A minha Lista de blogues

segunda-feira, 26 de setembro de 2022

O que é Deus?


Quando perguntaram à escritora Hilary Mantel (recentemente falecida) se ela acreditava na vida depois da morte, a resposta foi sim – embora com a seguinte ressalva: «não consigo imaginar como funcionará. Mas o universo não se limita àquilo que eu sou capaz de imaginar».

Quando li esta frase, outra nasceu no seu lugar: «Deus não se limita àquilo que eu sou capaz de imaginar.»

Nunca serei capaz de imaginar o que é Deus.

Como estudioso da Antiguidade Clássica, sei que Deus não pode ser aquilo que os Gregos e os Romanos viram nos seus deuses, pela razão simples de que os deuses dos Gregos e Romanos são cópias do próprio ser humano: são entidades cheias de inveja, de luxúria, de orgulho e de crueldade. Zeus, na imaginação dos Gregos, era um ser no qual sou incapaz de reconhecer superioridade. Basta pensar na Ilíada, onde Zeus é um marido violento com a mulher e um pai que agrediu tão violentamente o próprio filho que o deixou eternamente deficiente. Deficiência essa que (já agora) é motivo de riso e chacota «inexaurível» da parte dos outros deuses.

Deuses assim imaginados são meramente uma projecção humana das características que definem o próprio ser humano.

Mas houve Gregos que perceberam isso: Xenófanes escreveu genialmente que, se os bois tivessem deuses, esses deuses – por serem imaginados por bois – só podiam ser como bois.
O Antigo Testamento contorna este problema, afirmando logo à cabeça que Deus criou o homem à sua imagem e semelhança – desencorajando assim a ideia mais racional de que foi o homem que imaginou Deus à imagem e semelhança do homem (já que o homem é a realidade única que o próprio homem consegue imaginar).

No entanto, este Deus do Antigo Testamento, que cria o homem à sua imagem e semelhança, não convenceu todos os cristãos dos primeiros séculos do cristianismo.
Nos séculos II, III e IV, houve cristãos que se deram conta da discrepância entre o Deus irascível e cruel do Antigo Testamento e o Deus do amor incondicional que Jesus veio anunciar ao mundo. Esses cristãos perguntaram a si mesmos se era possível entender o mundo de sofrimento que vemos à nossa volta como tendo sido criado pelo Pai de Jesus – esse Pai do amor incondicional cuja imagem verdadeira era o próprio Jesus.

Para muitos desses cristãos, aquilo a que nós chamamos o Antigo Testamento não era mais do que um repositório algo pitoresco de mitos e superstições do povo judaico: não era de se lhe dar crédito; e o Deus lá descrito não era – segundo eles pensavam – Deus.

Como facilmente se perceberá, os escritos «apócrifos» (ou seja, «secretos, escondidos») desses cristãos questionadores não agradaram às facções mais ortodoxas da hierarquia eclesiástica e, a partir do século IV, foram sendo suprimidos.

Os cristãos seguidores do cristianismo «certo» orientaram-se então por uma ortodoxia que lhes representava a ideia de Deus como um homem idoso de barbas brancas, ciumento e implacável – a imagem exacta, no fundo, de um déspota à escala humana.

Para darmos agora um salto de quase dois mil anos: muitos séculos depois, houve um Papa (cujo pontificado durou só um mês), que conseguiu imaginar algo de muito diferente, quando disse esta frase extraordinária: «Deus é Pai; mas mais do que isso é Mãe».

Este Papa foi João Paulo I (o italiano Albino Luciani, que morreu em 1978).

No apócrifo Evangelho de Tomé lemos que «O reino do Pai é semelhante a uma mulher. Ela tomou um pouco de fermento, escondeu-o na farinha e fez pães grandes» (Tomé 96).

Repare-se como a frase é diferente do que lemos nos evangelhos canónicos de Mateus e Lucas, onde se diz que «O reino dos céus é semelhante a FERMENTO que uma mulher toma» (Mateus 13:33, Lucas 13:20-21). O Evangelho de Tomé obriga-nos a pensar no alcance de uma frase que diz «o reino do PAI é semelhante a uma MULHER».

Neste evangelho apócrifo, Salomé declara (por iniciativa própria) a Jesus o estatuto que nunca é dado a uma mulher nos evangelhos canónicos: o estatuto de discípula («Sou tua discípula!» Tomé 61). Também o apócrifo Evangelho de Pedro dá esse estatuto a Maria Madalena (Pedro 50).

No apócrifo Evangelho de Maria Madalena, não encontramos (pelo menos nos fragmentos conservados) a ideia de que Deus é um ente masculino: nesse evangelho (refiro-me só à parte que nos chegou), o que poderíamos mais imediatamente associar à ideia de Deus é designado por meio de uma expressão de género gramatical neutro: «o Bem» (em grego, «tò agathón», τὸ ἀγαθόν).

É incrível pensarmos que o Evangelho de Maria Madalena (descoberto no Egipto no final do século XIX) só foi publicado pela primeira vez em 1955 (haveria receio em divulgar o único evangelho cuja autoria – pelo menos a alegada – é atribuída a uma mulher?); o de Tomé (descoberto em 1945), só em 1959. Quantas pessoas em Portugal conhecem estes textos?

Como é sabido, tenho dedicado a última dezena de anos ao estudo e à tradução da Bíblia – mas também a textos cristãos apócrifos que, apesar de não terem encontrado lugar na Bíblia, podem encontrar lugar nas mentes e corações de todos aqueles que pensam (voltando à frase de Hilary Mantel) que Deus não se limita àquilo que somos capazes de imaginar.

Assim sendo, temos de tentar imaginá-l’O de muitas maneiras – se calhar até de forma contra-intuitiva. Os evangelhos canónicos falam no risco de se pôr vinho novo em odre velho. Mas o apócrifo Evangelho de Tomé (47) vê um risco que os canónicos não referem: o de pôr vinho VELHO em odre NOVO.

Já pusemos Zeus de parte há muitos séculos. Mas Deus: ainda O procuramos, incessantemente.
(Na imagem: pormenor da Anunciação de Fra Angelico [Prado, Madrid].)

Frederico Lourenço, in fb de 26/09/2022

Devaneios cruzadísticos │ João de Deus

"Flores do Campo" é o titulo da obra do poeta português João de Deus, pedido com a resolução do passatempo de palavras cruzadas, referente ao mês de Setembro de 2022.


