica prolongada. Encontra-se sepultado no Cemitério do Prado do Repouso, no Porto. A sua campa é rasa em mármore branco, desenhada pelo arquitecto seu amigo Siza Vieira, possuindo os versos do seu livro "As Mãos e os Frutos".

Eugénio de Andrade disse um dia que toda a vida lutou por um verso. Sílaba a sílaba. Assim:

Toda a manhã procurei uma sílaba. 
É pouca coisa, é certo: uma vogal, 
uma consoante, quase nada. 
Mas faz-me falta. Só eu sei 
a falta que me faz.
Por isso a procurava com obstinação.
Só ela me podia defender
do frio de Janeiro, da estiagem 
do Verão. Uma sílaba, 
Uma única sílaba. 
A salvação.

In Ofício de Paciência

Convido os meus amigos a solucionar este passatempo de palavras-cruzadas e encontrar, a final, o título (4 palavras nas horizontais) de uma obra do poeta português Eugénio de Andrade (1923-2005).

HORIZONTAIS: 1 – Beiça; Vindima. 2 – Aqueles; Mentiras. 3 – Pessoa que se considera um modelo a seguir [figurado]; Penhor. 4 – Cobiça; Moa. 5 – Indício; Pregas. 6 – Mais [antiquado]; Pesar; Lava áspera e escoriácea constituída por fragmentos irregulares [Geologia]. 7 – Quebra-luz; De+a [contracção]. 8 – Ânsia [figurado]; Indisponhas. 9 – Pule; Hospeda. 10 – Rebanhos; Símbolo da resistividade eléctrica [Física]. 11 – Causas; Una.

VERTICAIS: 1 – Passada; Elemento de formação de palavras que exprime a ideia de areia. 2 – Regra; Interjeição que exprime satisfação [Brasil]. 3 – Empregos; Viva. 4 – Adivinhas; Guerreiro. 5 – Pançuda; Sufixo nominal, de origem grega, que exprime a ideia de filiação. 6 – Condenável; Guarda; Aquelas. 7 – Estreita; Juntas. 8 – Sedimento [regionalismo]; Cerce. 9 – Demora; Desumano [antiquado]. 10 – Porcelana antiga de cor amarela e de origem chinesa; Trapeiros. 11 – Torres; Ala [Arquitectura].

Clique Aqui para abrir e imprimir o PDF.


Aceito respostas até dia 25 de Fevereiro, inclusive, por mensagem particular no Facebook ou para o meu endereço electrónico, boavida.joaquim@gmail.com. Em data posterior, apresentarei a solução, assim como os nomes dos participantes. 

Vemo-nos por aqui?

domingo, 22 de janeiro de 2023

Ouvir a voz de Deus



(de Frederico Lourenço, in fb de 22/1/2023)

Ouvir a voz de Deus

Numa das passagens mais belas e misteriosas do Antigo Testamento, o profeta Elias é avisado de que, amanhã, Deus passará diante da gruta isolada na montanha onde Elias tem estado a viver. No momento da passagem de Deus, lemos que «houve um vento enorme, forte, que fendia montanhas e esmagava rochas diante do Senhor.» (1 Reis 19:11)

No entanto, não era neste vendaval violento que estava Deus: «o Senhor não estava no vento».

E, depois do vento, houve um terramoto: «e o Senhor não estava no terramoto».

E, depois do terramoto, um fogo: «e o Senhor não estava no fogo.»

Mas, finalmente, depois do fogo, veio «uma voz de brisa leve – e, aí, estava o Senhor.» (1 Reis 19:12).

A expressão «uma voz de brisa leve» é de uma beleza poética incrível. Pensar que Deus não está no estardalhaço, mas sim no quase-silêncio, tem um alcance muito significativo.

A palavra que traduzi por «voz» também pode significar «som»: em hebraico, «qol»; em grego, «phōnē». É por meio dela que Adão e Eva se apercebem da presença de Deus no jardim, no capítulo 3 de Génesis (onde nalgumas Bíblias lemos «som de Deus»; noutras, «voz de Deus»). Mas quando Deus Ele mesmo a emprega em Génesis 3:17, a palavra significa sem dúvida «voz»: «ouviste a voz da tua mulher», diz Deus, reprovando Adão.

