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terça-feira, 26 de julho de 2022

Devaneios cruzadísticos │ José Craveirinha

"Xigubo", "Cela" e "Maria" são os 3 títulos de obras do escritor e poeta moçambicano José Craveirinha, pedidos com a resolução do passatempo de palavras cruzadas, referente ao mês de Julho de 2022.

Um cheirinho da sua poesia:

Pena

Zangado
acreditas no insulto
e chamas-me negro.

Mas não me chames negro.

Assim não te odeio.
Porque se me chamas negro
encolho os meus elásticos ombros
e com pena de ti sorrio.



Participaram: Aleme; António Amaro; Antoques; Arjacasa; Bábita Marçal; Baby; Caba; Candy; Corsário; Crispim; Donanfer II, Dupla Algarvia (Anjerod e Mister Miguel); El-Danny; Filomena Alves; Fumega; Gilda Marques; Homotaganus; Horácio; Jani; João Carlos Rodrigues; Joaquim Pombo; José Bento; José Bernardo; Juse; Mafirevi; Magno; Manuel Amaro; Manuel Carrancha; Manuel Ramos; Maria de Lourdes; My Lord; Neveiva; Olidino; O. K.; PAR DE PARES; Reduto Pindorama (Agagê, Joquimas e Samuca); Ricardo Campos; Rui Gazela; Russo; Salete Saraiva; Seven; Socrispim; Solitário; Somar; Virgílio Atalaya e Zabeli.

A todos, obrigado.
Até ao próximo.

sábado, 23 de julho de 2022

Olha, Daisy, quando eu morrer

Olha, Daisy, quando eu morrer tu hás-de
Dizer aos meus amigos ai de Londres,
Que embora não o sintas, tu escondes
A grande dor da minha morte. Irás de

Londres p’ra York, onde nasceste (dizes —
Que eu nada que tu digas acredito...)
Contar àquele pobre rapazito
Que me deu tantas horas tão felizes

(Embora não o saibas) que morri.
Mesmo ele, a quem eu tanto julguei amar,
Nada se importará. Depois vai dar

A notícia a essa estranha Cecily
Que acreditava que eu seria grande...
Raios partam a vida e quem lá ande!...


(A bordo do navio em que embarcou para o Oriente; uns quatro meses antes
do Opiário, portanto) Dezembro 1913

1915
“Três Sonetos” Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 2.

sexta-feira, 1 de julho de 2022

Devaneios cruzadísticos │ José Craveirinha

No ano em curso, celebra-se o centenário do nascimento de José Craveirinha, moçambicano, poeta, ensaísta e jornalista. Nasceu em 28 de Maio de 1922, em Lourenço Marques, hoje Maputo, e faleceu em 6 de Fevereiro de 2003, em Joanesburgo, África do Sul. O AlegriaBreve assinala o evento, dedicando-lhe o passatempo de Palavras-Cruzadas, referente ao mês de Julho.

Filho de pai algarvio, cuja família partira para Moçambique em 1908 em busca de fortuna, o escritor manteve ligações afectivas com Portugal. Recebeu condecorações dos presidentes de Portugal e de Moçambique, Jorge Sampaio e Joaquim Chissano, respectivamente.

Em 1991, tornou-se o primeiro autor africano galardoado com o Prémio Camões, o mais importante prémio literário da Língua portuguesa.  

Como jornalista trabalhou em "O Brado Africano", "Notícias",  "A Tribuna", "Notícias da Beira", "O Jornal" e "Voz de Moçambique", teve ainda colaboração em outros jornais e revistas de Moçambique, além da colaboração em jornais portugueses, brasileiros e de outros países estrangeiros. Em Moçambique utilizou mais de um pseudónimo. Foi também cronista desportivo.

Entre 1964 e 1968 esteve preso, em virtude da sua ligação à FRELIMO, onde teve a oportunidade de conhecer, na prisão, o pintor Malangatana.

A sua obra recebeu vários prémios, com destaque para o já citado Prémio Camões, em 1991 e, ainda, o Prémio Vida Literária, da AEMO-Associação dos Escritores Moçambicanos.

Apesar de a sua obra refletir a influência dos surrealistas, é fortemente marcada por todo um carácter popular e tipicamente moçambicano. A sua poesia possui um carácter social que radica nas camadas mais profundas do povo moçambicano.

José Craveirinha, sendo um grande poeta da língua portuguesa, é também reconhecidamente considerado um dos maiores poetas africanos.

Assim, neste mês, convido os meus amigos a solucionar este passatempo de palavras-cruzadas e encontrar a final, nas horizontais, 3 títulos de obras do escritor moçambicano José Craveirinha (1922-2003).


HORIZONTAIS: 1 – Rebento [Angola]; Tambor grande [Moçambique]. 2 – Sibila; Acertar. 3 – Fartas; Jeitosa. 4 – Fira; Gritos de alegria; Causas. 5 – Câmara; Falha. 6 – Fita. 7 – Singular; Paga. 8 – Círculo; Berne; Elemento de formação de palavras que traduz a ideia de obra. 9 – Cravas; Variedade de pêra [Botânica]. 10 – Voraz; Praia. 11 – Tarda; Torre.

VERTICAIS: 1 – Azar [popular]; Concordância. 2 – Aja; Prurido. 3 – Regra; Criticar. 4 – Estreita; Pão [Moçambique]; Simpatia [figurado]. 5 – Ala [Arquitectura]; Costumes. 6 – Devanear. 7 – Indignas; Estima. 8 – Entusiasmo [figurado]; Duro; Sulca. 9 – Gasta; Homens. 10 – Rinocerontes [antiquado]; Escolhes. 11 – Falas; Brinde.