Participaram: Aleme; António Amaro; Antoques; Arjacasa; Bábita Marçal; Baby; Caba; Candy; Corsário; Crispim; El-Danny; Fumega; Gilda Marques; Homotaganus; Horácio; Jani; João Carlos Rodrigues; Joaquim Pombo; José Bento; José Bernardo; Juse; Mafirevi; Magno; Manuel Amaro; Manuel Carrancha; Manuel Ramos; Maria de Lourdes; My Lord; Neveiva; Olidino; O. K.; Paulo Freixinho; PAR DE PARES; Reduto Pindorama (Agagê, Joquimas e Samuca); Ricardo Campos; Rui Gazela; Russo; Salete Saraiva; Seven; Socrispim; Solitário; Somar; Virgílio Atalaya e Zabeli.

A todos, obrigado.

Até ao próximo. 

quinta-feira, 1 de setembro de 2022

Devaneios cruzadísticos │ João de Deus

João de Deus de Nogueira Ramos nasceu em São Bartolomeu de Messines, no dia 8 de Março de 1830. Morreu em Lisboa em 11 de Janeiro de 1896, hoje sepultado no Panteão Nacional. Foi um eminente poeta lírico, considerado à época o primeiro do seu tempo, e o proponente de um método de ensino da leitura, assente numa Cartilha Maternal por ele escrita (o homem do a, e, i, o, u.), que teve grande aceitação popular. Gozou de extraordinária popularidade, foi quase um culto, sendo ainda em vida objecto das mais variadas homenagens. E, todavia, está hoje muito esquecido e é justamente por isso que o AlegriaBreve lhe dedica o passatempo deste mês.

João de Deus foi considerado o poeta do amor. Nunca foi rico. Não foi político, não obstante uma passagem fugaz pelo Parlamento. E, todavia, foi uma grande figurada Cultura Portuguesa do Séc. XIX. Estudou Direito em Coimbra, para onde foi com 19 anos. Não gostava de estudar. Preferia a guitarra e os versos.

Bacharel em 1859, ao fim de 10 anos, com uma nota fraca, curso que se tirava em 4 anos! E com a ajuda, decerto, de alguns professores que tinham sido antigos companheiros. Ficou em Coimbra, a andar por ali. Mais tarde, veio para Beja e escreveu no jornal “Bejense”. Não era monárquico, não era republicano. Não obstante, muito contrariado, foi deputado. "Não votem em mim, não votem em mim", implorava ele…mas votaram. Foi deputado, mas não abriu a boca. Passava o tempo em tertúlias com os amigos no Café Martinho da Arcada. 

O que o impressionou foi o anafalbetismo da população portuguesa: 80% na Revolução Liberal, 75% na Implantação da República. Inventou o célebre Método de aprender a ler.

Assim nasceu a Cartilha Maternal. A 1ª edição foi em 1876, com muito sucesso. E outras se seguiram. Todos os anos, novas edições. Um êxito fulgurante que mudou a sua vida. 

No final de vida, uma grandiosa manifestação do povo, alegadamente por iniciativa dos estudantes de Coimbra. Um estudante de Coimbra, alegadamente o célebre Hilário, fez um discurso (“em nome de todo o povo, beijo a mão…”), ao qual o poeta respondeu de improviso:

Estas honras e este culto
Bem se podiam prestar
A homens de grande vulto.
Mas a mim, poeta inculto,
Espontâneo, popular...
É deveras singular
!

É assim que, neste mês, convido os meus amigos a solucionar este passatempo de palavras-cruzadas e encontrar, a final, o título (3 palavras nas horizontais) de uma obra do poeta português João de Deus (1830-1896).


HORIZONTAIS: 1 – Melindre [figurado]; Natas. 2 – Termo [figurado]; Cria. 3 – Agite; Mais [antiquado]. 4 – Manobra; Estima; Timão do arado. 5De + o [contracção]; Astúcia [figurado]. 6 – Estafe; Interjeição que exprime enfado [Angola]. 7 – Ecónomo; Interjeição designativa de agrado e aprovação [Guiné-Bissau]. 8 – Ulcera; Orla; Anexa. 9 – Interjeição que exprime alívio; Incorporas. 10 – Plano; Agradável. 11 – Teimara; Pessoa notável na sua especialidade [figurado, plural].

VERTICAIS: 1 – Esfomeado [Angola]; Automóvel [Angola, coloquial]. 2 – Imagem; Troçam de. 3 – Engano [figurado]; Sova; Muar. 4 – Dignidade militar entre os Turcos; Área de responsabilidade [sigla]; Pão [Moçambique]. 5 – Molhada; Sufixo nominal, de origem latina, que exprime a ideia de agente. 6 – Ema; Interjeição usada para exprimir admiração [Brasil]. 7 – Adivinha; Efeminada. 8 – Composição poética lírica de assunto elevado, própria para ser cantada; Fama [figurado]; Desaparece [Angola]. 9 – Símbolo de ruténio; Causa; Casas. 10 – Batata-doce [Angola]; Vão [figurado]. 11 – Emprego [Angola]; Unidas.

Clique Aqui   para abrir e imprimir o PDF.


Aceito respostas até dia 25 de Setembro, inclusive, por mensagem particular no Facebook ou para o meu endereço electrónico, boavida.joaquim@gmail.com. Em data posterior, apresentarei a solução, assim como os nomes dos participantes. 

Vemo-nos por aqui?

sexta-feira, 26 de agosto de 2022

Devaneios cruzadísticos │ Nuno Júdice

"Por Todos os Séculos" é o titulo da obra do poeta português Nuno Júdice, pedido com a resolução do passatempo de palavras cruzadas, referente ao mês de Agosto de 2022.