A reprovação está no facto de a voz humana veicular palavras que nem sempre são benéficas (como é o caso das palavras atribuídas a Eva). As palavras divinas estão noutra categoria, embora «benéfico» possa não se afigurar o melhor adjectivo para aplicarmos a algumas palavras atribuídas a Deus no Antigo Testamento (sobretudo quando Deus dita o extermínio dos anteriores habitantes de Canaã, para os que israelitas lá possam viver).

Dir-se-á, por outro lado, que as palavras do Seu filho e porta-voz no Novo Testamento correspondem em pleno ao que se entende por benéfico: algo que faz bem e que, por si só, faz o Bem.

Na rica polifonia do Antigo Testamento – onde tanta importância é dada aos sacrifícios que o povo israelita tem que oferecer a Deus – está também clara a ideia de que Deus não valoriza assim tanto os sacrifícios: o que Ele valoriza acima de tudo (pelo menos nalgumas passagens da Escritura hebraica) é que ouçamos a Sua voz. Dando a palavra ao profeta Samuel, «Serão mais desejáveis ao Senhor sacrifícios do que escutar a voz do Senhor? Eis que escutar é melhor do que sacrifício; ouvir é melhor do que a gordura de carneiros» (1 Samuel 15:22).

Poderemos então perguntar: onde é que vamos para «escutar a voz do Senhor», como diz Samuel? Onde podemos ouvir a «voz de brisa leve», que Elias escutou?

Os cristãos acreditam que «Aquele que Deus enviou [Jesus] transmite as palavras de Deus» (João 3:34). No mesmo Evangelho, Jesus diz «quem ouve a minha palavra e crê n’Aquele que me enviou tem a vida eterna» (João 5:24).

Jesus parece estabelecer uma ligação fascinante entre «ouvir» e «crer». Sem ouvir, não há caminho para Deus.

Ouvir as palavras de Deus, porém, não constitui o fim do caminho. A finalidade última é que nós mesmos nos tornemos «morada» da voz de Deus. Esse sentido («morar», «habitar») está implícito no «permanecer» que lemos em João 15:5: «Eu sou a vinha, vós sois os ramos. Quem permanece em mim e eu nele, esse dá fruto abundante».

E sob que forma é que Jesus permanece em nós? Sob a forma das suas palavras.

«Se permanecerdes em mim e se as minhas palavras permanecerem em vós, aquilo que quiserdes, solicitai – e acontecerá para vós» (João 15:7).

O sentido de «acontecerá para vós» é enigmático. Mas eu diria que morarmos em Jesus, como consequência de as palavras dele morarem em nós, já é, por si só, um Acontecimento.

(na imagem: Elias pelo pintor italiano Guercino)

quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

No centenário do nascimento de Eugénio de Andrade



Do meu amigo e conterrâneo Joaquim Candeias da Silva, partilho este excelente texto, no ano em que se comemora o centenário do nascimento do poeta EUGÉNIO DE ANDRADE, a propósito da data do nascimento do poeta que muito amamos. Parabéns, meu poeta!