Clique Aqui para abrir e imprimir o PDF.


Aceito respostas até dia 25 de Julho, inclusive, por mensagem particular no Facebook ou para o meu endereço electrónico, boavida.joaquim@gmail.com. Em data posterior, apresentarei a solução, assim como os nomes dos participantes. 

Vemo-nos por aqui?

domingo, 26 de junho de 2022

Devaneios cruzadísticos │ Antero de Quental

"O Palácio da Ventura" é o título de um poema do poeta português Antero de Quental, pedido com a resolução do passatempo de palavras cruzadas, referente ao mês de Junho de 2022.

O poema reza assim:

Sonho que sou um cavaleiro andante.
Por desertos, por sóis, por noite escura,
Paladino do amor, busco anelante
O palácio encantado da Ventura!

Mas já desmaio, exausto e vacilante,
Quebrada a espada já, rota a armadura...
E eis que súbito o avisto, fulgurante
Na sua pompa e aérea formosura!

Com grandes golpes bato à porta e brado:
Eu sou o Vagabundo, O deserdado...
Abri-vos, portas d’ouro, ante meus ais!

Abrem-se as portas d’ouro, com fragor...
Mas dentro encontro só, cheio de dor,
Silêncio e escuridão – e nada mais!


Participaram: Aleme; António Amaro; Antoques; Arjacasa; Bábita Marçal; Baby; Caba; Candy; Corsário; Crispim; Donanfer II, El-Danny; Filomena Alves; Fumega; Gilda Marques; Homotaganus; Horácio; Jani; João Carlos Rodrigues; Joaquim Pombo; José Bento; José Bernardo; Juse; Mafirevi; Magno; Manuel Amaro; Manuel Carrancha; Manuel Ramos; Maria de Lourdes; My Lord; Neveiva; Olidino; O. K.; PAR DE PARES; Reduto Pindorama (Agagê, Joquimas e Samuca); Ricardo Campos; Rui Gazela; Russo; Salete Saraiva; Seven; Socrispim; Solitário; Somar; Virgílio Atalaya e Zabeli.

A todos, obrigado.
Até ao próximo.

sexta-feira, 3 de junho de 2022

Acontece-te

de João Luís Barreto Guimarães (n. 3 de Junho de 1967)

Acontece-te
acordares antes do teu braço acordar?
Alguma vez te ligaram para vender silêncio?
Para onde vão as palavras
assim que as soltas no ar? Retiras a crosta à ferida
para manter a
dor acesa? Por quanto mais tempo haverá
ignorantes
no poder? O amor é vermelho ou
também existe em preto? A rotina que satura é
a mesma que protege? Comprar tempo
num parquímetro
permite viver mais tempo? Se o gato te arranha
aproveitas para ler a
glicemia? Ao terminares a viagem há
uma placa com o teu nome? Se Deus fosse mulher
teria descansado ao domingo? Pensa bem: se Deus fosse
mulher teria descansado
ao domingo?

- in Movimento, Quetzal, 2020.

quarta-feira, 1 de junho de 2022

Devaneios cruzadísticos │ Antero de Quental

O poeta Antero de Quental nasceu há 180 anos e, por isso, o AlegriaBreve aproveita para, mais uma vez, homenagear o genial poeta do século XIX, a quem alguns amigos, igualmente geniais, o achavam santo, o santo Antero.

O ilustre historiador Oliveira Martins escreveu: «Este homem, fundamentalmente bom, se tivesse vivido no século VI ou no século XÏII, seria um dos companheiros de S. Bento ou de S. Francisco de Assis.»

Eça de Queirós, quando queria saber notícias do poeta, interrogava-se geralmente deste modo: «E santo Antero, como vai?».

Antero de Quental nasceu em Ponta Delgada, em 18 de Abril de 1842, filho do combatente liberal Fernando de Quental e de sua mulher Ana Guilhermina da Maia.

Estudou na Universidade de Coimbra, onde se licenciou em direito em 1864. Foi a principal figura na célebre Questão Coimbrã, em que Antero e outros poetas foram atacados por António Feliciano de Castilho (seu antigo professor), por instigarem a revolução intelectual. Como resposta, Antero publicou os opúsculos Bom Senso e Bom Gosto.

No ano da Comuna de Paris (1871), em Lisboa, Antero de Quental organizou as célebres Conferências do Casino, que marcaram o início da difusão das ideias socialistas e anarquistas em Portugal. Coube-lhe a responsabilidade de apresentar a 2ª Conferência, com o título Causas da Decadência dos Povos Peninsulares, que teve lugar no dia 27 de Maio de 1871.

Influenciado pelas ideias revolucionárias de Proudhon, Antero de Quental foi ainda um dos principais impulsionadores do chamado grupo do Cenáculo, também conhecido como Geração de 70, que reunia jovens escritores e intelectuais de vanguarda.

Os sonetos de Antero são considerados por muitos críticos dos melhores da Língua portuguesa. A complexidade do seu espírito fez nascer uma poesia escrita com generosidade e dúvidas angustiantes, com sangue e lágrimas.

Em Junho de 1891, o poeta regressou a Ponta Delgada, onde veio a falecer no dia 11 de Setembro de 1891, desalentado da vida, sem esperança, num banco de jardim, junto ao Convento de Nossa Senhora da Esperança.