Participaram: Aleme; António Amaro; Antoques; Arjacasa; Bábita Marçal; Baby; Caba; Candy; Corsário; Crispim; Donanfer II, El-Danny; Elvira Silva; Fumega; Gilda Marques; Homotaganus; Horácio; Jani; João Carlos Rodrigues; Joaquim Pombo; José Bento; José Bernardo; Juse; Mafirevi; Magno; Manuel Amaro; Manuel Carrancha; Manuel Ramos; Maria de Lourdes; My Lord; Neveiva; Olidino; O. K.; PAR DE PARES; Reduto Pindorama (Agagê, Joquimas e Samuca); Ricardo Campos; Rui Gazela; Russo; Salete Saraiva; Seven; Socrispim; Somar; Virgílio Atalaya e Zabeli.
A todos, obrigado.
Até ao próximo.

domingo, 14 de agosto de 2022

Em Agosto com Nuno Júdice

Lição

(a Eugénio de Andrade)


É no verão que se aprende a poesìa,
disseste; e em cada um dos verões que a vida
nos traz, em que se aprende e desaprende
o mais certo, entre o amor e a morte,
que cada um tem de saber. No quintal,
onde já não existe a romãzeira da infância,
ouvindo o vento que sobe da terra, trazendo
um antigo furor de ervas e raízes; ou
no largo aberto para o tempo que foi,
e esse que há-de vir. Abro contigo o livro
branco de todos os lugares e de todos
os nomes: o livro da poesia, aprendida
com o desfolhar dos verões, enquanto
as mães se despedem da vida, e uma baça
adolescência se confunde com a névoa
de agosto. Leio devagar, como se
interpretasse, e um fogo embarcado
nos olhos enfunasse a mais obscura
das imaginações: o verso, aprendido
no leito da memória, no verão
em que se aprende a poesia, disseste.

«Aprendíamos a amar, aprendíamos/a morrer»
Eugénio de Andrade


Nuno Júdice in “Pedro, lembrando Inês”

segunda-feira, 8 de agosto de 2022

Em Agosto com Nuno Júdice

Exercício

Pego num pedaço de silêncio. Parto-o ao meio,
e vejo saírem de dentro dele as palavras que
ficaram por dizer. Umas, meto-as num frasco
com o álcool da memória, para que se
transformem num licor de remorso; outras,
guardo-as na cabeça para as dizer, um dia,
a quem me perguntou o que significavam.
Mas o silêncio de onde as palavras saíram
volta a espalhar-se sobre elas. Bebo o licor
do remorso; e tiro da cabeça as outras palavras
que lá ficaram, até o ruído desaparecer, e só
o silêncio ficar, inteiro, sem nada por dentro.

Nuno Júdice

quarta-feira, 3 de agosto de 2022

No mês de Agosto com Nuno Júdice

Até ao Fim

Mas é assim o poema: construído devagar,
palavra a palavra, e mesmo verso a verso,
até ao fim. O que não sei é
como acabá-lo; ou, até, se
o poema quer acabar. Então, peço-te ajuda:
puxo o teu corpo
para o meio dele, deito-o na cama
da estrofe, dispo-o de frases
e de adjectivos até te ver,
tu,
o mais nu dos pronomes. Ficamos
assim. Para trás, palavras e versos,
e tudo o que
não é preciso dizer:
eu e tu, chamando o amor
para que o poema acabe.

Nuno Judice in “Pedro, lembrando Inês”

segunda-feira, 1 de agosto de 2022

Devaneios cruzadísticos │ Nuno Júdice

Estando a decorrer, no ano em curso, comemorações dos 50 anos de Poesia de Nuno Júdice – um dos grandes poetas contemporâneos - é uma boa razão para o AlegriaBreve revisitar a sua vida e obra.

Poeta, ensaísta e ficcionista, Nuno Júdice nasceu na Mexilhoeira Grande, Portimão, Algarve, em 1949. Foi, até 2015, professor na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

Júdice desempenhou o cargo de director da revista literária Tabacaria (1996-2009), foi comissário para a área da Literatura da representação portuguesa na 49.ª Feira do Livro de Frankfurt.

Desempenhou, ainda,  funções como conselheiro cultural da Embaixada de Portugal em França (1997-2004) e director do Instituto Camões em Paris. Organizou a Semana Europeia da Poesia, no âmbito da Lisboa 94 - Capital Europeia da Cultura.

Atualmente, dirige a Revista Colóquio-Letras, da Fundação Calouste Gulbenkian.

Literariamente, estreou-se em 1972, há 50 anos, portanto,  com o livro de poesia "A Noção de Poema".

Ao longo da carreira literária, Nuno Júdice tem sido distinguido com diversos prémios, entre os quais o Prémio Rainha Sofia de Poesia Ibero-americana, em 2013, o Prémio Pen Clube, o Prémio D. Dinis da Casa de Mateus.

Assim, neste mês, convido os meus amigos a solucionar este passatempo de palavras-cruzadas e encontrar, a final, o título (4 palavras nas horizontais) de uma obra do poeta português Nuno Júdice (1949).


HORIZONTAIS: 1 – Silencio [figurado]; Pastagem comum [antiquado, plural]. 2 – Grande quantidade [gíria, plural]. 3 – Engatar; Mina. 4 – Preposição que designa lugar; Simples; Ocorrer. 5 – Avenida [abreviatura]; Inteiros; Símbolo de rádio. 6 – Aprovação; Elemento de formação de palavras que exprime a ideia de maçã. 7 – Acontecer; Dinheiro [figurado]; Aqueles. 8 – Suavidade [figurado]; Mana; Composição poética lírica de assunto elevado, própria para ser cantada [Literatura] 9 – Desgastar; Sacrifício [figurado]. 10 – Eras. 11 – Diz-se de órgão vegetal com as bordas desiguais [Botânica, feminino]; Salvo.

VERTICAIS: 1 – Esconde; Força. 2 – Ralé. 3 – Voo; Sincero. 4 – Abismo; Segura; Raso. 5 – Orçamento Rectificativo [sigla]; Famas; Para aqui. 6 – Preposição que exprime junto de; Que é proibido em função do seu carácter impuro [Religião]. 7 – Prefixo que exprime a ideia de movimento; Reuni; Descobri. 8 – Ofertas; Graça [figurado]; Resplendor [figurado]. 9 – Gastas; Empreenda. 10 – Idade. 11 – Tangera; Trabalho de noite.

Clique Aqui para abrir e imprimir o PDF.


Aceito respostas até dia 25 de Agosto, inclusive, por mensagem particular no Facebook ou para o meu endereço electrónico, boavida.joaquim@gmail.com. Em data posterior, apresentarei a solução, assim como os nomes dos participantes. 

Vemo-nos por aqui?

terça-feira, 26 de julho de 2022

Devaneios cruzadísticos │ José Craveirinha

"Xigubo", "Cela" e "Maria" são os 3 títulos de obras do escritor e poeta moçambicano José Craveirinha, pedidos com a resolução do passatempo de palavras cruzadas, referente ao mês de Julho de 2022.

Um cheirinho da sua poesia:

Pena

Zangado
acreditas no insulto
e chamas-me negro.

Mas não me chames negro.

Assim não te odeio.
Porque se me chamas negro
encolho os meus elásticos ombros
e com pena de ti sorrio.