«O CENTENÁRIO DO POETA (1923-2023). - FOI MESMO A 19 DE JANEIRO QUE ELE NASCEU? - OFICIALMENTE, NÃO.
Enche páginas de jornais por estes dias. E muito justamente. Ele foi, sem dúvida, um dos maiores poetas da contemporaneidade. É um dos meus favoritos, até porque o conheci pessoalmente: falámos algumas vezes (inclusivamente sobre a sua Póvoa, vizinha da minha Orca, só não gostava que lhe tocasse no pai…); telefonámo-nos e escrevemo-nos; trocámos livros. Ah, e também conheço os lugares da sua meninice, que ficam muito perto dos meus (Ribeiro da Orca, Couto, Poço Castelhano, Corricão, Barbado...).
Pois, vem agora a propósito a data de nascimento. Conforme já em tempos aqui dei conta, segundo reza o seu registo civil (nunca desmentido oficialmente pela mãe), com base numa declaração apresentada a 1 de Março de 1923 por ela, Maria dos Anjos, então solteira, doméstica, domiciliada na Póvoa, filha de Guilherme Fontinhas e de Maria Joana, foi às vinte horas do dia UM de FEVEREIRO DE 1923 que nasceu JOSÉ FONTINHAS numa casa da Rua das Quintas (hoje Poeta Eugénio de Andrade, o pseudónimo literário por ele adoptado).
[VER ANEXO. E já agora, sabem qual o significado do vocábulo EUGÉNIO e a razão pela qual o Poeta o escolheu? Provavelmente não... Então registem: tal como ANDRADE (de Andrós = homem), é de origem grega (Eu = bem + Genos = nascido). Pois…
Contudo, é importante que se diga que nem sempre as narrativas coincidem... Não revelam os ditos registos o nome do pai, embora na aldeia toda a gente soubesse quem era e o próprio se tenha assumido como tal. Tratava-se de Alexandre Rato, filho de António Dias Rato (1865-1963) e de Teresa de Jesus Felícia (1874-1956). Mais tarde, os pais do Poeta até chegaram a casar. Porém, por questões de foro estritamente pessoal, este rasurou-o da sua biografia e da sua obra, e apenas episodicamente se lhe referiu como «o senhorito do Monte do Ribeiro da Orca»...
Ora, estariam certos os referidos dia e hora declarados pela mãe? Embora eles coincidam rigorosamente com o que vem mencionado no registo de baptismo, ocorrido na igreja paroquial da Póvoa a 2 de Março seguinte, a verdade é que toda a bibliografia, sustentada no dizer do Poeta, aponta o dia 19 de Janeiro, dia de S. Sebastião. E até acredito que fosse verdade. Tal discrepância de datas, que por aqueles tempos ocorria com certa frequência, era um estratagema comum para escapar à multa do registo tardio, já que aos emolumentos e ao imposto de selo do "civil" ninguém podia eximir-se.
E, já agora, vem ao caso o que se passou com Albano (Dias) Martins, outro poeta, que até era primo direito de “Eugénio”. De acordo com o registo de nascimento n.º 874 da Repartição do Registo Civil do Fundão, este também nasceu na Póvoa de Atalaia, «às doze horas do dia 6 de Agosto de 1930», numa casa da Rua da Devesa, sendo filho de Francisco Dias Rato, natural da Póvoa, e de Maria do Carmo Gonçalves Martins, natural da mesma freguesia, «onde estão domiciliados», neto paterno de António Dias Rato e de Teresa Felícia Rato, e materno de Abílio Martins e de Maria José Gonçalves. Foram testemunhas António Domingues, agricultor, e António Fontinhas, pedreiro, ambos solteiros e residentes na Póvoa de Atalaia, que assinaram a declaração.
Mas… mas… também aqui a narrativa histórica "mudou": Albano sempre disse que nasceu noutro lado e em dia diferente: na Q.ta do Olho de Boi da freguesia do Telhado, a 24 de Julho! E aqui está como a História oficial pode ser bem diferente da que acaba por prevalecer…
Mas, hoje, esqueçamos isso. PARABÉNS, MEU POETA»

terça-feira, 27 de dezembro de 2022

Devaneios cruzadísticos │ Eça de Queiroz

"A Cidade e as Serras" é o título de uma obra do escritor português Eça de Queiroz, pedido com a resolução do passatempo de palavras cruzadas, referente ao mês de Dezembro de 2022.


Recebi respostas de: Aleme; António Amaro; Antoques; Arjacasa; Bábita Marçal; Baby; Caba; Candy; Corsário; Crispim; El-Danny; Elvira Silva; Filomena Alves; Fumega; Gilda Marques; Homotaganus; Horácio; Jani; João Carlos Rodrigues; Joaquim Pombo; José Bento; José Bernardo; Juse; Mafirevi; Magno; Manuel Amaro; Manuel Carrancha; Manuel Ramos; Maria de Lourdes; My Lord; Neveiva; Olidino; O. K.; PAR DE PARES; Reduto Pindorama (Agagê, Joquimas e Samuca); Ricardo Campos; Rui Gazela; Russo; Salete Saraiva; Sepol; Seven; Socrispim; Solitário; Somar; Virgílio Atalaya e Zabeli.

A todos, obrigado.