Neste mês, convido os meus amigos a solucionar este passatempo de palavras-cruzadas e, a final, encontrar o título (4 palavras nas horizontais) de um poema do poeta português Antero de Quental (1842 - 1891).


HORIZONTAIS: 1 – Fantasias [figurado]; Principal. 2 – Aula. 3 – Mais [antiquado]; Vara para tirar fruta das árvores; Sopro. 4 – Causas; Fale [coloquial]; Povo muçulmano da região do Darfur, no Sudão [Etnografia]. 5 – Exorbita; Calote. 6 – Soberano; Naquele lugar. 7 – Dinheiro [figurado]; Tira geralmente de couro que se prende à coleira para conduzir os cães. 8 – Auto-estima; Interjeição que exprime satisfação [Brasil]; Muitos [figurado]. 9 – Contracção de De+a; Obsta; Grito de alegria. 10 – Destino. 11 – Glorifiquei; Idade.

VERTICAIS: 1 – Rebentada; Espiga. 2 – Rude. 3 – Abreviatura de opus; Folga [figurado]; Passe. 4 – Graça [figurado]; Fecha parcialmente (as asas) para descer mais depressa [ave]; Muitos [figurado]. 5 – Bofetada [popular]; Unidade monetária da Serra Leoa. 6 – O messias aguardado, na tradição muçulmana [Religião]; Tio [linguagem infantil]. 7 – Mordazes [figurado]; Que não é discutido por pudor. 8 – Mulher solteira [coloquial]; Elemento de formação pospositivo, de origem latina, que ocorre sobretudo em verbos de sentido frequentativo; Valia. 9 – Símbolo de resistividade eléctrica [Física]; Mordam; Prefixo que exprime a ideia de privação. 10 – Ajuda. 11 – Velhaco; Unas.

Clique Aqui para abrir e imprimir o PDF.


Aceito respostas até dia 25 de Junho, inclusive, por mensagem particular no Facebook ou para o meu endereço electrónico, boavida.joaquim@gmail.com. Em data posterior, apresentarei a solução, assim como os nomes dos participantes. 

Vemo-nos por aqui?

quinta-feira, 26 de maio de 2022

Devaneios cruzadísticos │ Os Lusíadas

"Estavas, linda..." são as duas palavras do primeiro verso de uma das 18 estrofes que o poeta português Luís de Camões dedica a Inês de Castro, em "Os Lusíadas", Canto III, pedido com a resolução do passatempo de palavras cruzadas, referente ao mês de Maio de 2022.

(...)
120
«Estavas, linda Inês, posta em sossego,
De teus anos colhendo doce fruito,
Naquele engano da alma, ledo e cego,
Que a Fortuna não deixa durar muito,
Nos saudosos campos do Mondego,
De teus fermosos olhos nunca enxuito,
Aos montes insinando e às ervinhas
O nome que no peito escrito tinhas

(...)


Participaram: Aleme; António Amaro; Antoques; Arjacasa; Bábita Marçal; Baby; Caba; Candy; Corsário; Crispim; El-Danny; Elvira Silva; Filomena Alves; Fumega; Gilda Marques; Homotaganus; Horácio; Jani; João Carlos Rodrigues; Joaquim Pombo; José Bento; José Bernardo; Juse; Mafirevi; Magno; Manuel Amaro; Manuel Carrancha; Manuel Ramos; Maria de Lourdes; My Lord; Neveiva; Olidino; O. K.; Paulo Freixinho; PAR DE PARES; Reduto Pindorama (Agagê, Joquimas e Samuca); Ricardo Campos; Rui Gazela; Russo; Salete Saraiva; Seven; Socrispim; Solitário; Somar; Virgílio Atalaya e Zabeli.

A todos, obrigado.
Até ao próximo.

quarta-feira, 11 de maio de 2022

CORAÇÃO DO DIA, memória de António Lobo Antunes

O poeta Eugénio de Andrade está muito doente. É meu amigo e não tenho coragem de o visitar. Quando ia à sua casa, no Passeio Alegre, um espaço de cuidadosa brancura diante das palmeiras e do mar, recebia-me com vinho fino, biscoitos, livros, pequenas atenções que me tocavam, conforme me tocava a sua delicadeza, a sua fidalguia. A mesa de mármore para escrever. Nunca me disse mal de ninguém e a vaidade que o habitava, tão ingénua, comovia-me. Em certo sentido conservou-se sempre um camponês da Beira Baixa natal, feito de puerilidade e manha, gerindo ciosamente a sua obra a fingir-se desinteressado, distantíssimo e, no entanto, alerta como um coelho bravo. Escrevemo-nos durante anos, falávamos ao telefone com frequência, a sua ternura com as minhas filhas comovia-me. E, periodicamente, vinham versos, livros, retratos dedicados, o seu rosto a carvão pelo escultor José Rodrigues que, como dizia, «sabe a minha cara de cor». Pediu-me para fazer uma sessão de fotografias com ele: e Dario Gonçalves, pessoa muito querida sua, veio com a máquina. O Eugénio pediu-lhe um momento, desapareceu, e regressou, todo pinoca, para os bonecos. Ele mesmo escolheu os ângulos, as posições: e lá fiquei, sentado, com o Eugénio de pé atrás de mim, a mão espalmada no meu ombro, naquela pose para o Futuro que gostava de assumir. Normalmente falávamos de poesia, pedia-me que lhe lesse o que compunha, discutíamos as correcções que ele encaixava a cada edição nova e que, por vezes, me não agradavam: aceitava as críticas numa humildade de criança apanhada em falta, experimentávamos outras palavras, repetíamos tudo. A sua solicitude e a sua ternura em relação a mim eram infinitas. Já doente e estando eu em Roma para um prémio, o padre e poeta José Tolentino Mendonça, que ele apreciava grandemente e é um dos poucos homens que admiro e respeito, contava-me que o Eugénio o chamava, preocupado que eu estivesse bem. Punha, na camaradagem, um desvelo fraterno, ainda que fosse um homem rugoso, cheio de caprichos, capaz de uma violência fria, insuportável para quem não estimava, e de uma coragem física que, em geral, se não lhe adivinhava. Dele recebi durante anos e anos inúmeras provas de estima. Censuro-me não o visitar agora: é que não suporto vê-lo acabar assim, reduzido a um pobre fantasma titubeante. A ele, que tanto prezava a beleza e a sua própria beleza