Participaram: Aleme; António Amaro; Antoques; Arjacasa; Bábita Marçal; Baby; Caba; Candy; Corsário; Crispim; Donanfer II, Dupla Algarvia (Anjerod e Mister Miguel); El-Danny; Filomena Alves; Fumega; Gilda Marques; Homotaganus; Horácio; Jani; João Carlos Rodrigues; Joaquim Pombo; José Bento; José Bernardo; Juse; Mafirevi; Magno; Manuel Amaro; Manuel Carrancha; Manuel Ramos; Maria de Lourdes; My Lord; Neveiva; Olidino; O. K.; PAR DE PARES; Reduto Pindorama (Agagê, Joquimas e Samuca); Ricardo Campos; Rui Gazela; Russo; Salete Saraiva; Seven; Socrispim; Solitário; Somar; Virgílio Atalaya e Zabeli.

A todos, obrigado.
Até ao próximo.

sábado, 23 de julho de 2022

Olha, Daisy, quando eu morrer

Olha, Daisy, quando eu morrer tu hás-de
Dizer aos meus amigos ai de Londres,
Que embora não o sintas, tu escondes
A grande dor da minha morte. Irás de

Londres p’ra York, onde nasceste (dizes —
Que eu nada que tu digas acredito...)
Contar àquele pobre rapazito
Que me deu tantas horas tão felizes

(Embora não o saibas) que morri.
Mesmo ele, a quem eu tanto julguei amar,
Nada se importará. Depois vai dar

A notícia a essa estranha Cecily
Que acreditava que eu seria grande...
Raios partam a vida e quem lá ande!...


(A bordo do navio em que embarcou para o Oriente; uns quatro meses antes
do Opiário, portanto) Dezembro 1913

1915
“Três Sonetos” Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 2.

sexta-feira, 1 de julho de 2022

Devaneios cruzadísticos │ José Craveirinha

No ano em curso, celebra-se o centenário do nascimento de José Craveirinha, moçambicano, poeta, ensaísta e jornalista. Nasceu em 28 de Maio de 1922, em Lourenço Marques, hoje Maputo, e faleceu em 6 de Fevereiro de 2003, em Joanesburgo, África do Sul. O AlegriaBreve assinala o evento, dedicando-lhe o passatempo de Palavras-Cruzadas, referente ao mês de Julho.

Filho de pai algarvio, cuja família partira para Moçambique em 1908 em busca de fortuna, o escritor manteve ligações afectivas com Portugal. Recebeu condecorações dos presidentes de Portugal e de Moçambique, Jorge Sampaio e Joaquim Chissano, respectivamente.

Em 1991, tornou-se o primeiro autor africano galardoado com o Prémio Camões, o mais importante prémio literário da Língua portuguesa.  

Como jornalista trabalhou em "O Brado Africano", "Notícias",  "A Tribuna", "Notícias da Beira", "O Jornal" e "Voz de Moçambique", teve ainda colaboração em outros jornais e revistas de Moçambique, além da colaboração em jornais portugueses, brasileiros e de outros países estrangeiros. Em Moçambique utilizou mais de um pseudónimo. Foi também cronista desportivo.

Entre 1964 e 1968 esteve preso, em virtude da sua ligação à FRELIMO, onde teve a oportunidade de conhecer, na prisão, o pintor Malangatana.

A sua obra recebeu vários prémios, com destaque para o já citado Prémio Camões, em 1991 e, ainda, o Prémio Vida Literária, da AEMO-Associação dos Escritores Moçambicanos.

Apesar de a sua obra refletir a influência dos surrealistas, é fortemente marcada por todo um carácter popular e tipicamente moçambicano. A sua poesia possui um carácter social que radica nas camadas mais profundas do povo moçambicano.

José Craveirinha, sendo um grande poeta da língua portuguesa, é também reconhecidamente considerado um dos maiores poetas africanos.

Assim, neste mês, convido os meus amigos a solucionar este passatempo de palavras-cruzadas e encontrar a final, nas horizontais, 3 títulos de obras do escritor moçambicano José Craveirinha (1922-2003).


HORIZONTAIS: 1 – Rebento [Angola]; Tambor grande [Moçambique]. 2 – Sibila; Acertar. 3 – Fartas; Jeitosa. 4 – Fira; Gritos de alegria; Causas. 5 – Câmara; Falha. 6 – Fita. 7 – Singular; Paga. 8 – Círculo; Berne; Elemento de formação de palavras que traduz a ideia de obra. 9 – Cravas; Variedade de pêra [Botânica]. 10 – Voraz; Praia. 11 – Tarda; Torre.

VERTICAIS: 1 – Azar [popular]; Concordância. 2 – Aja; Prurido. 3 – Regra; Criticar. 4 – Estreita; Pão [Moçambique]; Simpatia [figurado]. 5 – Ala [Arquitectura]; Costumes. 6 – Devanear. 7 – Indignas; Estima. 8 – Entusiasmo [figurado]; Duro; Sulca. 9 – Gasta; Homens. 10 – Rinocerontes [antiquado]; Escolhes. 11 – Falas; Brinde.

Clique Aqui para abrir e imprimir o PDF.


Aceito respostas até dia 25 de Julho, inclusive, por mensagem particular no Facebook ou para o meu endereço electrónico, boavida.joaquim@gmail.com. Em data posterior, apresentarei a solução, assim como os nomes dos participantes. 

Vemo-nos por aqui?

domingo, 26 de junho de 2022

Devaneios cruzadísticos │ Antero de Quental

"O Palácio da Ventura" é o título de um poema do poeta português Antero de Quental, pedido com a resolução do passatempo de palavras cruzadas, referente ao mês de Junho de 2022.

O poema reza assim:

Sonho que sou um cavaleiro andante.
Por desertos, por sóis, por noite escura,
Paladino do amor, busco anelante
O palácio encantado da Ventura!

Mas já desmaio, exausto e vacilante,
Quebrada a espada já, rota a armadura...
E eis que súbito o avisto, fulgurante
Na sua pompa e aérea formosura!

Com grandes golpes bato à porta e brado:
Eu sou o Vagabundo, O deserdado...
Abri-vos, portas d’ouro, ante meus ais!

Abrem-se as portas d’ouro, com fragor...
Mas dentro encontro só, cheio de dor,
Silêncio e escuridão – e nada mais!