Até ao próximo. 


quarta-feira, 14 de dezembro de 2022

Vem aí o Natal

Dia de Natal

Hoje é dia de ser bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.
É dia de pensar nos outros – coitadinhos – nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.

Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.

De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu
e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?)
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.)
Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente acotovela, se multiplica em gestos esfuziante,
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.

Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.

Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
E como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.

A oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra – louvado seja o Senhor! – o que nunca tinha pensado comprar.

Mas a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.
Cada menino abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora já está desperta.
De manhãzinha
salta da cama,
corre à cozinha em pijama.

Ah!!!!!!!

Na branda macieza
da matutina luz
aguarda-o a surpresa
do Menino Jesus.

Jesus,
o doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.

Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.
Já está!
E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.

Dia de Confraternização Universal,
dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.

António Gedeão, in "Antologia Poética"

terça-feira, 13 de dezembro de 2022

Vem aí o Natal!

«[…] A criança, com duas longas lágrimas na face magrinha, murmurou:
— Oh mãe! Jesus ama todos os pequenos. E eu ainda tão pequeno, e com um mal tão pesado, e que tanto queria sarar!
E a mãe, em soluços:
— Oh meu filho, como te posso deixar? Longas são as estradas da Galileia, e curta a piedade dos homens. Tão rota, tão trôpega, tão triste, até os cães me ladrariam da porta dos casais. Ninguém atenderia o meu recado, e me apontaria a morada do doce rabi. Oh filho! Talvez Jesus morresse... Nem mesmo os ricos e os fortes o encontram. O Céu o trouxe, o Céu o levou. E com ele para sempre morreu a esperança dos tristes.
De entre os negros trapos, erguendo as suas pobres mãozinhas que tremiam, a criança murmurou:
— Mãe, eu queria Ver Jesus...
E logo, abrindo devagar a porta e sorrindo, Jesus disse à criança:
— Aqui estou.»
 
Eça de Queiroz, “O Suave Milagre” (excerto), in Contos

quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

Lisboa, nos passos de Eça de Queiroz

Um passeio por alguns pontos da cidade de Lisboa na companhia de Eça de Queiroz:

A Casa Havaneza (Largo do Chiado)
Era, ao tempo de Eça de Queiroz, tabacaria, florista e agência de notícias. Na época tinha um letreiro em francês (tinha que ser) Maison Havanaise, depôt de tabacs, etc…entretanto, sofreu várias alterações.
É citada em vários romances do Eça. Escolhi este texto de “A Correspondência de Fradique Mendes”, onde o narrador vai encontrar-se pela primeira vez com o célebre Fradique:
[…] E, se eu desejava conhecer um homem genial, que esperasse ao outro dia, Domingo, às duas, depois da missa do Loreto, à porta da Casa Havaneza. — Valeu? Às duas, religiosamente, depois da missa! Bateu-me o coração. Por fim, com um esforço, como Novalis no patamar de Hegel, afiancei, pagando os sorvetes, que ao outro dia, às duas, religiosamente, mas sem missa, estaria no portal da Havaneza! […]  

Livraria Bertrand (Rua Garret, 73-75)
Este estabelecimento existe desde 1732, aqui localizado desde 1773. 
Na novela Alves & C,’, Godofredo avista à porta desta livraria, Alexandre Herculano: […] Um momento parou, a olhar com respeito um grande homem, um grande poeta, um grande historiador, que nesse momento, de velho casaco de lustrina e chapéu de palha, conversava à porta da Bertrand, com o seu enorme lenço de ramagens preparado para se assoar […]. Godofredo admirava-lhe os romances e o estilo. 
Igualmente n’ Os Maias esta livraria personaliza a narrativa geográfica quando no final do romance Carlos da Maia e João de Ega se deslocam a pé do Hotel Bragança, pelo Chiado, em direcção ao Rossio e à Avenida da Liberdade para verem as obras do seu prolongamento para norte da cidade: Foram descendo o Chiado. Do outro lado, os toldos das lojas estendiam no chão uma sombra forte e dentada. [...] Depois, diante da Livraria Bertrand, Ega, rindo, tocou no braço de Carlos: — Olha quem ali está, à porta da Baltresqui! Era o Dâmaso [...]  (p. 697).