(o Eduardo Lourenço, amigo de ambos
– E então chegou-nos a Coimbra aquele Rimbaud)
a doença resolveu destruí-lo no que mais lhe importava, tornando-o um Rimbaud desfigurado, dependente, trágico, o «cesto roto» que Cesário Verde, uma das suas paixões, evocava a respeito de si mesmo, enquanto a tuberculose o «escangalhava»: «Entra-me a chuva, entra-me o vento no corpo escangalhado». Ao Eugénio prefiro lembrá-lo como o conheci: orgulhoso, altivo, falando-me de jacarandás e frésias, amando
(e era verdade)
o «repouso no coração do lume». E, depois, havia pequenos actos que o definiam inteiro: uma das ocasiões em que fui ao Porto encontrei um livro de Jorge de Sena, um livro póstumo, horrível, em que Sena atacava companheiros de viagem (Cesariny e Vitorino Nemésio, por exemplo, muito melhores artistas do que ele) de um modo tão vil que me indignou. Referi o livro ao Eugénio. Ele ficou longamente em silêncio e depois tirou o seu exemplar debaixo de um móvel e pouso-o no sofá. Segredou
– Tinha-o aqui escondido, sabe, porque não queria que pensasse mal do Jorge.
Eu nunca conheci Jorge de Sena e no entanto na boca do Eugénio era sempre o Jorge, tal como, para o Zé Cardoso Pires, Alves Redol era sempre o António, Carlos de Oliveira o Carlos, e tão-pouco conheci Redol ou Oliveira. Mas este acto do Eugénio define-o bem: a defesa intransigente daqueles que amava, a sua preocupação em cuidar-lhes do perfil com um carinho idêntico ao que punha no cuidar do seu. Tinha a paixão da amizade, que poucos lhe mereciam, aliás, e uma rara, permanente fidelidade a ela. Reparo agora que estou a relatar tudo isto no passado, como se o Eugénio tivesse morrido. Talvez porque o homem que continua vivo não é ele. Talvez por pudor meu. Talvez porque o fim de um amigo me seja difícil. Talvez porque me custa não vir abrir-me a porta se tocar à campainha, subir as escadas e dar, nas paredes, com múltiplas representações suas por múltiplos pintores, dúzias de Eugénios de todas as idades, aparências, feitios, de qualidade variável, bons, maus, assim-assim, as dúzias de Eugénios, obsessivamente repetidos de que o encantava rodear-se. No meio de tanto Eugénio imóvel só ele se mexia. Deixava escapar para um, para outro, um soslaiozinho satisfeito, contente de ser vinte, de ser trinta, de ser quarenta, de ser uma multidão de criaturas que formavam uma espécie de guarda de honra à sua volta, à medida que desrolhava o vinho fino, me servia um cálice

Eugénio de Andrade visto por Emerenciano (1988)

– Não posso beber
me chegava um guardanapo de linho ofuscante, um prato de biscoitos, taças de bombons, anunciava
– Comprei-os para si
ocupava a poltrona puxando a manta sobre os joelhos
– Este frio
relanceava as árvores, as ondas, gaivotas cinzentas que gritavam, sacudia a mão num gestozinho precioso de prestidigitador e adiantava o peão do rei do início de uma frase. Duas ou três horas depois acompanhava-me à saída como se avançássemos em corredores de palácio. E de certo modo aquele edifício pequeno era de facto um palácio. O seu palácio e ele um velho conde entre cortejos de glórias inventadas e reais. Quanto mais inventadas mais reais. Da rua, as janelas acesas pareciam mostrar uma casa vazia. Antes assim: se topasse alguém nas cortinas não saberia distinguir se era o Eugénio ou uma das suas representações encaixilhadas quem me acenava de cima. Ou então ele só existia quando estávamos juntos. Se não estávamos suponho que não passava de uma das palmeiras do Passeio Alegre, dobrando-se para a direita e para [a] esquerda consoante o vento e os borrifos do mar.

Texto publicado na revista «Visão», em 6 de Maio de 2000, e posteriormente incluído no «Terceiro Livro de Crónicas» [de António Lobo Antunes], Publicações Dom Quixote, 2005

domingo, 1 de maio de 2022

Devaneios cruzadísticos │ Os Lusíadas

Durante o ano de 2022 celebram-se, ao longo ano e em diversos locais, eventos celebrativos da publicação, há 450 anos, de "Os Lusíadas", de Luís de Camões, o genial poeta. O AlegriaBreve assinala a data, dedicando-lhe, com orgulho, o passatempo de Palavras Cruzadas do mês de Maio.