Participaram: Aleme; António Amaro; Antoques; Arjacasa; Bábita Marçal; Baby; Caba; Candy; Corsário; Crispim; Donanfer II, El-Danny; Filomena Alves; Fumega; Gilda Marques; Homotaganus; Horácio; Jani; João Carlos Rodrigues; Joaquim Pombo; José Bento; José Bernardo; Juse; Mafirevi; Magno; Manuel Amaro; Manuel Carrancha; Manuel Ramos; Maria de Lourdes; My Lord; Neveiva; Olidino; O. K.; PAR DE PARES; Reduto Pindorama (Agagê, Joquimas e Samuca); Ricardo Campos; Rui Gazela; Russo; Salete Saraiva; Seven; Socrispim; Solitário; Somar; Virgílio Atalaya e Zabeli.

A todos, obrigado.
Até ao próximo.

sexta-feira, 3 de junho de 2022

Acontece-te

de João Luís Barreto Guimarães (n. 3 de Junho de 1967)

Acontece-te
acordares antes do teu braço acordar?
Alguma vez te ligaram para vender silêncio?
Para onde vão as palavras
assim que as soltas no ar? Retiras a crosta à ferida
para manter a
dor acesa? Por quanto mais tempo haverá
ignorantes
no poder? O amor é vermelho ou
também existe em preto? A rotina que satura é
a mesma que protege? Comprar tempo
num parquímetro
permite viver mais tempo? Se o gato te arranha
aproveitas para ler a
glicemia? Ao terminares a viagem há
uma placa com o teu nome? Se Deus fosse mulher
teria descansado ao domingo? Pensa bem: se Deus fosse
mulher teria descansado
ao domingo?

- in Movimento, Quetzal, 2020.

quarta-feira, 1 de junho de 2022

Devaneios cruzadísticos │ Antero de Quental

O poeta Antero de Quental nasceu há 180 anos e, por isso, o AlegriaBreve aproveita para, mais uma vez, homenagear o genial poeta do século XIX, a quem alguns amigos, igualmente geniais, o achavam santo, o santo Antero.

O ilustre historiador Oliveira Martins escreveu: «Este homem, fundamentalmente bom, se tivesse vivido no século VI ou no século XÏII, seria um dos companheiros de S. Bento ou de S. Francisco de Assis.»

Eça de Queirós, quando queria saber notícias do poeta, interrogava-se geralmente deste modo: «E santo Antero, como vai?».

Antero de Quental nasceu em Ponta Delgada, em 18 de Abril de 1842, filho do combatente liberal Fernando de Quental e de sua mulher Ana Guilhermina da Maia.

Estudou na Universidade de Coimbra, onde se licenciou em direito em 1864. Foi a principal figura na célebre Questão Coimbrã, em que Antero e outros poetas foram atacados por António Feliciano de Castilho (seu antigo professor), por instigarem a revolução intelectual. Como resposta, Antero publicou os opúsculos Bom Senso e Bom Gosto.

No ano da Comuna de Paris (1871), em Lisboa, Antero de Quental organizou as célebres Conferências do Casino, que marcaram o início da difusão das ideias socialistas e anarquistas em Portugal. Coube-lhe a responsabilidade de apresentar a 2ª Conferência, com o título Causas da Decadência dos Povos Peninsulares, que teve lugar no dia 27 de Maio de 1871.

Influenciado pelas ideias revolucionárias de Proudhon, Antero de Quental foi ainda um dos principais impulsionadores do chamado grupo do Cenáculo, também conhecido como Geração de 70, que reunia jovens escritores e intelectuais de vanguarda.

Os sonetos de Antero são considerados por muitos críticos dos melhores da Língua portuguesa. A complexidade do seu espírito fez nascer uma poesia escrita com generosidade e dúvidas angustiantes, com sangue e lágrimas.

Em Junho de 1891, o poeta regressou a Ponta Delgada, onde veio a falecer no dia 11 de Setembro de 1891, desalentado da vida, sem esperança, num banco de jardim, junto ao Convento de Nossa Senhora da Esperança.


Neste mês, convido os meus amigos a solucionar este passatempo de palavras-cruzadas e, a final, encontrar o título (4 palavras nas horizontais) de um poema do poeta português Antero de Quental (1842 - 1891).


HORIZONTAIS: 1 – Fantasias [figurado]; Principal. 2 – Aula. 3 – Mais [antiquado]; Vara para tirar fruta das árvores; Sopro. 4 – Causas; Fale [coloquial]; Povo muçulmano da região do Darfur, no Sudão [Etnografia]. 5 – Exorbita; Calote. 6 – Soberano; Naquele lugar. 7 – Dinheiro [figurado]; Tira geralmente de couro que se prende à coleira para conduzir os cães. 8 – Auto-estima; Interjeição que exprime satisfação [Brasil]; Muitos [figurado]. 9 – Contracção de De+a; Obsta; Grito de alegria. 10 – Destino. 11 – Glorifiquei; Idade.

VERTICAIS: 1 – Rebentada; Espiga. 2 – Rude. 3 – Abreviatura de opus; Folga [figurado]; Passe. 4 – Graça [figurado]; Fecha parcialmente (as asas) para descer mais depressa [ave]; Muitos [figurado]. 5 – Bofetada [popular]; Unidade monetária da Serra Leoa. 6 – O messias aguardado, na tradição muçulmana [Religião]; Tio [linguagem infantil]. 7 – Mordazes [figurado]; Que não é discutido por pudor. 8 – Mulher solteira [coloquial]; Elemento de formação pospositivo, de origem latina, que ocorre sobretudo em verbos de sentido frequentativo; Valia. 9 – Símbolo de resistividade eléctrica [Física]; Mordam; Prefixo que exprime a ideia de privação. 10 – Ajuda. 11 – Velhaco; Unas.

Clique Aqui para abrir e imprimir o PDF.


Aceito respostas até dia 25 de Junho, inclusive, por mensagem particular no Facebook ou para o meu endereço electrónico, boavida.joaquim@gmail.com. Em data posterior, apresentarei a solução, assim como os nomes dos participantes. 

Vemo-nos por aqui?

quinta-feira, 26 de maio de 2022

Devaneios cruzadísticos │ Os Lusíadas

"Estavas, linda..." são as duas palavras do primeiro verso de uma das 18 estrofes que o poeta português Luís de Camões dedica a Inês de Castro, em "Os Lusíadas", Canto III, pedido com a resolução do passatempo de palavras cruzadas, referente ao mês de Maio de 2022.