Rua de S.Marçal
Perpendicular à Rua da Escola Politécnica, passa à ilharga do Instituto Britânico, que foi morada do célebre Alves dos Reis. Aqui residiam os Condes de Gouvarinho, d’Os Maias, ela amante de Carlos da Maia, ele par do reino e homem de Estado. A Gouvarinho, num tom amargo, queixava-se que, já por duas vezes, Carlos faltara ao rendez-vous em casa da Titi, sem lhe ter sequer escrito uma palavra; ela vira nisto uma ofensa, uma brutalidade; e vinha agora intimidá-lo, em nome de todos os sacrifícios que por ele fizera, a que aparecesse na Rua de S. Marçal, Domingo ao meio-dia, para terem uma explicação definitiva antes de ela partir para Sintra (p. 421).

lgreja dos Mártires (Rua Garrett)
Esta igreja do século XVIII, tida na sua raiz como a primeira igreja católica da cidade, foi totalmente arrasada com o terramoto de 1755. Aqui foi baptizado Camilo Castelo Branco, a 14 de Abril de 1825, e tal como no caso de Eça de Queiroz, com a omissão do nome da mãe. Esta igreja está ligada também ao poema de Fernando Pessoa "O sino da minha aldeia", que foi identificado pelo poeta como o da Igreja dos Mártires, muito perto da casa do Largo de São Carlos onde ele nasceu, do outro lado da Rua Serpa Pinto. Essa igreja foi palco de um episódio d’O Primo Basílio, quando Luísa corre a refugiar-se nela, durante o passeio célebre, a pé, que enceta com o Conselheiro Acácio, iniciado acima do Jardim de S. Pedro d’Alcântara, na embocadura da Rua da Rosa, passa pelo Chiado e termina no Rossio. Com hora marcada para se encontrar com o primo Basílio no «Paraíso» e acompanhada pelo empecilho tenaz do Conselheiro que não a larga, Luísa entrou na igreja desesperada. Ficou de pé debaixo do coro, calculando: "Demoro-me aqui, ele cansa-se de esperar e vai-se!" Por cima, reluziam vagamente os pigmentos de cristal dos lustres. Havia uma luz velada, igual, um pouco fosca. E as arquitecturas caiadas, a madeira muito lavada do soalho, as balaustradas laterais de pedra davam uma tonalidade clara e alvadia, onde destacavam os dourados da capela, os frontais roxos do púlpito, ao fundo dos reposteiros de um roxo mais escuro, e sob o dossel cor de violeta os ouros do trono.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2022

Devaneios cruzadísticos │ Eça de Queiroz

Em Outubro passado, o AlegriaBreve visitou a Fundação Eça de Queiroz, na Quinta de Tormes, em Santa Cruz do Douro, concelho de Baião. Foi uma das mais comedoras lembranças do viajante AlegriaBreve, talvez um dia volte, talvez não volte nunca, talvez até evite voltar. 

Aqui fica mais uma evocação do grande escritor que foi Eça de Queiroz. Nasceu a 25 de Novembro de 1845, na Póvoa de Varzim, filho de um magistrado, também ele escritor, e morreu a 16 de Agosto de 1900, em Paris. 

É considerado um dos maiores romancistas da literatura portuguesa, o primeiro e principal escritor realista português, renovador profundo e perspicaz da nossa prosa literária.

Entrou para o Curso de Direito em 1861, em Coimbra, onde conviveu com muitos dos futuros representantes da Geração de 70, já então aglutinados em torno da figura carismática de Antero de Quental, e onde acedeu às recentes ou redescobertas correntes ideológicas e literárias europeias: o Positivismo, o Socialismo, o Realismo-Naturalismo, sem, contudo, participar ativamente na que seria a primeira polémica dessa geração, a Questão Coimbrã (1865-1866).

Terminado o curso, iniciou a sua experiência jornalística como redator do jornal "O Distrito de Évora" (1866) e como colaborador na "Gazeta de Portugal", onde publicou muitos dos textos, postumamente reeditados no volume das "Prosas Bárbaras". 

