A minha Lista de blogues

quinta-feira, 21 de março de 2019

Dia da Poesia e da Primavera

Dia Mundia da Poesia. É hoje. É todos os dias. E chegou a Primavera! Chegou?


Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.

Alberto Caeiro l Poemas Inconjuntos

terça-feira, 19 de março de 2019

No dia do pai


A vida é feita de pequenos nada, como o pai que leva o filho ver, pela primeira vez, o mar. 
Praia do Ferragudo, Ovar (1950?)

[…] E, para terminar bem, regista-se um outro autor orquense, já falecido, profissionalmente ligado aos Caminhos de Ferro (CP), mas poeta popular de mérito e que também deixou obra publicada, António Gonçalves dos Santos Boavida (1923-2015). Títulos: Homenagem aos amigos do Fundão (edição de autor, o qual abre com um prefácio de seu irmão José, professor em Setúbal); Verdades que deves saber em verso (2004); Uma vida em verso (2012); e Viagens – Roteiro poético (2015). – pp 391. 

Joaquim Candeias da Silva │Orca (Fundão, Castelo Branco) – Monografia histórica de uma Freguesia com um passado multimilenar

quinta-feira, 14 de março de 2019

O horrivel colarinho de goma


Esta é uma fotografia do escritor Manuel da Fonseca, quando jovem, com os pais e o irmão.

E aquele colarinho de goma não engana...

[…] Veio pois aquela manhã, quase no fim do Verão, em que meu pai me levou a casa do Sr. Rodrigo. Até aí, eu só tirara retratos no dia do meu aniversário. Meu pai escrevia a data na parte de trás; dava um à avó, outro aos meus padrinhos, e guardava os restantes. Às vezes,  mostrava-os às visitas. Eram todos eu, desde a idade dos cueiros até ao horrível colarinho de goma (sublinhado meu), tirado no ano anterior. Em nenhum havia nada de especial: apenas a cara que eu tinha quando os tirei. 
Agora, ia para Beja, para longe da família; meu pai já me tinha dito várias vezes que a minha vida ia levar uma grande volta, que estava um homenzinho e tinha de proceder de outro modo: passar a ter juízo.
Ter juízo! Naquele mesmo instante, rua fora, me ia repetindo tais palavras. Claro que eu não caminhava com o à-vontade do costume; o fato vincado e a gola dura em volta do pescoço faziam-me caminhar contrafeito. Tinha de conservar o tronco hirto, de modo a adaptar o corpo à solenidade do vestuário.
- Pai... - murmurei eu - lá em Beja tenho de andar sempre assim?
- Pois claro que tens!
Pensei ainda repetir a pergunta de modo a saber se, além de andar daquela maneira, teria que vestir sempre aquele fato. Mas achei inútil. Pois não ia eu para o liceu, não ia eu tirar o retrato para que gente estranha visse bem se era eu ou não o tal que já era um homenzinho e estava em Beja, distante de tudo que me era querido, e cheio de juízo? […]

Manuel da Fonseca │O conto "O Retrato", de "O Fogo e as Cinzas"

quarta-feira, 13 de março de 2019

Uma pequenina luz

Uma pequenina luz bruxuleante

Uma pequenina luz bruxuleante
não na distância brilhando no extremo da estrada
aqui no meio de nós e a multidão em volta
une toute petite lumiére
just a little light
una piccola…em todas as línguas do mundo
uma pequena luz bruxuleante
brilhando incerta mas brilhando
aqui no meio de nós
entre o bafo quente da multidão
a ventania dos cerros e a brisa dos mares
e o sopro azedo dos que a não vêem
só a advinham e raivosamente assopram.
Uma pequena luz
que vacila exacta
que bruxuleia firme
que não ilumina apenas brilha.
Chamaram-lhe voz ouviram-na e é muda.
Muda como a exactidão como a firmeza
como a justiça
Brilhando indefectível.
Silenciosa não crepita
não consome não custa dinheiro.
Não aquece também os que de frio se juntam.
Não ilumina também os rostos que se curvam.
Apenas brilha bruxuleia ondeia
Indefectível próxima dourada.
Tudo é incerto ou falso ou violento: brilha.
Tudo é terror vaidade orgulho teimosia: brilha.
Tudo é pensamento realidade sensação saber: brilha.
Tudo é treva ou claridade contra a mesma treva: brilha.
Desde sempre ou desde nunca para sempre ou não:
brilha.
Uma pequenina luz bruxuleante e muda
Como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Apenas como elas.
Mas brilha.
Não na distância. Aqui
No meio de nós.
Brilha.