(...)
120
«Estavas, linda Inês, posta em sossego,
De teus anos colhendo doce fruito,
Naquele engano da alma, ledo e cego,
Que a Fortuna não deixa durar muito,
Nos saudosos campos do Mondego,
De teus fermosos olhos nunca enxuito,
Aos montes insinando e às ervinhas
O nome que no peito escrito tinhas

(...)


Participaram: Aleme; António Amaro; Antoques; Arjacasa; Bábita Marçal; Baby; Caba; Candy; Corsário; Crispim; El-Danny; Elvira Silva; Filomena Alves; Fumega; Gilda Marques; Homotaganus; Horácio; Jani; João Carlos Rodrigues; Joaquim Pombo; José Bento; José Bernardo; Juse; Mafirevi; Magno; Manuel Amaro; Manuel Carrancha; Manuel Ramos; Maria de Lourdes; My Lord; Neveiva; Olidino; O. K.; Paulo Freixinho; PAR DE PARES; Reduto Pindorama (Agagê, Joquimas e Samuca); Ricardo Campos; Rui Gazela; Russo; Salete Saraiva; Seven; Socrispim; Solitário; Somar; Virgílio Atalaya e Zabeli.

A todos, obrigado.
Até ao próximo.

quarta-feira, 11 de maio de 2022

CORAÇÃO DO DIA, memória de António Lobo Antunes

O poeta Eugénio de Andrade está muito doente. É meu amigo e não tenho coragem de o visitar. Quando ia à sua casa, no Passeio Alegre, um espaço de cuidadosa brancura diante das palmeiras e do mar, recebia-me com vinho fino, biscoitos, livros, pequenas atenções que me tocavam, conforme me tocava a sua delicadeza, a sua fidalguia. A mesa de mármore para escrever. Nunca me disse mal de ninguém e a vaidade que o habitava, tão ingénua, comovia-me. Em certo sentido conservou-se sempre um camponês da Beira Baixa natal, feito de puerilidade e manha, gerindo ciosamente a sua obra a fingir-se desinteressado, distantíssimo e, no entanto, alerta como um coelho bravo. Escrevemo-nos durante anos, falávamos ao telefone com frequência, a sua ternura com as minhas filhas comovia-me. E, periodicamente, vinham versos, livros, retratos dedicados, o seu rosto a carvão pelo escultor José Rodrigues que, como dizia, «sabe a minha cara de cor». Pediu-me para fazer uma sessão de fotografias com ele: e Dario Gonçalves, pessoa muito querida sua, veio com a máquina. O Eugénio pediu-lhe um momento, desapareceu, e regressou, todo pinoca, para os bonecos. Ele mesmo escolheu os ângulos, as posições: e lá fiquei, sentado, com o Eugénio de pé atrás de mim, a mão espalmada no meu ombro, naquela pose para o Futuro que gostava de assumir. Normalmente falávamos de poesia, pedia-me que lhe lesse o que compunha, discutíamos as correcções que ele encaixava a cada edição nova e que, por vezes, me não agradavam: aceitava as críticas numa humildade de criança apanhada em falta, experimentávamos outras palavras, repetíamos tudo. A sua solicitude e a sua ternura em relação a mim eram infinitas. Já doente e estando eu em Roma para um prémio, o padre e poeta José Tolentino Mendonça, que ele apreciava grandemente e é um dos poucos homens que admiro e respeito, contava-me que o Eugénio o chamava, preocupado que eu estivesse bem. Punha, na camaradagem, um desvelo fraterno, ainda que fosse um homem rugoso, cheio de caprichos, capaz de uma violência fria, insuportável para quem não estimava, e de uma coragem física que, em geral, se não lhe adivinhava. Dele recebi durante anos e anos inúmeras provas de estima. Censuro-me não o visitar agora: é que não suporto vê-lo acabar assim, reduzido a um pobre fantasma titubeante. A ele, que tanto prezava a beleza e a sua própria beleza

(o Eduardo Lourenço, amigo de ambos
– E então chegou-nos a Coimbra aquele Rimbaud)
a doença resolveu destruí-lo no que mais lhe importava, tornando-o um Rimbaud desfigurado, dependente, trágico, o «cesto roto» que Cesário Verde, uma das suas paixões, evocava a respeito de si mesmo, enquanto a tuberculose o «escangalhava»: «Entra-me a chuva, entra-me o vento no corpo escangalhado». Ao Eugénio prefiro lembrá-lo como o conheci: orgulhoso, altivo, falando-me de jacarandás e frésias, amando
(e era verdade)
o «repouso no coração do lume». E, depois, havia pequenos actos que o definiam inteiro: uma das ocasiões em que fui ao Porto encontrei um livro de Jorge de Sena, um livro póstumo, horrível, em que Sena atacava companheiros de viagem (Cesariny e Vitorino Nemésio, por exemplo, muito melhores artistas do que ele) de um modo tão vil que me indignou. Referi o livro ao Eugénio. Ele ficou longamente em silêncio e depois tirou o seu exemplar debaixo de um móvel e pouso-o no sofá. Segredou
– Tinha-o aqui escondido, sabe, porque não queria que pensasse mal do Jorge.
Eu nunca conheci Jorge de Sena e no entanto na boca do Eugénio era sempre o Jorge, tal como, para o Zé Cardoso Pires, Alves Redol era sempre o António, Carlos de Oliveira o Carlos, e tão-pouco conheci Redol ou Oliveira. Mas este acto do Eugénio define-o bem: a defesa intransigente daqueles que amava, a sua preocupação em cuidar-lhes do perfil com um carinho idêntico ao que punha no cuidar do seu. Tinha a paixão da amizade, que poucos lhe mereciam, aliás, e uma rara, permanente fidelidade a ela. Reparo agora que estou a relatar tudo isto no passado, como se o Eugénio tivesse morrido. Talvez porque o homem que continua vivo não é ele. Talvez por pudor meu. Talvez porque o fim de um amigo me seja difícil. Talvez porque me custa não vir abrir-me a porta se tocar à campainha, subir as escadas e dar, nas paredes, com múltiplas representações suas por múltiplos pintores, dúzias de Eugénios de todas as idades, aparências, feitios, de qualidade variável, bons, maus, assim-assim, as dúzias de Eugénios, obsessivamente repetidos de que o encantava rodear-se. No meio de tanto Eugénio imóvel só ele se mexia. Deixava escapar para um, para outro, um soslaiozinho satisfeito, contente de ser vinte, de ser trinta, de ser quarenta, de ser uma multidão de criaturas que formavam uma espécie de guarda de honra à sua volta, à medida que desrolhava o vinho fino, me servia um cálice