Oh! Que famintos beijos na floresta, / E que mimoso choro que soava! / Que afagos tão suaves, que ira honesta, / Que em risinhos alegres se tornava. /…” Canto IX, est. 83.

Em 1572, sexo era, no entanto, uma palavra interdita. O Santo Ofício da Inquisição reinava em absoluto sobre as matérias da carne e do espírito. A luxúria conduzia à tortura e à fogueira. Qual terá sido a reacção do Santo Ofício aos versos de Camões? 

Frei Bartolomeu Ferreira, censor da Inquisição, escreveu: « […] Vi por mandado da Santa e Geral Inquisição estes dez Cantos dos Lusíadas de Luís de Camões, dos valerosos feitos em armas que os Portugueses fizeram em Ásia e Europa, e não achei neles cousa algũa escandalosa, nem contraria à fé e aos bons costumes […] »

Como foi possível? 450 anos depois, o enigma persiste. A 1ª Ed. d´Os Lusíadas foi uma espécie de milagre. O que permitiu a Camões obter da Inquisição um parecer elogioso para blasfémias tão provocadoras?

São conhecidas várias teorias que explicam o "milagre". Curiosa é uma "teoria" recente, plasmada numa obra de José Saramago, com o título "Que farei com este livro", escrita em 1980, na qual o escritor apresenta, obviamente de forma ficcional, a sua explicação para autorização da publicação de "Os Lusíadas" pelo Santo Ofício. Li com muito interesse e deixo a sugestão da sua leitura.

Assim, neste mês, convido os meus amigos a solucionar este passatempo de palavras-cruzadas e, a final, encontrar 2 palavras (nas horizontais) do primeiro verso de uma das 18 estrofes que o poeta português Luís de Camões (1524 – 1580) dedica a Inês de Castro, em “Os Lusíadas”, Canto III.


HORIZONTAIS: 1 – Pessoa estranha [figurado] (plural); Pulas. 2 – Macio; Sentimental. 3 – Permanecias; Amor [popular]. 4 – Grande quantidade [figurado]; Risco imprevisível [Direito]; Único. 5 – Larga; Simples. 6 – Falhe; Bela. 7 – Acordo de Empresas [sigla]; Ocupar. 8 –Mais [antiquado]; Gritara [popular]; Sopro. 9 – Entusiasmo [figurado]; Toma juízo [regionalismo] (Minho). 10 – Assinala; Pronunciado. 11 – Brindes [figurado]; Campo.

VERTICAIS: 1 – Longe; Penhas. 2 – Mirada; Maçador [figurado]. 3 – Dita; Valho. 4 – Convém; Artigo; Símbolo de neodímio. 5 – Poeta; Embarcação de recreio, de motor ou de velas. 6 – Muda; Atiras [Brasil, coloquial]. 7 – Declínio gradual e lento da febre [Medicina]; Toca. 8 – Andar; Estimulante. 9 – Consentimento; Junta; Indigna. 10 – Simpatias [figurado]; Desgraças [figurado]. 11 – Que tem a ponta da cauda cortada [Beiras, Trás-os-Montes]; Desgosto.

Clique Aqui para abrir e imprimir o PDF.



Aceito respostas até dia 25 de Maio, inclusive, por mensagem particular no Facebook ou para o meu endereço electrónico, boavida.joaquim@gmail.com. Em data posterior, apresentarei a solução, assim como os nomes dos participantes. 

Vemo-nos por aqui?

terça-feira, 26 de abril de 2022

Devaneios cruzadísticos │ Pepetela

"O Planalto e a Estepe" é o título de uma obra do escritor angolano Pepetela (1941), pedido com a resolução do passatempo de palavras cruzadas, referente ao mês de Abril de 2022.

Baseada em factos verídicos, ficcionados pelo autor, esta história põe em evidência a vacuidade de discursos ideológicos e palavras de ordem, que se revelam sem relação com a prática. Uma viagem no tempo e no espaço, o de uma geração cansada de guerra num mundo cada vez mais pequeno.


Participaram: Aleme; António Amaro; Antoques; Arjacasa; Bábita Marçal; Baby; Caba; Candy; Corsário; Crispim; Donanfer II, Dupla Algarvia (Anjerod e Mister Miguel); El-Danny; Filomena Alves; Fumega; Gilda Marques; Homotaganus; Horácio; Jani; João Carlos Rodrigues; Joaquim Pombo; José Bento; José Bernardo; Juse; Mafirevi; Magno; Manuel Amaro; Manuel Carrancha; Manuel Ramos; Maria de Lourdes; My Lord; Neveiva; Olidino; O. K.; PAR DE PARES; Reduto Pindorama (Agagê, Joquimas e Samuca); Ricardo Campos; Rui Gazela; Russo; Salete Saraiva; Seven; Socrispim; Solitário; Somar; Virgílio Atalaya e Zabeli.

A todos, obrigado.
Até ao próximo.

segunda-feira, 18 de abril de 2022

Antero de Quental nasceu há 180 anos


Nascido faz hoje 180 anos, Antero de Quental (Ponta Delgada, 18 de Abril de 1842 — 11 de Setembro de 1891) poria termo à sua vida, como outros homens de génio. Sobre o assunto, pensou e escreveu Manuel Laranjeira — que viria também a causar a sua própria morte:

O PESSIMISMO NACIONAL

“Diz-se que a sociedade portuguesa vai atravessando uma crise sobreaguda de sombrio pessimismo, o que é uma verdade de todos os dias; e há quem afirme com argumentos cheios de brilho literário que esse pessimismo é o sintoma claro e indiscutível duma degenerescência do nosso povo, o que é uma hipótese, se não totalmente errónea, pelo menos infinitamente duvidosa e muito discutível.

