José Régio e Álvaro Cunhal foram os protagonistas de uma famosa polémica ocorrida em 1939 nas páginas da revista Seara Nova.
Nas páginas dos nºs. 608, 609, 611, 615 e 619 da revista Seara Nova, entre Abril e Junho de 1939, foram trocados argumentos entre Álvaro Cunhal e José Régio, constituindo-se como a polémica da visão neorrealista versus a visão presencista, entre intervenção social na arte e subjetivismo, em que o estava em causa era fundamentalmente a relação da arte com a vida. Todos os artigos discorrem numa perspectiva de são espírito de polémica e de respeito mútuo. Se o neorrealismo mostrava as questões sociais ou outras que marcavam o tempo a acontecer, o presencismo defendia a arte como um fim em si mesmo, uma revelação íntima do seu autor.
José Régio, então com 38 anos, publicou Cartas Intemporais do nosso Tempo, tendo as três primeiras o subtítulo comum de A um Moço Camarada, sobre Qualquer Possível Influência do Romance Brasileiro na Literatura Portuguesa, dirigindo-se assim ao então jovem Álvaro Cunhal, com 25 anos. José Régio defendia a autonomia da obra de arte contra o que chamava a sua instrumentalização ideológica feita por alguns jovens seareiros, com uma visão algo neorromântica da criação artística muito centrada na individualidade do criador, no isolamento do poeta na sua torre de marfim, como então se dizia.
Álvaro Cunhal intitulou a sua primeira réplica como Numa encruzilhada dos homens – alusão ao título de Régio Numa encruzilhada de Deus, acabado de publicar-, defendendo um compromisso social da arte e da literatura. A passagem dos anos trinta para os quarenta mostrara o fascismo alemão na guerra que incendiará a Europa, a Espanha saída duma guerra civil onde o fascismo de Franco impôs a lei da morte, a Itália de Mussolini, o aumento da repressão em Portugal. Contudo, Cunhal ressalvou a importância do movimento da Presença na sua rotura com o passado academizante e contra a mediocridade existente na literatura portuguesa de então.