A minha Lista de blogues

domingo, 16 de março de 2014

Valter Hugo Mãe fala de "Manhã Submersa"


«Vergílio Ferreira precisava de ser ressuscitado. Mesmo que muitos me digam que ele nem era simpático, andava de cara fechada, reagia pouco bem aos leitores, era severo, um daqueles cidadãos de antigamente cheios de infernos para se culpar e culpar os outros. O Vergílio Ferreira, ainda que difícil de aturar, precisava de ficar vivo e escrever sempre mais para traduzir o intraduzível de que tantas vezes dependemos. Essas máquinas todas sofisticadas que o mundo já tem são muito tolas se não servem para eternizar a vida de alguém. E não me venham dizer que os escritores são eternos, porque os livros do Vergílio Ferreira nunca estiveram tão bonitos [Quetzal] e não me parece que muita gente lhes esteja a pegar. Deve andar tudo maluco. Também urge ir pelas ruas mandar para a cadeia todos quantos não leem Vergílio Ferreira. 

Sou a favor de cadeias para crimes de desperdício de maravilha. Quem tem acesso à maravilha e a despreza não pode reclamar da falta de amores, da falta de felicidade.

Volto sempre ao Manhã Submersa. Passei um tempo em estadias breves num seminário de Famalicão, nunca fui forçado a nada, mas tive muito da tentação inexplicável de me sacrificar, abdicar de mim para cumprir uma função exclusivamente dedicada aos outros. Não era uma ideia burra, era apenas uma ideia exagerada. Achava que estar vivo efectivamente me obrigava, e achava que podei pensar e sentir acerca da miséria alheia me condenava à necessidade de intervir. Não poderia ser outra coisa senão um missionário.

Ainda vivi naquele Portugal de casas frias, as poucas cores, os adultos tristes, cansados, pobres, a esperança inteira e tão mal fundada na graça divina. Lembro-me bem da beatitude em meu redor, a senhoria tão religiosa, as tias, a família muito grande, a minha ingenuidade. Eu era um rapaz perfeito para a virtude. Tantas vezes me disseram que haveria de crescer para padre, com a fé toda e a vida resolvida de trabalho, tecto e comida. Tinha um medo profundo do que pudesse ser o futuro. Sentia que crescer era ir ao contrário da vontade ou das coisas naturais.

Hoje estive a rever o filme do Lauro António e poucos filmes me fascinam e magoam tanto quanto este. A sua plasticidade austera, o severo das personagens, a música desoladora e bela, tudo me impressiona. Compadeço-me com ver o rapaz, sempre a honra da família nas mãos, completamente encurralado pela candura, esforçando-se para aceitar um destino avesso.

Lembro- me de ler pela primeira vez o livro do Vergílio Ferreira e de tentar não dar um rosto ao miúdo, nem que fosse o meu. Tinha-lhe muita compaixão e sentia-me intimidado. De algum modo, não arranjava coragem para o conhecer ou nunca teria coragem para pensar que poderia ser eu. Compreendia tão bem porque cada coisa lhe acontecia, eram-me tão inteligíveis as suas razões e a sua tristeza que não podia chegar demasiado perto, para não tomar a ficção por realidade.

O Lauro António deu um rosto ao miúdo e podia ser que me salvasse definitivamente de me confundir com ele. Mas há qualquer coisa na maneira como a memória fica que se vai apoderando das diferenças e dizendo que elas são apenas aparentes. Com a idade, sobretudo no que diz respeito à infância, as coisas revelam-se- nos e quase sempre correspondem às nossas mais estranhas e inconfessáveis ideias. Eu sei que parte de mim deveria andar missionária em África. Isso nunca ninguém me apagará da consciência. Por outro lado, o ser um bocado lingrinhas e dado a dores de cabeça e todo ocupado com livros e histórias não promete muito um missionário. Provavelmente, ao fim de um mês, estaria com os paludismos todos e o calor demasiado esmaga-me o cérebro, e ia faltar-me a mordomia das casas que temos, o café, a roupa da Zara, a estreia de outro filme, os livros.

O que queria dizer era que o Lauro António também devia ser acusado de crime contra o desperdício da maravilha. Isto porque ficou grandemente pelo Manhã Submersa e O Vestido Cor de Fogo. Um homem que faz destes filmes não pode esquecer-se. Havia de haver escolas verdadeiras. Daquelas públicas que pudessem continuar a ser públicas, para toda a gente, integradoras, generosas, onde se ensinassem as pessoas exatamente para a maravilha. E, depois, havia toda a gente se pôr a ler o livro e a ver o filme. A tirar notas, fazer testes sobre isso como quem gosta de fazer testes, porque estudar ia ser perfeito. Era fundamental que pensássemos acerca daquela realidade e que pensássemos acerca de como um livro e um filme podem ser tão intensos e guardar dentro partes de gente como para sempre vivas, vigentes, com sentido.