Decerto: numa terra onde homens de génio, como Antero de Quental, Camilo e Soares dos Reis, têm de recorrer ao suicídio como solução final duma existência de luta inglória e sangrenta; numa sociedade onde o pensamento representa um capital negativo, um fardo embaraçoso para jornadear pelo caminho da vida; num povo onde essa minoria intelectual, que constitui, o orgulho de cada nação, se vê condenada a cruzar os braços com inércia desdenhosa, ou a deixá-los cair desoladamente, sob pena de ser esterilmente derrotada; num país, onde a inteligência é um capital inútil onde o único capital deveras produtivo é a falta de vergonha e a falta de escrúpulos - o diagnóstico impõe-se “de per si“.

O desalento e a descrença alastram. No ar respira-se o cepticismo. E à medida que o mal-estar colectivo se vai resolvendo quotidianamente em tragédias individuais, o sentido da vida, em Portugal, parece ser cada vez mais fúnebre e mais indicativo de que vamos arrastados, violentamente arrastados por um mau destino, para a irreparável falência e de que nos afundamos definitivamente.

Mas porquê? O mal, na verdade, será a morte? Estará isto, como se diz expressiva e resumidamente, irremediavelmente perdido? Estará a raça portuguesa (deixem-me exprimir assim), como agregado autónomo, como indivíduo colectivo, condenada a desaparecer integralmente, isto é, a ser dissolvida na massa comum da espécie humana? Será Portugal, na frase cruel do ”lord“ inglês, - uma nação morta, destinada a ser devorada pelas nações vivas?

MANUEL LARANJEIRA (Vergada, Mozelos, Santa Maria da Feira, 17 de Agosto de 1877 - Espinho, 22 de Fevereiro de 1912), médico, poeta, dramaturgo e articulista, em “O Pessimismo Nacional”.

sexta-feira, 1 de abril de 2022

Devaneios cruzadísticos │ Pepetela

Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos, conhecido pelo pseudónimo de Pepetela, nasceu em Benguela, no dia 29 de Outubro de 1941 - é o escritor que o AlegriaBreve elegeu para homenagear este mês.

Pepetela é descendente de uma família de portugueses nascidos em Angola. O escritor cresceu num ambiente da classe média, mas frequentou uma escola primária com crianças de várias raças e classes. Ele diz que a cidade de Benguela lhe proporcionou mais oportunidades para conhecer angolanos de todas as raças, porque era a cidade angolana mais multirracial daquela época.

Em Lisboa, Pepetela frequentou, a partir de 1958, o curso de engenharia no Instituto Superior Técnico, mudando em 1960 para o curso de letras na Universidade de Lisboa. Já em 1961, Pepetela fez a opção política que viria a mudar o rumo da sua vida e a marcar toda a sua obra, tornando-o um narrador de uma história de Angola que conhece. Pepetela tornou-se militante do MPLA em 1963.

A sua obra reflecte sobre a história contemporânea de Angola e os problemas que a sociedade angolana enfrenta. Durante a longa guerra, Pepetela lutou juntamente com o MPLA para a libertação da sua terra natal.

A sua obra, nos anos 2000, critica a situação angolana, textos que contam com um estilo satírico incluem a série de romances policiais denominada "Jaime Bunda". As suas obras recentes revelam uma crítica áspera das classes dominantes de Angola.  Licenciado em Sociologia, Pepetela é docente da Faculdade de Arquitectura da Universidade Agostinho Neto.

Em 1997, foi galardoado com o Prémio Camões pelo conjunto da sua obra. Pepetela foi o primeiro autor angolano e segundo autor africano a ser distinguido com este prémio tão prestigiado. Foi o autor mais jovem a receber este prémio. 

Assim, neste mês, convido os meus amigos a solucionar este passatempo de palavras-cruzadas e, a final, encontrar o título de uma obra (5 palavras todas na horizontal) do escritor angolano Pepetela (1941).


HORIZONTAIS: 1 – Irra! [Angola]; Fama [figurado]. 2 – Chã; Bata. 3 – Grito de alegria; Tolerados [figurado]. 4 – Desenvolve; Fora de moda [coloquial]. 5 – Passe; Progredi; Dura. 6 – Descompostura [figurado]; Una. 7 – Paga; Porcelana antiga de cor amarela e de origem chinesa; Estorvo. 8 – Convindo; Pradaria. 9 – Persistente; Prefixo que exprime a ideia de afastamento. 10 – Andar; Prostração. 11 – Estrema; Maneira [figurado].

VERTICAIS: 1 – Pão [Moçambique]; Mandioca-doce. 2 – Ambientes; Atribuir. 3 – Lava áspera e escoriácea constituída por fragmentos irregulares; Perfume. 4 – Indígena; Bigorna de aço, sem hastes, usada pelos ferradores e nos estabelecimentos de cunhar moedas. 5 – Atarracada; Quinteiro. 6 – Interjeição que exprime satisfação [popular]; Arreio. 7 – Lúgubre [figurado]; Censura [figurado]. 8 – Moleste; Preguiça. 9 – Ofertas; Ministério da Saúde [sigla]. 10 – Encontro; Afago. 11 – Ocaso; Estavam a fazer-se.

Clique Aqui para abrir e imprimir o PDF.