Eugénio de Andrade visto por Emerenciano (1988)

– Não posso beber
me chegava um guardanapo de linho ofuscante, um prato de biscoitos, taças de bombons, anunciava
– Comprei-os para si
ocupava a poltrona puxando a manta sobre os joelhos
– Este frio
relanceava as árvores, as ondas, gaivotas cinzentas que gritavam, sacudia a mão num gestozinho precioso de prestidigitador e adiantava o peão do rei do início de uma frase. Duas ou três horas depois acompanhava-me à saída como se avançássemos em corredores de palácio. E de certo modo aquele edifício pequeno era de facto um palácio. O seu palácio e ele um velho conde entre cortejos de glórias inventadas e reais. Quanto mais inventadas mais reais. Da rua, as janelas acesas pareciam mostrar uma casa vazia. Antes assim: se topasse alguém nas cortinas não saberia distinguir se era o Eugénio ou uma das suas representações encaixilhadas quem me acenava de cima. Ou então ele só existia quando estávamos juntos. Se não estávamos suponho que não passava de uma das palmeiras do Passeio Alegre, dobrando-se para a direita e para [a] esquerda consoante o vento e os borrifos do mar.

Texto publicado na revista «Visão», em 6 de Maio de 2000, e posteriormente incluído no «Terceiro Livro de Crónicas» [de António Lobo Antunes], Publicações Dom Quixote, 2005

domingo, 1 de maio de 2022

Devaneios cruzadísticos │ Os Lusíadas

Durante o ano de 2022 celebram-se, ao longo ano e em diversos locais, eventos celebrativos da publicação, há 450 anos, de "Os Lusíadas", de Luís de Camões, o genial poeta. O AlegriaBreve assinala a data, dedicando-lhe, com orgulho, o passatempo de Palavras Cruzadas do mês de Maio.

Oh! Que famintos beijos na floresta, / E que mimoso choro que soava! / Que afagos tão suaves, que ira honesta, / Que em risinhos alegres se tornava. /…” Canto IX, est. 83.

Em 1572, sexo era, no entanto, uma palavra interdita. O Santo Ofício da Inquisição reinava em absoluto sobre as matérias da carne e do espírito. A luxúria conduzia à tortura e à fogueira. Qual terá sido a reacção do Santo Ofício aos versos de Camões? 

Frei Bartolomeu Ferreira, censor da Inquisição, escreveu: « […] Vi por mandado da Santa e Geral Inquisição estes dez Cantos dos Lusíadas de Luís de Camões, dos valerosos feitos em armas que os Portugueses fizeram em Ásia e Europa, e não achei neles cousa algũa escandalosa, nem contraria à fé e aos bons costumes […] »

Como foi possível? 450 anos depois, o enigma persiste. A 1ª Ed. d´Os Lusíadas foi uma espécie de milagre. O que permitiu a Camões obter da Inquisição um parecer elogioso para blasfémias tão provocadoras?

São conhecidas várias teorias que explicam o "milagre". Curiosa é uma "teoria" recente, plasmada numa obra de José Saramago, com o título "Que farei com este livro", escrita em 1980, na qual o escritor apresenta, obviamente de forma ficcional, a sua explicação para autorização da publicação de "Os Lusíadas" pelo Santo Ofício. Li com muito interesse e deixo a sugestão da sua leitura.

Assim, neste mês, convido os meus amigos a solucionar este passatempo de palavras-cruzadas e, a final, encontrar 2 palavras (nas horizontais) do primeiro verso de uma das 18 estrofes que o poeta português Luís de Camões (1524 – 1580) dedica a Inês de Castro, em “Os Lusíadas”, Canto III.


HORIZONTAIS: 1 – Pessoa estranha [figurado] (plural); Pulas. 2 – Macio; Sentimental. 3 – Permanecias; Amor [popular]. 4 – Grande quantidade [figurado]; Risco imprevisível [Direito]; Único. 5 – Larga; Simples. 6 – Falhe; Bela. 7 – Acordo de Empresas [sigla]; Ocupar. 8 –Mais [antiquado]; Gritara [popular]; Sopro. 9 – Entusiasmo [figurado]; Toma juízo [regionalismo] (Minho). 10 – Assinala; Pronunciado. 11 – Brindes [figurado]; Campo.

VERTICAIS: 1 – Longe; Penhas. 2 – Mirada; Maçador [figurado]. 3 – Dita; Valho. 4 – Convém; Artigo; Símbolo de neodímio. 5 – Poeta; Embarcação de recreio, de motor ou de velas. 6 – Muda; Atiras [Brasil, coloquial]. 7 – Declínio gradual e lento da febre [Medicina]; Toca. 8 – Andar; Estimulante. 9 – Consentimento; Junta; Indigna. 10 – Simpatias [figurado]; Desgraças [figurado]. 11 – Que tem a ponta da cauda cortada [Beiras, Trás-os-Montes]; Desgosto.

Clique Aqui para abrir e imprimir o PDF.



Aceito respostas até dia 25 de Maio, inclusive, por mensagem particular no Facebook ou para o meu endereço electrónico, boavida.joaquim@gmail.com. Em data posterior, apresentarei a solução, assim como os nomes dos participantes. 

Vemo-nos por aqui?

terça-feira, 26 de abril de 2022

Devaneios cruzadísticos │ Pepetela

"O Planalto e a Estepe" é o título de uma obra do escritor angolano Pepetela (1941), pedido com a resolução do passatempo de palavras cruzadas, referente ao mês de Abril de 2022.

Baseada em factos verídicos, ficcionados pelo autor, esta história põe em evidência a vacuidade de discursos ideológicos e palavras de ordem, que se revelam sem relação com a prática. Uma viagem no tempo e no espaço, o de uma geração cansada de guerra num mundo cada vez mais pequeno.


Participaram: Aleme; António Amaro; Antoques; Arjacasa; Bábita Marçal; Baby; Caba; Candy; Corsário; Crispim; Donanfer II, Dupla Algarvia (Anjerod e Mister Miguel); El-Danny; Filomena Alves; Fumega; Gilda Marques; Homotaganus; Horácio; Jani; João Carlos Rodrigues; Joaquim Pombo; José Bento; José Bernardo; Juse; Mafirevi; Magno; Manuel Amaro; Manuel Carrancha; Manuel Ramos; Maria de Lourdes; My Lord; Neveiva; Olidino; O. K.; PAR DE PARES; Reduto Pindorama (Agagê, Joquimas e Samuca); Ricardo Campos; Rui Gazela; Russo; Salete Saraiva; Seven; Socrispim; Solitário; Somar; Virgílio Atalaya e Zabeli.

