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sexta-feira, 1 de junho de 2018

Devaneios cruzadísticos │José Gomes Ferreira

[…] João Sem Medo habita numa aldeia, cujos habitantes vivem presos à tradição de que tanto se orgulham: chorar de manhã à noite. Um dia, porém, o nosso herói decide saltar o Muro que protege a aldeia, dando assim início a uma viagem surpreendente […] 

Falo do romance "Aventuras de João Sem Medo", de José Gomes Ferreira, publicado em 1963, obra que teve a sua génese em 26 episódios que o autor, cerca de 30 anos antes, havia publicado, em folhetins semanais, em "O Senhor Doutor", sob o pseudónimo de "Avô do Cachimbo".

Estamos perante uma história fantástica que recorre ao imaginário mágico, por vezes de inspiração surrealista. Uma obra intemporal que continua a interessar a todos.

É o próprio autor que confessa na NOTA FINAL que escreveu em 1973, por altura da publicação da 2ª Edição:

[…] Decidi inventar um herói de sabor popular que desafiasse as forças enigmáticas da Floresta Branca (branca, cor convencional da infância), desmitificasse os gigantes, os Príncipes, as Princesas, as Fadas, etc.., me permitisse criar novos mitos, tornar mágicos os objectos vulgares da vida diária, e dar contorno às minhas verdades mais profundas numa linguagem de acção poética que a muitos, até a mim mesmo, só me parecia possível, quando dirigida a crianças imaginárias (que todos trazemos escondidas na nossa soberba gravidade de adultos) […].

Poeta e ficcionista, José Gomes Ferreira nasceu no Porto, em 1900, tendo vindo para Lisboa aos 4 anos. Licenciou-se em Direito em 1924, trabalhando depois como cônsul na Noruega entre 1926 e 1929.

Após o regresso a Lisboa, dedicou-se ao jornalismo e à tradução de filmes. Foi colaborador de vários jornais e revistas, tais como "Presença",  "Seara Nova" e "Gazeta Musical e de Todas as Artes".

Esteve ligado ao grupo do Novo Cancioneiro, estando sempre muito próximo dos seus companheiros neo-realistas. Lutador antifascista, começou em 1931 a sua longa carrcira de «poeta militante», militante da poesia total, «misto de cavaleiro andante, profeta, jogral, vate, bardo, jornalista, comentador à guitarra de grandes e horríveis crimes», como ele próprio se qualificou.

Faleceu em Lisboa no ano de 1985, deixando vasta obra literária, que teve o seu justo reconhecimento em muitos prémios e homenagens.

Este mês, convido os meus amigos a resolver este problema de Palavras Cruzadas e, no final, encontrar o nome (4 palavras nas horizontais) da terra natal da personagem principal d´"Aventuras de João Sem Medo", uma das principais obras do escritor José Gomes Ferreira.


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HORIZONTAIS: 1 – Unta; Lastima. 2 – Chefe [figurado]; Ter. 3 – Descalço; Matas; Cádmio [símbolo químico]. 4 – Orla; Dificuldade; Como. 5 – Próximo; Fases. 6 – Esmigalho. 7 – Despacho; Estreitas. 8 – Raso; Porcelana antiga de cor amarela e de origem chinesa; Ice. 9 – Circular; Igual; Elemento de formação de palavras que exprime a ideia de igual. 10 – Máquina transportadora de caixa basculante; Aprendes. 11 – Queimas; Penteia.

VERTICAIS: 1 – Comum; Seca. 2 – Curto; Reais. 3 – Rádio [símbolo químico]; Vivos; Ministério da Saúde [sigla]. 4 – Riso; Sufixo nominal que ocorre em adjectivos derivados de substantivos e exprime a ideia de qualidade; Pão [Moçambique]. 5 – Erguem; Alas. 6 – Conversas. 7 – Censuras [coloquial]; Suga. 8 – Julgas; Mentira [popular]; Suavidade [figurado]. 9 - Elemento de formação de palavras que exprime a ideia de ovelha; Prestação; Prefixo de origem latina que exprime a ideia de dois. 10 – Hesita; Combines. 11 – Brilhas; Interjeição que exprime com licença [Angola].


Clique   Aqui   para abrir e imprimir o PDF.



Aceito respostas até dia 20 de Junho, por mensagem particular no Facebook ou para o meu endereço electrónico, boavida.joaquim@gmail.com. Em data posterior, apresentarei a solução, assim como os nomes dos participantes.

Até breve! Para alguns dos meus amigos, até Domingo, em Évora!

sábado, 26 de maio de 2018

Eremita, A Criada


Seu nome era Eremita. Tinha dezenove anos. Rosto confiante, algumas espinhas. Onde estava a sua beleza? Havia beleza nesse corpo que não era feio nem bonito, nesse rosto onde um doçura ansiosa de doçuras maiores era o sinal da vida.