O Vergílio Ferreira não estou a ver quem ressuscite. Resta ler. O Lauro António, desnecessitado de ressurreições, há que consciencializar-se das suas obrigações. Que isto de filmar como filma não lhe dá o direito de recusar-se a voltar ao grande cinema. Depois de Ferreira e Sena, José Cardoso Pires ou Urbano Tavares Rodrigues ficariam muito lindos.»

Valter Hugo Mãe, in “Jornal de Letras”, de 4 de Setembro de 2013

quinta-feira, 13 de março de 2014

Para os braços da minha mãe

[…] O salão era excessivamente grande para mim, os cães ladravam para o agouro das trevas, eu estava só no mundo. De longe, da minha infância perdida, veio a ternura da memória, a face cansada de minha MÃE, a luz suave de tudo para nunca mais. E uma saudade densa caiu-me, como um peso, na alma. E chorei longamente, um choro recolhido, só choro para mim. Chorei quanto pude, até que a noite foi minha irmã e eu fui irmão da noite, um diante do outro, calados e de mãos dadas.
Então lembrei-me, por entre o pranto, de um pequeno saco de figos que minha MÃE me dera à despedida. Procurei-o na saca da roupa, puxei-o para a cama. E o sabor deles, que me encheu a alma, trouxe-me a presença de um carinho morto, como se minha MÃE ali me estivesse velando e houvesse ainda aldeia à minha volta […].

Vergílio Ferreira, in “Manhã Submersa”

Não sei se o poeta e cantor Pedro Abrunhosa alguma vez leu a "Manhã Submersa", de Vergílio Ferreira. Se leu, então bem se poderia ter inspirado neste romance para criar esta bela obra.



domingo, 9 de março de 2014

Palavras-Cruzadas com História

Há um romance que, penso, todo o português conhece, é muito fácil identificar o seu autor e muitos já o leram. Porém, o meu desafio, hoje, não é descobrir o nome do romance, mas antes o seu subtítulo.

Então, meus amigos, a minha proposta é resolver este problema de Palavras-Cruzadas e, no final, descobrir o nome do subtítulo (quatro palavras, sendo duas na horizontal e outras tantas na vertical) de um romance de um escritor português do séc. XIX.
   

1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
1











2











3











4











5











6











7











8











9











10











11











  
HORIZONTAIS: 1 – Duração; Acontecimentos. 2 – Reze; Abundância [figurado]; Anel. 3 – Seguir; Gostos; Entrega. 4  Bolsa; Pôr ovos. 5 – Rumor [figurado]; Naquele lugar. 6 – Estado atmosférico; Composição poética lírica de assunto elevado, própria para ser cantada. 7 – Raízes; Bondosa; Artigo [abreviatura]. 8 – Avenida [abreviatura]; Dinheiro [coloquial]; Graceja. 9 – Inclinado; Decorar. 10 – Repete; Abundante. 11 – Primavera [pl., figurado]; Queimar.

VERTICAIS: 1 – Multa; Pequeno pátio. 2 – Grita; Religiosa. 3 – Culpada; Regras; Monarca. 4 – Padiola para condução de bagagens; Negro. 5 – Suplico; Presente de Natal. 6 – Partida; Discurso laudatório. 7 – Filtra; Aguça. 8 – Chão; Períodos. 9 – Contracção da preposição em + o artigo definido a; Existência; Descobertos. 10 – Brilhe; Corrigenda. 11 – Ecoara; Arrancar.

Clique Aqui para imprimir 

Aceito respostas até ao dia 16 do corrente mês, através do chat do FB ou no meu endereço electrónico: boavida.joaquim@gmail.com. Em dia posterior, apresentarei a solução, assim como os nomes dos decifradores.

sábado, 8 de março de 2014

Chama-lhe Mulher!


Hoje comemora-se o Dia Internacional da Mulher. Penso que há ainda um caminho a percorrer pelas mulheres até alcançarem o respeito e a igualdade a que têm direito. Por isso, justifica-se plenamente esta data comemorativa. Não deixem de lutar!

Para todas as mulheres, deixo aqui um poema muito bonito que dá uma boa definição de mulher. Um poema do poeta moçambicano Rui de Noronha (1909 – 1943), poeta injustamente esquecido.