Jorge de Sena, in Fidelidade, 1958

A felicidade de Cecília Meireles

A arte de ser feliz

Houve um tempo em que a minha janela se abria para um chalé. Na ponta do chalé brilhava um grande ovo de louça azul. Nesse ovo costumava pousar um pombo branco. Ora, nos dias límpidos, quando o céu ficava da mesma cor do ovo de louça, o pombo parecia pousado no ar. Eu era criança, achava essa ilusão maravilhosa, e sentia-me completamente feliz.

Houve um tempo em que a minha janela dava para um canal. No canal oscilava um barco. Um barco carregado de flores. Para onde iam aquelas flores? Quem as comprava? Em que jarra, em que sala, diante de quem brilhariam, na sua breve existência? E que mãos as tinham criado? E que pessoas iam sorrir de alegria ao recebê-las? Eu não era mais criança, porém minha alma ficava completamente feliz.

Houve um tempo em que a minha janela se abria para um terreiro, onde uma vasta mangueira alargava sua copa redonda. À sombra da árvore, numa esteira, passava quase todo o dia sentada uma mulher, cercada de crianças. E contava história. Eu não a podia ouvir, da altura da janela; e mesmo que ouvisse, não entenderia, porque isso foi muito longe, num idioma difícil. Mas as crianças tinham tal expressão no rosto, e às vezes faziam com as mãos arabescos tão compreensíveis, que eu que não participava do auditório imaginava os assuntos e suas peripécias e me sentia completamente feliz.

Houve um tempo em que a minha janela se abria para uma cidade que parecida feita de giz. Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco. Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto. Mas todas as manhãs vinha um pobre homem com um balde e, em silêncio ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas. Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse. E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros, e meu coração ficava completamente feliz.

Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor. Outras vezes encontro nuvens espessas. Avisto crianças que vão para a escola. Pardais que pulam pelo muro. Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais. Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar. Marimbondos: que sempre parecem personagens de Lope da Vega. Às vezes, um avião passa. Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino. E eu me sinto completamente feliz.

Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outras dizem que essas coisas só existem diante das minhas janelas, e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.


Crónica extraída do Livro “Escolha o seu sonho” de Cecília Meireles. 4ª ed., Rio de Janeiro: Global Editora, 2016.

quarta-feira, 6 de março de 2019

breve alegria

Breve o dia, breve o ano, breve tudo.
Não tarda nada sermos.
Isto, pensado, me de a mente absorve
todos mais pensamentos.
O mesmo breve ser da mágoa pesa-me,
que, inda que mágoa, é vida.

Ricardo Reis, 27/9/1931

sexta-feira, 1 de março de 2019

Devaneios cruzadísticos │Jorge de Sena

Depois de evocar aqui, em Janeiro passado, o primeiro centenário do nascimento de Sophia de Mello de Breyner, o AlegriaBreve não pode deixar de lembrar que, neste ano de 2019, se celebra igualmente o primeiro centenário do nascimento de outro grande nome, o escritor Jorge de Sena.

Considerado hoje um dos grandes poetas de Língua portuguesa, nasceu em Lisboa a 2 de Novembro de 1919 e morreu em Santa Bárbara, na Califórnia, a 4 de Junho de 1978.

Poeta, crítico, ensaísta (Camões foi a sua maior obsessão), ficcionista, dramaturgo, tradutor e professor universitário, naturalizou-se brasileiro em 1963, durante o seu exílio no Brasil, que durou de 1959 a 1965, ano em que se mudou para os Estados Unidos, para fugir à ditadura militar entretanto instalada no Brasil.

Tal como o poeta ironizou: «Nascido em Portugal, de pais portugueses, / e pai de brasileiros no Brasil, / serei talvez norte-americano quando lá estiver. / Colecionarei nacionalidades como camisas se despem, / se usam e se deitam fora, com todo o respeito / necessário à roupa que se veste e que prestou serviço.»

Formou-se em engenharia civil, mas a sua inclinação natural para a literatura levou-o, durante o curso, a escrever poemas, artigos, ensaios e cartas, prática que, aliás, começou aos 16 anos.

Em 1940, publicou, sob o pseudónimo de Teles de Abreu, os seus primeiros poemas na revista Cadernos de Poesia, dirigida por Ruy Cinatti, Blanc de Portugal e Tomás Kim, e dois anos depois publicou o seu primeiro livro de poemas, "Perseguição", considerado, na altura, um livro revelador mas difícil.