Aceito respostas até dia 25 de Abril, inclusive, por mensagem particular no Facebook ou para o meu endereço electrónico, boavida.joaquim@gmail.com. Em data posterior, apresentarei a solução, assim como os nomes dos participantes. 

Vemo-nos por aqui?

sábado, 26 de março de 2022

Devaneios cruzadísticos │ Mário de Carvalho


"ÁGUA EM PENA DE PATO" é o título de uma obra do escritor português Mário de Carvalho (1944), pedido com a resolução do passatempo de palavras cruzadas, referente ao mês de Março de 2022.

Nesta obra, com o sub-títtulo "Teatro do Quotidiano", o autor quis escrever uma peça que fosse o «reflexo» do Portugal pós-revolucionário. Nela traça as desventuras de uma geração que, passado o entusiasmo da Revolução, constata com amargura a distância que separa as esperanças por ela suscitadas da realidade.


Participaram: Aleme; António Amaro; Antoques; Arjacasa; Bábita Marçal; Baby; Caba; Candy; Corsário; Crispim; Donanfer II, El-Danny; Elvira Silva; Fernando Semana; Filomena Alves; Fumega; Gilda Marques; Homotaganus; Horácio; Jani; João Carlos Rodrigues; Joaquim Pombo; José Bento; José Bernardo; Juse; Mafirevi; Magno; Manuel Amaro; Manuel Carrancha; Maria de Lourdes; My Lord; Neveiva; Olidino; O. K.; PAR DE PARES; Reduto Pindorama (Agagê, Joquimas e Samuca); Ricardo Campos; Rui Gazela; Russo; Salete Saraiva; Seven; Socrispim; Somar; Virgílio Atalaya e Zabeli.

A todos, obrigado.
Até ao próximo.

sexta-feira, 11 de março de 2022

Lembrando Manuel da Fonseca

Em 11 de Março de 1993, faleceu Manuel da Fonseca,camarada de Partido e de luta.Manuel da Fonseca é uma figura marcante da cultura portuguesa e a sua obra literária,ficarão como marcos maiores da nossa literatura.Um intelectual,ligado ao povo alentejano,retrata.o ,na sua vida ,como nenhum outro: O Alentejo do latifúndio explorador e amigo do regime fascista,do trabalho de sol-a-sol,do desemprego e das jornas de miséria,da repressão brutal,das prisões e assassinatos.A sua opção pelo comunismo foi fortemente influenciada pelo seu convívio com outros intelectuais comunistas como Soeiro Pereira Gomes e Alves Redol.

Manuel da Fonseca fez parte dos célebres passeios no Tejo,organizados por Redol e Dias Lourenço ,passeios que tinham como objectivo actividades políticas, de reunião para iludir a vigilância da PIDE.

Em 1964,Manuel da Fonseca era presidente da Sociedade Portuguesa de Escritores e ousou atribuir o Grande Prémio da Novelística a Luandino Vieira,militante do MPLA,na altura preso no Tarrafal,atrevimento que deu origem ao encerramento da Sociedade e vários membros da direcção foram presos ,entre eles,Manuel da Fonseca.

Um escritor,que esteve sempre com o Partido Comunista Português e o seu exemplo de firmeza ideológica uma referência para todos os militantes comunistas.

Obras como Cerro Maior,Anjo do Trapézio ,Tempo de Solidão,O Fogo e as Cinzas ,Rosa dos Ventos ,Seara de Vento e livros de poemas,além de outros,são obras referenciais do acervo de Manuel da Fonseca .


ANTES QUE SEJA TARDE

Amigo
tu que choras uma angústia qualquer
e falas de coisas mansas como o luar
e paradas
como as águas de um lago adormecido,
acorda!

Deixa de vez
as margens do regato solitário
onde te miras
como se fosse a tua namorada.

Abandona o jardim sem flores
desse país inventado
onde tu és o único habitante.

Deixa os desejos sem rumo
de barco ao deus-dará
e esse ar de renúncia
às coisas do mundo.

Acorda,amigo,
liberta-te dessa paz podre de milagre
que existe
apenas na tua imaginação.

Abre os olhos e olha
abre os braços e luta!
Amigo,antes da morte vir
nasce de vez para a vida.

Manuel da Fonseca

quarta-feira, 9 de março de 2022

Em tempos de guerra



O Menino da sua mãe
No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas trespassado
- Duas, de lado a lado -,
Jaz morto, e arrefece.
Raia-lhe a farda o sangue.
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.
Tão jovem! que jovem era!
(Agora que idade tem?)
Filho único, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
«O menino de sua mãe»
Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lhe a mão. Está inteira
E boa a cigarreira.
Ele é que já não serve.
De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço... deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.
Lá longe, em casa, há a prece:
«Que volte cedo, e bem!»
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto, e apodrece,
O menino da sua mãe.

Fernando Pessoa, Maio de 1926, in Poesia 1918-1930, Ed. Assírio & Alvim

Quadro " O Menino da sua mãe" │ Almada Negreiros │ Pórtico
da entrada da Faculdade de Letras de Lisboa

quarta-feira, 2 de março de 2022

Mário de Carvalho revisitado

Parece-me oportuno, no mês em que o AlegriaBreve homenageia o escritor Mário de Carvalho, dedicando-lhe o passatempo de Palavras-Cruzadas, revisitar o que eu achei do seu romance "Um Deus passeando pela brisa da tarde", quando o li em Outubro de 2017.