No final desse ano, formou-se o "Cenáculo", de que viriam a fazer parte, nesta primeira fase, além de Eça, Jaime Batalha Reis, Ramalho Ortigão, Oliveira Martins e Salomão Saragga, entre outros. Após uma viagem pelo Oriente, para assistir à inauguração do canal de Suez como correspondente do "Diário Nacional", regressou a Lisboa, onde participou, com Antero de Quental e Jaime Batalha Reis, na criação do poeta satânico Carlos Fradique Mendes e escreveu, em 1870, em parceria com Ramalho Ortigão, o "Mistério da Estrada de Sintra". 

No ano seguinte, proferiu a conferência "O Realismo como nova expressão da Arte", integrada nas Conferências do Casino Lisbonense No mesmo ano, iniciou, novamente com Ramalho, a publicação de "As Farpas", crónicas satíricas de inquérito à vida portuguesa.

Em 1872, iniciou também a sua carreira diplomática, ao longo da qual ocuparia o cargo de cônsul sucessivamente em Havana (1872), Newcastle (1874), Bristol (1878) e Paris (1888). O afastamento do meio português - aonde só vinha muito espaçadamente - não o impediu de colaborar na nossa imprensa, com crónicas e contos. 

Aliás, foi em Inglaterra que Eça escreveu a parte mais significativa da sua obra, através da qual se revelou um dos mais notáveis artistas da língua portuguesa. Foi, pois, com o distanciamento crítico que a experiência de vida no estrangeiro lhe permitiu que concebeu a maior parte da sua obra romanesca, consagrada à crítica da vida social portuguesa, de onde se destacam "O Primo Basílio" (1878), "O Crime do Padre Amaro" (2.ª edição em livro, 1880), "A Relíquia" (1887) e "Os Maias" (1888), este último considerado a sua obra-prima. Parte da restante obra foi publicada já depois da sua morte, cuja comemoração do seu centenário teve lugar no ano 2000.

Na obra deste vulto máximo da literatura portuguesa, criador do romance moderno, distinguem-se usualmente três fases estéticas: a primeira, de influência romântica, que engloba os textos posteriormente incluídos nas "Prosas Bárbaras" e vai até ao "Mistério da Estrada de Sintra"; a segunda, de afirmação do Realismo, que se inicia com a participação nas Conferências do Casino Lisbonense e se manifesta plenamente nos romances "O Primo Basílio" e "O Crime do Padre Amaro"; e a terceira, de superação do Realismo-Naturalismo, espelhada nos romances "Os Maias" e "A Ilustre Casa de Ramires".

Convido os meus amigos a solucionar este passatempo de palavras-cruzadas e encontrar, a final, o título (5 palavras nas horizontais) de uma obra do escritor português Eça de Queiroz (1845-1900).

HORIZONTAIS: 1 – Sovas; Cova. 2 – Urbe; Uno. 3 – Envaidecido; Elemento de formação que exprime a ideia de cauda. 4 – Dinheiro [coloquial]; Querer. 5 – Sufixo nominal, de origem latina, que exprime a ideia de semelhança; Retirado. 6 – Difícil; Edição [abreviatura]; Vaticina; Aquelas. 7 – Mergulhas; Liga dos Combatentes [sigla]. 8 – Flor; Partida. 9 – Lado; Vales. 10 – Interjeição que exprime espanto; Patranhas. 11 – Bonitos; Centro [figurado].

VERTICAIS: 1 – Imoral; Saís. 2 – Nota musical; Resuma. 3 – Indivíduo que foi vítima da sua própria ambição; Joeira. 4 – Fusão da última sílaba de uma palavra com a primeira da palavra seguinte. Sopro. 5 – Qualidade; Causa; Rasga. 6 – Suportes; Tiras [Brasil]. 7 – Graúdo; Outra coisa [antiquado]; Pesar. 8 – Responsável; Animas. 9 – Indivisível; Passe. 10 – Salgada; Como. 11 – Meiga; Toque.

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Aceito respostas até dia 25 de Dezembro, inclusive, por mensagem particular no Facebook ou para o meu endereço electrónico, boavida.joaquim@gmail.com. Em data posterior, apresentarei a solução, assim como os nomes dos participantes. 

Vemo-nos por aqui?