A todos, obrigado.
Até ao próximo.

segunda-feira, 18 de abril de 2022

Antero de Quental nasceu há 180 anos


Nascido faz hoje 180 anos, Antero de Quental (Ponta Delgada, 18 de Abril de 1842 — 11 de Setembro de 1891) poria termo à sua vida, como outros homens de génio. Sobre o assunto, pensou e escreveu Manuel Laranjeira — que viria também a causar a sua própria morte:

O PESSIMISMO NACIONAL

“Diz-se que a sociedade portuguesa vai atravessando uma crise sobreaguda de sombrio pessimismo, o que é uma verdade de todos os dias; e há quem afirme com argumentos cheios de brilho literário que esse pessimismo é o sintoma claro e indiscutível duma degenerescência do nosso povo, o que é uma hipótese, se não totalmente errónea, pelo menos infinitamente duvidosa e muito discutível.

Decerto: numa terra onde homens de génio, como Antero de Quental, Camilo e Soares dos Reis, têm de recorrer ao suicídio como solução final duma existência de luta inglória e sangrenta; numa sociedade onde o pensamento representa um capital negativo, um fardo embaraçoso para jornadear pelo caminho da vida; num povo onde essa minoria intelectual, que constitui, o orgulho de cada nação, se vê condenada a cruzar os braços com inércia desdenhosa, ou a deixá-los cair desoladamente, sob pena de ser esterilmente derrotada; num país, onde a inteligência é um capital inútil onde o único capital deveras produtivo é a falta de vergonha e a falta de escrúpulos - o diagnóstico impõe-se “de per si“.

O desalento e a descrença alastram. No ar respira-se o cepticismo. E à medida que o mal-estar colectivo se vai resolvendo quotidianamente em tragédias individuais, o sentido da vida, em Portugal, parece ser cada vez mais fúnebre e mais indicativo de que vamos arrastados, violentamente arrastados por um mau destino, para a irreparável falência e de que nos afundamos definitivamente.

Mas porquê? O mal, na verdade, será a morte? Estará isto, como se diz expressiva e resumidamente, irremediavelmente perdido? Estará a raça portuguesa (deixem-me exprimir assim), como agregado autónomo, como indivíduo colectivo, condenada a desaparecer integralmente, isto é, a ser dissolvida na massa comum da espécie humana? Será Portugal, na frase cruel do ”lord“ inglês, - uma nação morta, destinada a ser devorada pelas nações vivas?

MANUEL LARANJEIRA (Vergada, Mozelos, Santa Maria da Feira, 17 de Agosto de 1877 - Espinho, 22 de Fevereiro de 1912), médico, poeta, dramaturgo e articulista, em “O Pessimismo Nacional”.

sexta-feira, 1 de abril de 2022

Devaneios cruzadísticos │ Pepetela

Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos, conhecido pelo pseudónimo de Pepetela, nasceu em Benguela, no dia 29 de Outubro de 1941 - é o escritor que o AlegriaBreve elegeu para homenagear este mês.

Pepetela é descendente de uma família de portugueses nascidos em Angola. O escritor cresceu num ambiente da classe média, mas frequentou uma escola primária com crianças de várias raças e classes. Ele diz que a cidade de Benguela lhe proporcionou mais oportunidades para conhecer angolanos de todas as raças, porque era a cidade angolana mais multirracial daquela época.

Em Lisboa, Pepetela frequentou, a partir de 1958, o curso de engenharia no Instituto Superior Técnico, mudando em 1960 para o curso de letras na Universidade de Lisboa. Já em 1961, Pepetela fez a opção política que viria a mudar o rumo da sua vida e a marcar toda a sua obra, tornando-o um narrador de uma história de Angola que conhece. Pepetela tornou-se militante do MPLA em 1963.

A sua obra reflecte sobre a história contemporânea de Angola e os problemas que a sociedade angolana enfrenta. Durante a longa guerra, Pepetela lutou juntamente com o MPLA para a libertação da sua terra natal.

A sua obra, nos anos 2000, critica a situação angolana, textos que contam com um estilo satírico incluem a série de romances policiais denominada "Jaime Bunda". As suas obras recentes revelam uma crítica áspera das classes dominantes de Angola.  Licenciado em Sociologia, Pepetela é docente da Faculdade de Arquitectura da Universidade Agostinho Neto.

Em 1997, foi galardoado com o Prémio Camões pelo conjunto da sua obra. Pepetela foi o primeiro autor angolano e segundo autor africano a ser distinguido com este prémio tão prestigiado. Foi o autor mais jovem a receber este prémio. 

Assim, neste mês, convido os meus amigos a solucionar este passatempo de palavras-cruzadas e, a final, encontrar o título de uma obra (5 palavras todas na horizontal) do escritor angolano Pepetela (1941).


HORIZONTAIS: 1 – Irra! [Angola]; Fama [figurado]. 2 – Chã; Bata. 3 – Grito de alegria; Tolerados [figurado]. 4 – Desenvolve; Fora de moda [coloquial]. 5 – Passe; Progredi; Dura. 6 – Descompostura [figurado]; Una. 7 – Paga; Porcelana antiga de cor amarela e de origem chinesa; Estorvo. 8 – Convindo; Pradaria. 9 – Persistente; Prefixo que exprime a ideia de afastamento. 10 – Andar; Prostração. 11 – Estrema; Maneira [figurado].

VERTICAIS: 1 – Pão [Moçambique]; Mandioca-doce. 2 – Ambientes; Atribuir. 3 – Lava áspera e escoriácea constituída por fragmentos irregulares; Perfume. 4 – Indígena; Bigorna de aço, sem hastes, usada pelos ferradores e nos estabelecimentos de cunhar moedas. 5 – Atarracada; Quinteiro. 6 – Interjeição que exprime satisfação [popular]; Arreio. 7 – Lúgubre [figurado]; Censura [figurado]. 8 – Moleste; Preguiça. 9 – Ofertas; Ministério da Saúde [sigla]. 10 – Encontro; Afago. 11 – Ocaso; Estavam a fazer-se.

Clique Aqui para abrir e imprimir o PDF.



Aceito respostas até dia 25 de Abril, inclusive, por mensagem particular no Facebook ou para o meu endereço electrónico, boavida.joaquim@gmail.com. Em data posterior, apresentarei a solução, assim como os nomes dos participantes. 

Vemo-nos por aqui?