A minha Lista de blogues

sábado, 30 de junho de 2012

Os Livros do Senhor Júlio Dinis

Regras de funcionamento do meu Grupo de Leitura, levaram-me a voltar a ler As Pupilas do Senhor Reitor, do Júlio Dinis. Julgo ter lido este livro por volta dos meus quinze anos, graças às bibliotecas itinerantes da Gulbenkian. Eu era leitor assíduo da carrinha que estacionava no terreiro (agora parque de estacionamento) ao cimo da avenida principal do Fundão, em frente da Câmara.

Digo, desde já, para não haver dúvidas, que não estou nada arrependido de ter revisitado este livro, que Alexandre Herculano considerou «o primeiro romance do século».

Júlio Dinis acabou curso de Medicina em 1861. Veio a morrer precocemente em 1871, apenas com 32 anos de idade, vitimado por tuberculose. Escreveu toda a sua obra, portanto, durante a década de 60. Intensa, quer do ponto de vista literário, quer do ponto de vista político. Parece interessante tentar perceber a opção literária do escritor.

Naquele ano de 1861, Eça de Queirós foi estudar para Coimbra, onde já estava Antero de Quental que, nesse ano, publicou As Odes Modernas. Nesse mesmo ano, morreu D. Pedro V, sucedendo-lhe o irmão D. Luís.

A primeira metade do Século XIX havia sido muito complicada. A fuga da corte real para o Brasil em 1807. As invasões francesas que desencadearam uma guerra violenta, durante sete anos, com efeitos devastadores. A Revolução liberal de 1820. A Guerra Civil de 1828 a 1834. A Revolta Setembrista de 1836. O Massacre do Rossio em 1838. O Golpe de Estado no Porto em 1842, Em 1846, a Maria da Fonte (Abril) e a Patuleia (Outubro). Finalmente, a paz em 1847, com o Acto Constitucional (Adenda à Carta Constitucional).

Inicia-se, então, em Portugal, um período que fica conhecido pela Regeneração e que irá até 1890. Foi um período de acalmia na sociedade. Os partidos guerreavam-se no Parlamento, mas os portugueses deixaram de se matar uns aos outros. Nos anos 60, a juventude republicana concordava que era preciso parar com a luta entre partidos para se cuidar da Economia e da Educação. Mas outros jovens, não menos democratas, citavam Proudhon (socialismo), Comte (positivismo), Darwin (evolucionismo) e Hegel (idealismo) para declararem a Regeneração uma fraude. Antero de Quental, Teófilo Braga, Eça de Queirós, Guerra Junqueiro, Ramalho Ortigão e Oliveira Martins são os principais expoentes das novas ideias, vindas do estrangeiro, e que entraram em confronto com a escola romântica, por vezes até de forma violenta. A discussão irá culminar na Questão Coimbrã, em 1865, e, mais tarde, nas Conferências Democráticas do Casino, em 1871. Estava em marcha um novo movimento literário, o Realismo.

Neste contexto, como entender a opção de Júlio Dinis?
Ortega y Casset disse que «O Homem é o homem e as suas circunstâncias». Embora me pareça uma afirmação por demais evidente, ela aplica-se totalmente ao escritor Júlio Dinis.
Três razões. Primeiro, o escritor nasceu no seio de uma família burguesa; segundo, estudou no Porto e não em Coimbra; terceiro, a doença obrigou-o a uma certa reclusão rural.

Tivesse ele estudado em Coimbra, podia muito bem acontecer que ele fosse contaminado pelas novas ideias, fazendo escola ao lado de Antero e dos restantes companheiros. A vida no campo, por motivo de saúde, em Ovar e na Ilha da Madeira, explicam, também, a opção pelo romance campesino, com as suas personagens tiradas a partir das pessoas com quem conviveu de perto. Preconiza, por isso, o regresso ao campo e à vida simples. Procura uma aliança entre a ciência e a ingenuidade. O que não é fácil. Curiosamente, Eça de Queirós que havia falado de Júlio Dinis, de forma irónica, «J.D. viveu de leve, escreveu de leve, morreu de leve», retomou este tema, em A Cidade e as Serras, ainda que com outra intenção. 

As Pupilas do Senhor Reitor é um romance lançado ao público em formato de folhetim em 1863 e, posteriormente, editado e publicado como livro em 1867.

Até apetece dizer que o primeiro formato de As Pupilas do Senhor Reitor foi uma das inspirações para as telenovelas como as conhecemos hoje. A sua escrita segue uma cuidada e elegante captação de ambientes e retrata, em boa verdade, um certo Portugal social, político e religioso. 

Há uns tempos atrás, a RTP1 passou um documentário com o intelectual Eduardo Lourenço, por altura da atribuição do Prémio Pessoa 2011. Um documentário interessante que dá para ver o humor do Professor, ao contar episódios com muita graça. Um deles foi a propósito do escritor Júlio Dinis. Contou ele: O pai do escritor, intrigado com as leituras do filho, interpelou-o: «Joaquim, que andas tu a ler? Bem, se ainda lesses o Senhor Júlio Dinis, que escreve romances muito bonitos».

4 comentários:

  1. Este livro faz-me recordar a adolescência, pois foi-me oferecido pelo meu professor de Português (e de História), que era amigo da família. Ainda possuo o livro com a dedicatória. Professor excepcional, devo dizer, conforme tenho recordado junto de colegas de turma. Lembro-me de que, na época, achei que o estilo do romance convidava à paz e sossego, talvez devido ao ambiente campestre, coisa que eu desconhecia, por ter nascido e crescido em ambiente urbano.

    ResponderEliminar
  2. É como dizes, Zé Luís. Júlio Dinis deixou-nos uma escrita leve. Privilegiou um género literário muito particular, que se compreende, conhecendo a sua vida. Obrigado pelo teu comentário.Curiosamente, hoje mesmo, foi inaugurada, em Ovar, a obra de requalificação e ampliação do "Museu Júlio Dinis – Uma Casa Ovarense".

    ResponderEliminar
  3. Antes de mais deixe-me dar-lhe os parabéns por este maravilhoso texto.
    Há nele, contudo, uma frase com a qual não concordo, apesar de já ter encontrado essa ideia em inúmeros autores de renome.
    Refiro-me à interpretação da frase de Eça de Queirós como irónica. A meu ver essa afirmação reveste-se de grande elogio quando lida n'As Farpas:

    «Esta página é um parêntese tranquilo e meigo, onde pomos a lembrança de Julio Dinis. Que as pessoas delicadas se lembrem dele, e se recolham um momento: recordá-lo é aprender a amá-lo: e nós, ainda não sabemos recordá-lo bastante. Tanto é o nosso mal, que este espírito excelente não ficou popular: a nossa memória, fugitiva como a água, só retém aqueles que vivem ruidosamente, com um relevo forte: Júlio Dinis viveu de leve, escreveu de leve, morreu de leve!»

    Não admira pois que Eça de Queirós tenha "repescado" alguns dos temas de Júlio Dinis.

    ResponderEliminar
  4. Obrigado pelo comentário, Rosa. A reconhecida ironia de Eça na sua escrita talvez me tenha atraiçoado. Mas, olhando para o contexto, aceito que Eça fosse, neste caso, sincero na apreciação do seu confrade. De todo o modo, dizer, como Eça o disse, “Júlio Dinis viveu de leve, escreveu de leve, morreu de leve!”, é uma síntese deliciosa!!!

    ResponderEliminar