Admirado ou rejeitado (como muitas vezes se sentiu e, com razão, assinalou), Jorge de Sena foi alguém não submisso a interesses políticos, literários ou meramente académicos, a levar em conta os muitos testemunhos de quem o conheceu de perto.

Como escreveu em Fevereiro de 1976, depois da sua breve e desiludida passagem por Portugal: «Não, não, não subscrevo, não assino / que a pouco e pouco tudo volte ao de antes, / como se golpes, contra-golpes, intentonas / (ou inventonas - armadilhas postas / da esquerda prá direita ou desta para aquela) / .... / Tiveram todos culpa no chegar-se a isto: / infantilmente doentes de esquerdismo / e como sempre lendo nas cartilhas / que escritas fedem doutras realidades ....»

O convite é, meus amigos, resolver este problema de palavras cruzadas e, no final, encontrar o título de uma obra (3 palavras nas horizontais) do escritor Jorge de Sena (1919-1978).


1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
1











2











3











4











5











6











7











8











9











10











11












HORIZONTAIS: 1 – Traidor; Cega. 2 – Apuro [figurado]; Firmas. 3 – Carrapato; Escudeiros. 4 – Causa; Salto brusco do cavalo para derrubar o cavaleiro; Cada uma das partes laterais e inferiores do nariz. 5 – Embate; Estreito; Indício. 6 – Ninharias. 7 – Preposição que designa fim; Vingança; Símbolo de actínio. 8 – Grito [Brasil]; Juntai; Pertencia. 9 – Bela; Aplicar. 10 – Remates; Chama. 11 – Alegria; Navios.

VERTICAIS: 1 – Créditos; Persistir. 2 – Adapta; Agressivo. 3 – Civilizada [figurado]; Sem juízo [figurado]. 4 – Canto; Procedei; Cada um dos painéis laterais dos trípticos. 5 – Simples; Altar cristão; Significas. 6 – Bofetões. 7 – Descobri; Mesmo; Itinerário Principal [sigla]. 8 – Anexe; Interjeição que exprime espanto; Peixe também chamado rato. 9 – Realce; Vivos. 10 – Invejosas; Aldrabo [popular]. 11 – Queimar; Rastos.

A sortear: Prémio Porto Editora

Clique  Aqui para abrir e imprimir o PDF.


Aceito respostas até dia 25 de Março, por mensagem particular no Facebook ou para o meu endereço electrónico, boavida.joaquim@gmail.com. Em data posterior, apresentarei a solução, assim como os nomes dos participantes. 

Vemo-nos por aqui?

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Devaneios cruzadísticos │Eça de Queirós

"O Suave Milagre" (aqui numa versão reduzida) é o título de um Conto do escritor português Eça de Queirós, pedido com a resolução do passatempo referente ao mês de Fevereiro de 2019.


1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
1
R
I
M
A
S

C
O
R
T
E
2
O

A
B
O
B
O
R
A

X
3
T
A

A
R
U
L
A

C
A
4
A
J
O

T
E
M

S
O
L
5
S
U
A
V
E

E
M
A
L
A
6

I
S
O



E
C
O

7
A
Z
I
A
R

A
L
O
C
A
8
D
A
S

I
A
M

S
A
L
9
E
S

F
O
L
I
A

S
E
10
G

M
I
L
A
G
R
E

G
11
A
F
U
M
A

A
E
R
E
O

Recebi respostas de: Aleme; António Amaro; Antoques; Arjacasa; Bábita; Baby; Caba; Candy; Corsário; Dupla Algarvia (Anjerod e Mister Miguel); El-Danny; El-Nunes; Fernando Semana; Fumega; Gilda Marques; Homotaganus; Horácio; Jani; João Carlos Rodrigues; Joaquim Pombo; José Bento; José Bernardo; Lulopes; Mafirevi; Magno; Manuel Amaro; Manuel Carrancha; Manuel Ramos; Maria de Lurdes; My Lord; Neveiva; Olidino; O. K.; Paulo Freixinho; Ricardo Campos; Rui Gazela; Russo; Salete Saraiva; Seven; Socrispim; Somar; Virgílio Atalaya e Zabeli.

Premiada: Gilda Marques, Torres Vedras.
Prémio Porto Editora

Até ao próximo!