Beleza, não sei. Possivelmente não havia, se bem que os traços indecisos atraíssem como água atrai. Havia, sim, substância viva, unhas, carnes, dentes, mistura de resistências e fraquezas, constituindo vaga presença que se concretizava porém imediatamente numa cabeça interrogativa e já prestimosa, mal se pronunciava um nome: Eremita. Os olhos castanhos eram intraduzíveis, sem correspondência com o conjunto do rosto. Tão independentes como se fossem plantados na carne de um braço, e de lá nos olhassem - abertos, úmidos. Ela toda era de uma doçura próxima a lágrimas.

Às vezes respondia com má-criação de criada mesmo. Desde pequena fora assim, explicou. Sem que isso viesse de seu caráter. Pois não havia no seu espírito nenhum endurecimento, nenhuma lei perceptível. "Eu tive medo", dizia com naturalidade. "Me deu uma fome", dizia, e era sempre incontestável o que dizia, não se sabe por quê. "Ele me respeita muito", dizia do noivo e, apesar da expressão emprestada e convencional, a pessoa que ouvia entrava num mundo delicado de bichos e aves, onde todos se respeitam. "Eu tenho vergonha", dizia, e sorria enredada nas próprias sombras. Se a fome era de pão - que ela comia depressa como se pudessem tirá-lo - o medo era de trovoadas, a vergonha era de falar. Ela era gentil, honesta. "Deus me livre, não é?", dizia ausente.

Porque tinha suas ausências. O rosto se perdia numa tristeza impessoal e sem rugas. Um tristeza mais antiga que o seu espírito. Os olhos paravam vazios; diria mesmo um pouco ásperos. A pessoa que estivesse a seu lado sofria e nada podia fazer. Só esperar.

Pois ela estava entregue a alguma coisa, a misteriosa infante. Ninguém ousaria tocá-la nesse momento. Esperava-se um pouco grave, de coração apertado, velando-a. Nada se podia fazer por ela senão desejar que o perigo passasse. Até que num movimento sem pressa, quase um suspiro, ela acordava como um cabrito recém-nascido se ergue sobre as pernas. Voltara de seu repouso na tristeza.
Voltava, não se pode dizer mais rica, porém mais garantida depois de ter bebido em não se sabe que fonte. O que se sabe é que a fonte devia ser muito antiga e pura. Sim, havia profundeza nela. Mas ninguém encontraria nada se descesse nas suas profundezas - senão a própria profundeza, como na escuridão se acha a escuridão. É possível que, se alguém prosseguisse mais, encontrasse, depois de andar léguas nas trevas, um indício de caminho, guiado talvez por um bater de asas, por algum rastro de bicho. E - de repente - a floresta.

Ah, então devia ser esse o seu mistério: ela descobrira um atalho para a floresta. Decerto nas suas ausências era para lá que ia. Regressando com os olhos cheios de brandura e ignorância, olhos completos. Ignorância tão vasta que nela caberia e se perderia toda a sabedoria do mundo.

Assim era Eremita. Que se subisse à tona com tudo o que encontrara na floresta seria queimada em fogueira. Mas o que vira - em que raízes mordera, com que espinhos sangrara, em que águas banhara os pés, que escuridão de ouro fora a luz que a envolvera - tudo isso ela não contava porque ignorava: fora percebido num só olhar, rápido demais para não ser senão um mistério.

Assim, quando emergia, era uma criada. A quem chamavam constantemente da escuridão de seu atalho para funções menores, para lavar roupa, enxugar o chão, servir a uns e outros.

Mas serviria mesmo? Pois se alguém prestasse atenção veria que ela lavava roupa - ao sol; que enxugava o chão - molhado pela chuva; que estendia lençóis - ao vento. Ela se arranjava para servir muito mais remotamente, e a outros deuses. Sempre com a inteireza de espírito que trouxera da floresta. Sem um pensamento: apenas corpo se movimentando calmo, rosto pleno de uma suave esperança que ninguém dá e ninguém tira.

A única marca do perigo por que passara era o seu modo fugitivo de comer pão. No resto era serena. Mesmo quando tirava o dinheiro que a patroa esquecera sobre a mesa, mesmo quando levava para o noivo em embrulho discreto alguns gêneros da despensa. A roubar de leve ela também aprendera em suas florestas.

Clarice Lispector │Felicidade Clandestina (25 contos), 1971

segunda-feira, 21 de maio de 2018

Devaneios cruzadísticos │Ferreira de Castro

"A Lã e a Neve" é o título de um romance do escritor português Ferreira de Castro, pedido com a resolução do passatempo referente ao mês de Maio de 2018.


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Recebi respostas de: Aleme; António Amaro; Antoques; Arjacasa; Bábita; Baby; Caba; Corsário; Dupla Algarvia (Anjerod e Mister Miguel); El-Nunes; Elvira Silva; Fernando Semana; Filomena Alves; Fumega; Gilda Marques; Homotaganus; Horácio; Jani; João Bentes; João Carlos Rodrigues; Joaquim Pombo; José Bento; José Bernardo; Lulopes; Mafirevi; Magno; Magriço; Manuel Amaro, Manuel Carrancha; Manuel Ramos; Maria de Lurdes; My Lord; Neneiva; Olidino; Osair Kiesling; Ricardo Campos; Rui Gazela; Russo; Salete Saraiva, Seven, Socrispim, Somar e Virgílio Atalaya.

Até ao próximo!