MULHER 

Chamam-te linda, chamam-te formosa,
Chamam-te bela, chamam-te gentil...
A rosa é linda, é bela, é graciosa,
Porém a tua graça é mais subtil.

A onda que na praia, sinuosa,
A areia enfeita com encantos mil,
Não tem a graça, a curva luminosa
Das linhas do teu corpo, amor e ardil.

Chamam-te linda, encantadora ou bela;
Da tua graça é pálida aguarela
Todo o nome que o mundo à graça der.

Pergunto a Deus o nome que hei-de dar-te,
E Deus responde em mim, por toda parte:
Não chames bela – Chama-lhe Mulher!

Rui de Noronha

sexta-feira, 7 de março de 2014

Pero Vaz de Caminha - O homem e a sua circunstância histórica


É famosa a frase do filósofo espanhol Ortega y Gasset: "O homem é o homem e a sua circunstância". Isto é, não é possível considerar o ser humano sem levar em conta tudo o que o circunda, incluindo naturalmente o contexto histórico em que se insere.

Nesta medida, se há, na História de Portugal, figuras que decorreram da sua circunstância, Pero Vaz de Caminha enfileira prioritariamente esse grupo. 

Com efeito, não fora a carta que escreveu de Porto Seguro, a 1 de Maio do ano de Cristo de 1500 ao rei D. Manuel I, e a sua passagem na vida teria sido condenada ao completo anonimato.

Acabei de ler essa carta, “A Carta de Pero Vaz de Caminha, Estudos de Manuela Mendonça e Margarida Garcez Ventura”, uma edição de “Mar de Letras”, uma editora com sede na Ericeira, publicação que ocorreu no 5º Centenário da viagem de Pedro Álvares Cabral.

Em boa hora a li, pois fiquei com uma ideia mais precisa acerca do que foi esse acontecimento fantástico – o achamento da terra de Vera Cruz.

Trata-se de uma reedição da carta de Pero Vaz de Caminha, comentada. A Professora Doutora Manuel Mendonça faz um estudo exaustivo acerca da família próxima de Caminha, enquanto a Professora Doutora Margarida Garcês Ventura se centra na leitura fidedigna do texto, juntando, aqui e ali, um comentário susceptível de o esclarecer nos seus pontos mais nebulosos.

Aconselha-se a sua leitura, pois dá uma ideia muito impressiva como Pero Vaz de Caminha vê a Terra de Vera Cruz e, como já alguém já disse, estamos perante um “diploma natalício lavrado à beira do berço de uma nacionalidade futura”.

Foi redigida, durante uma semana, em forma de diário de bordo, como que uma carta de acontecimentos públicos, escrita em dias sucessivos, pelo menos depois de 26 de Abril até 1 de Maio. 

Uma das riquezas desta narrativa está justamente em ser um diário, pois que assim ficou registada sem qualquer dúvida que a descoberta do novo mundo e das novas gentes foi progressiva. Isto é, o que Pero Vaz de Caminha descreve ao rei não é uma história montada á posteriori.

A carta consta de 14 fólios de papel, todos escritos na frente e no verso com excepção do último, que termina assim: “Deste Porto Seguro da vossa Ilha de Vera Cruz, hoje, sexta-feita, primeiro dia de Maio de 1500”.

É imperdível a sua leitura. Pero Vaz de Caminha, o homem e a sua circunstância histórica!

terça-feira, 4 de março de 2014

Palavras cruzadas com História - Mia Couto

Solução do passatempo de Palavras Cruzadas de 23 de Fevereiro.

“KINDZU” e “FARIDA” são personagens do romance “Terra Sonâmbula”, de Mia Couto e eram estes os nomes pedidos. Eis a solução:


1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
1
A
B
A
M

K
A
R
A
T
E
2
T
E
M
O
R

I
A
R
A
S
3
R
I

R
E
U

N

P
C
4
O
R
N
A
M

M
E
D
I
O
5

A

L
O
T
A

A
Z
O
6
F

C

V
E
R

R

U
7
O
A
C

I
R
R
A

S

8
C
U
R
S
A

A
M
B
A
S
9
A
T

I

A
R
A

C
A
10
R
O
U
N
D

A
R
C
A
R
11
A
R
M
A
R
A

A
L
M
A

Recebi respostas, por email e no Facebook, de: Aleme, Anjerod, António Rodrigues Amaro, Arnaldo Sarmento, Bárbara Marçal, Elizabeth Sá, Emanuel Magno, João Alberto Bentes, Manuel Amaro, Manuel Caleiro, Mister Miguel, Olidino, Pedro Varandas e Russo. 

Obrigado a todos e até ao próximo passatempo!