«Início desconfiado, final surpreso. Estou a falar do romance “Um deus passeando pela brisa da tarde”, de Mário de Carvalho.

Embora o autor declare (com ironia?) que não se trata de um romance histórico, a verdade é que a narrativa está carregada de História. Arriscaria dizer que fictício só o nome da cidade onde tudo acontece. De facto, Tarcísis nunca existiu, embora o autor nos deixe leves pistas para podermos imaginar a sua localização (pp . 23 e 249).

A acção desenrola-se algures na região da Lusitânia, no sul da Hispânia, no sec. II d.c., no tempo em que era imperador Marco Aurélio (161-180).

Todavia, o tempo da escrita é posterior, quando Cómodo (180-192) já imperava em Roma. O romance é contado na primeira pessoa pelo protagonista, Lúcio Valério Quíncio, que foi magistrado justamente em Tarcisis.

Lúcio Valério é romano, bom homem, agnóstico, exerce o cargo de magistrado (juridico e executivo) com elevado sentido de responsabilidade. Todavia, diverge do costume por se descurar na religiosidade e no gosto pelos artifícios de entretenimento da Roma Antiga. 

A sua principal atenção centra-se nas necessidades da cidade, preocupado, sobretudo, com as notícias de uma invasão bárbara iminente. Tal eventualidade obriga-o a tomar drásticas medidas e, com isso, entra em conflito com os seus concidadãos e membros da Cúria.

Entre mais ameaças encontra-se a “seita do peixe”, que não só põem em risco a romanidade em si, mas também o discernimento de Lúcio Valério, que, contra a sua vontade, fica irremediavelmente preso a Iunia Cantaber, membro destacado da dita “seita” .

Lúcio entra em conflito com os seus concidadãos e, pouco a pouco, todos o vão abandonando, até que, por imposição da Cúria, se afasta temporariamente da cidade. Até Aulo Mânlio, seu principal colaborador, se deixa seduzir pelo populismo de um tal Rufo Cardílio. Et tu, Aulo? 

Mais tarde, regressa à sua villa, e é então que resolve escrever sobre os acontecimentos que ocorreram em Tarcisis, durante a sua magistratura, não recusando, como ele diz no final do primeiro capítulo, “a intercessão de certo deus que, nos primórdios, ao que parece, passeava num jardim pela brisa da tarde…”

A narrativa vale pela riqueza de pormenores acerca da vida quotidiana e da organização estrutural (política e social) de uma cidade romana. Os hábitos e os ideais, os códigos de conduta morais e as clivagens sociais são parte principal do romance. 

É uma história sobre o poder e aquilo de que ele depende, e, nisso, trata-se de uma obra intemporal. Decorre nos tempos romanos, mas poderia igualmente decorrer nos dias de hoje.

A linguagem é cuidada e altiva, sem ser arrogante. É uma viagem à língua portuguesa com inúmeros vocábulos da época. E, todavia, este não é um livro difícil de ler.

Sem aprofundar, um apontamento breve sobre o perfil psicológico das principais personagens da narrativa:

Lúcio é o personagem-narrador, já se disse. O retrato é ele que o faz nas primeiras linhas do livro. Senhor da terra, romano, culto, que marca os tempos com o seu porte, o seus gestos, as suas maneiras. Dignidade. Gravidade. Romanidade. Humanidade. Perdeu para os oportunistas, para os populistas, seus concidadãos, para os que não olham a meios para subir na vida. Resignou ao duunvirato por ter contra si os notáveis e o povo.

Mara é a mulher do magistrado Lúcio. Apresenta-se como uma grande mulher, pois apesar de saber da paixão do marido, nunca “abandonou o barco”, estando sempre lá para o ajudar. É a consciência do marido. Mara estava sempre à altura das situações.

Calpúrnio é o velho senador, representa o status quo, manhoso e intriguista.

Rufo Cardílio é um demagogo puro. O taberneiro que ambiciona ascender à liderança da cidade. Filho de um liberto, não lhe falta vontade para vencer a qualquer custo. E consegue. Ascendeu ao duunvirato, justamente ao lugar deixado por Lúcio! Para tanto ofereceu uma avultada fortuna à cidade e apressou-se a ordenar jogos em que a principal atracção foi o esquartejamento de Arsena (um salteador) por mastins da Caledónia. Justamente o que o povo mais gosta: circo!

Iunia Canturber é cristã, figura mais destacada da “seita do peixe”. A única pessoa perante quem Lúcio perde a compostura, numa paixão que tenta negar ao máximo, mas que lhe está na cara. A partir do meio do livro, comecei a anotar os adjectivos que Lúcio, o narrador e protagonista, utiliza para a descrever: decidida, seca, teimosa, inesperada, impertinente, provocatória, firme. O último adjectivo do livro é CORAJOSA. Contrariamente aos seus companheiros, foi a única que não renegou a sua fé. Enfrentou a condenação à morte sem vacilar.

Por último, a explicacão da minha surpresa pelo final do livro. É visível no livro a falta de liberdade da prática religiosa ocorrida na época. Nada de espantar, conhecendo nós o que foi a história dos primeiros mártires cristãos até ao ano de 325 d.c.. Nesta linha, não estava à espera que todos os cristãos que viviam na cidade de Tarcisis, à excepção de Iunia, apostatassem a sua fé. Confesso que fiquei surpreendido.

Que sinal o autor nos quis deixar? Penso que sei, mas são contas que não vale a pena aqui levantar. É um pormenor que não oblitera os méritos do livro. Vale a pena conhecer».